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Dans le document La performance, encore (Page 154-157)

O desejo e a ideia de registar a sua passagem pelo mundo parecem intrinsecamente humanos. Ambos, este desejo e esta ideia, têm raízes muito ancestrais no ser humano. Eles relevam da vontade de o homem, reconhecendo a inevitabilidade da morte, vencer a angústia que esta lhe provoca – a angústia da efemeridade. As manifestações concretas deste desejo de superação da morte reportar-se-ão mesmo aos primórdios da humanidade. Como sugerimos num estudo anterior (Teixeira, 2008: 46), as gravuras e as pinturas rupestres e, de um modo mais amplo, todas as primeiras formas de escrita poderão ter nascido, pelo menos algumas delas, da necessidade ou da simples vontade de registar acontecimentos de ordem pessoal ou grupal, conferindo-lhes vida para além da efemeridade do(s) seu(s) autor(es). Esses primordiais registos terão, pois, nascido do desejo de assinalar a presença de um indivíduo ou de um grupo num aqui e agora que se pretende eternizar. Canta este desejo o nosso Miguel Torga, em “Orfeu rebelde”:

Orfeu rebelde, canto como sou: Canto como um possesso

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Que na casca do tempo, a canivete, Gravasse a fúria de cada momento; Canto, a ver se o meu canto compromete A eternidade no meu sofrimento

(Torga, 1958; 1992: 10)

Toda a escrita tem algo de desejo de eternizar a singular e efémera experiência pessoal e a imagem torguiana de gravar “na casca do tempo” é bem representativa deste intrínseco sentir humano que não deixa de sonhar com a eternidade. Todas as formas de gravar, e posteriormente grafar, a passagem dos homens pelo mundo são manifestação de um desejo análogo àquele que é expresso pelo sujeito da enunciação lírica cuja identificação com Orfeu (e com o seu doloroso mito) dá ênfase ao sofrimento desse sujeito e dá corpo à vontade de tornar esse sofrimento eterno. A escrita, enquanto possibilidade de gravação e perpetuação da voz humana, não se pode dissociar dessa profunda e inapagável vontade de comunicar e de comunicar- se com os vindouros, superando assim a efemeridade da fala, da comunicação oral presencial. Até mesmo a invenção do canto, num passado impossível de determinar, não pode deixar de estar pragmaticamente ligada à função mnemónica: pelo canto decora-se e guarda-se o texto a transmitir às gerações futuras. É claro que o canto (de que Orfeu é símbolo na antiguidade clássica), além desta função, está ligado a outras dimensões como sejam a estética e a catártica. Cantar é dar forma estética a uma mensagem para a guardar no coração (de cor). Este não é, contudo, o tópico que queremos e devemos aqui desenvolver.

Afirmamos, portanto, que será insuficiente, e pouco esclarecedor da complexa evolução da história humana, dizer que as diversas manifestações da arte bem como as origens da escrita tenham decorrido apenas de necessidades ligadas ao comércio e à administração. Lejeune e Bogaert (2006: 40) fazem eco desta redutora conceção quando afirmam que “le journal est né, comme l’écriture elle-même, des besoins du commerce et de

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l’administration”. Os registos que nos chegam das gravuras rupestres estão bem para além dessas duas dimensões mais pragmáticas da vivência humana. Eles ultrapassam seguramente as dimensões presas à vida quotidiana e à resolução de problemas de ordem meramente prática; problemas que, numa cultura de tradição católica, nos habituámos a considerar de caráter terreno. Essas gravuras e pinturas milenares constituem-se como provas daquela que, porventura, terá sido a maior conquista do homem: a consciência de si. Como sustentou Damásio (2010), a um dado momento da história da humanidade, o homem começou a ter consciência de si (do “eu”). Este “salto” constitui seguramente um dos momentos maiores da constituição da nossa humanidade.

Acresce que os “livros” que nos chegaram das grandes civilizações do passado não são os que se referem aos registos de ordem prática, mas os que tratam da relação do homem com o divino, com o transcendental15. Olhando, mesmo que rapidamente, os cinco primeiros livros bíblicos (o Pentateuco), os quais se constituem como uma das referências maiores da nossa tradição cultural, verificamos que as suas narrativas nos colocam perante o homem na busca a sua própria identidade, procurando definir-se em relação a Deus e ao Universo.

