A. L ES MISES EN SCÈNE JOURNALISTIQUES
1. La patrimonialisation pour valoriser des espaces géographiques
O signo arquitetônico em Blade Runner representa um processo de desenvolvimento tecnológico, ainda em andamento, cujas experiências de urbanidade pós-moderna estão ainda sendo vivenciadas nas grandes metrópoles contemporâneas.
Fig. 05 – A andróide Zhora e seu animal protético
Blade Runner contextualiza sua narrativa na metrópole de Los Angeles no ano de 2019, porém a cidade representada no filme poderia ser tanto Los Angeles como qualquer outra grande metrópole. Silva (1991, p. 55) ressalta que a influência do ilustrador francês Moebius (pseudônimo de Jean Giraud) e do historiador Dan O’Bannon, da revista Metal Hurlant foram fundamentais para que a concepção visual da cidade tivesse um caráter futurista e ao mesmo tempo, contemporâneo. Outras contribuições fundamentais foram as pinturas de Vermeer, as fotografias de Jacob Riis e a influência do visual da revista de ficção científica Heavy Metal. O caráter contemporâneo do filme deve-se também ao trabalho do designer Syd Mead, ardente leitor de ficção científica que desenvolveu trabalhos para diversas corporações americanas como Ford, US Steel e Sony. Em sua carreira como designer freelancer e ilustrador, Mead projetou automóveis, yachts e interiores de jatos particulares.
Blade Runner é um filme que extrapola um mundo futurístico a partir da experiência cotidiana individual na qual há uma mescla de elementos do passado e do futuro. Esta hibridização pode ser observada na construção do principal set de gravação, conhecido durante o período de produção, como “Ridlevylle”. A produção do filme utilizou uma rua que havia sido construída em 1929, nos estúdios Burbank e que havia se tornado cenário de vários filmes noirs. Mead afirmou que após um estudo detalhado, concluiu que poderia conseguir o efeito de mesclar passado e futuro, agregando novos elementos ao set de gravação já existente, como por exemplo, a construção de novas fachadas com
Fig. 06 e 07 – O visual futurista e ao mesmo tempo contemporâneo da Los Angeles de Blade Runner
A experiência urbana da Los Angeles de 2019 retrata a existência humana em um jogo, para o qual não há saída. A cidade de Los Angeles é um labirinto, um signo cujo objeto é a arquitetura pós-moderna com todas as suas complexidades. A construção labiríntica e sua dissolução de limites espaço-temporais é ressaltada por Omar Calabrese em A idade Neo Barroca. Calabrese (1987) afirma que os labirintos representam complexidades ambíguas, pois, se por um lado não há para o fruidor uma ordem topográfica, por outro, o labirinto se constitui no desafio de encontrar uma possível ordenação; encontrar a saída significa encontrar a ordem. É por meio da participação do fruidor que a obra se completa e é disso que trata em parte o signo arquitetônico em Blade Runner: encontrar uma saída no caos urbano, uma solução possível que implique em sobrevivência, porém diferentemente de Metrópolis, onde o êxito é coletivo, aqui, a única solução é individual.
A complexidade e ambigüidade labirínticas estão presentes na cidade pós- moderna e suas inúmeras possibilidades abertas para a fruição do indivíduo: são ruas, becos e desvios urbanos nos quais “se conhece o momento de entrar, mas ignora-se o tempo em que será possível sair” (VILLÁ, p.70-77). Se na arquitetura moderna, a funcionalidade pressupunha um fluxo padronizado, na arquitetura pós-moderna há uma série de labirintos que se apresentam de modo diverso para cada fruidor em particular e deste modo, o fluxo nem sempre é previsível.
Fig. 08 e 09 – Mescla de elementos do passado e elementos do futuro: à esquerda torre da cidade de Los Angels de Blade Runner e à esquerda Torre da cidade de Metrópolis
Um leitor mais atento observaria que, na história da arquitetura, construções labirínticas estiveram presentes em outros espaços antigos13, porém é notório que,
enquanto na modernidade a visualização possibilitava o acesso a um espaço organizado, na pós-modernidade, a visualidade não é funcional. Como num labirinto, na cidade de Blade Runner, os signos confundem o fruidor (Deckard) quando este contempla o elemento diverso. Esta característica pode ser observada na seqüência em que o detetive persegue Zhora, uma das replicantes a ser exterminada. Há uma profusão de signos urbanos que não facilitam sua busca. Deckard não consegue ter consciência do espaço que percorre. Como um caleidoscópio, cuja imagem pode ser modificada a cada momento pela disposição de elementos aleatórios, a urbanidade em Blade Runner é o reino do efêmero. Conforme observa Harvey (1992, p. 49): “... o que parece ser o fato mais espantoso sobre o pós-modernismo: sua total aceitação do efêmero, do fragmentário, do descontínuo e do caótico...”
