Pela observação dos aspetos analisados, a primeira ideia a ter em conta é que os valores-
notícias mudaram nos seus nomes mas não na sua essência, o que significa que alguns dos critérios assinalados no passado pelos académicos Galtung e Ruge (1965) ainda se verificam hoje em dia como foi visível na hierarquia do nosso quadro de valores-notícia, onde a negatividade e a continuidade, valores já existentes anteriormente, foram os critérios noticiosos que mais marcaram presença nos noticiários.
Nesse sentido, respondendo à nossa questão de partida: quais os valores notícia e o valor das imagens nas aberturas do telejornal da RTP? Constatamos que os dez valores-notícia apresentados ao longo da nossa análise estiveram presentes durante os primeiros cinco meses do ano nos noticiários, mas com uma hierarquia e distribuição diferente, o que significa que há uma preferência por notícias que envolvam valores como a negatividade, continuidade, atualidade, notoriedade e infração em relação aos restantes valores-notícia inesperado, proximidade, novidade, dia noticioso e consonância, o que se explica pelo maior ou menor grau de importância que a RTP confere nas suas aberturas do telejornal. Durante os cinco meses analisados foi notória a preferência de notícias negativas para encaixar o primeiro lugar na grelha do telejornal, notícias de abertura que acompanharam na sua maioria assuntos que envolveram mortes, acidentes, catástrofes, ilegalidades ou infrações. Nesse sentido, o facto de haver um acontecimento que tenha qualquer uma destas situações é motivo para abrir o telejornal da RTP1 devido à carga emotiva que transmitem essas notícias e ainda ao facto de suscitarem maior impacto ao telespetador. Por outro lado, tal como observámos nas considerações acerca da espetacularização da informação, o dramatismo e a encenação podem constituir um motivo pela preferência deste tipo de notícias mediante um exagero da realidade, tal como sustentava Pierre Bourdieu “a televisão apela à dramatização, no duplo sentido da palavra” pois põe em cena imagens de um acontecimento e exagera a sua “importância, gravidade e o seu carácter dramático, trágico” (Bourdieu, 1997: 12) Além disso, as notícias positivas acabam por não acrescentar muito a quem está do outro lado do ecrã, porque uma história feliz tem pouco para contar, ao contrário de uma história negativa que traz sempre consigo novidades e factos imprevisíveis e inesperados, o que por si confirma a nossa hipótese número 1: o
valor notícia negatividade é o mais predominante nas aberturas do telejornal. A acrescentar a isto, também o valor-notícia continuidade, o critério segundo o qual logo que um acontecimento atinja o estatuto de notícia, irá continuar a ser definida como tal durante algum tempo, esteve igualmente várias vezes presente nas aberturas do telejornal da RTP1, o que nos leva a concluir que houve uma tendência de “moda” devido ao facto existir por várias vezes um prolongamento de notícias durante vários dias, pois as notícias acabam por perder a sua importância muitas vezes apenas quando desperta um acontecimento realmente mais importante.
Quanto às imagens a discrepância foi ainda maior, uma vez que mais de metade – 65 por cento – foram imagens de abertura negativas, o qual evidencia que só se registam aberturas do telejornal com imagens positivas ou neutras em ocasiões mais excecionais e que assim justificassem abrir o noticiário. O porquê disso acontecer deve-se ao facto de haver uma procura por este tipo de acontecimentos por parte dos jornalistas do canal e da chefia da organização que pretendem transmitir as notícias que causem maior impacto, contenham factos novos e inesperados e consequentemente possuam maior interesse para o conhecimento público. Nessa sequência, imagens negativas relativas a escândalos, transgressões de normas, crimes, violência ou catástrofes, normalmente assumem a grelha televisiva por serem notícias que chocam e sensibilizam o telespetador numa encenação e dramatização constante. Não obstante, também o facto de ter estagiado na RTP1 me permitiu perceber quando despertava um acontecimento negativo, os jornalistas tinham sempre mais material e factos novos para trabalhar sobre esses assuntos, os quais merecem sempre ser conhecidos pelo público, mais do que uma história com um final feliz. Todas estas considerações teóricas vieram confirmar-se na prática onde as imagens negativas acabaram por ser as “preferidas” para entrar na abertura do telejornal no período em questão confirmando, portanto, a nossa hipótese dois.