Não quer isto dizer que seja legítimo admitir a existência de formas de escrita diarística em tempos tão recuados. Antes de mais, às manifestações da presença humana a que nos referimos (como sejam as gravuras rupestres) falta a sequencialidade. Uma sequencialidade que, assegurada durante um tempo suficientemente longo no decurso da vida de um sujeito humano, possa conferir estruturalidade e corporalidade a esses registos de forma a se tornar possível concebê-los como obras autobiográficas. É-lhes impossível

15 Sobre a origem da escrita e a questão religiosa é significativo que Jack Goody, na obra A lógica da escrita

e a organização da sociedade (Goody, 1986; 1987), tenha colocado como primeiro capítulo «A palavra

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essa sequencialidade que permite, hoje como sempre, a passagem do fragmento disperso à obra, nomeadamente quando nos referimos a obras em que se escreve/narra uma vida de forma fragmentada, registando os acontecimentos à medida que eles vão ocorrendo, sem saber o que o futuro reserva. Mesmo acreditando que tenha existido, nos primordiais tempos do Homem, a vontade de escrever/registar a sua vida dia a dia, os meios disponíveis (veremos como eles terão uma enorme importância) não lhe permitiam a concretização de tal sonho. Assim, falta a construção de uma «obra» cuja produção ocorre por acumulação de registos ao longo da vida do seu autor. Mesmo nos papiros egípcios, nos annales ou nas acta do império romano não encontramos um registo diarístico – são registos (de diversa natureza e diferentes funções) de dados referentes à ordem pública, ou, quando muito, familiar. Era a ordem pública que era relevante para o cidadão. Muitas transformações se deram para que, dos registos coletivos de ordem prática (contabilidade, comércio, registo de bens ou de dívidas, etc.), a humanidade tenha passado à escrita do diário, pessoal e íntimo. Na verdade, o valor da vida privada só é definitivamente reconhecido na sequência da “revolução” romântica, cuja importância para a afirmação da escrita diarística será analisada mais adiante.

Como já referimos acima, as origens16 da escrita autobiográfica e, particularmente, da escrita diarística não estão ligadas a qualquer intenção literária. Bem pelo contrário, como é claramente explicitado em Le journal

16 A problemática referente à origem e à evolução do diário foi já amplamente tratada em diversos estudos.

Destacamos, a este respeito, a obra Le journal intime de Béatrice Didier, o artigo de Daniel Madelénat “Jornal intime”, inserido no Dictionnaire des littératures de langue française, ou, mais recentemente, no âmbito de uma coautoria de Philippe Lejeune com Catherine Bogaert, a obra Le journal intime, Histoire et

Anthologie, editada em 2006 e da qual nos serviremos com frequência. No caso de trabalhos realizados por

autores portugueses, podemos destacar a contribuição de Maria da Assunção Morais Monteiro sobre este assunto, nomeadamente o segundo ponto do capítulo dedicado ao diário em O conto no Diário de Miguel

Torga e a comunicação “Autenticidade e autoficção no Diário de Miguel Torga”, publicada nas Atas do Quinto Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas. Neste nosso trabalho procuramos lançar

um olhar de conjunto, relacionando o aparecimento de obras autobiográficas e, especificamente, diarísticas com os grandes momentos da evolução cultural e civilizacional da Europa.

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intime: Histoire et anthologie (Lejeune e Bogaert, 2006), as práticas de

escrita existentes na antiguidade e que têm sido aproximadas à escrita diarística eram registos de ordem pública ou familiar, através dos quais se guardavam informações práticas, úteis para o registo da vida social, ou de uma coletividade. Como asseguram estes dois autores numa passagem que já atrás citamos, “Le journal a donc été, jusqu’au XVIe siècle, essentiellement une affaire collective.” (Lejeune e Bogaert, 2006: 1).

