3.3 Concept et mod`eles d’automate d´eterministe
3.3.1 Interface et comportement
A célebre expressão “uma imagem vale mais do que mil palavras” insere-se aqui perfeitamente. De facto, é notório o valor da imagem, principalmente quando falamos de televisão, uma vez que é ela que confere significado às palavras, explica o contexto dos acontecimentos e possibilita ao público o reconhecimento e a identificação do que está a ser relatado. Tal como refere Jespers (1998), o recurso da imagem televisiva pode “explicar, fazer partilhar, fazer sonhar, sensibilizar, chocar, suscitar reflexão, a adesão ou rejeição, anestesiar ou excitar” (Jespers, 1998: 68). São então múltiplos os sentimentos e pensamentos que esta ferramenta visual pode suscitar no telespectador, pois é a principal arma que pode transformar qualquer realidade e qualquer conceito ou discurso num espetáculo: “trata-se pois de uma mitificação” e de uma “encenação do real, da qual se encontram numerosas provas na influência direta da televisão sobre o real”. O autor apresenta o exemplo do casamento do príncipe Carlos e da lady Diana Spencer, uma cerimónia que foi transmitida na televisão britânica e em vários pontos do globo e onde se verifica que tudo foi encenado: “a cauda da princesa deveria ser suficientemente longa para ser vista de cima, os tons pastel foram preferidos aos tons vivos para não saturar a filmagem e até a cor dos excrementos dos cavalos foi modificada para não ferir a objetiva da câmara” (Jespers, 1998: 68).
Como pudemos observar a partir do exemplo do autor, é facto que a imagem em televisão pode ser modificada e encenada, não com o intuito de distorcer a realidade mas com o objetivo de promover uma encenação mais elaborada e espetacular e capaz de criar uma resposta no público. Além disso, também a própria forma da imagem televisiva é portadora de sentido, como por exemplo, “uma imagem tremida, uma câmara inábil, microfones em campo à saída de uma audiência de tribunal” podem reforçar a credibilidade das “sequências de ficção” (Jespers, 1998: 68).
Contudo, apesar do real ser a “problemática da informação televisiva”, nem tudo pode ser representável através das imagens. As catástrofes naturais, por exemplo, só podem ser explicitadas com auxílio de um texto televisivo. Nestas situações há a necessidade de articular a imagem com o texto de forma a criar um significado e um contexto mais amplo para o público que vê pela primeira vez a notícia que está a ocorrer. Por outro lado, pode como o autor Jespers refere levar a uma “limitação da capacidade de informar”, uma vez que pode “conduzir à omissão de uma informação importante ou de qualquer modo atenuar a importância dada a esta informação” (Jespers, 1998: 69). A esta prática, o autor dá o nome de mentira por omissão ou desinformação. De facto, esta realidade acontece quando os governos de alguns países optam por não transmitir imagens que possam ser comprometedoras ou ferir suscetibilidades.
Para além de ocultar a informação, a existência de imagens pode levar ao processo inverso e haver uma “hipertrofia da importância dada a certos acontecimentos”, visto que, quanto mais imagens as cadeias de televisão dispõem, mais rapidamente essas imagens formam material noticioso para as organizações dos media. Parece evidente que, tanto numa situação como noutra as imagens alteram o significado do acontecimento e criam uma perceção no telespectador, dependendo da forma como elas são manipuladas e “desenhadas” pelos media.
Desta feita, o autor assinala um conjunto de ideias que explicam a influência das imagens em televisão. Em primeiro lugar, “ela é o resultado de uma série de escolhas e de modificações: para além de processos já expostos de seleção, de hierarquização da informação”, também o “enquadramento da câmara, a montagem assim como o comentário são outras tantas intervenções sobre o real”; em segundo lugar, uma imagem pode ser
manipulada deliberadamente com o objetivo de fazer propaganda ou desinformação15. Para além disso, uma imagem, mesmo sem ser manipulada raramente é transmitida inocentemente, uma vez que pode influenciar, na mesma a moral e a perceção dos telespectadores. Como quarto fator, o autor assinalada que “para descodificar a informação contida numa imagem é preciso partilhar os mesmos códigos culturais” daquele que a transmite, ou seja, consoante o país e a cultura, as imagens adquirem um determinado significado; por último o comentário e o texto televisivo é o que permite identificar, situar e dar sentido a imagem. Sem o auxílio desta ferramenta, o espectador poderia ser induzido em erro, sobre o verdadeiro significado da imagem, uma vez que podia suscitar uma multiplicidade de interpretações que não aquela que seria a intenção verdadeira do canal de televisão. Na maior parte dos casos, a imagem, se não for acompanhada de um texto, “apareceria praticamente ilegível e desprovida de sentido”, uma vez que é o texto que lhe confere o contexto e possibilita uma interpretação mais clara e menos ambígua (Jespers, 1998: 70-72).
Também outro aspeto deve ser realçado: a imagem televisiva é um “excelente vetor da emoção (a afetividade, a violência, o sentimentos, as sensações), mas é um veículo mais problemático para o raciocínio (a lógica, o enunciado sistemático, a argumentação)” (Jespers, 1998: 72), ou seja, mais do que criar conhecimento, a imagem televisiva passou a ter como ambição principal manter com o telespectador um “laço afetivo que o torne fiel” e preso ao ecrã. Parafraseando Jespers, a “multiplicidade das imagens e o “aumento da competição” para garantir o maior número de audiências levou os “programadores a elevar o limiar da censura na escolha das imagens” e a “sobrevalorizar o registo emocional”, ou seja, temáticas que abordem conteúdos com “sangue, infanticídio, a decomposição dos corpos, a copulação, o desespero, a doença, a fealdade, o ódio deixaram de ser tabus”. De facto, imagens como estas, mais espetaculares e carregadas de emoção, são as que “vendem mais” e as que, simultaneamente, dão menos trabalho ao jornalista e conferem menos reflexão ao telespectador. Assim, as cadeias dos media “não têm como objetivo informar, mas produzir bens de fabrico comercializáveis, utilizando a televisão como
15 Durante a Guerra do Golfo, pudemos ver e ouvir o testemunho de uma jovem que contava a invasão da
maternidade de Kuwait pelos soldados iraquianos, que desligaram durante a sua passagem as incubadoras dos recém nascidos mas esta entrevista era um documentário falso e grosseiro feito pela embaixada do Kuwait em Washington, e onde a testemunha era a filha do embaixador do país (Jespers, 1998: 71).
«matéria-prima»”, os conteúdos são perdidos para o “belo e interessante e o horrível e fascinante”, ou seja, o espetáculo. (Jespers, 1998: 72-73).