No que toca à hipótese número três: os valores-notícia infração, inesperado e notoriedade aparecem frequentemente aliados a temas de foro negativo, ela é confirmada em parte uma vez que esta realidade ocorreu por várias vezes ao longo da nossa análise, com a temática acidentes e catástrofes e internacional a ter adjacente o valor-notícia inesperado devido à imprevisibilidade dos acontecimentos negativos que iam emergindo e assumindo o primeiro lugar no telejornal, justiça associado normalmente à infração e economia e
política à notoriedade com notícias relativas a personalidades do Estado ou assuntos que envolveram escândalos político-económicos. No entanto, uma nota deve ser assinalada pois o valor notícia notoriedade surgiu não só em notícias de foro negativo. Por outro lado, a temática internacional foi a grande novidade da nossa análise por ter assumido o primeiro lugar nas notícias de abertura quando comparado de forma individual com as outras categorias, sendo que na maioria dessas notícias os atentados terroristas, crimes, infrações, agressões e tragédias foram os motivos primordiais para este tema assumir o primeiro lugar aliado a valores notícia como a negatividade, o inesperado, infração e notoriedade, sendo este único relativo normalmente a escândalos políticos. Contudo, uma ressalva deve também ser assinalada pois fazendo uma comparação entre notícias nacionais e internacionais, a realidade foi diferente com 81,4 por cento para as primeiras e 18,6 para as segundas.
Assim, pegando em todas as considerações apresentadas ao longo da presente investigação é facto que, apesar das alterações na prática de fazer notícias, os valores-notícia continuaram a fazer parte do quotidiano dos media e a servir de instrumento e de chave- mestra para os jornalistas e as organizações decidirem o que tem mais importância e relevância a nível noticioso e tal como Nelson Traquina (2007) afirmou estes critérios de noticiabilidade continuam a demonstrar que jornalistas têm óculos particulares, que lhe permitem determinar o que deve ser selecionado e construído para posteriormente ser difundido, onde, numa era de imediatismo e pressa informativa à qual os canais televisivos estão sujeitos, os valores-notícia mudaram mas muitos deles continuam a fazer parte da prática noticiosa.
7.1. Sugestões para investigações futuras
A presente investigação permitiu-nos olhar para as notícias de abertura do telejornal da RTP1 e perceber de que forma os valores-notícia estiveram distribuídos durante uma amostra de cinco meses. Além disso, aliado a este quadrante, também as temáticas, o género televisivo e o valor das imagens de abertura não foram esquecidos e permitiram-nos investigar de forma mais aprofundada e detalhada toda a realidade que está por detrás das notícias iniciais do telejornal. Esta questão levou-nos a considerar que no futuro possa ser feito um estudo mais aplicado ao telejornal no seu conjunto apresentando os valores- notícia durante todas as reportagens, o que permite assim alargar um pouco mais as
considerações acerca dos critérios de noticiabilidade do século XXI. Além disso, também uma possível comparação com os noticiários do serviço privado de televisão em Portugal (SIC e TVI) com a RTP1 poderia constituir um importante contributo para perceber as diferenças das temáticas utilizadas como abertura, o valor das notícias e as imagens, mediante a questão: serão similares os conteúdos transmitidos e consequentemente os valores notícia adjacentes?
Com ainda maior ambição, seria fazer uma comparação internacional entre telejornais e os respetivos valores-notícia para assim verificar as diferenças e as semelhanças entre ambos, uma investigação que constituiria uma ferramenta útil para perceber de forma mais aprofundada a prática de fazer notícias em televisão atualmente.