II. ANALYSE DES ENTRETIENS PAR GROUPE PROFESSIONNEL
II.1 CE QUI DETERMINE LES EFFECTIFS A SAVOIR LEUR DEFINITION ET LEUR REPARTITION
Nossa pesquisa tem como objetivo aproximar o texto da figura do profeta
histórico, tal como fizeram Bright, Weippert e Holladay.167 No entanto, discordamos de
Bright e Holladay quanto à questão da unidade dos caps. 7,1–8,3 ter sido composta, segundo eles, na forma de discurso prosaico ou fonte C. A própria Weippert levanta essa suspeita ao indagar se os pesquisadores distinguiram adequadamente a prosa da poesia, uma vez que a prosa do livro parece possuir certo teor poético. Weippert admite tal ideia ao argumentar que muitos dos discursos em prosa de Jeremias são, na realidade, exemplos de um estilo de “prosa elevada” caracterizada por frequentes
166
Carolyn J. Sharp, Prophecy and Ideology in Jeremiah: Struggles for authority in Deutero-Jeremianic
Prose, p. xvi, 158.
167 Walter Brueggemann, The Book of Jeremiah: Portrait of the Prophet, em Interpretation, Richmond,
Union Theological Seminary and Presbyterian School of Christian Education /Union Theological Seminary in Virginia, vol. 37, n. 2, 1983, p. 130-131.
paralelismos, indicando sua origem na poesia.168 Além disso, os chamados sermões seriam uma parte essencial da mensagem de Jeremias, pois neles encontramos seu apelo
ao arrependimento.169
Diante disso, a distinção entre prosa e poesia não se torna tão clara como muitos imaginam. É possível que estejamos lidando com categorias literárias equivocadas; não podemos ter certeza se trabalhamos com poesia ou prosa no livro de Jeremias, já que a “prosa elevada” está muito próxima da poesia. Talvez por conta disso é que Georg Fohrer tenha sugerido que o “discurso do templo” não fora formulado em prosa, mas em versos breves que não representam uma terceira fonte no livro de Jeremias (7,1–8,3), e
sim predominantemente palavras originais do próprio profeta.170
Todavia, em nossa pesquisa tenderemos a seguir a proposta de Weippert por considerá-la um mecanismo mais adequado para a realização da análise literária das seções contidas na unidade. Ademais, para o entendimento dos elementos poéticos contidos nos versículos, faremos uso do conceito aceito por Milton Schwantes de que a principal característica da poesia hebraica consiste basicamente na repetição de frases. Aprofundemos um pouco mais as ideias desse autor. Para ele, a poesia hebraica difere de nosso conceito poético, marcado pelo jeito de ser da poesia dos últimos séculos.
No contexto do semitismo bíblico imperava outra experiência e senso poético. O sentido peculiar da poesia hebraica não seria encontrado em sua rima final, embora fosse possível constatá-la em muitos casos, mas sobretudo nas repetições (ou, como se costuma dizer, inadequadamente, nos “paralelismos”, ou seja, cada conteúdo expresso em duas ou mais afirmações coincidentes, similares ou contrárias). Conforme Schwantes, o conceito de paralelismo será adequado somente se houver duas frases, uma em paralelo com a outra. Essas frases são típicas na sabedoria, especialmente em provérbios.
Mas a repetição simples ou “paralelismo” não é propriamente o que caracteriza a poesia hebraica. O que a identifica são as repetições. Quando elas são simples poderiam ser chamadas de “paralelismo”. Todavia, na profecia e nos Salmos, esses “paralelismos simples” não são típicos. O que, de fato, caracteriza a poesia na profecia e nos Salmos é
168
Veja informações sobre a prosa elevada também em Herbert Wolf, An Introduction to the Old
Testament Pentateuch, Chicago, Moody Press, 1991, p. 82-84. Também Wilfred G. E. Watson,
Traditional Techniques in Classical Hebrew Verse, Sheffield, Sheffield Academic Press, p. 76-80. Para este último autor esse estilo teve origem nas cidades da zona rural com os levitas itinerantes, que tinham a tarefa de explicar e ensinar a lei para os iletrados.
