Na nossa investigação-ação, recorremos à observação direta visual, tal como é entendida por Campenhoudt et al. (2019: 267): capta “os comportamentos no momento em que se produzem, sem a mediação de um documento ou de um testemunho”. O foco da observação centrou-se tanto no grupo como no indivíduo, integrando-se na observação verbal, tal como é delimitada por Estrela, referido por Pestana (2018: 147-148), pois o campo de observação foi constituído pela página da plataforma Trello (Leitur@as) e pelo Grupo Fechado da rede social Facebook (Os literários) criados como espaços virtuais do PIL, onde os alunos-amostra fizeram publicações comentários e partilhas relativos às suas leituras. Na verdade, a observação do nosso estudo decorreu em ambientes virtuais que se mantiveram acessíveis ao investigador participante ao longo de todo o processo, constituindo os mencionados meios digitais uma importante fonte de dados. De acordo com Anderson e Kamuka (2003: 143), citados por Pestana (2018: 145), estes meios podem promover uma observação perspicaz e rigorosa: “Web can be used as the eyes and ears of the e-researcher, providing observation and recording capacity anytime/anywhere” e “Direct observation […] also allows the e-research to focus in detail on some particular aspect of the scene, which may not even be noticed by participants”. Torre (2012: 104), na esteira de Meirinhos (2006), também destaca a produtividade dos registos eletrónicos enquanto fontes de informação.
A nossa observação daqueles sítios da Web, porém, não ocorreu de forma espontânea e não planeada, ao invés, obedeceu a princípios metodológicos delimitados pela ciência. Neste sentido, seguimos Freixo (2012: 311), que define observação como um “[p]rocedimento de investigação científica que permite verificar, com a ajuda de indicadores, factos particulares e colher dados”; assim como Campenhoudt et al. (2019: 270) e Tuckman (2012: 704), para quem os objetivos da observação são o estudo dos acontecimentos ou fenómenos no momento em que se produzem. Estes autores são unânimes na necessidade de o investigador seguir esquemas pré-definidos e utilizar instrumentos previamente construídos, tendo em conta os objetivos. Freixo (idem: 223- 225) considera quatro parâmetros definidores da observação científica: estrutura da observação; forma de participação; número de observadores; e local da observação. Quanto à estrutura da observação, ela pode ser assistemática, ou não estruturada, se não tiver tido controlo previamente elaborado nem um instrumento apropriado; ou sistemática, planeada ou controlada, se realizada em condições controladas, tendo em
vista objetivos e propósitos pré-definidos, com recurso a instrumentos adequados e à delimitação da área a ser observada. No que respeita à forma de participação, podemos recorrer à observação não participante, aquela em que o observador é exterior à realidade a observar e assim se mantém; ou participante, quando o investigador participa na situação estudada. A observação pode ser individual ou em equipa, conforme seja realizada por um só investigador ou por uma equipa. Por fim, quanto ao local de observação, Freixo distingue a observação em laboratório, quando as situações ou problemas objeto de estudo são artificialmente criados em laboratório; ou observação de campo, quando é feita no local da ocorrência do evento.
Pelo exposto, podemos afirmar que a nossa observação foi sistemática, na medida em que foi orientada pelos objetivos, metas e indicadores traçados, e recorreu a instrumentos criados para o efeito; foi de campo, porque focou os sítios da Web em que ocorreu a participação dos atores; foi individual pois só a professora investigadora realizou o ato de observar; foi participante visto que a observadora integrou o coletivo da investigação. Tivemos em conta, portanto, a definição de Freixo (idem: 311), para quem a observação direta participante é um “[m]étodo de investigação que visa determinar o significado, a orientação e a dinâmica de uma situação pela colheita de factos […]. O observador é um membro do grupo ou da organização.”; bem como a asserção de Campenhoudt et al. (2019: 268) de que a observação participante “[c]onsiste em estudar um grupo ou uma comunidade durante um período relativamente longo, participando na vida colectiva.”
Para a recolha e tratamento dos dados, recorremos a instrumentos que nos permitiram aceder a informações qualitativas e quantitativas, pois, não obstante as observações constituírem fontes qualitativas de dados, também podem fornecer dados quantitativos se os investigadores usarem instrumentos para tal, como clarifica Tuckman (2012: 703): “As observações, enquanto terceira fonte qualitativa de dados54, podem
também contribuir com dados quantitativos, dependendo apenas das técnicas de registo.” Reis (2011), ao propor diversos instrumentos de registo das observações, reforça a ideia de que deve incidir “num número restrito de aspetos previamente definidos”, aproximando-se das conceções dos demais especialistas compulsados quanto à necessidade de se terem em conta os objetivos da observação e a necessidade de estes serem devidamente planeadas aquando da escolha da matéria a observar e dos
instrumentos adotados para o efeito. Das propostas de Reis, antes convocado (grelhas de observação de fim aberto, grelhas de observação focada, listas de verificação, escalas de codificação e mapas de registo), selecionamos uma para a nossa observação dos espaços digitais onde se desenvolveu o nosso projeto – a grelha de observação focada. Estas grelhas focam-se em comportamentos ou acontecimentos específicos, que o investigador observa como “nada evidente”, “algo evidente” ou “bem evidente”, podendo ter ou não indicadores e exemplos de evidências. No nosso caso, e à semelhança de Pestana (2018), subdividimos a categoria “algo evidente”, em “pouco evidente” e “algo evidente”, com vista a apurarmos a análise.
Assim, elaboramos três grelhas que aplicamos em diferentes momentos, e que apresentamos de seguida: a Grelha de observação focada: participação no Trello, aplicada em dezembro; a Grelha de observação focada: participação no Grupo fechado do Facebook, aplicada em junho; e a Grelha de observação focada: desempenho dos participantes no Grupo fechado do Facebook enquanto leitores, em junho, com indicadores, exemplos e evidências. Nas primeiras grelhas consideramos a participação em três dimensões: participou, comentou, partilhou vídeos, fotografias, ligações ou outros. Na última, selecionamos os indicadores seguintes, com base no conjunto das intervenções dos discentes e nos nossos objetivos: os alunos apresentam as leituras efetuadas e em curso; os alunos manifestam comportamentos de socialização da leitura; os alunos revelam autonomia enquanto leitores; os alunos mobilizam o conhecimento do mundo, a partir dos livros e da leitura; e os alunos recorrem à biblioteca para satisfazer necessidades de leitura (Anexos V, VI e VII, respetivamente).