• Aucun résultat trouvé

Husserl : conscience constituante et intersubjectivité

Dans le document La performance, encore (Page 88-94)

Pouco ou quase nada se sabe sobre Calcídio, não obstante a marca profunda que a sua obra veio a imprimir na filosofia ao longo da Idade Média. Desconhece-se, exatamente, a sua origem, lugar de nascimento e passos principais da sua vida, os locais ou escolas que terão contribuído para a sua formação e, ao certo, o próprio século em que viveu. As posições dominantes afirmam que terá sido por volta do século IV, provavelmente em Itália ou, mais remotamente, na Hispânia.

Mas a sua importância deveu-se, como é do conhecimento comum, ao facto de ter traduzido uma parte significativa do Timeu de Platão e de o ter comentado. Também aqui alguns enigmas subsistem, como o que emerge da dificuldade em explicar a razão pela qual, numa época em que o neoplatonismo já dava cartas, Calcídio assume posições medioplatónicas.

Esta obra irá, contudo, ser a pedra angular do conhecimento do Timeu ao longo da Idade Média Cristã do Ocidente, já que é a única que lhe dá acesso. Embora a tradução não seja integral, o Comentário ao Timeu alude a partes não traduzidas, designadamente naquilo que se refere às cores, demonstrando que o autor tem um conhecimento integral do texto comentado.

Calcídio exibe o convívio com os autores antigos, ao descrever as doutrinas de atomistas, de matemáticos, de estoicos e de médicos. Debruça-se sobre os diversos tipos de visão, a direta e a mediatizada por superfícies espelhadas, descrevendo-as, bem como sobre as imagens produzidas e avistadas durante o sono.

Aprofunda a opinião de Platão, que naturalmrnte subscreve e descreve, afirmando que, segundo este autor, a causa fundamental da vista é a luz interior quando afirma que dos olhos nasce uma luz límpida e pura, a parte mais nobre do fogo existente em nós e que tem parentesco com a luz do Sol. Esta luz interior é auxiliada pela luz externa na tarefa da visão, já que o homem não pode ver apenas com a luz interior, como acontece no escuro, durante a noite, quando o Sol se retira. A luz interior auxiliada e reforçada pela luz exterior torna-a capaz de ver as cores dos corpos que são uma espécie de chama que atravessa a sua superfície.

Há pois três elementos369 que concorrem para a visão: a luz do fogo interno que passa

através dos olhos, e que é a causa principal, a luz externa, parente da luz interior, que opera em conjunto e que com ela colabora e ainda a chama ou cor proveniente dos corpos. Sem a intervenção destes três fogos a visão não é possível. A união das duas luzes (interior e solar) forma um só corpo que propagando-se em linha reta, entra em contacto com a luz que sai dos objetos, imagem contígua, e forma um corpo de visão composto pela cor e formato observado que de imediato é remetido para a alma, provocando a sensação de ver.370

Para provar a teoria platónica socorre-se do testemunho dos médicos e dos fisiologistas, relatando de que forma investigaram o interior do aparelho da visão e comprovaram as semelhanças de forma entre o sol e o olho humano.371

Reforça, na esteira platónica, a superioridade da visão face aos outros sentidos dado conduzir à contemplação das coisas imortais e à observação das coisas mortais, sendo, portanto, essencial para a aquisição da filosofia.372

A tradução de Calcídio e o respetivo Comentário ao Timeu foram, durante a Idade Média, o veículo fundamental das teorias da visão de Platão, tendo determinado até aos finais do século XII muitas das conceções teóricas sobre a matéria. Tal não aconteceu, porém, sem a intervenção do cruzamento de outras visões de cariz neoplatónico como a de Agostinho (Livro XI, De Trinitate).

O cruzamento das influências estoica, médica, bem como a doutrina augustiniana do processo da visão e o texto de Calcídio, irão perdurar até ao século XII, período em que o acesso às conceções e acervo cultural árabe irão dar um novo impulso ao problema.

1.4. A Margarita Philosophica de Gregor Reschius e a divulgação da ótica no século XVI europeu

A partir do século XIII, os estudos de Ótica tiveram grande incremento, tendo esta disciplina passado a ocupar a parte central de muitos cursos universitários. Demos disso notícia aquando do estudo da luz e da cor, onde também relevámos os trabalhos de Grosseteste, Bacon, Peckham e Vitélio, não esquecendo Alberto Magno, Buridano, de entre os que mais citámos, e que dedicaram parte significativa das suas investigações aos problemas suscitados pela ciência Ótica, não obstante as diferenças doutrinais próprias de cada um.