169 Helga Weippert, Die Prosareden des Jeremiabuches, p. 232-233.
170Ernest Sellin Georg Fohrer, Introdução ao Antigo Testamento, p. 556. Veja também acerca desse
a repetição. Ele descarta a hipótese de contar o número de sílabas ou palavras para identificar a poesia hebraica à luz da métrica, como também admite a ideia de que o paralelismo, como algo típico da cultura hebraica, represente a negação de sua
peculiaridade, de sua essência.171
Por conseguinte, ele recomenda não entender o hebraico, sobretudo a poesia, como baseada no “paralelismo de membros”. A poesia, segundo Schwantes, baseia-se em repetições inovadoras e não previsíveis, não atreladas a um esquema paralelo e com iguais repetições. Típico, para ele, é a repetição, mas em formas inusitadas e com conteúdos inesperados. Esse aspecto inesperado é o que é propriamente típico do que parecia ser paralelismo e do que, provisoriamente, poderíamos chamar de repetições
sempre inovadoras.172
Isso explica a questão da imprecisão do estilo poético em alguns versos da poesia de Jeremias onde parece haver certa desmetrificação. Todavia, levando em consideração que a poesia hebraica consiste de repetição de frases e não em paralelismo, é possível afirmar que tal hibridismo na poesia de Jeremias não altera o estilo poético, desde que existam repetições inovadoras. O hibridismo pode ser a influência do
Deuteronômio no estilo de nosso poeta.173 Sendo assim, presumo que o denominado
“discurso do templo” (Jr 7,1–8,3) tenha sido escrito pelo próprio profeta em prosa elevada que contém um estilo poético peculiar de Jeremias.
A questão da composição e redação deuteronomista do livro Jeremias também tem grande relevância no debate acadêmico. Como Weippert, presumo a existência de uma prosa formal no Antigo Oriente Próximo que contribuiu para o desenvolvimento do escrito deuteronômico. No entanto, em relação ao livro de Jeremias é provável que o profeta não tenha se baseado diretamente nessa prosa formal para compor sua obra e, sim, tenha sido influenciado pelo estilo do Deuteronômio, enquanto vivia em sua cidade natal, Anatote.
171 Um crescente número de pesquisadores tem concluído que não existe métrica na poesia hebraica; entre
eles destacam-se M. O’Connor, Hebrew Verse Structure, Winona Lake, Eisenbrauns, 1980, 629 p.; também James L. Kugel, The Idea of Biblical Poetry: Parallelism and its History, New Haven, Yale University Press, 1981, 339 p. e do mesmo autor James L. Kugel, Some Thoughts on Future Research into Biblical Style: Addensa to the Idea of Biblical Poetry, em Journal for the Study of the Old Testament, London, Sage Publication, vol. 28, 1984, p. 107-117.
172 Milton Schwantes, Da vocação à provocação: estudos exegéticos em Isaías 1–12, São Leopoldo,
Oikos, 2011, p. 43-44; 277-282. Também do mesmo autor, Sentenças e provérbios. Sugestões para a
interpretação da sabedoria, São Leopoldo, Editora Oikos, 2009, p. 178-179. Assim como Repetições e
paralelismos: observações em um debate hermenêutico, exemplificado em Provérbios 10,1, em Revista
Eclesiástica Brasileira, Petrópolis, Vozes, vol. 66, 2006, p. 673-679. 173
Não obstante, alguns pesquisadores sustentam a hipótese de que o próprio
Jeremias empregou ou até mesmo cunhou um estilo.174 E que esse estilo foi utilizado
durante o período do exílio ou no início do pós-exílio para criar o Deuteronômio.175
Presumimos, no entanto, o inverso, ou seja, que Jeremias absorveu o estilo do
Deuteronômio,176 herança de seu treinamento em Anatote.177 Sendo ligeiramente
influenciado pela forma de sermão utilizado pelos profetas e sacerdotes no século VII
a.C.178, provavelmente no contexto da celebração litúrgica.
É provável que a redação final do livro de Jeremias tenha ocorrido durante a época exílica na terra de Judá. Milton Schwantes elenca alguns fortes indícios para fundamentar tal hipótese. Diz ele:
Não me parece muito provável que, antes do exílio, os textos proféticos já estivessem em circulação no âmbito do templo e corte. Jeremias 36 conta quão pouco receptiva a corte ierusalemita foi ao texto que reunia as palavras de Jeremias. Queimou o rolo. No mais, faltam indícios que tornassem provável que os textos proféticos – que juntamente condenam templos e palácios – estivessem em uso nas cidades.
Bem mais evidente é que a literatura profética era lida e preservada entre os setores periféricos à cidade, e entre segmentos do campesinato. É o que atesta Jeremias 26,17-19; as palavras de Miqueias foram preservadas pela memória da gente da roça. Com outros textos terá ocorrido algo similar.
Além disso, há que considerar que exilados pouca coisa podiam levar consigo. Gravuras da época seguidamente chegam a representar deportados inclusive sem roupa. Por isso, me parece pouco provável imaginar que os deportados de 597 e 598 – originários das elites da capital – tivessem marchado ao exílio com rolos de literatura profética “debaixo dos braços”.179
Assim sendo, é justificável que a redação do livro de Jeremias tenha se dado entre os remanescentes em Judá. Duas cosmovisões diferentes dominavam o cenário
174
Ernest W. Nicholson, Deuteronomy and Tradition, Philadelphia, Fortress Press, 1967, p. 58ss, 83ss. Também H. H. Rowley, The Prophet Jeremiah and the Book of Deuteronomy, em Studies in OT
Prophecy, Edinburg, T&T Clark, 1950, p. 157-174.
