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O emprego de tração na propriedade agrícola deve levar em consideração uma série de fatores para que se tenha um resultado satisfatório. Peche Filho e Moreira (1987) explicam que é fundamental analisar a escala, intensidade, tipo de exploração, exigência de manutenção, como peças e serviços, o custo dos combustíveis e lubrificantes, a necessidade de operadores treinados para o produtor discutir e decidir pela melhor forma de tração a ser adotada na lavoura, além de um bom planejamento das atividades a serem executadas. Os autores afirmam que entre os pontos de vista a serem considerados dentro da realidade da região e da propriedade estão:

a) as áreas das culturas exploradas durante o ano agrícola, com o cronograma operacional e estimativa de rendimento operacional nas diversas tarefas;

b) os recursos mecânicos existentes, como animais, implementos, máquinas e ferramentas;

c) o levantamento das principais explorações, operações e custos operacionais regionais;

d) a capacitação de trabalhadores para a mecanização;

e) os tipos de serviços de terceiros prestados pela comunidade regional.

Para Beretta (1988), Schmidt (1979), Jones (1952) e Anjo (1984), o emprego da tração animal na agricultura, comparado com o trator apresenta vantagens e desvantagens. Para, Beretta (1988), o animal pode ser considerado como um “motor”, que transforma a energia contida nos alimentos em trabalho mecânico. A tração animal ainda tem a vantagem de entrar em locais nos quais o trator teria grande dificuldade pra trabalhar, como terrenos com declive acentuado. Beretta (1988) calcula que o trator pode ser operado com segurança num limite de declividade entre 15 e 18%. A partir desses percentuais, pode haver risco de erosão. Com o uso da tração animal, o risco também existe, mas é menor e mais sujeito nas culturas anuais. É possível empregá-los em declives de até 30% (BERETTA, 1988).

Como vantagens, o autor aponta pelo menos oito, conforme Quadro 2.

Quadro 2 - Vantagens e desvantagens no uso do da atração animal na agricultura

Vantagens Desvantagens

Autodeslocamento Alimentação durante todo o dia, para aproveitamento dede 8 a 10 horas diárias

Força até cinco vezes maior que a normal e que pode ser utilizada temporariamente em situações de emergência, sendo, em particular, superior a qualquer outro.

O período de trabalho não é totalmente aproveitado, devido a paradas para descanso, o que determina uma baixa na eficiência, reduzida a 75% ou 80%

Grande adaptabilidade, podendo ser utilizado praticamente em qualquer serviço que exija força trativa e em qualquer terreno

O grau de eficiência também é afetado pelas condições climáticas (principalmente calor excessivo), pelo estado de saúde, pela alimentação, pelo treinamento

Grande adaptabilidade, podendo ser utilizado praticamente em qualquer serviço que exija força trativa e em qualquer terreno

Desempenho mais lento do trabalho agrícola Preço de aquisição relativamente baixo

Pode ser reproduzido na própria fazenda Consome alimentos produzidos na fazenda

Fonte: Beretta (1988)

Schmidt (1979), que credencia a tração animal como o “Mobral” da mecanização e que elaborou o Manual Técnico - Mecanização Agrícola a Tração Animal da Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (Embrater), devido à deficiência de bibliografia relacionada à tecnologia agropecuária, em língua portuguesa do Brasil e de acordo com as diferentes realidades regionais brasileiras, aponta vantagens técnicas e

econômicas da tração animal em uma série de operações, tanto em pequenas propriedades agrícolas e em terrenos acidentados, como nas grandes propriedades. Enquanto na motomecanização só há necessidade de treinar o operador, na mecanização a tração animal é preciso habilitar operador e animal, porque este último tem vontade própria e instinto de conservação.

Assim como Beretta (1988) e Schmidt (1979), Jones (1952) também vê vantagens e desvantagens no uso de animais domésticos como fontes de potência na agricultura, principalmente quando se emprega equinos e muares, sendo algumas delas comum aos três. Entre as vantagens, o autor destaca a facilidade de o animal adaptar-se a praticamente todos os trabalhos que exijam tração, boa tração em terrenos úmidos e soltos e produção de potência a preços relativamente baixos, em áreas onde há produção abundante de cereais e forragens. Como desvantagens, Jones (1952) aponta o fato de o animal requerer alimentação quando não se trabalha, a velocidade do trabalho limitada é baixa e não é eficiente no acionamento de máquinas estacionárias. Em relatório elaborado pelo MAPA (1984) sobre os resultados do “Projeto de Acompanhamento e Avaliação Socioeconômica da Mecanização Agrícola a Tração Animal” aponta outras vantagens, como o fato da mecanização a tração animal fazer maior uso da mão-de-obra e, por isso sua expansão gera maior volume de emprego e renda no meio rural, não provocando êxodo massivo para as regiões metropolitanas e ou centros urbanos, em contraste com áreas que adotaram técnicas de produção intensivas. O documento ainda lembra que a mecanização a tração animal reduz consumo de petróleo e derivados e, com isso, contribui para a redução dos custos de produção, aliviando as pressões sobre o custo dos alimentos no varejo, sendo também considerado ecologicamente correto, por não poluir o meio ambiente. O uso da tração animal, como força motriz, em substituição a força humana nas propriedades superiores a 1 hectare representa um avanço tecnológico para pequenos e médios produtores.

Anjo (1984) aponta a tração animal como solução técnica e econômica recomendável em determinadas situações, como o emprego em solos com topografia irregular e obstáculos, tipo pedras e tocos, que impedem o uso de tratores; em regiões que não contam com assistência mecânica, peças para manutenção de motores e dificuldades para o abastecimento de combustível; por população rural com baixo nível de instrução, devido à dificuldade de contratação de tratorista qualificado para o trabalho e manutenção das máquinas; preço alto das máquinas a motor e do combustível.

Porém, o MAPA (1984) relata a dificuldade em se obter uma taxa de retorno social dos investimentos em tração animal. O motivo é a falta de informações específicas sobre

receitas e custos incorridos pelos próprios usuários da tração animal. Desde 1981, quando foram estabelecidas as diretrizes setoriais do MAPA, o emprego da tração animal na agricultura tem sido enfocado por sua política agroenergética, como forma de contribuir para a racionalização do uso da energia nas atividades rurais. A primeira fase do projeto se restringiu à aquisição de equipamentos de tração animal para demonstrações, treinamento de técnicos do sistema Embrater e à realização de testes de campo com as novas máquinas da linha Policultor, uma nova concepção de equipamento desenvolvida pela Embrapa para permitir mais versatilidade ao emprego de implementos. A segunda fase se destinou ao acompanhamento de tarefas agrícolas eficazes e rentáveis, como a aração, a gradagem, o sulcamento, o plantio, a capina e a adubação. O trabalhador rural podia optar ou não pela mecanização a tração animal. O aumento nas vendas de policultores disparou em 1983, registrando um aumento de 300%.

Em entrevista a Borges (1988), Luiz Antonio Daniel, então professor do Departamento de Engenharia Agrícola da Unicamp,estima que é possível diminuir a erosão em pelo menos 80%, se forem usados equipamentos de tração animal no preparo de terras de várzea com declive superior a 20%. O uso do trator e outros equipamentos pesados nesses casos são considerados por ele como um crime.