Quando se olha para o acervo de obras produzidas durante a antiguidade clássica e mesmo durante os séculos que se seguiram até próximo dos finais do período medieval (reconhecendo que o acervo disponível será apenas uma amostra de um todo cuja dimensão não é facilmente imaginável), há um conjunto de textos que, neste âmbito, têm sido apontados como “parentes” longínquos do diário. Usando como obra de referência aquela que acabámos de citar no parágrafo anterior (Lejeune e Bogaert, 2006), podemos evocar diferentes tipos de textos, desde as acta civilia às acta forensia, das acta

militaria às diurna acta, aos quais se podem acrescentar – como também

referem os mesmos autores – outras formas de escrita cuja finalidade se prende e se esgota na regulação e resolução de aspetos da vida prática.

São, contudo, textos muito mal conhecidos, apesar de esforços de vários investigadores. A causa desse reduzido conhecimento é facilmente identificável: foram escritos em suportes que não garantiam a sua preservação; muitos destes registos quotidianos eram feitos sobre lousas ou placas de cera e posteriormente apagados. A esse primeiro problema, que é o de termos um conhecimento muito limitado destas práticas de escrita, acresce um outro de uma ordem bem mais significativa para a problematização do assunto que nos ocupa – a escrita diarística e a sua história. Em nosso entender, há que realçar uma observação cuja relevância no âmbito da tentativa de esclarecimento de uma possível “genealogia” da escrita autobiográfica, e mais concretamente da escrita de diários, não deve

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nem pode ser escamoteada. É que – entendemos nós – a escrita do diário não se funda neste tipo de textos clássicos. O diário como género não está na linha evolutiva (num uso metafórico da linguagem própria ao naturalismo darwiniano) destes tipos de escrita. Ele não se segue ou não decorre deles, mas de uma passagem à escrita do exercício do autoexame pessoal e íntimo, cuja prática foi, durante séculos, essencialmente mental. Assim, a respeito da evolução (diacronia) da escrita diarística inclinamo-nos a considerar que não é sustentável a teorização que pretende filiá-la nos registos de ordem pública e institucional das épocas clássicas. E, já agora, convém notar que a família sempre foi instituição. Mesmo que se reconheça que, nos tempos do império romano, a documentação institucional ganhou dimensões anteriormente desconhecidas, mantém-se a afirmação de que estes documentos não cumprem as funções que virão, séculos depois, a ser desempenhadas pela escrita autobiográfica e mais especificamente diarística, como também não apresentam caraterísticas tipológicas do diário pessoal e íntimo. Voltando aos textos institucionais dos tempos clássicos e medievais, pelos quais se regulava a vida e a administração pública ou comunitária, é justo considerá-los como “antepassados” dos modernos e atuais registos estatais de carácter civil – o diverso conjunto de documentos que registam a vida dos estados, das instituições, das coletividades, das diversas associações e até das relações do indivíduo com o estado. Até a moderna agenda, como registo de caráter prático, tem lugar nesta família, na medida em que, apesar de já ser um documento de uso essencialmente pessoal, ela serve uma intencionalidade muito concreta: o registo rápido, breve, de afazeres pessoais, de assuntos de caráter essencialmente profissional17.

A escrita diarística é de outra natureza – ela é sempre profundamente pessoal e, como tal, de natureza íntima, ainda que esta dimensão possa ter

