Como já referimos anteriormente, a valoração da escrita pessoal e íntima é também atestada pela maior atenção que foi sendo concedida à correspondência trocada nomeadamente entre pessoas de cultura. Esta importância da escrita epistolar tem-se manifestado na ampla recolha e publicação de trocas epistolares. No caso português, esta recolha (até por razões de caráter prático) acentuou-se a respeito das trocas de correspondência ocorridas nos finais do século XIX32 e desde então até à
31 “Ninguém é obrigado a escrever um livro.” – afirmou Bergson. Pierre-Jean Labarrière parte desta
asserção para contrapor que “a expressão é uma necessidade”, e tão só porque “nada de interior pode impor-se imediatamente, sem se comprometer, de uma forma ou de outra, no jogo da comunicação. O assomo da exterioridade é, então, condição sine qua non de todo o exercício do pensamento.” (Labarrière, 2000: 187).
32 Evoquemos aqui aquele que é seguramente reconhecido como o nosso maior escritor das últimas três
décadas do século – Eça de Queirós e a sua Correspondência de Fradique Mendes. Eça, para nos dar a conhecer a personalidade de Carlos Fradique Mendes, dá-nos a ler as suas cartas. Apesar de tratarem de
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atualidade. Escolhendo como exemplos apenas algumas obras de autores do século XX, foram publicadas e divulgadas a correspondência entre Jorge de Sena e José Régio; deste com Agustina Bessa-Luís ou com Álvaro Ribeiro e daquele com Sophia de Mello Breyner Andresen, e também com Eduardo Lourenço, com Raul Leal e com João Gaspar Simões; foram publicadas obras como a correspondência de Fernando Pessoa e, mais especificamente, recolhas da troca epistolar deste com Mário de Sá-Carneiro, o seu trágico companheiro d’Orpheu.
Refira-se ainda que este período de finais do século XIX e inícios do século XX pode ser entendido como um tempo de “gestação” e posterior criação, edição e publicação dos diários de autores portugueses. Na verdade, a edição de diários de autores portugueses só virá a acontecer no decorrer do século XX, mas, culturalmente, foi sendo preparada de mais longe, pela crescente valorização do discurso pessoal que se foi corporizando na já referida maior atenção dada ao universo dos registos do discurso epistolar. Esta imprecisa datação é extensível à literatura europeia, na medida em que, como nos assegura Braud (2006), recuperando afirmações de Rannaud (1978), as últimas décadas do século XIX assistem à emergência do diário como género literário, sendo que esse é também o momento mais” agudo da crise da representação romanesca aberta por Flaubert. Aspetos como “le héros sans grandeur, l’absence de composition narrative, la réduction de la trame à celle d’une existence, l’intérêt pour la sensation” (Braud, 2006: 281- 282) caraterizam essa crise romanesca, aberta pelo autor da L’éducation
sentimentale, e vertem-se na valorização da escrita quotidiana que dá corpo
ao diário. Mesmo dentro do próprio universo romanesco (ficcional) surpreendemos manifestações desta valorização da correspondência, a qual, enquanto ato de escrita pessoal, íntima e, simultaneamente, dialógica, abre
assuntos vários e dos seus diversos destinatários, une-as a personalidade que as cria e que o leitor deve desvendar, à medida que vai avançando no conhecimento desse discurso epistolar.
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os horizontes à compreensão da complexa individualidade humana e das suas relações com o(s) outro(s) e o mundo. A queirosiana figura de Fradique Mendes e a sua correspondência são bem exemplificativos do reconhecimento que progressivamente se vai dando a esta forma de comunicação e de expressão de uma individualidade, além de também concorrer para o reconhecimento do discurso epistolar como forma de criação literária.