175 R. H. Kennett, The Date of Deuteronomy, em Journal of Theological Studies, Oxford, Oxford
University Press, vol. 7, 1906, p.481-500. Veja também J. N. Schofield, The Significance of Prophets for Dating Deuteronomy, em Study in History and Religion, London, Lutterworth Press, 1942, p. 44-60.
176 S. R. Driver, A Critical and Exegetical Commentary on Deuteronomy, Edinburg, T&T Clark Limited,
1902, p. xviiss.
177
Yehezkel Kaufmann, A religião de Israel: do início ao exílio babilônico, São Paulo, Perspectiva, 1989, p. 418-420.
178 Otto Eissfeldt, The Old Testament: An Introduction, London, Hasrper & Row, 1965, p. 15s, 352. 179 Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio: história e teologia do povo de Deus no século VI a. C., p. 63.
judaíta após a invasão babilônica, as quais formularam e compilaram textos com dois enfoques diferentes. Uma delas centrava-se em torno de Sião e Jerusalém, e outra tinha como núcleo a terra e o rei Davi. A primeira provinha de círculos que, antes de 587 a.C., estiveram ligados ao templo e escaparam da catástrofe. Eram sobreviventes da capital, levitas e cantores, profetas cúlticos e sacerdotes interioranos que tinham como finalidade principal a tentativa de narrar o sofrimento de Sião e resgatar a esperança de uma nova Jerusalém. Valorizavam o templo e suas tradições em detrimento das
questões concernentes a terra, crítica ao reinado e esperança messiânica.180
A segunda cosmovisão se situava entre a gente do campo. Aqui a história de Javé com seu povo, primordialmente, era vista em sintonia com a terra de Judá. O livro de Jeremias 39–41, por exemplo, legitima a ideia de que Javé permanecera ao lado da comunidade remanescente em Judá, os camponeses, e demonstra uma esperança na
continuação da vida em Judá após a catástrofe que abatera Jerusalém.181 Os textos que
tiveram origem nesse ambiente apresentavam críticas agudas contra a monarquia e, simultaneamente, corroboravam a expectativa messiânico-davídica. Eles desvalorizam o Estado e a experiência política pré-exílica e, ao mesmo tempo, sublinhavam a expectativa de um novo Davi. É bem provável que o livro de Jeremias tenha tido sua
origem nesse ambiente camponês de Judá.182
Diante do exposto, seria convincente admitir que os que mantiveram a tradição do profeta Jeremias provavelmente foram camponeses remanescentes em Judá que, após a crise provocada pela invasão babilônica, preservaram e transmitiram suas palavras, pouco interferindo em seus ensinamentos. É possível admitir, tal como Schwantes, que devido à procedência campesina do profeta Jeremias e de seus colecionadores seria impossível distinguir as palavras de um e de outros, ou seja, de Jeremias e de seus intérpretes posteriores. Para ele, seria dispensável tentar separar meticulosamente os dois grupos. Ambos pertenciam ao âmbito palestinense, sendo que a origem do livro de
Jeremias se deu em Judá.183
180 Pode-se constatar essa cosmovisão nos livros de Obadias, Lamentações e em releituras exílicas de
profetas, tal como em Miquéias 4.
181
Thomas Römer, A chamada História deuteronomista: introdução sociológica, histórica e literária, Petrópolis, Vozes, 2008, p. 117-118.
182 Outras obras literárias pertencentes a esse contexto são: a Obra Historiográfica Deuteronomística
(Deuteronômio, Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis), Habacuque, Sofonias e releituras exílicas dos profetas Amós e Miquéias 6,1–7,7. Veja uma exposição acerca dessa questão em Milton Schwantes,
Sofrimento e esperança no exílio: história e teologia do povo de Deus no século VI a. C., p. 29-73. 183 Milton Schwantes, Sofrimento e esperança no exílio: história e teologia do povo de Deus no século VI a. C., p. 41-42.
Dessa forma, a base na qual fundamentaremos nossa pesquisa reconhece o princípio de que tanto Jeremias, como veremos nos capítulos seguintes, quanto os colecionadores de sua obra estavam situados no mesmo lugar vivencial, isto é, o campesinato judaíta. Fato que contribuiu para que Jeremias absorvesse o estilo do Deuteronômio, herança de seu treinamento em Anatote. Tal influência contaminou o estilo poético do profeta e forneceu alguns conceitos dos quais Jeremias faz uso em determinados momentos de sua mensagem.
Mesmo depois de sua morte, suas palavras não foram esquecidas no ambiente campesino de Judá; antes, tiveram uma eficácia duradoura após o ano de 587 a.C. Assim, de forma provisória ou embrionária é possível admitir que a unidade de Jeremias
7,1–8,3 representa a autêntica mensagem de Jeremias184 formulada em prosa elevada e
preservada por seus próprios seguidores, que pouco interferiram em seus
ensinamentos.185