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La protéine transactive response-DNA binding protein 43

2. ÉTAT DE L’ART

2.3. La protéine transactive response-DNA binding protein 43

O projeto Re-Food nasceu no bairro de Nossa Senhora de Fátima, no coração de Lisboa, em 2011 (Re-Food NSF). Tratou-se do primeiro núcleo do projeto Re-Food a ser constituído, continuando em plena operação, hoje nas instalações cedidas pela Igreja de Nossa Senhora de Fátima e sendo o local, por excelência, escolhido para ações de formação e esclarecimentos. Um núcleo que conta hoje com cerca de 400 voluntários e 83 fontes de alimentos, o que se traduz em cerca de 5.500 refeições por mês que reaproveitadas. (Tabela 6)

Um dos gestores da Re-Food NSF relatou que “saem todos os dias cerca de 300

refeições, ao fim do dia. Sem contar com os sem-abrigo que variam entre 15 a 20 e outras pessoas que nos procuram.”

50 Um projeto que se inspirou na dinâmica e no modo de funcionamento do Movimento Re-Food, após uma visita de trabalho a Lisboa, em 2014 http://robinhoodarmy.com/

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Tabela 6: O Núcleo Re-Food NSF

Um serviço que é prestado numa lógica diária, (ver Anexo VII) pelas diferentes equipas de voluntários, em turnos de 2 horas por dia, uma vez por semana, (não há distribuição de alimentos aos sábado e domingos, só recolha), com as rotas de recolha de alimentos a iniciarem-se a partir das 10,00 horas (Tabela 7)

Tabela 7: Rotas diárias de recolhas de alimentos

Sobre o recrutamento de voluntários “após uma breve entrevista e depois de

conhecerem as três tarefas diárias- Recolha (nas fontes de alimentos), Preparação e Distribuição (ambas no centro de operações do núcleo) - começam desde logo a colaborar com voluntários mais experientes na execução de tais tarefas. Passada a fase

75 de aprendizagem e adaptação e de acordo com a sua própria vontade, é escolhido, o horário(dia/noite) e a tarefa pretendida, ficando assim integrado numa equipa,” conta-

nos a gestora da noite, da 5 feira.

Sobre o tipo de voluntários que se apresentam “Temos de tudo (…) desde

reformados, desempregados, estudantes universitários, pessoas que vêm cumprir serviço comunitário (trabalho socialmente útil) por ordem do tribunal ou pura e simplesmente cidadãos que apenas desejam cumprir um ato de cidadania.” declara a gestora dos

voluntários.

Um voluntário a cumprir serviço comunitário conta-nos “Não tinha dinheiro para

pagar a multa (…) e não queria meter os meus pais ao barulho… estou aqui há 2 semanas…tenho que fazer 100 horas… sempre que estou de folga venho aqui… trabalho no Lidl e não tenho grande disponibilidade… nesses dias venho e tento fazer qualquer uma das tarefas… recolha, preparação ou distribuição… mas sinto me melhor aqui nas recolhas, a ir aos restaurante, sempre com um colega... lá dentro são muitas mulheres… até porque elas gostam mais da preparação…”

Já outro voluntário desabafa” Faço 2 horas por semana, não é muito para mim

mas faz toda a diferença para as pessoas” e continua” já fui voluntário no Banco Alimentar mas isso não tem nada a ver com o que fazemos aqui. Na Re-Food existe a interação entre o beneficiário e o voluntário, o que não acontece no Banco Alimentar” eoutra coisa que aprecio “é o facto de sermos todos iguais…não há cá chefes…somos todos voluntários…se calhar por isso é que isto funciona”

Quanto aos beneficiários, estes podem “inscrever-se todas as segundas-feiras, por

regra, (…) para tal devem trazer o cartão de cidadão e uma declaração da composição do agregado familiar, para podermos contabilizar se se trata de uma família pequena ou grande, se tem com crianças ou não.” relata-nos a gestora dos beneficiários. “Podem ser sinalizados pela Segurança Social, ou pela Igreja, ou aparecerem eles próprios no núcleo, muitas vezes já por recomendação da assistente social da área.”

Já sobre a permanência destas famílias no núcleo NSF diz “Tenho famílias que

76 mas depois, a pouco e pouco, já vêm os filhos e ás vezes até já vêm os netos (…) dá- me a ideia que já se habituaram a esta vida.

