Planche n° 01 Une chronique du quotidien (2/2)
III. La visibilité des politiques publiques
3.2. La gestion durable des paysages hors champs
3.2.2. l’observatoire photographique national du paysage (opnp)
Ano – título característica
1839 – O Pensador 1841 – O Escorpião 1850 – O Meteóro
1864 – Diabo Coxo – litografia 1866 – Cabrião – litografia 1869 – O Anhanguera 1873 – A Coruja 1875 – O Fotografo – litografia 1875 – O Coaray – litografia 1876 – O Polichinelo – litografia 1877 – Cipó Lactescente 1880 – O Binóculo 1881 – A Comédia
1881 – Entr’ Acto – litografia
1881 – O Boêmio – litografia 1882 – O Arado 1885 – O Canudo 1886 – O Meteóro 1887 – O Bilontra 1887 – A Farpa 1887 – A Tesoura
1887 – A Vida Semanària – Litografia 1888 – O Escandalo
1888 – O Bisturi 1889 – A Mosca
A partir destas referências, foi possível encontrar grande parte desses periódicos fragmentados, alguns com apenas um único exemplar, outros com três ou quatro exemplares, atentando para suas características específicas como: título, subtítulo, redator, ilustrador, colaboradores, tipografia, tamanho, número de exemplares, periodicidade, etc.
No diálogo com os trabalhos citados sobre as origens da imprensa paulista e na análise dos periódicos, é possível constatar que não estavam claros os critérios que esses autores estabeleceram para definir o que era ou não jornal humorístico. Muitos desses jornais pouco se diferenciavam dos que não eram considerados humorísticos.
Entre 1839 e o final da década de 1850, não encontramos nenhum periódico que se intitulasse humorístico ou satírico. Somente em meados dos anos de 1870 é que começam aparecer folhas que colocavam logo abaixo do cabeçalho a definição de humor, satírico. O Coaracy (1876) possivelmente tenha sido o primeiro a fazer isto.
Nem mesmo O Pensador (1839), considerado o primeiro jornal humorístico de São Paulo, apresentava-se como tal. Ele se colocava muito mais como um jornal de variedades, publicado aos domingos, do que como um jornal exclusivamente de humor, uma vez que trazia o seguinte, como epígrafe:
O vício quase sempre é o efeito da má educação: a educação é o princípio dos bons costumes; e a que nos faz vencer os apetites
desordenados.9
Este título parece mais uma publicação que divulgava idéias filosóficas do que um periódico de humor, por isso mereceu até uma brincadeira de Alcântara Machado que, em suas crônicas, referiu-se ao jornal com um certo tom de ironia:
(...) o primeiro jornal pornográfico de São Paulo sabem como é que se chamava? O Nu piratingano? Não. São Paulo em camisinha de meia? Também não. O gemido do Ipiranga? Também não. Chamava-se O Pensador. Formidável. E muitíssimo significativo.10
No comentário de Alcântara Machado, percebem-se associações ao estereótipo do paulista sério que, de tão sério, até o humor o era. Esta caracterização de O Pensador, como uma publicação de cunho filosófico, parece, pelo menos, em parte adequada. Ao examinarmos uns dos poucos exemplares do jornal hoje disponíveis, constatamos que o artigo principal que, geralmente ocupava a primeira e a segunda páginas, trazia como assunto a inveja e os males que ela causava ou a devoção e os falsos devotos, citando inclusive filósofos como Voltaire.
É certo que, também neste jornal, a sátira aos ritos e aos costumes da igreja Católica produzia textos de cunho mais cômico, de inversão de sentidos, como o abaixo:
Pocissão do enterro do Carmo
Não esteve ruim; cartuchos de doces, amendoados, anjinhos, e mascaradas; Ora que prazer! E o cinturão? ! Oh! Que guapo rapaz... Com que gás na estendia a perna e mandava sua
9
O Pensador, Ano 1, nº 11, 31/03/1839, p. 01.
10
MACHADO, Antonio de Alcântara. Prosa preparatória & cavaquinho e saxofone. (obras V.1). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983, p. 250.