Peirce define a categoria do efêmero, do que é descontínuo, como Primeiridade. A Primeiridade pode ser percebida “como existindo no instante presente se estivesse completamente separado do passado e do futuro. (CP 2:85). Neste presente imediato não é possível haver consciência, pois não há diferenciação entre o “eu” e o mundo. O que temos na Primeiridade é uma qualidade de sentimento, “uma espécie de consciência, ou ato de sentir, sem nenhum “eu” (ibidem). Partindo desse princípio, defendemos a hipótese de que a arquitetura pós-moderna, ao propor uma hibridização entre fruidor e obra, está sob o domínio da Primeiridade. O elemento aleatório que se incorpora na paisagem pós- moderna reflete não mais uma busca por modelos de planejamento em larga escala característico da modernidade.
A impossibilidade de planejamento em larga escala reflete a busca por uma arquitetura mais flexível e adaptável, plural e orgânica, como pode ser observado nos trabalhos desenvolvido pelo grupo Archigram14. Formado por arquitetos interessados em
13 Em relação ao labirinto, Calabrese observa que: “(...) sua representação se desenvolve
historicamente segundo picos de freqüência em que as alturas máximas correspondem a momentos “barrocos” da história: Antiguidade Pré-clássica, Cultura Latina Tardia, Período Alexandrino, Última Idade Média, Maneirismo e Barroco, até chegarmos a certos momentos barrocos do séc. XX. Por outra palavra, onde quer que ressurja o espírito da perda, da argúcia, da agudeza, aí reencontraremos pontualmente labirintos”. (CALABRESE, 1987, p. 146)
discutir arquitetura contemporânea, o primeiro passo dado pelo grupo foi o lançamento de uma revista nos anos 60, cuja linguagem era fortemente influenciada pela linguagem do rádio, da TV e sobretudo dos quadrinhos. A revista consistia em uma bricolagem de fotos e páginas de HQs de ficção científica, que configuravam a cidade do futuro. Por meio da revista, o grupo questionava a arquitetura da época, ao mesmo tempo em que concebia o indivíduo e a satisfação de suas necessidades como a espinha dorsal da cidade pós- moderna e sua relação com o desenvolvimento tecnológico.
Para o Archigram, a casa era um produto de consumo e o indivíduo, sempre em movimento, deveria aprender a “olhar” para o meio urbano. Neste sentido, as HQs de ficção científica constituíam uma fonte de informações importantíssima, pois graficamente, possibilitavam a existência de uma multiplicidade de ações em “lugares diferentes e ao mesmo tempo – o que na vida “real” era vivenciado através do rádio e da TV.” (DUARTE, 1999. p. 95).
A preocupação dos arquitetos com a movimentação humana e com os fluxos de informações também não é exclusiva da contemporaneidade. Na sociedade moderna, o planejamento urbano poderia ser uma solução viável para a atividade industrial ao partir do princípio de que a população urbana, em sua maioria, advinha do campo e tinha objetivos comuns, ao mesmo tempo em que pressupunha consumo e fluxos uniformes. Na sociedade pós-moderna, entretanto, o consumo de bens e serviços indicava a existência de diferentes necessidades e objetivos, e a movimentação humana era fruto da busca por um ideal individual e não coletivo.
A movimentação humana para os grandes centros urbanos é fruto de um processo de migração e sua conseqüente multiplicidade étnica e social. Esta multiplicidade pode ser observada em diversas seqüências de Blade Runner, principalmente nas cenas de rua, nas quais não é possível identificar qual a nacionalidade dos indivíduos que compõem o mosaico urbano pós-moderno. Não só a identificação do indivíduo é dificultada no espaço urbano, mas a própria construção arquitetônica torna-se uma mescla dos mais diversos estilos e nacionalidades, como pode ser observado no bairro chinês que Deckard freqüenta e no qual ele embrenha-se em sua busca pela replicante Zhora. A multiplicidade pós-moderna está sob o predomínio da Primeiridade porque esta
aerograma e o telegrama (gram) . Fonte: DUARTE, Fábio. Arquitetura e Tecnologias da Informação: da revolução industrial à revolução digital. São Paulo: FAPESP, 1999.