Tentámos saber se para além da comida, prestam mais algum tipo de ajuda aos beneficiários

“Há alguma colaboração individual de certos colaboradores da Re-Food em relação a isso. Não todos (…) Mas há. No meu caso e no de noutras pessoas que eu sei já me ajudaram (…) Olhe tive uma amiga minha que precisou de uma cama de bebé e eles conseguiram arranjar, já tive outra minha amiga que estragou-se um frigorífico e eles através de uma associação que colabora que eles conseguiram arranjar. Há voluntários que gostam de ajudar…trazem roupas usadas de suas casas e dão -nos..” disse-nos uma beneficiária , “e além dessas coisas também ajudam…espiritualmente, falam connosco, às vezes perguntam como é que nós estamos, interessam-se por nós, como é que está a saúde, falam connosco e isso ajuda muito. Há pessoas aqui amigas, muito amigas. Também há quem não goste muito, mas não podemos agradar a todos. Mas há muitos amigos aqui.”conta-nos um beneficiário do núcleo

Já o Coordenador do núcleo NSF salienta “ Há muitas famílias assistidas por nós que também recebem apoio do Banco Alimentar e apoio noutros domínios (habitação, educação, etc.) prestados por outras entidades (Câmara Municipal, Junta de Freguesia, Santa Casa da Misericórdia, etc). A Re-food tem parceria com um conjunto de ONG que actuam nos mais diversos domínios e sempre que se justifica encaminha os seus beneficiários para esses apoios (por exemplo, apoio jurídico da Pro Bono ou assistência médica).

No centro de operações, as tarefas iniciam-se, todos os dias, a partir das 18,30h, sempre supervisionadas por um gestor(a). As primeiras equipas chegam, preparam de imediato o carrinho isotérmico (com as embalagens e recipientes necessários) e, de imediato, deslocam-se ás fontes de alimentos correspondentes á sua rota, a fim de resgatar os excedentes do dia (sopa, prato, saladas, pão, bolos).

“Trata-se de um trabalho gratificante, que nos enche o coração..sentimentos que partilhamos com os restaurantes e cafés onde vamos…o espirito de solidariedade das pessoas é enorme…só que ás vezes fica dentro de nós e das organizações…tem que haver

77 algo que nos incentive…vejo o Re-Food assim…é bom para nós e é bom para as empresas…acredito que toda esta comida no final do dia iria para o lixo…um autêntico crime..(…) venho duas vezes por semana ao final do dia..estudo aqui na universidade e penso que todos devíamos ajudar nestas causas…são menos 2 horas que estou com os amigos ou que não estou na internet…conhecer a realidade que não é a minha só nos ajuda a crescer …bem convido outros colegas mas eles não vêm…ainda não compreendem estas coisas..“ extrato de conversa tida com uma estudante voluntária da

FCSH, no decorrer de uma rota.

Outra estudante holandesa que faz Erasmos na Universidade Nova também nos conta” foi uma maneira de fazer algo pelos outros..acabo as aulas cedo e sobra-me muito

tempo..…na Holanda eu e meus amigos já fazemos voluntariado…aqui já fiz as 3 tarefas e aquela com me identifico mais é a distribuição …falar com quem precisa, ouvir as suas queixas e dar-lhes conselhos…gosto disso…tem a ver comigo..há ali velhotes que não têm ninguém para falar durante o dia…por isso, já reparou que esses não se importam de chegar aqui muito cedo (ás 18h..) e depois só saem daqui lá para as 21,30h…estou convencida que se trata do melhor momento do dia para essas pessoas…ao mesmo tempo é triste...”

De seguida, estes alimentos são de imediato levados para o centro de operações, onde nesta altura, outras equipas de voluntários já preparam “os sacos dos beneficiários”, para esse dia, começando sempre com a distribuição da comida recolhida na ultima rota da noite anterior, conforme recomendações da ASAE.

Sobre as normas e regras de higiene e segurança alimentar, todos os núcleos, têm à sua disposição o “Manual de Boas Práticas, Higiene e Segurança Alimentar, Segurança e Saúde no trabalho” (Ver Anexo VII).

O documento onde todos os procedimentos operacionais e boas práticas, desde a receção de alimentos, por parte dos parceiros alimentares, até à entrega às famílias beneficiárias, estão explicitadas. Procedimentos que visam assegurar a conservação em condições adequadas e evitar a contaminação dos alimentos a doar, cumprindo com as normas e procedimentos HACCP- sistema de Análise de Perigos e Controlo de Pontos

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Críticos51 e com a legislação alimentar europeia e nacional. Tem na sua base uma

metodologia preventiva, com o objetivo de evitar potenciais riscos que podem causar danos aos consumidores. Através da eliminação ou redução de perigos (sejam biológicos, químicos ou físicos) pretende-se garantir que não sejam colocados, à disposição do consumidor, alimentos não seguros. (Re-Food, 2017)

“(...) gosto de estar nesta função , a preparar as embalagens e a fazer as

ementas..(ri-se)..sim porque que está nesta função só pode trabalhar com os alimentos que foram recolhidos pelos colegas das recolhas…uns podem trazer arroz ou sopa, outros salgados ou sandes, outros comida chinesa ou japonesa…todos os dias é diferente..e nós temos que fazer a refeição com o que temos..como se fosse para nós..”relata-nos uma

voluntária da noite.

