No início do ano letivo de 2017-2018, quando a professora que apresenta este relatório teve o primeiro contacto com a sua turma de Literatura Portuguesa, do 10.º ano, verificou que os discentes revelavam diminutos hábitos de leitura, os quais não eram compatíveis com o programa da disciplina, pelo que urgia procurar os melhores procedimentos para alterar a situação. Assim, orientou o seu trabalho final do curso de Mestrado em Gestão da Informação e Bibliotecas Escolares no sentido de conciliar a investigação com a sua prática docente, a fim de a aperfeiçoar. Neste contexto, a abordagem científica que se revelou mais adequada foi a investigação-ação, que, na perspetiva de Bell (2010: 22), é a mais indicada para os profissionais que querem compreender e aperfeiçoar o seu desempenho durante um certo tempo, como era o nosso caso. Freixo salienta, igualmente, a ligação deste tipo de investigação ao exercício concreto de uma profissão quando formula a respetiva definição: “Investigação-ação é uma investigação científica sistemática e autorreflexiva levada a cabo pelos próprios profissionais no exercício das suas atividades para melhorarem as suas práticas” (2012: 309). Bogdan & Bilken (1994: 266, 284) destacam também a otimização do desempenho como o objetivo do professor que recorre à investigação qualitativa aplicada, nomeadamente à investigação pedagógica45.
A investigação-ação tem, pois, um carácter essencialmente prático e visa a mudança, implicando tanto o investigador como os participantes no estudo e integrando
44 Shawky-Milcent, 2016: 2.
45Bogdan & Bilken (1994: 266-267) descrevem três tipos de investigação qualitativa aplicada, que se distinguem pelas suas relações com o processo de mudança, pelo investigador e pela forma de apresentação dos dados: investigação avaliativa e decisória – o investigador é contratado para descrever, documentar e avaliar uma mudança educativa planeada, a fim de apresentar informações aos decisores, apresentando os resultados através de um relatório escrito ou exposição oral; investigação pedagógica – o investigador é um profissional que pretende promover a mudança através da educação, apresentando programas de formação, seminários ou novos currículos; investigação-ação – o investigador é um cidadão que visa a mudança social na educação, apresentando os dados recolhidos através de folhetos, conferências de imprensa, exposições, relatórios, etc. Dos três tipos apresentados, é a investigação pedagógica que se aproxima do nosso estudo.
métodos qualitativos e quantitativos, ainda que privilegiando os primeiros (Bogdan & Biklen, 1994; Bell, 2010; Guerra, 2010; Freixo, 2012). Segundo Guerra (2010: 53-54), a investigação-ação é um processo continuado, cujo ponto de partida é uma situação, uma prática ou um problema real e concreto que urge resolver, interessando mais o processo de mudança exigido pela investigação que os seus resultados; neste processo, o investigador e o grupo-amostra, objeto do conhecimento, são atores participantes na ação, sendo estes últimos sujeitos intervenientes e o primeiro “um apoiante dos sujeitos implicados na ação”. Esta especialista reconhece três dimensões neste tipo de investigação: a ação, a pesquisa e a formação, pois tem como objetivo provocar a mudança num contexto concreto (ação), centra-se na procura das dinâmicas atuais e nas intencionalidades dos atores (pesquisa), é inerente ao processo de conhecimento e ação, mobilizando capacidades cognitivas e relacionais dos atores em função de objetivos específicos, de modo que o ato de agir e investigar funciona como um processo de formação (formação).
Guerra compara a investigação social tradicional com a investigação-ação num quadro muito elucidativo, cuja coluna correspondente à abordagem que escolhemos para o nosso estudo reproduzimos com pequenas adaptações, uma vez que constitui uma síntese dos pressupostos metodológicos gerais que nos guiaram (v. quadro abaixo).
Processo Investigação-ação
Formação requerida
- Experiência de trabalho no meio
- Treino mais limitado em estatística e metodologias de investigação
- Vontade de ir para além da intuição e do senso comum e de proceder a uma análise crítica e sistemática da sua prática
Posição e papel do investigador - Na ação - Colaborador Objetivos da investigação
- O saber para o saber-fazer
- Conhecimento prático da dinâmica da ação e da mudança
- Obter conhecimentos aplicáveis a casos concretos para melhorar uma situação de insatisfação
Escolha do problema de investigação
- Identificado no próprio meio em causa
- Situação-problema identificada a partir de uma reflexão sobre a prática Formulação
da
problemática e da análise do problema
- Questões conjeturais, i.e., definidas no decurso do trabalho e induzidas pela prática
- A análise da literatura é útil mas centrada sobre a prática - Importância da observação e da autocrítica
Hipóteses de investigação e variáveis
- A definição do problema e dos objetivos da ação é suficiente para orientar a pesquisa
-Variáveis numerosas vindas do terreno e submetidas a um controlo mínimo Amostragem - O coletivo da investigação-ação compõe ele próprio a amostra da pesquisa
Planificação da
investigação
- Planificação geral, mas o investigador sabe que não pode controlar tudo
Tratamento e análise
- Logo que seja possível, podem ser feitas análises estatísticas simples, mas a análise qualitativa é, geralmente, mais apropriada para determinar o valor dos resultados
- Resultados reintegrados em primeiro lugar na prática e só depois na teoria Conclusão e
utilização dos resultados
- Aplicação direta no meio, onde os resultados contribuem para uma melhoria social
- A experiência adquirida é fracamente generalizável - Utilização prática
Difusão - Difusão, informação e formação
-Difusão dirigida e processos de retroação -Difusão escrita e audiovisual
Quadro 1 – Características da investigação-ação, segundo Guerra (idem: 64)
Foi com base nestes pressupostos, e tendo em conta o problema identificado, que se formularam as questões investigativas, a finalidade e os objetivos orientadores do nosso estudo, do seu desenho metodológico e do projeto de leitura implementado na turma de Literatura Portuguesa lecionada pela mestranda, considerando que a situação de leitura do grupo de alunos e o sucesso na correspondente rubrica do programa poderiam melhorar. Optou-se pela metodologia participativa de projeto uma vez que esta constitui “um instrumento que permite, simultaneamente, uma maior compreensão da realidade e uma maior eficácia dos meios e das técnicas de intervenção” (Guerra, 2010: 119).
Esta metodologia será apresentada no ponto seguinte, neste momento, recordamos a formalização do problema, da finalidade e dos objetivos da investigação, já apresentada na introdução, através de uma pergunta de investigação, de uma finalidade e três objetivos que dela emergiram e que nos guiaram, bem como a indicação dos resultados esperados:
Questões de investigação e pergunta de partida:
- Como promover o gosto pela leitura e formar leitores para a vida no ensino secundário, nomeadamente, através de projetos individuais de leitura?
Finalidade
- “Formar leitores reflexivos, confiantes e autónomos que leiam com emoção e discernimento, na Escola, fora da Escola e para além da Escola, conscientes das suas escolhas e dos seus gostos” (Coelho, 2001: 9).
Objetivos
- Diversificar e aprofundar as experiências de leitura de livros, mobilizando a razão, a emoção, o conhecimento do mundo e a socialização;
- Promover o recurso à biblioteca para resolver necessidades de leitura e de diálogo com outros leitores.
Resultados esperados
- Leitura autónoma
- Leitura de livros, mobilizando a razão, a emoção, o conhecimento do mundo e a socialização
- Recurso à biblioteca para suprir necessidades de leitura e diálogo com outros leitores.