é a categoria que relaciona-se às idéias de vida e liberdade que “só podem se manifestar em uma variedade e multiplicidade ilimitadas e incontroladas; deste modo o primeiro torna-se predominante nas idéias de variedade e multiplicidade sem medida.”. (CP
Em Blade Runner, a multiplicidade étnica implica em uma multiplicidade de consumidores. Há uma ênfase na veiculação de mensagens publicitárias direcionadas a um público diversificado. Duarte ressalta que a preocupação pós-moderna em satisfazer esta multiplicidade de consumidores foi captada pelo grupo Archigram e destaca a venda de kits “faça você mesmo”. Estes kits permitiam a transformação das habitações por meio da ampliação de algum cômodo da casa. “Com isso, conforme as mudanças de necessidades ou gosto, as pessoas, individualmente, seriam partes ativas na determinação espacial de seus ambientes” (DUARTE, 1999, p. 97).
A ênfase no indivíduo e a concepção da casa como um ambiente que efetua trocas com o usuário e com a cidade foram contempladas no projeto Living City, desenvolvido pelo Archigram. Este projeto tinha por objetivo expressar a vitalidade da experiência urbana, refletindo sobre os mínimos detalhes que compunham o caleidoscópio da cidade pós-moderna. Na concepção arquitetônica desenvolvida pelo grupo havia um processo fluído entre o sujeito e a obra, esta devendo se adaptar ao indivíduo inserido em uma sociedade em constante desenvolvimento tecnológico.
No signo arquitetônico de Blade Runner, é possível notar uma reconfiguração espacial que nega constituições rígidas. A cidade é um mosaico e a casa, um produto e
interação com o maquínico, nada mais natural do que a arquitetura refletir este processo, no qual não há limites extremamente definidos. Disso decorre que noções como movimento, fluxo e troca tenham um papel fundamental na diegese do filme.
A concepção da cidade como uma rede de trocas e fluxos informacionais entre o homem e o ambiente teve em Peter Cook um de seus maiores defensores. Dando continuidade às primeiras propostas do Archigram, Cook participou do projeto Plug-in- City, uma colagem de diversas propostas, entre elas, o Plug-in-Capsule, que tinha como base cápsulas habitáveis. “O próprio nome remete às cápsulas que vinham sendo utilizadas e desenvolvidas para as explorações espaciais através dos astronautas” (Duarte, 1999, p. 101), porém, para que estas cápsulas pudessem compor uma organização mínima de uma espaço habitável, era necessário que as mesmas fossem acopladas à estruturas maiores em torres fixas que acabaram sendo descartadas no decorrer do processo, dado que a rigidez inerente às mesmas contradizia a proposta inicial de cidades mutáveis.
O Plug-in-City tinha como mote a necessidade das cidades de se formarem como um consumo incessante de elementos capazes de intercâmbio total entre si, de modo que, ano a ano, de acordo com as necessidades e vontades dos usuários, ou de acordo com a moda, a cidade e as casas se tornassem um contínuo intercâmbio de elementos a reconfigurarem a paisagem urbana. (DUARTE, 1999, p. 103)
A idealização da casa como uma máquina habitável que pudesse se adaptar às necessidades do indivíduo tem o seu correlato na confecção de produtos cada vez mais personalizados que contemplavam os mais diversos estilos. Estamos falando de uma arquitetura que é voltada para o mercado e busca satisfazer o desejo do cliente, qualquer que seja o seu gosto. Esta tendência baseia-se em um critério de familiaridade.
“O arquiteto e o projetista urbano pós-moderno podem, em conseqüência, aceitar com mais facilidade o desafio de se comunicar com grupos distintos de clientes de maneira personalizada, ao mesmo tempo que talham produtos para diferentes situações, funções e culturas de gosto.” (HARVEY, 1992, p. 77).
Neste contexto, conforme observa Harvey (ibidem), surge “toda uma nova gama de materiais de construção, alguns dos quais permitindo a imitação quase exata de estilos bem mais antigos (de vigas de carvalho a tijolos climatizados).“. Estes novos materiais permitem que a pós-modernidade reviva temas do passado, ao criar réplicas de estilos arquitetônicos anteriores, como por exemplo, o Richmond Riverside Panorama em Londres que ilustra o classicismo do século XVIII.
