CHAPITRE VII L’approche contextuelle
I. L’approche contextuelle, pour construire les faits
Um dos principais desafios à análise da informação qualitativa em geral e dos dados biográficos em particular é a riqueza da informação e o seu potencial desperdício (Tracy 2010). A reconstrução das narrativas pessoais permitiu-nos não só complementar a decomposição das vidas vividas como aprofundar as vidas contadas. Como diz Bhabha (2007, 14–16), a dimensão biográfica na formação do discurso é importante. Isso requer o recurso a uma “linguagem que seja capaz de representar (e interpretar)” as contradições e ambivalências dos processos de integração social numa “era de transição global” (ibid.) As narrativas biográficas são como uma “janela dos processos de fazer sentido” que nos permitem criticamente “compreender os discursos institucionais e de poder na sociedade de modos mais concretos” (Souto-Manning 2014, 162). Contudo, precisamente porque o “real é descontínuo” e “fragmentário” (Bourdieu 2001), aquilo que as biografias nos permitem interpretar – no seu encadeamento de elementos macro e micro sociais – é o “resultado estável mas não imutável do processo de interiorização do social e de incorporação, na pele, da nossa persona social” (Montagner 2007, 252). Estas “vidas conectadas” (linked lives) são “vividas” e “contadas” por entre um conjunto de possibilidades estruturalmente fixadas, socialmente interdependentes (Levy e Pavie Team 2005; Wengraf 2000). Os “mecanismos sociais que favorecem ou autorizam a experiência corrente da vida como unidade ou totalidade” tendem a orientar os relatos das vidas contadas em torno de formas narrativas (coerentes e lineares) de “produção de si” (Bourdieu 2001, 55– 58). Mas estes “acontecimentos biográficos” não se fazem num vazio – são “colocações e deslocações no espaço social”, um conjunto de posições ocupadas pelo mesmo indivíduo (ou grupo de indivíduos) em espaços que estão em constante transformação (ibid.). Enquanto fonte privilegiada para compreender as visões e vozes alternativas para (des)fazer o género, os dados biográficos não bastam, portanto, para uma interpretação sociológica objetiva e rigorosa. É preciso compreendê-los à luz das transformações socio-históricas e dos posicionamentos particulares de onde provêm.
A análise das vertentes narrativas e performativas relatadas pelas 19 pessoas entrevistadas seguiu duas linhas complementares: a Análise Crítica de Narrativas (Souto-Manning 2014) e a Análise Performativa (Lloyd 2015; I. A. Reed 2013; Butler 2008 [1986]; 2009 [1988]). Por um lado, procurámos compreender as narrativas alternativas da transgressão e as grelhas interpretativas que fundamentam as normas de género. Por outro lado, através de episódios ilustrativos do processo de “prestação de contas” (accountability) para (des)fazer o género, procurámos aprofundar quais as margens de manobra existentes. No fundo, procedemos à desconstrução analítica dos processos dominantes para fazer o género e ao aprofundamento das potencialidades de mudança no género a partir das interpretações da transgressão.
Privilegiámos com este estudo a possibilidade de “reabrir no género o heterogéneo” (Collin 2008, 46 [1989]), um modo específico de leitura do real cuja “fecundidade” provém de uma inclinação transgressiva. Ou seja, de um a priori que procura lembrar “a ortodoxia duma certa doxa” não para se tornar o “todo explicativo” mas sim para reconhecer as possibilidades “heterodoxas, heréticas e erráticas” (ibid.) que são subalternizadas às lógicas estruturantes da dominação nas relações de género. Esta “opção” necessariamente desconsidera outros ângulos possíveis de abordagem e tem como premissa que não existe uma neutralidade axiológica universal, um “ponto de Arquimedes” imparcial sobre a realidade social (Flax 2008 [1987]). Assumindo que a realidade social é plural e multifacetada, a produção de conhecimento advém primeiramente da posição que ocupamos no mundo social (Temple 2006). Esse ponto de partida implicou-nos numa lógica de análise desconstrutiva.
Recorremos à Análise Crítica de Narrativas (Souto-Manning 2014) para aprofundar as possibilidades alternativas e singulares da experiência do género. Privilegiámos o modo como se experienciaram as “ambivalências” ao nível do self e a sua relação com os discursos dominantes (Lüscher 2005). Os modos como as vidas são e podem ser organizadas ao longo do curso de vida para gerir as oportunidades e constrangimentos contidos nas relações de género e, em particular, a uma pertença não exclusiva à oposição dominante. Os seus significados assumem pertinência face às relações sociais estabelecidas e aos espaços simbólicos, materiais e performativos em que ocorrem (Grenfell e Lebaron 2014).
