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II DECLENCHER UN PROCESSUS DE REPARTITION

A partir do v. 8 nos deparamos com uma nova subunidade. Seu início, como já vimos, situa-se no v. 4. De antemão, portanto, é possível constatar que os vv. 4.8-12 consistem em uma nova subunidade. Como o v. 4 já foi analisado anteriormente, não será necessário discorrermos acerca dele novamente. Realizaremos a seguir a análise dos vv. 8-12.

A interjeição

הֵ֤נִּה

hinnēh “eis” no início do v. 8 tem a função semântica de atrair

a atenção para a surpreendente e importante declaração que segue. A despeito da insistente advertência do v. 4, constata-se no v. 8 que a mesma não foi acatada pelo

grupo caracterizado através do pronome

םֶתַּא

ʼattem “vós” e do sufixo

םֶ֖כ

kem “de vós”.

O que é atestado na frase “vós confiais para vós em palavras da mentira, — para não ter proveito!”. A repetição precisa da expressão similar mencionada anteriormente no v. 4 “confiais para vós em palavras de mentira” nos leva a presumir que estamos diante de um material prosaico nesse versículo. Como visto anteriormente, tal característica estilística da prosa serve para realçar o significado do acontecimento.

O v. 9, por sua vez, começa com uma pergunta direta ou questão retórica, um dispositivo literário que consiste numa pergunta para a qual já se sabe a resposta e, por

isso, não há necessidade de responder.231 F

235

O advérbio h

ֲה

ǎ que tem a função de expressar

uma pergunta às vezes pode apresentar uma nuance exclamatória.232 F

236

No entanto,

optamos por manter seu sentido interrogativo.233F

237

Na sequência, seis verbos no infinitivo

absoluto

בֹ֤נָג

gānōb “roubais”,

ַחֹ֙צ ָר

rāṣōah “matais”,

ף ֹ֔אָנ

nāʼōp “cometeis”,

ַעֵ֥בָשִּׁה

hiššābēaʻ “jurais”,

רֵ֣טַּק

qaṭṭēr “queimais” e

� ֗�ָה

hālōk “andais” indicam ações cometidas pelos personagens antagonistas “vós” no momento presente de quem discursa

e pressupõem delitos proibidos pela autoridade divina na lei apodídica.234 F

238

Logo depois do último delito, o pronome relativo

ר ֶ֥שֲׁא

ʼǎšer “que” relacionado

ao antecedente “deuses outros” complementa uma oração adjetiva subordinada a esse antecedente resultando na expressão “que não conhecestes”. O verbo no tronco qal

235 Cássio Murilo Dias da Silva, Metodologia de exegese bíblica, p. 315. Veja sobre a importância da

questão retórica para o entendimento de Jeremias em Michael Avioz, A Rhetorical Analysis of Jeremiah 7:1-15, em Tyndale Bulletin, Cambridge, Tyndale Press, n. 2, 2006, p. 173-189 e Walter A. Brueggemann, Jeremiah’s Use of Rhetorical Question, em Journal of Biblical Literature, Atlanta, Society of Biblical Literature, vol. 92, n. 3, 1973, p. 358-374.

236

Paul Joüon; T. Muraoka, A Grammar of Biblical Hebrew, Roma, Editrice Pontificio Instituto Biblico, 2006, p. 574. Esse verso poderia ser traduzido da seguinte forma: Por que roubais, matais...!

237 Bruce K. Waltke; Michael Patrick O’Connor, An Introduction to Biblical Hebrew Syntax, p. 595. 238Para um estudo da análise morfológica da unidade, veja John Joseph Owens, Analytical Key to the Old Testament, Grand Rapids, Baker Book House, vol. 4, 1992, p. 234-241.

perfeito segunda pessoa do plural

םֽ ֶתְּעַדְי

yᵉdaʻtem “conhecestes” indica uma ação

concluída no passado.235F

239

Tanto a questão retórica quanto a acumulação de verbos nesse

versículo apontam para o caráter prosaico do mesmo.236F

240

O v. 10 é encabeçado por dois verbos no tronco qal perfeito com wav

consecutivo na segunda pessoa do plural também conhecido como weqatal

ם ֶ֞תאָבוּ

םֶ֣תְּדַמֲעַו

ûbāʼtem waʻǎmadtem “e entrais e permaneceis”, indicando, assim, que ainda

estamos diante de um discurso em prosa narrativa.237F

241

O discurso prossegue descrevendo diante de quem e em que lugar ocorrem tais ações verbais, ou seja, “diante de minha face nesta casa que se clamou meu nome nele”. Logo depois nos deparamos com uma citação direta em que os personagens identificados pelo pronome “vós” dizem: “Estamos salvos a fim de fazer todas essas abominações!”. Tais palavras demonstram a forte confiança do grupo.

