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Chapitre 2. Prémisses Les géographies sociales de la distance

I. Parcours et espaces du quotidien

2. L’entre-soi des espaces publics

É, muitas vezes, no aproximar da metade da vida, que percebemos que as coisas não andam bem. É quando os sintomas da insatisfação aparecem sem explicação consciente e quando buscamos alguém que nos ajude a traduzi-los. A necessidade sacrificial é uma ordem do Self. A sensação de solidão e a ansiedade que antecedem o sacrifício podem levar anos. Como exemplo, cito o caso de uma paciente que não tivera relacionamento com o seu pai e que se identificara profundamente com a sua mãe. Ela, então, desenvolveu um quadro fóbico que era diretamente relacionado à extrema dependência, à identificação inconsciente e à simbiose com sua mãe, que se transformou em mãe e pai. Até que o problema fosse identificado, conscientizado e começasse a ser transformado na análise, anos de sofrimento e angústia se passaram. No caso dessa mulher, de 35 anos, sua mãe era seu bem supremo. A fonte de sua segurança, seu ponto de apoio. Um oásis de gratificações e entendimento. De tal maneira ela estava identificada com a sua genitora, que imaginava ser acometida da mesma doença dela, que era cardíaca. A filha, assim, submetia-se, constantemente, a exames do coração, sem saber que o seu coração simbólico ainda era o de sua mãe. Seu ego ainda mantinha a centralidade não em si mesmo, mas no seu Self, que ainda estava projetado em sua mãe. (É o que representa o estágio 2 do modelo da separação ego-Self apresentado na FIGURA 5 - ver subseção 3.4).

Reforço: a análise, na contemporaneidade, tem a missão religiosa de promover a reunião do que, antes, era unido, e separar o que ainda está unido de maneira incestuosa ou fixada, gerando a inflação do ego. No caso da minha paciente, a identificação levava-a a um estado de inflação quase que constante, pois ela havia se identificado, mais especificamente, com o seu animus. Não se permitia derrotas e era ambiciosa. Dizia: “Quero ser grande”. Essa frase pode significar “quero ser um destaque na sociedade”, como também “quero deixar de ser a filhinha da mamãe para ter meu centro em mim mesma”. Essa mulher estava mais identificada com o seu lado masculino do que com o seu feminino. Seu medo de perder a mãe foi pulverizado em vários setores de sua vida. Custou para que entendesse profundamente que o centro de sua vida deveria ser ela mesma e que sua supermãe não era a deusa toda-poderosa capaz de socorrê-la em qualquer

aflição ou frustração.

Estados de inflação levam a pessoa a estados de mania, excessos de atividade e arrogância. Ela sente-se especial e se coloca em primeiro lugar, assim como o bebê, quando briga pelo seu brinquedo. Ela acha que o mundo é uma representação de gratificação de todas as suas vontades, e não da Vontade.

Retomando a proposta de Edinger, vemos que a FIGURA 6, que segue, situa o estado de inflação como parte do ciclo de desenvolvimento psíquico. Para o autor, a inflação é “o estado original de unidade e perfeição inconscientes” (EDINGER, 1995a, p. 24). Pode ser considerado um estado paradisíaco. É o Nirvana do bebê, para o qual devemos voltar, mas não de modo regressivo, e sim transformando-o, na linha de chegada de uma Consciência que se realizou.

Nessa figura, encontram-se pontos de interrupção do ciclo: A e B. Edinger explica essas interrupções e alerta para a importância da alienação que se segue à inflação, principalmente nos primeiros anos de vida:

Esse processo cíclico se repete várias vezes nas primeiras fases do desenvolvimento psicológico e cada ciclo produz um incremento de consciência. Todavia, o ciclo pode dar errado. Ele está sujeito a distúrbios,

FIGURA 6: Ciclo de vida psíquico Adaptada de EDINGER, 1995a.

especialmente nas fases iniciais da vida. Na infância, o vínculo entre a criança e o Si-mesmo é, em grande parte, idêntico ao vínculo entre a criança e os pais. [...] Se as relações familiares interpessoais forem muito danosas, o ciclo pode ficar interrompido quase por completo.

[...] Pode surgir um bloqueio, se não houver uma aceitação e uma renovação do amor suficientes no Ponto A. Se a criança não for plenamente aceita depois de ser punida por mau comportamento, o ciclo de crescimento pode sofrer um curto-circuito.

[...] Outro ponto em que pode ocorrer o bloqueio é o Ponto B. Se o ambiente da criança for indulgente a ponto de privá-la de toda e qualquer experiência significativa de rejeição, se seus pais jamais disserem “Não”, ocorre igualmente um curto-circuito no ciclo. Toda a experiência de alienação, que traz consigo a consciência, terá sido omitida, e a criança terá obtido aceitação de sua inflação. (EDINGER, 1995a, p. 70).

O estado de inflação somente se transforma, quando a vida se encarrega de nos levar ao sacrifício do ego inflado, onipotente e narcisista. Quero dizer que, em certos momentos da vida, somos obrigados a reconhecer que ideais narcisistas que não coadunam com a realidade ou com nossas possibilidades precisam ser abandonados para melhor nos adaptarmos ao mundo que nos cerca.

A humildade é o oposto da inflação. Humildes, não nos sentimos melhores do que ninguém. Sacrificamos, também, as nossas representações, pois elas são relativas. A Consciência volta-se para o coração e, quando de lá sai, fica claro que não estamos em nossa centralidade. Em geral, o sacrifício do ego acontece na metanoia80.

Quem não passa pela transformação de seus ideias narcísicos permanece identificado com sua persona inflada, ainda que esteja na terceira idade. Permanece racional em demasia, competitivo e repetitivo em seu padrão de elaboração e de comportamento, apegado à matéria e à opinião alheia. Costuma ser dependente de alguém, pois, como dito, o centro não está nele mesmo. O seu tesouro está projetado em seus bens materiais, na sua persona de poder e na racionalidade defensiva. Tal pessoa tende a perder o contato afetivo legítimo. Vive sem amor, habita o inferno.

80

O vocábulo “metanoia” é definido, no Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, como “conversão espiritual” e “penitência”, além de “transformação fundamental de pensamento ou de caráter”. (FERREIRA, 2004).