Por sua vez, o recurso à Análise Performativa (Lloyd 2015; I. A. Reed 2013; Butler 2008 [1986]; 2009 [1988]) permitiu fazer outra leitura dos eventos biográficos recolhidos e aprofundar as experiências da transgressão na primeira pessoa. A reconstituição dos acontecimentos narrados como transgressivos e as suas consequências aos olhos de quem conta
a transgressão foi frutífera. Ainda que só dispuséssemos de um olhar da experiência – concretamente dos alvos da diferença – os relatos são ricos de detalhes sobre as performances e as possibilidades interpretativas. Mesmo com uma visão parcial, foi possível investigar as dinâmicas de estabilidade e mudança a partir dos episódios de reconhecimento da transgressão de género e a sua prestação de contas. Requerendo obviamente outro estudo e trabalho de campo mais etnográfico que permita dar continuidade a esta linha analítica, as pistas encontradas foram relevantes. Nomeadamente porque demonstram as potencialidades e os constrangimentos no (des)fazer do género. Permitem corroborar a premissa de que a transgressão constitui, diversas vezes, uma faca de dois gumes. E, também, que existe uma autonomia relativa do poder performativo face ao poder discursivo e relacional (I. A. Reed 2013). Com efeito, a maior parte dos episódios relatam performances que produziram efeitos constrangedores ou com consequências “disciplinares” para quem transgrediu. Mas há também momentos performativos. Ou seja, em que as performances revelam processos potencialmente transformadores ou semeadores da mudança. Certamente intrincados com os poderes discursivo e relacional, estes eventos sugerem possibilidades de abertura a outros posicionamentos de género e – mais do que isso – que o seu reconhecimento se está a tornar mais visível.
Por último importa referir a nossa gestão de expectativas quanto aos métodos e técnicas mobilizadas e quanto à recolha e análise dos dados. Como referem O'Reilly e Parker (2012) a variabilidade de definições alocadas ao termo “saturação” e os seus diferentes usos requer um relato transparente sobre o processo e as decisões e qual a variante específica de saturação usada. Nem todas as abordagens qualitativas dependem da saturação como marcador de avaliação da adequabilidade da dimensão amostral (ou subamostral). A saturação dos dados é considerada satisfatória e adequada quando responde suficientemente às questões de investigação (ibid.:192). Nesse sentido consideramos que os dados foram satisfatórios para captar o leque de experiências genderizadas. Foram-no porque recolhemos informação em profundidade suficientemente rica para captar e interpretar múltiplas realidades e fizemos um uso pleno dos dados recolhidos. O volume e rapidez da informação disponível sobre o assunto constituíram um desafio na gestão de expectativas sobre a adequação ótima do processo de amostragem de dados.
A crescente visibilidade do tema “não binário” e da “transcendência do género” nas redes sociais e plataformas digitais de comunicação levaram a que despendêssemos muito tempo e recursos. Isso complicou bastante a decisão sobre os critérios de seleção e inclusão dos dados. A expectativa de constante atualização foi sendo refreada à medida que avançávamos no
processo de pesquisa, sob pena de não conseguirmos trabalhar a riqueza da informação já recolhida. Como refere Eco (1982, 131 [1977]) há uma elevada probabilidade de retomarmos temas secundarizados ou paralelos ao longo dos “investimentos” que se fazem durante uma tese. Porque a pesquisa necessita de ter princípio e fim, bem como de uma estrutura organizada, precisámos de tomar decisões. Consideramos que foram escolhas apropriadas para traduzir essa heterogeneidade e explorar suficientemente o nosso objeto de estudo. Haverá sempre espaço para crítica e melhoria dos processos de amostragem, de recolha e de análise dos dados (biográficos, socio-históricos). O nosso objetivo foi o retrato da diversidade e não tanto a dimensão da mesma. Nesse sentido, os dados usados nesta pesquisa podem frustrar a expectativa de imensidão mas superam a de fecundidade. A relação entre a vastidão de dados e a sua análise aprofundada orientou-se para a melhor resposta possível às questões de investigação. Centrámo-nos no retrato da diversidade de alternativas transgressivas nas práticas de género e a sua relação com a oposição dicotómica dominante (o binário). Em jeito de autoavaliação concluímos este capítulo com uma reflexão sobre os critérios que seguimos para alcançar resultados coerentes e substantivos.