Por outro lado, confirmando a existência de uma certa afinidade entre estes dois géneros de escrita, podemos referir a frequência com que os diaristas, nomeadamente quando adolescentes/jovens, adotam o registo epistolar para procederem à escrita do seu diário. Como será explicitado posteriormente, este recurso à escrita epistolar é procurado pelos jovens diaristas como um fator de desbloqueio da dificuldade de escrita. Além disso, cria a ilusão de um ato comunicativo (mesmo que o destinatário seja pura ficção). Sobre esta encenação dramática de um «tu» (destinatário epistolar) refletiremos mais adiante, aquando da análise de diários publicados no âmbito da literatura infantil. Por agora podemos, tão só, apresentar aqui alguns exemplos que, como referido, serão retomados e analisados com maior atenção na última parte deste trabalho. O primeiro desses exemplos pode ser O diário de Anne Frank, o qual é um caso significativo pela relevância – quase mítica – que histórica e socialmente lhe reconhecemos. A partir da entrada datada de 20 de junho de 1942, Anne Frank decide escrever o seu diário sob a forma de cartas dirigidas a Kitty. O mesmo acontece com Zlata Filipovic, que escreve um diário durante o cerco e bombardeamento de Sarajevo e que, imitando Anne Frank, depois das primeiras entradas, também decide dirigir-se ao seu diário como quem escreve cartas a uma amiga. Zlata, depois de alguma ponderação, escolherá o nome Mimmy. A um outro nível, temos dois exemplos muito conhecidos no âmbito da nossa literatura preferencialmente destinada a um público adolescente/jovem: são os casos
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de A lua de Joana (Gonzalez, 1994) e de Diário cruzado de João e Joana (Magalhães e Alçada, 2000). São dois diários ficcionais. O primeiro é constituído pelas cartas de Joana a Marta, com exceção de uma pequena passagem final (de caráter epilogal), em que uma voz narrativa de caráter heterodiegético nos coloca num momento posterior ao da morte da autora das cartas. O segundo é todo ele escrito a partir de uma troca de cartas entre os dois jovens cujos nomes são explicitados no título e que, sendo colegas de escola, se encontram separados durante o período de férias.
Por fim, sobre este tópico, temos de referir que, no diário de autores adultos, também é frequente a inclusão de cartas. Régio, por exemplo, chega a problematizar o caráter ético desta inclusão, no seu diário, da correspondência que troca com outras pessoas. O autor dos Poemas de Deus
e do Diabo afirma:
Bem sinto, dolorosamente, que há uma espécie de indelicadeza, impudor, indiscrição, em se transcrever num diário as cartas que se escreve: um impudor a que talvez eu não tenha direito, porque não estou só em causa. Todavia, como poderei manter um diário senão impudico? Senão indiscreto? Além de que a indolência e a falta de tempo nem sempre me permitem deixar transcritos doutro modo os meus sentimentos ou ideias. (Régio, 2000: 144)
Régio foi “respondendo” a esta inquietação com a firme vontade de manter secreto o seu diário. Porém, e não obstante o facto de esta intenção de manter em segredo o diário ter sido cumprida em vida do poeta, ele sabia de antemão que era grande a possibilidade de, no futuro, o diário vir a ser publicado – daí o seu mal-estar. Da citação acima feita, queremos, todavia, destacar a afirmação de que as cartas servem o mesmo propósito que preside à manutenção da prática diarística - o registar “os meus sentimentos ou ideias”.
A leitura de diários de distintas épocas e de autores de diferentes idades leva-nos a salientar que a recorrência a práticas epistolares no âmbito da
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escrita diarística é muito grande. Ela ocorre, por exemplo, em situações ficcionais em que se procede a uma “simulação” de situações epistolares. Noutras situações ocorre pela inclusão de correspondência que realmente circulou entre o autor e outras pessoas da sua relação pessoal ou socioprofissional. Esta constatação implica pensarmos a dialética que, no âmbito das práticas de escrita diarística, se instaura entre a necessidade de fechamento e de abertura na relação do sujeito com o mundo. É o eterno des(encontro) entre o mundo íntimo e a dimensão social e relacional do homem.
Anne Frank afirma, quando ainda não está fechada/refugiada no anexo, que a razão de escrever um diário é que não tem um verdadeiro amigo. O diário é, pois, um companheiro que mais tarde se assumirá como um «tu» a quem Anne escreve as suas cartas. Neste âmbito é relevante a situação criada em O caderno vermelho da rapariga karateka (Ana Pessoa, 2012), em que, para além do relevante jogo que se cria em relação à forma de tratamento discursivo usada pela diarista para “falar” com o seu caderno, é ainda muito curioso o facto de a narradora-personagem “vivificar” o seu diário: este não é apenas um “tu” evocado pelo discurso diarístico, na medida em que se comporta como um ser vivo. Assume assim, plenamente, o papel de uma personagem que, ao longo da narrativa, realiza surpreendentes ações e que estabelece uma relação muito peculiar com a narradora-diarista:
Este caderno não é um caderno. É outra coisa.
Uma personagem, uma pessoa de verdade.
Tem vida própria, vontade própria. (Pessoa, 2012: 31)
Mais adiante, a diarista acrescenta “Querido caderno, hoje, quando cheguei ao meu quarto, dei contigo pousado à janela” (p. 35). Esta citação exemplifica como a escrita diarística encena, muito frequentemente, um “tu”, instaurando um processo dialógico que carateriza a escrita de cartas. Fácil é aceitar que a escrita diarística, não obstante esta encenação, é uma escrita
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que se gera e que, por norma, se pretende manter na intimidade, instaurando- se como um registo da vida que o sujeito pretende guardar para si. É com base nesta premissa de secretismo que se reconhece à escrita diarística um elevado grau de sinceridade.