semelhante tragédia é impossível que desempenhassem com tanto entusiasmo como os nossos judeus cristãos. Mas, que diabo trazia o tal Sr. Centurião na cabeça?! Sim, era o espanador dos altares servindo de penacho: ora bravos a lembrança!... Esteve ótimo. E quem eram aqueles outros figurões de saiote? Oh! pois não sabe ? ! Era o Nicodemous e o José de Arimatéia que iam preparar o sepulcro. Os outros eram os faricoces, que acompanharam de antes o Senhor cada um com sua azagaia, e borseguins: E então?!... viva ou não viva a nossa venerável Ordem Terceira do Carmo!!! Que viva... só ela e unicamente ela no século XIX nos podia dar tão bonito espetáculo de mascaradagem no mais tocante ato de Religião cristã.11
Encontramos ainda uma secção denominada de “anúncio”, que na verdade não consistia somente na divulgação de uma mercadoria, mas se apresentava como uma propaganda revestida de ingênua dose de humor, pois, em tom de gozação aos costumes da época, informa que acabaram de chegar à cidade perucas novas para todos os gostos. Como o anúncio que segue abaixo:
Anúncio – Mr. Le Barbier de Seville, novamente chegando a
esta cidade, faz saber que ele traz cabeças novas com cabelos penteados por novo idioma, faz novos regos de liberdade por outro sistema, topes de tolice, gafoinas de macaco para Padres, e seculares, e convida a todos os srs. que não tem a bola no lugar, ou carecem de aduela, queiram servir-se do seu préstimo, que o fará por preço cômodo. – Ai, ai que nos arde à pele! ! fora com semelhante anúncio.12
11
O Pensador, Ano 1, nº 11, 31/03/1839, pp. 02-03;
12
É interessante observar que a combinação humor e com narrativa do anúncio era inédita neste momento, pois eram raras as publicações que dispunham de espaço para anúncios de mercadorias e muito menos atreladas ao humor. Esta prática será bastante utilizada em finais do século XIX, principalmente na Belle Époque e nos períodos seguintes.
No mesmo exemplar do jornal, encontramos ainda os dois anúncios bastante provocantes para a época, o que tenha talvez dado a fama de pornográfico e obsceno. O primeiro trata da recuperação e aptidão para o serviço de certa Maria dos bons-olhos, provável prostituta da cidade.
Sra. Maria dos Bons-olhos faz saber a seus apaixonados que se acha melhor dos calos e bichos arruinados, que a pouco sofreu, que lhe motivaram a andar de dia pelas ruas desta cidade com o sapato achinelado: e bem assim de não sair de noite com a capa de homem, e chapeuzinho de palha, visto que semelhantes trajos têm dado aos olhos da autoridade policial que não quer deixar passar gato por lebre, e a sobre dita tem sido muitas vezes comida por homem. 13
Em um outro anúncio, já um pouco mais sutil, fala-se do profissionalismo de um dançarino, Mr. De La Comba, residente no interior de São Paulo e que poderia vir a São Paulo, onde teria muitos aprendizes. Observem o texto:
– Mr. de La Comba, primeiro dançarino do Real Teatro de S. Carlos, atualmente reside na Vila de São José, onde, com admiração de todos, tem dado exercício a sua profissão. Promete vir dar aula de danças nesta cidade logo que o número de aprendizes seja tal que lhe prometa vantagem. Por isso, todos aqueles Srs. que se quiserem aproveitar de tão bom –
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do Hotel do Café com Leite – para lhe serem entregues.
O anúncio parece com os de oferta de serviços. Contudo deve-se levar em conta que a profissão de dançarino, assim como de artista de um modo geral, não era bem vista pela sociedade e, muitas vezes, associada à prostituição. Mas o que causa mais espanto é a abertura do jornal a estes novos conteúdos que serão amplamente trabalhados pela imprensa, principalmente no final do século XIX e durante o século XX.
Por causa da incorporação desses novos conteúdos, é provável que o jornal tenha sofrido algum tipo de represália e reagido a ela de forma crítica, conforme podemos constatar no texto abaixo:
Anúncios
Compra-se por todo custo alguns centenares das críticas, e mordacidades que correm por aí contra o Pensador: os que em seu poder tiverem, e quiserem vender podem depositá-los no arquivo das tolices, porque de certo não terão coragem de aparecer com estas ridicularias que indicam que os tais acham- se incursos em algumas das inocentes críticas desse periódico. Bem, assim aos Srs. que tomam o trabalho de andarem por aí falando, e escrevem roga-se que redação tudo o que dizem a escrito para se poder apreciar tão boas lembranças, e galanteria. 15
Pelas poucas informações que conseguimos obter, O Pensador não seria propriamente dito um jornal humorístico, mas uma publicação que abria espaço para narrativa de humor e de ironia. Tratando de assuntos até então pouco trabalhados pela imprensa, estando engajada a maioria nas lutas
14
O Pensador, ano 1, nº 13, 14/04/1839, p. 04.
15
partidárias da Regência, por estar voltado ao público masculino, o jornal constituía-se como uma leitura que não era nem de sala e nem de gabinete. É interessante indicar que esta narrativa, principalmente os anúncios, aproximar- se-iam das fórmulas usadas por jornais como o Diabo Coxo e outros de variedades. Observem as semelhanças dos anúncios do Diabo Coxo:
Anúncios Atenção
Na rua mais populosa Desta cidade imperial, Num prédio de cor de rosa, Com portão especial;
Há pra vender – que lindeza! A preço de quatro notas, Vindos de terra francesa
– Cinco cágados com botas. Lembramos no ilustrado Que aproveitar a ocasião De ir ver ao prédio indicado Os cágados em questão.
