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KEY FINDINGS

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KEY FINDINGS

Para melhor conduzir essa discussão, procederemos à retomada de alguns tópicos clarificados para analisá-los em paralelo à virtualização e à digitalização. Comecemos retomando o traço mais constitutivo do literário que segundo Candido (2004, p. 178) consiste no fato de que “o conteúdo só atua por causa da forma, e a forma traz em si, virtualmente, uma capacidade de humanizar devido à coerência mental que pressupõe e que sugere.” Temos nessa consideração um elemento significativo tanto à natureza da literatura quanto a do virtual: a potência. Desse modo, quando o autor nos afirma que a forma possui em si elementos de humanização do homem em função daquilo que constitui virtualmente, potencialmente, estamos falando daquilo que só poderá ser atualizado no ato da

leitura, na acepção tratada anteriormente, como ação criativa, ativa sobre o texto, capaz de produzir compreensões subjetivas pelo imbricamento do que está presente de forma virtual no texto, em potência.

O mesmo princípio é válido quando tratamos da virtualização para a tecnologia. Lévy (1996, p. 5), em sua obra O que é o virtual? nos alerta para o fato de que “um movimento geral de virtualização afeta hoje não apenas a informação e a comunicação mas também os corpos, o funcionamento econômico, os quadros coletivos da sensibilidade ou o exercício da inteligência”. Embora, os dois conceitos estejam em esferas diferentes, eles se complementam e dialogam. Lévy (1996) trata de um paradigma de sociedade que se estabelece a partir da virtualização enquanto Candido trata de um caráter de virtualidade inerente ao texto literário. Assim, encontramos na natureza da literatura um elemento perene de virtualização que abrange hoje outros campos da sociedade e da percepção humana que para Lévy (1996, p. 7) deve ser “apreendida, pensada e compreendida em toda a sua amplitude”.

Assim, nesse percurso, fazemos um esforço significativo para aproximar a literatura do virtual. Ainda segundo Lévy (1996):

A palavra virtual vem do latim medieval virtualis, derivado por sua vez de virtus, força, potência. Na filosofia escolástica, é virtual o que existe em potência e não em ato. O virtual tende atualizar-se sem ter passado no entanto à concretização efetiva ou formal. [...] em termos rigorosamente filosóficos, o virtual não se opõe ao mas ao atual: virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferentes. (LÉVY, 1996, p.8)

Da mesma maneira que a descrita acima para definir o virtual, podemos conceber o literário, posto que tende a atualizar-se no ato da leitura, na interação sujeito e texto literário (forma e conteúdo), mas também como o que foi posto para a natureza do virtual, a literatura não se opõe ao real, pelo contrário, o tem em sua composição ficcional e virtualizada, o real é uma potência dentro do literário, logo, virtualizado dentro dele. Entretanto, também a literatura, em sentido mais restrito, se difere do atual, uma vez que ela nem sempre corresponde a ele, mas é respondida por ele nas possíveis produções subjetivas de sentido dadas ao texto literário pelos sujeitos. Assim:

A atualização aparece então como a solução de um problema, uma solução que não estava contida previamente no enunciado. A atualização é uma criação, invenção de uma forma a partir de uma configuração dinâmica de forças e afinidades. Acontece então algo mais que a dotação de realidade a um possível ou que uma escolha entre um conjunto predeterminado: uma produção de qualidades novas, uma transformação das ideias, um verdadeiro devir alimenta de volta o virtual. [...] o real assemelha-se ao possível; em troca, o atual em nada se assemelha ao virtual; responde-lhe. (LÉVY, 1996, p. 9)

Por isso, falamos de produção subjetiva, criativa, ação de leitura que produz sentidos por meio da atualização que promove no texto constituído de potência, respondendo-lhe em sua virtualidade. É nessa mesma perspectiva que concordamos com Candido (2004) quando este nos apresenta um clássico como sendo definido pelo fato de que nunca terminou de dizer aquilo que tem para dizer, já que está sempre sendo atualizado, transformado em ato que existe em potência e ressignificando-o. Assim, a literatura para Candido (2012, p. 85) “não corrompe nem edifica, [...] mas, trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver”.

No entanto, faz viver virtualmente, conforme o sentido de virtual que discutimos anteriormente. Não necessariamente na concretude do real, mas nem por isso oposta a ele. Esse mesmo movimento está presente na cultura digital conforme Lemos (2004), ou na sociedade em rede, como propõe Castells (1999). A virtualização é uma das bases de composição do digital no qual ocorre uma mudança na base material da informação, que enquanto potência é atualizada constantemente uma vez que o contexto digital difere dos outros meios por apresentar como seus elementos constitutivos o caráter plástico, fluido, podendo ser tratável de forma síncrona e não linear, conforme Vaz (2006).