Entretanto, outra equipa de voluntários vai completar o processo procedendo à distribuição da comida pelas famílias, previamente inscritas (os nomes e número de adultos e crianças de cada família beneficiária que há-de vir buscar os sacos, bem como algum tipo de restrição alimentar, é informação sempre disponível). Cada família, consoante o nº de pessoas do agregado familiar, tem direito a um determinado nº de Tupperwares por saco.

Aqui, além de se proceder à entrega do respetivo saco a cada beneficiário (família) tenta-se igualmente averiguar o grau de satisfação do utente, tal como, a qualidade da comida distribuída no dia anterior. Os voluntários já conhecem muito bem os hábitos das famílias e anotam o que cada um levou no dia anterior, para não haver repetição.

“(…) como tenho 2 crianças pequenas têm sempre cuidado com o que me dão...

sobremesas boas para elas são sempre benvindas... há muito respeito e consideração connosco… vê-se que compreendem a nossa posição… um dia se melhorar a minha vida vou me oferecer para ser voluntário também… será uma maneira de retribuir tudo o que têm feito por mim… pena é haver alguns colegas meus que não sabem agradecer e ás vezes até exigem isto e aquilo… quem passa por necessidades não tem o direito de exigir

51 O HACCP é uma sigla internacionalmente reconhecida para Hazard Analysis and Critical Control Point ou Análise de Perigos e Controlo de Pontos Críticos. ( HA = Análise de perigos ; CCP = Pontos Críticos de Controlo ; HAZARD = Perigo)

79 nada… isto sou eu a pensar, que tenho perto de 50 anos...conta-nos uma beneficiária que

aguarda a sua vez de ser servida.

É aqui à porta do núcleo que se “respira” o verdadeiro espírito Re-food, onde para além da distribuição da comida, se sente o real sentido de entreajuda e de solidariedade, tudo entre pessoas que não se conhecem, mas que passam por situações menos boas na sua vida. Enquanto os pais aguardam as suas refeições, ali ao lado, no jardim, as suas crianças brincam inocentemente com as outras crianças do bairro, elas sempre na esperança que hoje lhes seja distribuída sobremesa ou o docinho do dia.

O que sempre mais me impressionou desde que cheguei há 4 anos aqui, conta-nos a Gestora da 6ª feira “foi a capacidade que a Re-Food tem em integrar pessoas muito

diferentes sem qualquer tipo de preconceito… e isso não é comum hoje em dia. (...) Todas estas pessoas passam aqui algum tempo juntos e constroem um ambiente positivo. Na verdade, a Re-food fornece-nos uma grande experiência pessoal e uma grande lição de vida".

Outra beneficiária confidencia-nos “se não fosse a Re-Food nem sei o que seria de

mim…com esta ajuda alimentar posso ajudar melhor a minha filha... fiquei desempregada há 2 anos e logo de seguida aconteceu o meu divórcio…sabe como é…tenho 1 criança pequena…mas eu vou dar a volta por cima..e um dia volto para agradecer”

Histórias de vida que todos os dias registamos e nos fazem refletir. Enquanto uns em casa e nos restaurantes, comem e desperdiçam, outros sujeitam-se diariamente, faça frio, calor ou chuva, a deslocarem-se, muitos acompanhados dos filhos pequenos, para filas onde esperam as suas refeições.

“(…) Com a crise e com a troika, eu e meu marido caímos no desemprego.. e por isso não conseguimos pagar a renda da casa ao banco todos os meses…tive conhecimento que podia pedir ajuda temporariamente aqui na Re-Food e vim cá falar…no inicio tive vergonha, porque nunca tinha feito isto…mas enchi-me de coragem e vim falar com eles..foram espetaculares comigo…o dinheiro que poupo aqui já me dá para pagar ao banco e assim mantemos a casinha …tenho 1 filho de 7 anos…Mal consiga arranjar emprego, eu ou ele, já não virei aqui…isto deve ser para quem realmente precisa…por isso critico quem anda pela cidade, de ajuda em ajuda…e depois só come a comida que

80 mais lhe agrada…está mal..e até são capazes de deitar fora o que não comeram…(Relato

de uma beneficiária que aguarda a sua vez na fila).

Mas também por vezes (não tantas como se desejava) surgem respostas positivas e reconfortantes para quem aqui trabalha.

