Antigamente, o excesso de peso em uma criança significava que esta era saudável e detinha a possibilidade de sobrevivência à desnutrição e infecções (EBBELIN; PAWLAK; LUDWIG, 2002; GAHAGAN, 2004). Entretanto, nas últimas quatro décadas, o sobrepeso, indiscutivelmente, representa um problema grave e crescente de saúde na infância em países desenvolvidos e em desenvolvimento, em várias partes do mundo e tornando-se uma epidemia (ADAIR, 2008; STEWART, 2010).
Fatores genéticos influenciam na predisposição de uma determinada criança à obesidade.Contudo a incidência de casos onde a obesidade infantil é provocada por fatores genéticos tem se mostrado baixa no cenário habitual (GAHAGAN, 2004; DEHGHAN et. al., 2005).Fatores ambientais, estilo de vida, preferências e ambiente cultural desempenham funções importantes na prevalência de obesidade infantil em todo o mundo (DEHGHAN et. al., 2005).
Na infância, o desenvolvimento da obesidade e, posteriormente, na fase adulta abarca interação entre diversos fatores: pessoais, como alimentação e padrões e preferências de atividade física, ambientais, como casa, escola e comunidade, sociais como interação com publicidade de alimentos, redes sociais e grupos de influência, além dos referentes à saúde e aos aspectos fisiológicos como os mecanismos de saciedade do apetite e predisposição genética. Estes fatores têm poder de moldar diariamente a dieta alimentar e atividade física,
bem como aumento da obesidade, o risco de doenças cardiovasculares e doenças crônicas (PRATT; STEVENS; DANIELS, 2008).
De acordo com Stewart (2010), apesar de a etiologia da obesidade infantil ser complexa, sua compreensão é necessária para gerenciar a obesidade infantil. As causas envolvem a interação com o ambiente, obesogenes e escolhas de vida individuais. O excesso de ganho de peso, o aumento na quantidade do consumo de alimentos altamente calóricos e aumento do tempo de exposição à televisão, computador evideogames, associadosimultaneamente a uma redução na quantidade de atividade física realizada por crianças são apontados como razões para o crescimento da epidemia (STEWART, 2010).
De acordo com Boylandet al. (2011), o tempo que a criança fica exposta à televisão está diretamente relacionado à obesidade, porque associa-se à diminuição do tempo de atividades físicas, consequentemente, ao menor gasto de energia, além das informações publicitárias de alimentos prejudiciais, podendo a televisão ser considerada como um fator de risco à obesidade da mesma forma que a inatividade física contribui significativamente para esta doença (FERREIRA, 2013).
Assim como os adultos, as crianças absorvem informações e conhecimentos pela aprendizagem explícita e implícita mediante processo de experiências e aquisição inconsciente do conhecimento que permanece ao longo do tempo. As crianças adquirem informações pelo processo de socialização, auxiliando diretamente no desenvolvimento de seus papéis e comportamentos como consumidores e como membros da sociedade (McGINNNISet. al.,2006). As habilidades de socialização e de consumo são adquiridas no começo da vida, com o desenvolvimento de motivações de consumo e valores. “Elas desenvolvem o conhecimento sobre a publicidade, produtos, marcas, preços, lojas e adotam pedidos de compra e estratégias de negociação que podem ser o resultado de atividades de marketing” (McGINNIS et. al., 2006, p. 20).
Stewart (2010) argumenta que no caso multifacetado da obesidade na infância, a intervenção dos pais e familiares é necessária por estes representarem um forte fator influenciador no surgimento e prevalência da patologia (LOBSTEIN; BAUR; UAUY, 2004; GAHAGAN, 2004; McGINNISet. al., 2006; TABACCHI, 2007; PRATT; STEVENS; DANIELS, 2008; GORTMAKER, 2011).Certamente, o peso dos pais pode ser apontado como um influenciador no peso e estilo de vida das crianças em sua família. Além disso, outros aspectos resultantes do ambiente familiar podem contribuir para esta doença, cabe destacar que o envolvimento dos pais é fundamental para o desenvolvimento e sucesso de qualquer medida de tratamento e controle da obesidade na infância, sendo recomendado que
seja iniciado algum programa quando os pais estiverem preparados para tal e dispostos a realizarem mudanças no estilo e vida de toda a família (STEWART, 2010).
Além dos fatores anteriormente citados, Tabacchiet al. (2007) afirmam que, em se tratando do cenário ambiental envolvido, os aspectos geográficos, culturais e religiosos podem impactar na doença, bem como a sociedade. Omacroambienteé composto por indústrias, serviços e infraestrutura, influenciam no consumo alimentar e na prática de atividades físicas. Além disso, há a influência da maior disponibilidade de alimentos no mundo, além das mudanças que sofreram na produção, no processamento, na embalagem melhor distribuição destes tipos de alimentos (na maioria das vezes, pobres em nutrientes e com alto teor de energia calórica) em ambientes sociais como escolas e locais de trabalho. Isto pode ser observado na Figura 2.3.
Figura2.3 – Determinantes da obesidade infantil. A interação entre fatores genéticos e ambientais que levam a obesidade na infância.
Fonte:Tabacchiet al. (2007, p. 588).
Nesse contexto, Kumanyika (2008) afirma que as influências culturais estão em uma interação dinâmica, fluida com os contextos sociais e ambientais podem interagir com os determinantes biológicos da obesidade. A aceitação do comer demais pode ser condicionada por fatores culturais, ao passo que a sabedoria em evitar a obesidade ainda não evoluiu (KUMANYIKA, 2008). Assim, os alimentos valorizados podem estar associados à escassez ou à inacessibilidade do passado e que são emocionalmente gratificantes, como carne, gorduras e açúcares. Ademais, alguns alimentos são relacionados ao status social elevado, sendo desejados como símbolos de integração na sociedade em geral ou de mobilidade social ascendente, podendo estas preferências e valores persistir por gerações, mesmo quando estes
"alimentos de status" se tornarem baratos e abundantes (KUMANYIKA, 2008).
O fator cultural pode influenciar ainda a atividade e a inatividade física, assim como, o interesse em esportes ou tradições de ser fisicamente ativo, favorecendo sua prática quando há opções seguras disponíveis e acessíveis. Por outro lado, o valor cultural predominante para a televisão e automóveis tidos como símbolos de status pode impulsionar o comportamento sedentário. Além desses aspectos, a publicidade de alimentos calóricos é aceita como parte integrante deste cenário, onde as práticas de marketing que visam à comercialização destes produtos contribuem significativamente para o contexto de crescimento da doença. É importante destacar que, apesar dos aspectos apontados, a consciência da influência desses ambientes físicos no desenvolvimento da obesidade tem aumentado (KUMANYIKA, 2008).
Esta conscientização pode ser resultado da ciência das inúmeras consequências causadas pelo indivíduo que possui sobrepeso ou obesidade. A obesidade é um fator preponderante no aparecimento de outras doenças graves, podendo causar a associação de duas ou mais doenças com gravidade alta, denominado comorbidade. Segundo Carvalho et al. (2013), os impactos da obesidade possuem caráter metabólico, anatômico, psicológico e comportamental. Comentamos cada uma a seguir.