Há, portanto, uma similaridade e uma proximidade entre a natureza de virtualização da experiência vivida na cultura digital e aquela experimentada esteticamente na fruição do texto literário, pois tanto a literatura quanto o contexto digital, permitem experiências de vida diferentes daquelas vivências limitadas em um tempo e em um espaço fechados e delineados, rígidos e não maleáveis. Estamos tratando de uma aproximação entre virtualização e ficcionalidade, posto que, segundo Zappone (2008, p. 3), “o tipo de escrita que interessa aos estudos literários

demarca-se como uma escrita imotivada, gratuita, cuja marca fundamental seria a ficcionalidade que se opera por diversas formas de figuração mimética”.

Dessa forma, nesse contexto, outras formas de produção literária também passam a ser concebidas ou reestruturadas, senão em forma, em comportamento, pelas possibilidades advindas da cultura digital. Uma delas, também fundamental a este estudo que aproxima a natureza literária da virtualização e do digital através dos múltiplos letramentos neles inerentes, é o conceito de hipertexto, no qual o princípio subjacente conforme Moraes (2000, p. 4):

[...] é o de que qualquer parte de um texto armazenado no formato digital (sequência de caracteres que são reconhecidos e acessados por softwares específicos) pode ser associada automaticamente a unidades textuais armazenadas de igual modo. O clique sobre as palavras sublinhadas instrui o computador a ativar o acesso oculto por trás do link, projetando na tela o assunto requerido, quer ele esteja no mesmo documento ou em outras bases de dados. O usuário tem a alternativa de saltar de uma fonte a outra, em um itinerário sem começo nem fim. Os textos deslizam pelo monitor, em ritmo sequencial, a espécie de cibercolagem de interferências individuais e coletivas. (MORAES, 2000, p. 4)

Posto isso, percebemos que o texto literário ganha novas possibilidades de existência, segundo as quais ainda que não tenha sido produzido original e formalmente na estrutura hipertextual, a inserção na cultura digital permite comportamentos que levam a não apenas lê-lo, mas navegá-lo em um oceano de conexões possíveis, potenciais, ou conforme nomeamos, permite uma postura hipertextual, navegacional de leitura. Podemos, então, observar que “os hyperlinks reordenam a estrutura narrativa e a arquitetura ficcional, bem como dinamizam os itinerários de leitura e interpretação. O que é sólido pode ser também móvel, fluido, desenraizado e acessível a qualquer segundo” (Moraes, 2000, p. 5). E mesmo que a construção forma/conteúdo não tenha sido elaborada nessa lógica, ela pode ser construída a qualquer momento pelos sujeitos que compreendem suas possibilidades de atualização e virtualidade, conforme discutido a partir de Ribeiro (2012a).

Nesse sentido, recuperamos aqui as reflexões de Calvino (1990) em sua obra Seis propostas para o novo milênio, na qual elenca as seis qualidades necessárias e constitutivas da literatura no tempo vindouro – o próximo milênio: a leveza, a

rapidez, a exatidão, a visibilidade e a multiplicidade. Esse mesmo autor, antes de caracterizar cada um desses elementos mostrando-nos como constituem o tecido do literário, nos apresenta uma imagem bastante sugestiva da literatura “como um espelho através do qual se pode mirar, de modo indireto, a realidade, sem que esta nos ‘petrifique’” (CALVINO, 1990, position 457). Há nisso uma alusão à mitológica medusa que nos remete à ideia discutida anteriormente da realidade em potência presente no texto literário, virtualizada e atualizada na interação leitores e texto. Para Calvino (1990, position 457), portanto, “a Literatura como função existencial” pode bem representar “a busca da leveza como reação ao peso do viver”, e temos vivenciado essa mesma sensação quando tratamos da leitura literária buscada em ambientes/suportes digitais em experiências leitoras construídas pela cibercultura e pela cultura digital. Nesse sentido, Bauman (2003) já tratava da sensação de liquefação, fluidez e leveza que a modernidade empresta às ações do cotidiano.

Dessa forma, para uma última reflexão sobre os pontos de contato entre a literatura e as tecnologias, podemos retomar Bakhtin (2010, p. 360) quando afirma que “a Literatura é parte inseparável da cultura, não pode ser entendida fora do contexto pleno de toda uma época”. A essa afirmação acrescentamos o fato de que as tecnologias também são artefatos culturais. Logo, tanto a literatura quanto as tecnologias são forjadas pela cultura e a ela reelaboram continuamente.

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