O que temos intentado demonstrar até aqui é que a arquitetura pós-moderna estabelece com o indivíduo uma relação fluída baseada nos avanços tecnológicos, ou seja, o signo arquitetônico pós-moderno, ao contemplar o indivíduo, torna-se uma extensão do usuário. Se o usuário tem que se locomover, então os arquitetos idealizam habitações mutáveis. Se o usuário deseja reviver o passado, então os arquitetos passam a utilizar materiais sintéticos para a simulação de períodos anteriores. O que pretendemos demonstrar é que arquitetura e ser humano reinventam-se mutuamente. Trata-se de um processo de retroalimentação baseado no desenvolvimento tecnológico.
Em Blade Runner, é notório que a arquitetura é um signo que representa questões sobre as quais o homem pós-moderno tem refletido em sua interação com as máquinas. A exemplo disto, o apartamento de Deckard é homeostático e o prédio em forma piramidal da Corporação Tyrell reflete o desejo humano pós-moderno de reviver o passado. Se a falta de limites demarcados reflete um “eu” alargado, o mesmo acontece com a cidade que cresce indefinidamente horizontal e verticalmente. É uma cidade sem fronteiras. A área industrial não se localiza fora do espaço urbano. No seio da cidade é possível ainda observar a existência de refinarias de petróleo que soltam labaredas e expelem na atmosfera, resíduos poluentes, ou seja, não há uma área reservada para a atividade industrial nos arredores da cidade, assim como há uma mescla entre o ambiente de trabalho e o ambiente para o lazer, que pode ser observada no apartamento de Sebastian que serve também como laboratório.
Campos (1994, p. 31) ressalta uma outra característica arquitetônica que julgamos interessante observar em Blade Runner: diferentemente da arquitetura de tradição clássica do século passado que permitia distinguir no que se constituía um edifício, a arquitetônica pós-moderna é muito mais complexa em sua função comunicativa e “a mera utilização de uma morfologia arquitetônica antiga ou simplesmente reconhecível pelo receptor tornou mais corriqueira na arquitetura pós-moderna a leitura de imagens do que a leitura de idéias acerca dessas imagens.”.
Fig. 10 e 11 - A arquitetura pós-moderna e a leitura de imagens em um ambiente sem começo nem fim.
Esta afirmação de Campos confirma nossa hipótese de que a diegese do filme que analisamos é predominantemente icônica, portanto sob o predomínio da Primeiridade.
Ainda sobre as imagens pós-modernas, ao citar Jameson, Harvey (1992, p. 57) destaca que a redução da experiência a uma série de presentes puros e não relacionados no tempo implica que a imagem, a aparência e o espetáculo possam ser experimentados com uma intensidade possibilitada apenas pela sua apreciação não relacionada no tempo. Este caráter imediato dos eventos e das imagens que são veiculadas faz com que a pós-modernidade rompa com a ordem temporal das coisas e também
“origine um peculiar tratamento do passado. Rejeitando a idéia de progresso, o pós-modernismo abandona todo sentido de continuidade e memória histórica, enquanto desenvolve uma incrível capacidade de pilhar a história e absorver tudo o que nela classifica com aspecto do presente.” (HARVEY, 1992, p. 57).
A presentidade e a descontinuidade pós-modernas relacionam-se com a Primeira das Categorias de Peirce, pois na Primeiridade o que temos são qualidades de sentimento, sem início, fim ou mudança:
Por sentimento, quero dizer uma instância daquele tipo de consciência que não envolve análise, comparação ou qualquer processo, nem tampouco consiste no todo ou em parte de qualquer ato pelo qual uma parte da consciência é distinguida de outra, que tem sua própria qualidade positiva a qual consiste em nada mais, e que é o que é... Para reduzir esta descrição a uma definição simples, direi que por sentimento,
quero dizer uma instância daquele tipo de elemento da consciência que é tudo que é positivamente, em si mesmo, sem referência a qualquer outra coisa. (CP 1.306)
O signo arquitetônico em Blade Runner contempla esta qualidade positiva sem referência a uma alteridade ao priorizar o instantâneo e o fragmentário. Na diegese do filme, as transformações nas paisagens urbanas são frutos da locomoção de um sujeito que percorre “sob o fio da navalha” as superfícies de um universo efêmero. A ênfase pós- moderna na superfície, assim como a existência de um espaço labiríntico a ser percorrido são precursoras do ciberespaço que será discutido na análise de Matrix. Porém, torna-se necessário discorrermos primeiramente sobre os possíveis interpretantes de Blade Runner, com o objetivo de estabelecermos em que medida Blade Runner gera novos signos acerca da relação humano-maquínico.