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3. L’ANTIPSYCHIATRIE, DE L’INTERNATIONAL AU LOCAL : LE CAS DE GENEVE

3.4. L ES REMISES EN QUESTIONS : P SYCHIATRIE , CRITIQUES ET LUTTES A G ENEVE

3.4.4. L’hôpital psychiatrique et la sectorisation

A receptividade do primeiro álbum62 orientou o caminho que a cantora seguiu no segundo, Like a Virgin (Sire, 1984), no qual a rebeldia estilizada daria lugar a personagens e canções pontuadas por ironia, bem como a performances mais provocadoras. Foi com esse

62 Em setembro de 1983, o crítico da revista Rolling Stone, Don Shewey, chama atenção para a voz de Madonna,

que, na sua opinião, parecia emitir um “soluço de menina irritante”, mas com o qual se acostumara e que, sem ultrapassar as modestas ambições do funk mínimo, acabava sendo “um irresistível convite para a dança”. Disponível em: < http://www.rollingstone.com/music/albumreviews/madonna-19830929>. Acesso em: 31 jan. 2017.

FIGURA 2 - Capa do álbum "Madonna" (1983)

disco, produzido por Nile Rodgers, que Madonna adquiriu projeção fora dos Estados Unidos. A aproximação com o produtor e guitarrista da banda Chic resgatou a sonoridade disco, atualizando e, ao mesmo tempo, ampliando seu raio de abrangência no mercado. O mesmo acontecera a David Bowie, no ano anterior, quando se uniu a Rodgers para produzir o álbum

Last dance (1983), trabalho que marcaria seu retorno ao mercado americano, após um período

musicalmente experimental na Alemanha.

As canções Like a Virgin e Material Girl (1984), que lhe renderam o primeiro e o segundo lugares na parada principal da Billboard63, entre os anos de 1984 e 1985, pelos videoclipes exibidos pela MTV, foram responsáveis por eternizar duas das personagens pelas quais Madonna seria reconhecida até a atualidade: a noiva sonhadora de Like a Virgin e a garota supostamente interesseira, vestida de Marilyn Monroe, de Material Girl. Os vídeos marcaram não apenas figurinos que seriam copiados durante décadas, mas um jogo performático singular no pop, capaz de redefinir o modelo de negócio da indústria e, ao mesmo tempo, acionar reflexões a respeito de aspectos sociais e políticos da época.

“[...] no início dos anos 1980, quando o espírito yuppie64 do jovem empreendedor que valorizava a ganância e a ambição estava emergindo, a música foi como um toque de trombeta. Ronald Reagan estava no comando da Casa Branca, ombreiras e

tailleurs eram a última moda, e o universo hippie, alternativo, tinha sido colocado

tão à margem que estava prestes a desaparecer. (O’BRIEN, 2008, p. 115)

A partir do álbum Like a Virgin, Madonna, cuja carreira até então ainda não figurava entre as prioridades da Sire/Warner, encontrou no videoclipe a ferramenta de marketing mais eficiente para promover seu trabalho e as transformações visuais que empreendia a cada

single lançado. Com a ascensão da MTV, uma nova gramática do audiovisual foi incorporada

às estratégias de mercado das majors, atualizando a forma de se usar a televisão como suporte de divulgação de seus produtos musicais. Se antes adquiriam emissoras de TV e rádio, facilitando a publicidade de seu casting, a partir dos anos 1980, as gravadoras se veem obrigadas também a se adequar à nova linguagem proposta pelo modelo lançado pela MTV.

É também em 1985 que a cantora sai em turnê – The virgin tour – pela primeira vez, apresentando-se durante dois meses, nos Estados Unidos e no Canadá. Apesar do show ainda ser bastante rudimentar para o padrão que Madonna consagraria no futuro, a estrutura embrionária de seus espetáculos estava ali: uma narrativa costurada por blocos de músicas

63Billboard: Madonna chart history. Disponível em:

<http://www.billboard.com/artist/308786/madonna/chart?page=5&sort=date&f=379> Acesso em: 10 nov. 2016.

64 Palavra derivada da sigla inglesa “YUP” (Young Urban Professional, “jovem profissional urbano, em

português), usada para designar jovens com formação universitária, de classe média e alta, ambiciosos, conservadores, que trabalham intensamente em função de acumular maior renda e status.

identificados por várias trocas de figurino, banda completa, bailarinos, coreografia etc. A essa altura, já havia uma leitura por parte da artista e da Sire/Warner de que a triangulação entre álbum fonográfico, videoclipes e grandes espetáculos parecia ser a base sobre a qual deveria se sustentar a carreira de Madonna, além das performances impregnadas de ambiguidade, exagero e ironia direcionadas às normatividades sexuais. Do ponto de vista mercadológico, o pop do qual Madonna fala diz respeito a um modelo cristalizado na indústria, por ela e por outros artistas de sua geração, como Michael Jackson, Prince e Cyndi Lauper. A cada álbum, uma nova persona, um novo conceito e diferentes questões são ancoradas no tripé formado pelo registro fonográfico, o videoclipe e o show65. O pop feito por ela, portanto, tem menos a ver com um virtuosismo específico e mais com o conjunto de práticas que se aglutinam em função do jogo performático comandado em diferentes instâncias.

É importante sublinhar que o surgimento da cantora aconteceu quando a identidade dos jovens estava sendo reformulada em meio a um momento político conservador nos Estados Unidos (KELLNER, 2001, p. 339). Naquele momento, Ronald Reagan presidia o país, pelo Partido Republicano, permanecendo no cargo por dois mandatos consecutivos, entre 1981 e 1989. Conservador, propôs uma emenda constitucional pela obrigatoriedade das orações nas escolas, além de iniciar uma guerra contra as drogas, em que punia inclusive usuários, multiplicando a população carcerária do país. Também sob seu governo, os EUA estiveram presentes em diversos conflitos armados no Oriente Médio, a exemplo do Líbano e da Síria. A música popular massiva oferecia, então, um terreno lúdico e, ao mesmo tempo, de ressonância para refletir culturalmente o que se passava no país e no restante do mundo, por meio de articulações contínuas entre o real e o ficcional. No caso de Madonna, seu aparato estético-discursivo lançou luz sobre questões políticas, ligadas sobretudo a gênero, na medida em que sua obra celebrou a aliança entre indústria, expressão musical, sexualidade e subjetividade.