17 Mais adiante problematizaremos esta relação entre a agenda e o diário, evocando um singular caso da

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diferentes graus – digamos assim – de explicitação. Postulamos, portanto, que o que chegou tarde para que fosse possível a existência de diários como hoje os conhecemos não foi o íntimo, mas, pelo contrário, foi a escrita que chegou tarde ao íntimo – ao mundo e ao discurso íntimo do homem. Isto é, o que aconteceu tardiamente na história da humanidade foi o hábito de escrever, de forma sistemática e à medida que a vida se ia desenrolando, sobre a sua vida pessoal. A reflexão íntima existia, era louvada e era aconselhada a sua prática, como explicitaremos adiante. O que não acontecia era a escrita regular, num ato repetido ao fim de cada dia, dessa atividade de reflexão pessoal acerca do dia vivido. Concluímos, assim, que foi tardio, na longa história da escrita, o hábito de escrever colocando as experiências íntimas – aquelas que se passam na intimidade – e as experiências interiores – as que se reportam à análise dos estados de alma e dos sentimentos que o sujeito escrevente vai experienciando – como centro ou como preocupação primeira dessa mesma escrita. Poderíamos dizer, recorrendo às palavras de Clarice Lispector, a escrita sobre aquelas “coisas que não se dizem a qualquer pessoa” (Lispector, 1994: 27). Jogamos aqui com o duplo sentido do adjetivo “íntimo”. Trata-se de uma escrita cuja centralidade são, parafraseando um título regiano, esses mais mundos sobre os quais durante séculos a humanidade, por pudor ou por imposição ético-moral, ou por quaisquer outros motivos, não escrevia. Por outras palavras ainda, tardia foi a passagem do exame de consciência mental para um exercício em que se regista por escrito esse exame de consciência, construindo uma obra (caderno que seja) pelo acumular desses registos pessoais. É tardio o ato de “confiar ao papel” aquilo que se passava na mente do sujeito e se guardava na frágil memória – aquilo que fica depois do muito que esquecemos. Aliás, a memória, como realça Sá (2004) a propósito do Livro de Memórias de Teixeira de Pascoaes, pode ser configurada como “imaginação criadora”, o que pressupõe “deslocá-la do registo factual e fotográfico, para nela antes

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sublinhar a capacidade de imaginar, de criar, ou seja, a liberdade de

modalizar, de ficcionalizar o narrado.” (Sá, 2004: 146).

Efetivamente, usando a feliz expressão de Michel Foucault, a génese do «souci de soi» não é facilmente datável. A este respeito, já acima nos referimos às considerações de António Damásio sobre a génese do «eu autobiográfico». O discurso interior do homem sobre si mesmo terá forçosamente de ser colocado a par desta génese, mesmo que não nos seja possível datá-la na milenar história da humanidade. O que seguramente sabemos é que o «souci de soi» existiu e foi profundamente cultivado durante a época clássica greco-romana. A máxima socrática “conhece-te a ti mesmo”, e o peso que teve na cultura da época e em todas as que lhe sucederam, é prova suficiente dessa preocupação maior do homem consigo mesmo. A este respeito Paula Ponce de Leão faz notar que, sendo “enigma em si e para si mesmo, o homem desde cedo constitui uma aporia para o pensamento ocidental expressa na máxima socrática «conhece-te a ti mesmo»” (Leão, 2006: 79). Como aporia, o homem, acrescentamos nós, foi interrogação central no pensamento de todas as grandes culturas, civilizações e religiões – será suficiente recordar as máximas de Confúcio, como por exemplo a que se segue e que apela ao exame de si mesmo, por oposição à condenação (fácil) do outro: “Quando vires um homem bom, tenta imitá-lo; quando vires um homem mau, examina-te a ti mesmo”. Mas, para nós, filhos que somos da cultura helénica, a máxima do filósofo grego tem uma especial ressonância, como apelo maior à busca do conhecimento de si mesmo. Esta busca socrática acontece, porém, num contexto muito específico e que poderemos designar como a maiêutica do diálogo. É uma busca da definição de si que se faz na conversa com o outro (conversatio, no sentido de “viver com”, “virar-se para alguém”). A leitura dos diálogos socráticos confirma- nos que se trata de uma prática que ocorre no espaço público, ou pelo menos no espaço partilhado dentro de uma casa. A esta prática, oporá a vida

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moderna, com a “invenção” da intimidade, uma maiêutica do silêncio. Neste sentido, são reveladoras da valorização contemporânea da intimidade as seguintes palavras de Eugénio Lisboa:

[é] uma ilusão cor-de-rosa supor que o núcleo da nossa verdade poderia, sem risco de se estragar, emergir, com êxito, para uma discussão ao ar livre. A arte da conversa e do diálogo é o reino do superficial e do inconsequente. É ilusório supor que a conversação é o terreno ideal de pesquisa e aprofundamento. Os Diálogos de Platão são claramente montagem. A conversa é outra coisa. O próprio ritmo, a velocidade a que se processa impedem as paragens tão necessárias ao exercício efetivo da meditação. As únicas notas profundas que nos traz, às vezes, uma conversa brilhante são o resultado inequívoco de anteriores congeminações a sós. O silêncio e a solidão são o terreno propício à pesquisa séria e profunda. É na solidão que nos conhecemos a nós e aos outros.” (Lisboa, 1978: 20-21)

