l’Île touristique peut-elle devenir l’île des malédictions ?
2.5. Les îles épineuses
2.5.1. L’île d’Espinosa avant 1932 : une île touristique classique dans
Se tanto Carne e Sozinho Contra Todos estabelecem uma conexão entre o corpo do espectador e a representação dos corpos na tela, através da edição da imagem e do som, Irreversível será o filme que criará uma conexão muito mais direta (física, concupisciente) com o espectador, através de um nível mais extremo da visualidade háptica e do som háptico.
Irreversível constrói de forma diversa das mostradas antes nos filmes precedentes o que tínhamos anteriormente denominado como a ‘corporeidade imanente’ de Noé, através do que estamos chamando de ‘afeto carnal’. Obviamente que as imagens da violência e sexo são uma forma de representação das dimensões corpóreas dos denominados gêneros do corpo que (como já observado), de acordo com alguns teóricos, como os apontados por Linda Williams, visa provocar sensações no corpo do espectador.
Estaremos examinando amplamente a estética e as técnicas formais empregadas por Noé em Irreversível, cujo objetivo é propositadamente construir a narrativa de
maneira que esta afete fisiológica ou lubricamente o corpo do espectador, provocando reações tão desconfortáveis e desagradáveis quanto possível.
Embora seja significativo localizar as instâncias e os objetivos das tendências hápticas de Noé no filme Irreversível, e também investigar seus efeitos fisiológicos sobre o espectador, tal pesquisa não está condicionada às teorias da recepção, que devem necessariamente ser corroboradas com as experiências pessoais do espectador.
Mesmo que em algumas entrevistas concedidas por Noé ele exponha seu desejo de fazer com que os espectadores se sintam afetados fisicamente durante a recepção do filme, algumas questões veem à tona, apontando para o fato de se poder constatar se o próprio diretor poderia controlar totalmente os efeitos (bons ou ruins) provocados na audiência, causados por alguns dos dispositivos formais empregados no filme.
Porém, apoiamos o argumento de que Irreversível é, de fato, uma obra representativa de uma nova forma de cinema transgressivo que afeta fisicamente o corpo do espectador. E o mais viável para essa pesquisa seria conjecturarmos apenas supostamente como as sensações - desagradáveis - dos espectadores poderiam ser resultantes da forma com que o emprego, por Noé, das técnicas audiovisuais modulam os estados fisiológicos daqueles.
Para este fim, serão analisadas as imagens e os sons hápticos, constantemente empregados na obra em questão, apontando a maneira disruptiva com que todos os elementos formais são construídos ou desconstruídos dentro da narrativa.
Ao longo do texto, nosso objetivo precisamente será efetuar uma análise que privilegie abordar o aspecto técnico estético do filme, paralelamente com a análise da sua construção narrativa, em busca dos sentidos gerados por essa obra. Na maior parte desse capítulo, seguiremos a ordem cronológica do discurso fílmico. Em algumas passagens do texto, entretanto, onde os assuntos abordados estabelecem diálogos entre sequências espacialmente distintas na narrativa, essa ordem cronológica não será exatamente respeitada.
3.4.1 A hipnose e o efeito flicker nos créditos do filme
Observamos como a ruptura estética de Irreversível começa já a partir do início da projeção, com a exibição retrógrada dos créditos finais do filme, inclusive com diversas letras trocadas nos letreiros. Novamente, podemos explorar o filme em termos
da dimensão corporal ou sensorial, evocada apenas através da desconstrução dessa sequência de créditos. Ou seja, a modulação fisiológica espectatorial que Noé objetiva pode ser evidenciada diretamente desde a abertura de Irreversível, onde aos poucos nos damos conta de que estamos acompanhando a sequência dos créditos finais do filme, em vez do que achamos inicialmente serem créditos iniciais.
Observamos que Noé visa afetar o público em um nível submolecular, começando o filme com os créditos com as palavras grafadas inversamente, que passam a entortar circularmente no sentido horário, perturbando espacialmente o espectador, antes mesmo de a narrativa começar, mas já se estabelecendo como uma experiência sensorial transgressiva.
