Para proceder à análise das informações no que concerne ao objetivo de pesquisa traçado, estas foram contrastadas e confrontadas no intuito de primar pelo rigor e por sua validade. Além disso, para a análise das informações produzidas utilizamos um processo de interpretação que, segundo Macedo (2010), se inicia com um exame das informações produzidas no campo de pesquisa para se chegar ao processo chamado de identificação das unidades dos significados. Macedo (2010) compreende que, durante esse processo, o propósito é fazer uma redução, selecionando elementos que são considerados essenciais e aqueles que não parecem ter muita relevância, inicialmente. No entanto, esse é um momento delicado da produção de conhecimento, uma vez que demanda do pesquisador um
olhar apurado, afinado com os objetivos do estudo e atento às singularidades e variações do fenômeno. Nesse sentido Couto (2000) afirma que:
Nessa tarefa é preciso humildade, reconhecer que não se pode dar conta de todas as variantes e tendências surgidas no desenvolvimento da pesquisa. É necessário saber escolher, se posicionar. O pesquisador, impossibilitado de encontrar respostas para todas as suas dúvidas, deve se contentar em conduzir uma investigação a partir de algumas ideias obsedantes que se sobressaem em sua pesquisa. Com liberdade e autonomia ele deve destacar os pontos fortes, acentuar este ou aquele aspecto e propor o acompanhamento que julgar pertinente e que mais lhe agrade. (COUTO, 2000, p. 241)
É nesse sentido que a técnica para essa redução, chamada de variação imaginativa, consiste em refletir sobre os trechos da experiência e seus significados, em busca da consciência da experiência estudada. Para a compreensão do fenômeno é necessário ao pesquisador a definição de um conjunto de asserções significativas para ele, como resultado da consciência que este tem do fenômeno. O conjunto destas asserções são as unidades dos significados. Após uma leitura interpretativa dessas unidades, podemos perceber a presença de recorrências, contradições, relações estruturadas, ambiguidades marcantes, que nos permitem agrupá-las em temas para análise, processo que leva, por meio de uma construção híbrida de teoria e empiria, à formulação de leituras sobre o fenômeno estudado.
Assim, orientados por este princípio, diante das informações produzidas durante as etapas de realização da pesquisa, optamos por: sistematizar as informações advindas do questionário semiestruturado em uma tentativa de organizar a realidade emergente ali; transcrever todos os encontros colaborativos, focalizando as falas e compreensões dos sujeitos participantes; recolher de forma sistematizada os registros de leitura feitos pelos participantes em seus diários de bordo. Realizadas essas primeiras ações, procuramos definir quais eram as informações mais significativas, mais revelantes dos aspectos buscados nesta pesquisa em relação ao fenômeno em estudo e, a partir delas, de seus contrastes, sinuosidades e relações latentes, proceder à elaboração de temas de discussão que permitiram realizar uma leitura descritiva, analítica e interpretativa das informações. Nesse sentido, formulamos três temas, que compõem o capítulo seguinte, a partir dos quais a análise se desenvolveu no intuito de gerar entendimentos sobre o
fenômeno para em um momento posterior nos permitir a formulação de conclusões e resultados, ainda que parciais ou passíveis de reformulações e acréscimos visto que a realidade é dinâmica e esta pesquisa, sobretudo, por ser qualitativa, não tem a intenção nem o alcance de construir resultados generalizantes nem generalizáveis.
CAPÍTULO VI
A TESSITURA DO CAMPO: UM ROMANCE EM TEMAS
Para elaborar este capítulo que objetiva o estudo descritivo, analítico e interpretativo das informações construídas ao longo da pesquisa, optamos por construir temas norteadores, fios condutores de uma trama mais ampla de discussão. Esses temas representam agrupamentos realizados a partir da leitura atenta e seletiva da pesquisadora no sentido de que, estando consciente da impossibilidade de responder e dar voz a todas as questões emergentes em um estudo, destaca aquelas que, no seu campo de referências, inferências e interesses latentes, condizem com suas questões de estudo em uma eleição dos aspectos mais significativos ou significantes de um dado fenômeno.
Assim sendo, optamos ainda, por construir uma rede semântica entre esta etapa de compreensão e discussão das informações e os momentos anteriores desse estudo, de modo a entrelaçar teoria e empiria na busca de respostas e leituras possíveis para o estudo em questão. Logo, os temas foram forjados a partir de uma analogia, de uma metáfora, com alguns dos elementos que compõem a narrativa romanesca. Em função disso, agrupamos os aspectos aos quais daremos evidência para a análise em três grandes temas: 1. Tempo e espaço: sujeitos em deslocamento; 2. Narradores-personagens: narrativas singulares; e 3. A construção do enredo: não linearidade, conflitos e clímax múltiplos.
No Tema I abordaremos as informações da pesquisa de campo relativas às questões emergentes entre os sujeitos acerca de aspectos como mobilidade, compartilhamento de leituras na rede, suporte de leitura e seus desdobramentos, desde o conforto/desconforto com os dispositivos móveis, o fluxo de leitura – desmaterialização, até o valor cultural do impresso/digital para os sujeitos participantes.
No Tema II abordaremos as informações da pesquisa de campo relativas a como os sujeitos elaboraram sua relação com a leitura no celular/gosto pela obra, compromisso com a obra, valoração da leitura e problematização do dispositivo
móvel, relação com a rede, relação com outras mídias e inserção na cultura digital, intertextualidade, e letramento digital, desde as primeiras consciências técnicas até a percepção das possibilidades dos dispositivos móveis e descoberta de suas potencialidades por meio da construção de estratégias para explorar seus recursos e possibilidades.
No Tema III abordaremos as informações da pesquisa de campo relativas à conexão e leitura: via de mão dupla entre a potencialidade e a distração/obstáculo, ao letramento literário, considerando as questões de recepção estética, tipo de leitor, envolvimento progressivo com a narrativa, estratégias de compreensão e leitura não linear, compreensão estética, fruição, percepção de si enquanto leitor, especificidades da literatura e capacidade de análise estética da narrativa, além dos aspectos referentes ao letramento digital, tais como a análise dos recursos e potencialidades dos dispositivos móveis e a hipertextualidade.
Nessa lógica, para completar nossa proposta de apropriação metafórica, também utilizaremos um recurso estético e intencional para dar voz aos sujeitos participantes deste estudo. Além das questões éticas envolvidas na referência aos colaboradores de uma pesquisa, também por uma motivação estética optamos por construir em uma categoria ficcional, personagens que representarão os sujeitos nas referências feitas a eles neste capítulo. Assim, cada um deles definiu para si um nome pelo qual gostaria de ser chamado e que de alguma maneira possui para eles uma significação pessoal e motivada. Nesse sentido, os personagens que compõem a trama que se constrói neste capítulo são: Lucy, Hugo, Noé, Sophia, Mariá, Érica, Bárbara, Laila, Clara, Sara e Júlio. Onze personagens que nos ajudarão a compreender melhor o fenômeno em análise e Débora, constante colaboradora dessa pesquisa, que assumiu ao longo do trabalho de campo a função de intérprete para intermediar o nosso contato com um dos participantes portador de uma necessidade específica, a surdez, conforme sinalizamos anteriormente.