Cabe aqui uma referência, pedagogicamente fundamentada, à relação entre o silêncio e a produção escrita. É reconhecida a valorização do silêncio, e do recolhimento que este propicia, como fator (e feitor) da concentração necessária à produção literária. Como veremos, as nossas sociedades evoluíram – até arquitetonicamente – no sentido de garantir ao indivíduo um espaço-tempo de intimidade, de encontro consigo mesmo, de recolhimento e centração em si. Acresce que o “nascimento” da escrita não é só devedor deste espaço-tempo de intimidade e silêncio, como também se evidencia que a escrita, sendo bem mais do que a mera transposição do oral (uma forma de registo da linguagem oral), abre a possibilidade de comunicar com o(s) outro(s) sem que o sujeito escritor/escrevente tenha de sair da sua solidão e do seu silêncio. É, portanto, uma abertura que plenamente se realiza, mantendo, por paradoxal que possa parecer, o fechamento do sujeito – concentrado e silenciosamente debruçado sobre si mesmo.

É um tema de interesse esta valoração do íntimo, do espaço interior, do secreto que se acentuou na humanidade a partir da era moderna e que acabou

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por gerar o romantismo e, posteriormente, a revolução psicanalítica para ter o seu apogeu no hiperindividualismo moderno acerca do qual Lipovetsky nos dá uma lição clarividente em A era do vazio (Lipovetsky, 1989). Seria curioso pensarmos se as novas tecnologias da comunicação, com destaque para aquelas que Jean Cloutier (1975) designou como sendo o conjunto dos

selfmedia, abriram a humanidade a um “novo” estado em que se recupera a

valorização da abertura ou do diálogo com o outro. Esta questão terá o seu desenvolvimento no momento em que discutirmos a questão da edição de jornais digitais on-line.

Antes de avançarmos, temos ainda de referir que, curiosamente, Sócrates nada escreveu (ao que se sabe). São de um dos seus discípulos – Platão – os diálogos socráticos. Curiosamente, Platão, que escreveu proficuamente, desconfiou da escrita, ao condená-la no Fedro. O filósofo grego condena-a na medida em que lhe atribuiu efeitos nocivos para a memória, entendida como entidade íntima, profunda, intrinsecamente humana. Dando continuidade ao raciocínio que vínhamos desenvolvendo, importa realçar que a escrita da vida pessoal (e íntima) feita pelo próprio, num registo quotidiano, não é postulada por esta filosofia, nem parece ser valorizada pela cultura helénica. Da Roma antiga, por outro lado, já nos chegam algumas informações que apontam no sentido de uma valorização deste tipo de escrita. Mas ela ocorre essencialmente nas cartas. Em nossa perspetiva, a haver um antepassado clássico do diário, teríamos de procurá- lo na escrita de cartas – na escrita epistolar. As cartas aproximam-se dos diários pelo seu caráter de escrita quotidiana e não-retrospetiva; pelo menos não o são num âmbito da ampla retrospeção que, por norma, ocorre na escrita de memórias e confissões (géneros de grande relevância e que teremos de equacionar quando nos debruçarmos sobre a especificidade genológica do diário). Impõe-se, contudo, salvaguardar que as evidentes diferenças não nos permitem unir sob a mesma classificação genológica estes dois tipos de

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escrita. Antes de mais, a carta existe em função da necessidade e do desejo de comunicação com o outro e o diário, em função da necessidade e do desejo de comunicação consigo mesmo. Veremos que é da cultura romântica a grande responsabilidade deste salto ad intra, este como que inverter o peso dos pratos da balança, no que se refere à valorização da vida exterior (social) por oposição à valorização da vida íntima. O certo é que a escrita de cartas constituiu durante séculos, e até há bem pouco tempo, a forma privilegiada de registo da vida pessoal, com particular relevo dado às relações com o(s) outro(s). Assim, a par da correspondência comercial das empresas e das

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