Parte dos créditos finais – exibidos reversamente no início do filme
A partir da contemplação desses créditos, já podemos iniciar a discussão do efeito sensorial que Noé pretende, no qual o visual e o sonoro vêm juntos para induzir o espectador a um estado próximo do que poderia ser uma forma de hipnose. Como podemos observar na declaração do próprio cineasta, concedida ao crítico de cinema e pesquisador norte americano David Sterritt, durante o Festival Internacional de Cinema de Toronto de 2002. De acordo com Noé: “Você quer hipnotizar com um filme. A hipnose o leva a algum lugar ou não. Você está em transe ou não está. (...) Se a hipnose funcionar bem, o público entrará em seu sonho”88 (NOÉ apud BROTTMAN e STERRITT, 2004).
Ao longo de pouco mais de dois minutos, a sequência dos créditos funciona como um portal, como um prelúdio ou um prólogo, pelo qual podemos explicar a forma constituinte da narrativa. No caso, a sequência dos créditos visa refletir um universo
88‘You want to hypnotize with a movie’, Noé says. ‘The hypnosis either takes you somewhere or it doesn’t. You’re in a trance or you’re not. (...) If the hypnosis works well, the audience will get into your dream.’
inverso e caótico para preparar o público para o filme. A música de abertura intitulada “Tempus Edax Rerum” (“O tempo que devora tudo”) composta originalmente por Thomas Bangalter, já incita uma espécie de sensação de angústia e de que algo trágico está por vir.
Torna-se assim explícito o objetivo de Noé, de afetar visceralmente o espectador em um nível em que a contemplação intelectual é desmantelada para uma resposta puramente emocional, através do princípio de agressão visual e auditiva. São empregados efeitos que visam demarcar a localização do filme dentro de um‘cinema háptico’, onde o espectador estaria submetido a uma construção de técnicas estéticas que fazem com que ele ‘experimente’ ao invés de apenas ‘ler’ os créditos do filme.
Tem-se a subversão de uma típica sequência de créditos ‘iniciais’ em que o procedimento padrão de leitura para informação é substituído por um procedimento atípico de inércia mental e sobrecarga sensorial sobre o espectador, o que dá o tom do filme - uma experiência articulada em grande parte em torno de um experimento audiovisual transgressor, a fim de estabelecer uma conexão direta com a irreversibilidade do tempo, remetendo o espectador a uma dimensão espaciotemporal onírica em que se experimentam as sensações e as imagens antes do pensamento lógico. Outra característica estética que contribui para provocar reações extremamente sensoriais no público seria a utilização da cintilação luminosa (ou flicagem) dos créditos - em contraste com o fundo escuro da tela as palavras de cores diferentes, piscam de forma ininterrupta, dificultando a leitura, afetando a visão e provocando um engajamento mais carnal do espectador.
Parte dos créditos - Título grafado de forma invertida: Irreversível
Podemos seguir a abordagem sobre as sensações hápticas provocadas, equiparando-as com os efeitos ‘epiléticos’ do desfecho do filme, cujo efeito da luz estroboscópica objetiva resumir de maneira explicitamente carnal todas as sensações corporais experimentadas pelo espectador, traduzidas ao longo da fruição da obra.
Da mesma forma, no desfecho do filme, temos um fenômeno estético específico e fundamental para o objetivo de Noé em arrematar o estado de perturbação emocional, que opera através das diferentes sensações provocadas e do afeto carnal. A última
sequência do filme é encerrada com um verdadeiro bombardeio estroboscópico. Vale a pena registrar que esse efeito estroboscópico pode induzir a uma variedade de reações físicas inconscientes (e, por isso mesmo, muito mais sensitivas e sensuais), apontando ainda mais para a corporeidade imanente e para a abordagem transgressiva extrema de Noé e suas implicações até para uma subversão do próprio caráter do cinema háptico.
O uso da luz estroboscópica, em meios visuais, pode remeter ao conceito de ‘epilepsia fotossensível’,89 que é definido como um fenômeno de convulsão causado pela exposição à luz piscando intermitentemente. Dessa maneira, a opção técnico- estética que Noé faz em Irreversível, não apenas serve para construir sequências metaforicamente inusitadas para a abertura e o encerramento do filme, mas, antes, para sobrecarregar o espectador sensorialmente e prepará-lo para experimentar as sensações em um nível mais carnal que virão.