A preocupação pela descoberta da natureza física decorrente do conhecimento integral da obra aristotélica, que paulatinamente se vai instalando, também convidou ao

369 Calcídio, In Platonis Timaeum Commentarius, CCXLV, (ed. C. Moreschini, p. 516). 370 Ibidem, CCXLVIII, pp. 520- 523.

371 Ibidem, CCXLVII, pp. 518-520. 372 Ibidem, CCLXIV, pp. 514.

desenvolvimento da Ótica, designadamente da Ótica geométrica, ponto onde se encontram os filósofos Perspetivos e que marcou significativamente este período. Nunca antes, a investigação sobre lentes e instrumentos que ampliam e aperfeiçoam a visão teve tanto desenvolvimento.

O aristotelismo galenizado, ainda que frequentemente imbuído de influências neoplatónicas, por via dos árabes, os grandes transmissores ao ocidente cristão desta ciência, marcou, sobretudo pela mão de Alhazen, o início dos trabalhos de muitos autores, como os acima citados, e veio imprimir um cunho muito especial à forma como estes saberes foram divulgados e à temática central que foi assumida como integrante da ciência Ótica.

Há um facto irrefutável: foi graças ao impulso que a Ótica teve a partir do século XIII, na Europa, que foram possíveis certas descobertas no campo da natureza física, como o impulso das navegações, o estudo dos céus, constituindo estes estudos pedras basilares onde se alicerçou aquilo a que, mais tarde, se chamaria, não sem alguns equívocos, de “ciência moderna”.

Atendendo a que, como já referimos, fomos dando notícia dos principais autores deste período, ao longo do nosso trabalho, reservamos este ponto para apresentar um exemplo representativo do espírito do século XVI, do seu caráter universalista e, ao mesmo tempo, portador de um certo enciclopedismo que de algum modo caracterizou o Renascimento.

Referimo-nos a uma obra de larga difusão que também foi conhecida entre nós, e que constitui um espelho do seu tempo: Margarita Philosophica, rationalis, moralis, philosophiae

principia, duodecim libris dialogica complectens, olim ab ipso autore recognita: nuper autem ab Orontio Fineo Delphinate castigata et aucta, una cum appendicibus itidem emendatis, et quamplurimis additionibus et figuris, ab eodem insignitur. Quorum omnium copiosus index, versa continetur pagella, de que consultámos a edição de Basileia de 1535.373

Trata-se de um trabalho de Conradus Reschius. Este autor nasceu em 1470, em Balingen,Wurtemberg. Morreu em Freiburg, Baden, em 9 de maio de 1525. Frequentou a Universidade de Freibourg-im-Breisgan em 1487 como clérigo da Diocese de Constança. Obteve o grau de bacharel em Artes em 1488 e o grau de mestre em 1489/90. Em 1496 ingressa na Ordem dos Cartuxos de que se torna prior em 1502. Escreveu a Margarita entre os

373 Não obstante esta obra ter larga difusão não podemos afiançar que os Jesuítas de Coimbra do

século XVI a tivessem conhecido. Contudo a obra encontra-se no acervo da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Margarita Philosophica, rationalis, moralis, philosophiae principia,

duodecim libris dialogica complectens, olim ab ipso autore recognita: nuper autem ab Orontio Fineo Delphinate castigata et aucta, una cum appendicibus itidem emendatis, et quamplurimis additionibus et figuris, ab eodem insignitur. Quorum omnium copiosus index, versa continetur pagella, Basileae,

anos de 1489-1496 que teve múltiplas edições desde 1503.Reschius privou com Erasmo, de entre outros vultos do seu tempo.374

A obra está escrita em forma de diálogo entre professor (Magister) e aluno (Discipulus) e pretende reunir num só volume, todo o conhecimento necessário ao aprendiz. Não obstante uma pequena incursão fora do tema específico deste ponto, decidimos aqui dar notícia dela, devido ao seu interesse para a contextualização do estudo da Ótica, tal como era de facto divulgada, bem como arauto ilustrativo do espírito do tempo.

O Índice dá-nos notícia das matérias agrupadas na Margarita, de acordo com:

Trivium, Quadrivium, Naturale, Morale. No final, encontram-se em apêndice aos sucessivos

livros vários tratados, sendo que na sua maioria pertencem a autores distintos.De entre estes, deparamo-nos com um tratado de Perspetiva, em apêndice ao Livro X, lugar de estudo da alma vegetativa e sensitiva:

Appendix In X lib scilicet in II Tractatum Caroli Bouilli Samarobrini, Introductio in scientam Perspetivam.