As argumentações dos vv. 9 e 10 culminam no v. 11. Aqui, novamente por meio de uma pergunta retórica, o orador questiona seus ouvintes assim: “(Porventura) caverna de ladrões tornou-se esta casa, que se clamou meu nome nele nos olhos de vós?” A repetição da expressão que também se encontra no v. 9 “esta casa, que se clamou meu nome nele” nos auxilia a enquadrar esse versículo no estilo prosaico. Haja vista que a expressão é uma repetição exata de palavras, não o paralelo de sinônimos encontrados na poesia hebraica.

Em seguida, o pronome pessoal

יִ֛כֹנאָ

ʼānōkî “eu” é utilizado expressamente

como sujeito da ação a fim de dar ênfase ao assunto. Posteriormente, é de se destacar a

ocorrência da interjeição

הֵ֤נִּה

hinnēh “eis”, que aparece também no v. 8, cuja função

semântica é atrair a atenção para a surpreendente e importante declaração a seguir, além

de colocar os vv. 8-11 dentro de um inclusio na subunidade.238F

242

239 Milton Schwantes, Da vocação à provocação: estudos exegéticos em Isaías 1-12, p. 329. 240

Shimeon Bar-Efrat, Narrative Art in the Bible, p. 211-217.

241 O weqatal frequentemente introduz narrativas históricas que estão dentro de um discurso direto. Veja

um estudo sobre este verbo em B. M. Rocine, Learning Biblical Hebrew: A New Approach Using

Discourse Analysis, Georgia, Smyth & Helwys, 2000, p. 64-66, 149-152. Também as obras de Paul

Joüon; T. Muraoka, A Grammar of Biblical Hebrew, p. 373 assim como Silviu Tatu, The Rhetorical Interpretation of yiqtol//qatal (qatal//yiqtol) Verbal Sequence in Classical Hebrew Poetry and its Research History, em Transformation, Carlisle, Paternoster Periodicals, vol. 23 , n. 1, 2006, p. 17-23.

242 Christo H. J. van der Merwe; Jackie A. Naudé; Jan H. Kroeze, A Biblical Hebrew Reference Grammar, Sheffield, Sheffield Academic Press, 1999, p. 330. Veja um estudo sobre essa expressão como inclusio na subunidade em Jack R. Lundbom, Delimitation of Units in the Book of Jeremiah, em

Raymond de Hoop; Marjo Korpel; Stanley Porter (eds.), The Impact of Unit Delimitation on Exegesis

(Pericope 7): Scripture as Written and Read in Antiquity, Leiden/Boston, Brill Academic, 2009, p. 167-

A declaração se resume a um simples verbo estativo no qal perfeito na primeira

pessoa do singular

יִתיִ֖א ָר

rāʼîtî “vi”, que como se pode perceber possui o significado

primário do pretérito.239F

243

No final do verso, o substantivo construto + substantivo

próprio

הֽ ָוהְי־םֻאְנ

nᵉʼūm yᵉhwāh “oráculo de Javé” tem a função de marcador do discurso

profético ou assinatura que revela a origem e autoridade da mensagem no discurso.240F

244

Na literatura profética, a fórmula do dito divino, como é geralmente conhecida, pode ocorrer tanto na conclusão de uma unidade retórica quanto na introdução ou no meio de um dito. Em todos os casos, a fórmula comprova o fato de que Javé está falando na

primeira pessoa no contexto imediato.241F

245

O v. 12 consiste num discurso direto introduzido pela conjunção

יִ֤כּ

kî “pois”.

Nele transparece o desejo do orador através de um verbo no imperativo ao lado da

partícula

א ָ֗נ

nāʼ “agora”, no hebraico o termo

א ָ֗נ־וּכְל

lᵉkû nāʼ “ide agora”. Neste caso, a

partícula tem a função de dar mais ênfase ou urgência ao imperativo, como também de

transmitir uma solicitação ou exortação.242 F

246

“Pois, ide agora para meu lugar que (estava) em Siló” era a solicitação dirigida ao mesmo grupo já mencionado na segunda pessoa do plural “vós”, uma vez que os imperativos no hebraico ocorrem somente nas segundas

pessoas, neste caso, no masculino plural.243F

247

A partícula relativa

ר ֶ֣שֲׁא

ʼǎšer “que/onde” aparece em três momentos nesse

verso. No primeiro, funciona como um advérbio locativo para o termo antecedente

יִמוֹקְמ

mᵉqômî “meu lugar”, cuja localização geográfica era

ו ֔ליִשֹׁ

šîlô “Siló”. O segundo equivale em nossa tradução à palavra “onde”, ainda com sentido locativo em relação ao

termo antecedente, ou seja, Siló “onde fiz morar o meu nome ali, no princípio”.244F

248

Observe que o verbo

יֽ ִתְּנַ֧כִּשׁ

šikkantî “fiz morar” encontra-se no piel perfeito primeira

pessoa do singular, expressando no hebraico o causativo.