“Eu estou na Re-Food desde Janeiro de 2015, primeiro como beneficiário, depois como voluntário- beneficiário. Sobrevivi na rua, de 2013 a 2014, com o apoio da Santa Casa e da comunidade Vida e Paz mas foi graças a esta gente da Re-Food que me consegui levantar..Foi muito penoso..A partir do momento em que consegui arranjar um quartinho, que pago com o RSI, falei com os gestores e ofereci-me para ajudar também. Desde final de 2015, que, além de levar a comida, comecei também a colaborar como voluntário, situação que se mantém até hoje. Faço como um agradecimento pela forma como fui aqui recebido. Não tenho família…a Re-Food é a minha família..venho aqui todos os dias (…) reconheço que há muitos beneficiários ( sem-abrigos) que deveriam respeitar mais quem os ajuda…ás vezes custa-me ouvir certas coisas…” (Relato de um

voluntário-beneficiário, em Março de 2017).

Entretanto e enquanto a distribuição está a acontecer à porta do núcleo, existem outras equipas que, na rua, junto dos restaurantes que encerram mais tarde, recolhem os seus excedentes. Essa comida, ao chegar ao centro de operações, deve, segundo as regras da ASAE, ser etiquetada (com a cor do dia semana) e de imediato acondicionada nos frigoríficos, para no dia seguinte ser a primeira alimentação a ser distribuída.

Situações muito desagradáveis ocorrem, nomeadamente quando a comida recolhida nos restaurantes e cafés não chega para todos..Conta- nos a gestora que “muitos beneficiários não compreendem a situação e viram-se contra nós.. “Às vezes chamamos a

polícia, tal é a má educação e a agressividade “. E por vezes há dias complicados “…desde zaragatas entre os beneficiários e discussões com os voluntários... è que vêm aqui pessoas um pouco desequilibradas , pessoas que estão mal com todo o mundo…não conseguem falar como deve ser…não querem isto..não querem aquilo…enfim…até se esquecem que são eles que precisam…mas nós temos de dar um desconto..até criam problemas com os colegas que aguardam a comida na fila. o que vale é que são poucos… a grande maioria sabe estar e sabe esperar..”relata-nos uma gestora que hoje está na

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À hora do fecho do núcleo (perto das 24 horas) ainda por vezes bate á porta alguém para pedir “ alguma coisa para comer”. Tratam-se de indivíduos que vivem na rua e que todas as noites, vão deambulando pela cidade, (umas vezes na Re-Food, outras na Comunidade Vida e Paz), na busca de algum alimento Segundo nos diz a gestora da noite “ se ainda houver comida,( prato e sopa) claro que damos…o que acontece é que a esta

hora só já temos pão e bolos e às vezes iogurtes…mas ninguém fica com fome”

Perguntámos a Hunter Halder se não receia também ali no núcleo poder acontecer desperdício de alimentos “ nem pensar…tudo o que não é distribuído é bem guardado nos

frigoríficos e pela manhã é reencaminhado para quem precisa..sejam beneficiários ou instituições a quem doamos os alimentos(…) aos fins de semana quando temos muita coisa redistribuímos por outros núcleos, exceto claro nos casos em que a comida ou os

bolos não estão em boas condições, (acontece) mas isso é raro..aqui tudo é reaproveitado”( Hunter Halder,2017)

No sentido dos parceiros/instituições e da experiência que nos foi dado a conhecer durante o estágio, no decorrer dos diferentes percursos/rotas efetuadas, é grande o sentimento de responsabilidade social sentido e partilhado por todos, conforme podemos extrair das declarações do voluntário mais antigo da Re-Food (77 anos) “Muitos

restaurantes há que, com receio que não possam satisfazer o compromisso diário assumido com a Re-Food, reservam logo durante o dia, algum alimento para esse efeito. Outros há que, em casos que não sobrou nada no final do dia, vão eles próprios, de propósito, confecionar algo (sopa ou prato) com o objetivo de entregar á Re-Food

Ao afirmarem a sua responsabilidade social diante da comunidade e ao assumirem voluntariamente compromissos, que vão além do cumprimento de todas as obrigações legais, os parceiros estão a dar um claro sinal de aposta no desenvolvimento assente nos três pilares do desenvolvimento sustentável: ambiental, social e económico.

Podemos assim concluir que a Re-Food ao dar significado à comunidade, envolvendo e incluindo todos, através de um objetivo comum, que é a eliminação do desperdício alimentar e da fome, cria e reforça o seu capital social, possibilita o exercício livre de uma cidadania activa e solidária por parte dos seus voluntários e permite que todos os parceiros desempenhem boas práticas de responsabilidade social, no sentido da promoção do bem comum e de uma maior justiça social.

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