Estamos perante um tratado de ótica geométrica, ao jeito da Perspetiva Communis de Peckham, recheado de esquemas geométricos sobre raios, reflexão, refração da luz, raios incidentes e saídos do olho humano, segundo a Perspetiva e não de acordo com as representações que os médicos fazem dos olhos e que essas sim, estão patentes no corpo central da Margarita.

Também ao jeito de Peckham, as definições apresentadas encontram-se numeradas, e, como seria de esperar de um tratado, não se encontra escrito em forma de diálogo.

Apresenta em sumário o índice das definições: visus, visibile, videndi medium,

visibilis species, visualis radius, speculum, visus simplex, compositus rectus, obliquuus, integer, fractus, lux, umbra, color, magnitudo color, extremus, medius, albedo, negredo, puniceus, flavus, viridis, purpureus, magnitudo, punctus, linea, superficies, corpus, speculum concavuum, convexum, planum.

Quanto ao Livro X, propriamente dito, ocupa sessenta e cinco páginas, das quais nove são dedicadas à alma sensitiva. O Livro XI trata da alma intelectiva, dedicando-lhe cento e duas páginas. Verificamos, contudo, que o tratamento da alma intelectiva inclui a alma separada do corpo, depois da morte física, contrariamente ao que acontece no Curso Jesuíta Conimbricense, onde o estudo destas matérias se encontra dividido por obras diferentes, como vimos na primeira parte deste trabalho.

374 Vide, sobre a vida e obra de Reschius, Gregor Reisch, Natural Philosophy Epitomised: Books

8-11 of Gregor Reisch’s Philosophical Pearl (1503), translated by Andrew Cunningham and Sachiko

Assim, no Livro XI da Margarita encontramos discussões sobre o limbo, o purgatório, o inferno e as penas que aí são aplicadas, descrição sobre o tipo de sofrmento infligido às almas pecadoras, tudo acompanhado de imagens sugestivas. Alíás, todo o volume beneficia das maravilhas da imprensa recém-criada que pode difundir massivamente imagens, o que até aí era muito difícil.

Os Capítulos VI, VII, VIII,IX, X, XI, XII, XIII e XIV do Livro X, são desdicados à visão e a matérias relacionadas: A excelência da visão, o objeto da visão, lux, lumen, cor, espécies visivas, a espécie da cor, cores médias e extremas, geração das cores, o órgão da visão, as túnicas que compõem os olhos, os humores que os integram, o meio adequado á visão, os objetos que se veem de dia e de noite, os raios visuais, a reflexão e a refração da luz, os espelhos e a sua problemática, como se processa a visão, de entre outros.

Anotamos que, curiosamente, em nenhum dos longos e descritivos títulos dos catorze capítulos aparece a palavra diaphanum ou perspicuum, o que é, quanto a nós, uma ausência significativa.

Os principais autores citados são sobretudo: Agostinho (De Trinitate), bem como a Sagrada Escritura e o Padres da Igreja. Avicena também é constantemente chamado à colação e, no campo da Ótica geométrica, da ciência da Perspetiva, é citada a Perspetiva Communis, atestando que esta obra de Peckam foi a grande difusora, ao tempo, da doutrina dos Perspetivos, no campo do ensino. Aristóteles, ainda que muito tratado é poucas vezes nomeado por comparação a Agostinho. Se é um facto que a ciência ótica já tinha incorporado o aristotelismo galenizado por via de Alhazen, também é verdade que Aristóteles, para este monge cartuxo, mais sensível a Agostinho, não é acolhido da mesma forma que acontece com os jesuítas, ou seja, como referência.

Damos notícia desta obra, como dissemos, como testemunho do tempo e acentuamos aqui o interesse em estudá-la, nos mais diferentes domínios a que ela se dedica na sua prolixidade enciclopédica. É, sem dúvida, merecedora de muitos futuros trabalhos.

Mas também a referimos como testemunho do estado da ciência ótica ao tempo da sua elaboração, já que foi uma obra de divulgação. Não obstante a Margarita não ser citada no Curso Jesuíta Conimbricense, podemos constatar que no século XVI, de algum modo, as matérias frequentadas neste domínio pelo ocidente europeu se fundavam praticamente e não obstante diferenças pontuais, numa mesma tradição intelectual, constatando-se a circulação entre livros, tratados e opúsculos produzidos em vários lugares, em parte graças aos prodígios da imprensa.

1.5. Agostinho: uma alma que vê

Não poderíamos encerrar esta rubrica sobre os principais autores e correntes da Ótica no Ocidente sem realçar o papel que Agostinho de Hipona teve neste domínio, quer ao longo de toda a Idade Média, quer durante o Renascimento, tanto no campo da Reforma como no da Contra-Reforma.