243Cf. Paul Joüon; T. Muraoka, A Grammar of Biblical Hebrew, p. 331.

244 Willem A. VanGemeren (ed.), New International Dictionary of Old Testament Theology & Exegesis,

Grand Rapids, Zondervan Publishing House, vol. 3, 1998, p. 2. Assim como James Swanson, A

Dictionary of Biblical Languages Hebrew Old Testament (electronic ed.), Oak Harbor, Logos Research

Systems, 1997, DBLH 5536.

245 Hans Walter Wolff, Hosea: A Commentary on the Book of the Prophet Hosea, p. 40.

246 James Swanson, A Dictionary of Biblical Languages Hebrew Old Testament (electronic ed.), DBLH

5528.

247 James D. Martin, Davidson’s Introductory Hebrew Grammar Hebrew, Edinburg, T&T Clark, 1902, p.

74-75.

248 Veja sobre os marcadores relativos em Bruce K. Waltke; Michael Patrick O’Connor, An Introduction to Biblical Hebrew Syntax, p. 330-340.

Antes da ocorrência da terceira partícula relativa, encontramos um wav

copulativo acoplado num verbo no imperativo plural

֙וּא ְרוּ

ûrᵉʼû “e vede”; tal expressão

dirigida ao mesmo grupo “vós” indica a consequência ou a intenção da solicitação expressa no início do verso. Esta consequência, como questão de fato, era pretendida ou desejada pelo orador do discurso. A partícula relativa após o marcador de objeto direto aponta para a parte principal da frase verbal, a oração subordinada “que fiz para ele”.

Aqui novamente surge um verbo qal no perfeito primeira pessoa do singular

יִתי ִ֣שָׂע

ʼāśîtî “fiz” expressando no hebraico uma ação concluída. O restante do versículo

apresenta o motivo para tal ação, ou seja, “a maldade de meu povo Israel”.245 F

249

Em suma, esse versículo combina duas ordens: a primeira corresponde ao deslocamento de um lugar para o outro, e a segunda aponta para o testemunho de um fato. Na verdade seria um desafio para que os ouvintes procurassem por evidências. No mais, o v. 12 parece ainda manter indícios de um estilo prosaico, tendo em vista que contém dispositivos estilísticos da prosa hebraica, dentre eles, a repetição das palavras

chave

הֶ֑זַּה םוֹ ֣קָמַּבּ

bammāqôm hazzeh “neste lugar” (v. 3.6-7) e

יִ֛מְשׁ

šᵉmî “meu nome” (v.

10-11).246F

250

Constata-se no v. 12 que a segunda expressão encontra-se de forma idêntica à dos versículos anteriores, sugerindo isso que seu significado permanece o mesmo,

enquanto que a primeira aparece com ligeira variação

יִמוֹקְמ

mᵉqômî “meu lugar”, o que

nos remete a um significado diferente. Enquanto que nas três primeiras aparições a expressão dá indícios de manter ligação com a “terra que eu dei para vossos pais” (v. 7), na segunda expressão relaciona-se com “meu lugar que (estava) em Siló” (v. 12). Assim, podemos dispor esses versos conforme segue:

8

Eis que vós confiais para vós em palavras da mentira,—

para não ter proveito!

9

(Porventura) roubais, matais, e cometeis adultério e jurais para mentira e queimais

incenso para Baal— e andais atrás de deuses outros que não

conhecestes?

10

E entrais e permaneceis diante de minha face nesta casa que se clamou meu nome nele, e dizeis,

249 E. Kautzsch; Arthur Ernest Cowley (eds.), Gesenius' Hebrew Grammar, p. 325.

250 Para um estudo sobre a repetição de palavras na prosa, confira Shimeon Bar-Efrat, Narrative Art in the Bible, p. 213-215. E também Robert Alter, A arte da narrativa bíblica, São Paulo, Companhia das Letras,

Estamos salvos, — a fim de fazer todas essas abominações! 11

(Porventura) caverna de ladrões tornou-se esta casa, que se clamou meu nome nele

nos olhos de vós? —

Também — eu eis que vi,

oráculo de Javé.

12

Pois, ide agora para meu lugar que (estava) em Siló,

onde fiz morar o meu nome ali, no princípio, —

e vede que fiz para ele, por causa da maldade do meu povo Israel.