---
Perdeu-se uns pés de burro. Desconfia-se que alguém os ande ocupando. Protesta-se contra o indivíduo, e promete-se declarar o nome se não os restituir ao dono16.
Portanto, estas adjetivações de “pornográfico”, “obsceno”, “violento”, como já discutimos, estão muito mais ligadas ao estereótipo do tipo “humor sadio” e o “humor grosseiro” que à descrição desse jornal em si. Estes “anúncios” publicados pelo O Pensador e, posteriormente, por outros jornais, como o Diabo Coxo e o Cabrião, trazem temas e personagens ligados ao quotidiano dos paulistanos, trabalham com a inversão de sentidos, incorporam
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sátira, improvisando e surpreendendo com as narrativas do reclame, novidade na vida pública.
Conforme a pesquisa feita, este é um fato inédito na história da imprensa em São Paulo, pois os pasquins já tinham utilizado formas e linguagens semelhantes, mas apenas no âmbito da política partidária. O diferencial é que O Pensador busca no quotidiano urbano e na crítica de costumes outros conteúdos e outras formas de linguagem, saindo do formalismo acadêmico, muito “sério” e sisudo.
Acredito que esse processo de busca de outros conteúdos e formas de linguagem tenha levado a historiografia clássica e muitos memorialistas a rotular de “pornográfico”, “obsceno”, como declara Délio Freire dos Santos, justamente por fugir dos padrões culturais das elites letradas.
Do periódico O Escorpião, foi encontrado apenas um exemplar, de 1841, o que dificultou uma análise mais profunda. Freitas o considera um “jornal mordaz e satírico”,17 porque estava ligado ao Partido Liberal e utilizava o humor como instrumento de disputas partidárias, tendo sido criado para contra-atacar dois importantes periódicos contemporâneos: A Fênix e O Guarda Nacional, que atacavam os Andradas.
Para Santos, O Escorpião era “considerado um periódico de ferrão agudo, penetrante e venenoso... para o tempo, como seu próprio nome indicava”.18 No cabeçalho do jornal, lê-se a seguinte epígrafe:
O Escorpião
Sou bixo mui venenoso
Mato quase de repente;
17
FREITAS, Afonso E. de. . A imprensa periódica de São Paulo. Revista do Instituto Histórico e
Geográfico de São Paulo, São Paulo, V.19, p. 400, 1914. 18
Garimpeiros, tende medo
Do veneno de meu dente
Do Dr. Largatixa 19
Em seu primeiro exemplar, comentando as eleições municipais, afirmava que:
Está enfim chegada à quadra das eleições, e é justo que o nosso Escorpião vá mordendo nos fatos, que se presumem com direito a poleiro no sagrado recinto da representação provincial. Eleitores, hoje mais do que nunca, cumpre fazer uma escolha, que vos possa ser útil para o futuro. E vacilareis um momento na escolha? Será muito difícil decidir entre os Tobias, Franças, Santos, – e os Pachecos, Carvalhos e Falcões?20
Do mesmo modo que O Pensador, o Escorpião não apresenta nenhuma legenda que o defina como de humor; entretanto, contém uma linguagem muito mais combativa, inserida nas disputas partidárias, o que indica que havia sido criado para tal empreitada. Não encontramos elementos que justificassem a denominação de humorístico; parece, sim, um jornal que buscava novas narrativas, em que o humor estaria incluído.
No ano seguinte, em 1842, aparece O Tebyreçá, jornal liberal, redigido pelo deputado liberal Joaquim Pinto Júnior, o genestroque. Apesar de não ser um jornal humorístico propriamente dito, eventualmente publicava versos humorísticos. O Tebyreçá foi vítima de um processo movido pelo Barão de Monte Alegre, então presidente da Província, devido ao jornal ter lançando um violento artigo, acusando-o de mentiroso e tirânico, por causa da criação do Conselho de Estado e da lei das Reformas Judiciárias. O promotor público, Francisco José de Lima, acatou a acusação do Barão, porém, para amenizar os ânimos, sugeriu na primeira audiência uma pena branda ao jornal,
19
O Escorpião, Ano 1, nº 01, 31/08/1841, p. 01.
20
muito cuidado, visto que, apertando-se muito, pode morrer!”.21
O Tebyreçá, em reação ao processo movido pelo Barão de Monte Alegre e ao fato de o Promotor ter acatado a ação do mesmo, publica esta quadra satírica22:
REQUERIMENTO
Olá sinhô promotô Da Bahia Ioiôsinho !! Quero pedir-lhe um favo Não martrate o passarinho!!!