Não nos alargaremos sobre esta matéria. Basta-nos constatar a relevância da sua obra

De Trinitate, Capítulo XI, onde é explicada a posição acerca deste assunto.

Como vimos na Parte I deste trabalho, Agostinho integrou o escol de autoridades que ‘renasceram’ nos alvores da Modernidade, finais da Idade Média.

Assim, o Livro XI do De Trinitate, aborda a visão nas diferentes vertentes que ela configura, a visão interior e a visão exterior, correspondentes respetivamente a duas Trindades que se manifestam no homem. Estas Trindades são o testemunho da semelhança entre a criatura e o seu Criador.

Uma é a Trindade do homem exterior, correspondente ao corpo. A outra, a do homem interior, correspondente à alma.

A permanência do espírito no processo de visão ocorre ao longo de todo o processo visual, não acontecendo nenhum momento em que o corpo/sentidos lideram integralmente o processo.

Quer na Trindade exterior, quer na Trindade interior, o espírito é sempre o timoneiro do processo visual.

A Trindade na visão exterior inclui o corpo ou objeto visto, a visão propriamente dita, uma vez o sentido impressionado, e a atenção da mente, ou seja, a faculdade do espírito que prende o sentido ao objeto. (Livro XI.2.2)

Os membros da Trindade da visão são distintos em natureza, já que a visão pertence ao corpo enquanto a atenção da alma pertence ao espírito. O objeto observado não pertence nem a um nem a outro, alcançando uma natureza diferente dos outros dois membros da Trindade.

A visão, propriamente dita, é originada pelo objeto visto porque se este desaparecer a visão não subsistirá. (Livro XI.2.3).

A segunda Trindade corresponde à visão interior, intimamente ligada ao pensamento. Constituem-na a imagem que está guardada na memória, a vontade de recordar, e a visão de quem pensa ou seja:

- Aquilo que subsiste na memória antes mesmo de ser pensado; - Aquilo que se forma no pensamento;

A sucessão de Trindades no homem interior está na raiz do pensamento. Quando alguém pensa está constantemente a socorrer-se do acervo memorial e fá-lo deliberadamente quando invoca as imagens com a sua visão interior.

O pensamento opera por Trindades sucessivas com suporte na imagem memorial. Pensar é renovar constantemente o mistério Trinitário.

O poder da imagem vai-se alterando ao longo do processo que liga a visão exterior à visão interior, entre o mundo e o pensamento. A imagem do corpo que é visto dá origem à imagem que se forma no sentido, que por sua vez origina a imagem que se forma na memória. Consequentemente, esta última conduzirá à imagem que se forma na visão interior de quem pensa.

O elemento comum de ordem espiritual subjacente às duas Trindades é a vontade, essa força motriz que investe na alma na direção de todo o processo sensitivo e intelectual que caracteriza o humano.

O pensamento humano protagonizado no pensador lidera a relação do homem com o mundo, em todos os sentidos externos, com especial relevância para a visão, sentido que mais se aproxima do pensamento, o mais sublime e rarefeito de entre todos os cinco sentidos, segundo Agostinho.

O homem é uma alma que sente, que pensa. Numa linguagem moderna diríamos que, para Agostinho, o homem é um sujeito pensante. Mas também, e no caso vertente do sentido da visão, poderemos aventar que, para este autor, o homem é uma alma que vê.

A presença frondosa de Agostinho de Hipona no século XVI não deve, por isso, espantar-nos.

A importância do ser que questiona, interroga e procura, protagonista do seu próprio destino, a relevância dada ao esforço e ao engenho pessoal assim o apontam e não é impunemente que o Bispo de Hipona é um autor muito frequentado no tempo, independentemente das correntes religiosas que o chamam a si (Reforma, contra-Reforma).

O mesmo acontecerá, como veremos, no Curso Jesuíta Conimbricense, onde não obstante a dominância de Aristóteles nas propostas da teoria da visão, a componente neoplatónica de Agostinho e o papel tutelar da alma, separada do corpo, contribuirão para um segundo nível de abordagem da problemática da visão.

Esta componente, já do foro do animus, que de imediato explicaremos em que consiste, anuncia uma conceção em que a visão devém uma metavisão, muito para além do fenómeno ótico e corporal estrito, apontando para realidades transcendentes ao próprio corpo, para uma visão da alma.

É este o lugar para onde se dirige o olhar do Curso Jesuíta Conimbricense, um olhar para o alto para o que se não pode divisar com os olhos do corpo mas do espírito, pese embora a importância que os sentidos assumem mais ao jeito de Aristóteles do que de Agostinho.

2. A TEORIA DA VISÃO DO CURSO JESUÍTA CONIMBRICENSE

Dans le document La performance, encore (Page 88-94)