A partir da definição dos sujeitos que comporiam o grupo de pesquisa e da realização desse primeiro encontro introdutório, utilizamos como circunstância empírica de produção de informações analisáveis um dispositivo de pesquisa de campo para permitir o aparecimento, a emersão, do fenômeno em estudo. Na operacionalização dessa estratégia de pesquisa, foram desenvolvidos, por um período de três meses, três encontros colaborativos focalizando a discussão sobre as práticas de leitura literária através da utilização de tecnologias digitais móveis com o grupo pesquisado.
Diante disso, discutimos, a partir das leituras que estavam sendo realizadas paralelamente, aspectos da composição estética do texto literário, fomentados pela discussão das obras literárias lidas pelos participantes, todas pertencentes ao gênero romance. Essa escolha se fez necessária para delimitar melhor as habilidades leitoras que foram observadas enquanto indícios de letramento literário e ainda em função da preferência dos estudantes da turma selecionada por essa modalidade de leitura. Assim, consideramos como referência para o estudo e para as práticas de leitura realizadas durante a pesquisa o princípio do texto literário enquanto produção simbólica, de caráter artístico e expressivo ineliminável.
Dessa forma, trabalhamos com seis títulos durante a pesquisa que foram escolhidos pelos participantes, ampliando as possibilidades de discussão, contrastes e análise. Tal processo de escolha se desenvolveu de maneira colaborativa e dialogada, iniciando-se com a apresentação de uma lista de obras literárias, a título de sugestão. Assim, em um processo dialógico de negociação e tomada de decisão foi solicitado que os sujeitos a complementassem e/ou reformulassem com sugestões pautadas em interesses de leitura ou indicações aos colegas de obras já lidas a fim de tornar o envolvimento com as propostas da pesquisa mais atraente e motivador.
Nesse momento, contamos com uma limitação, pois optamos por trabalhar com títulos da literatura moderna (2ª geração modernista) e/ou contemporânea, no intuito de atingir maior grau de envolvimento e identificação dos sujeitos com as leituras e isso, por sua vez, levou-nos a um número reduzido de possibilidades, pois a quantidade de títulos desses períodos disponíveis em versão digital ou digitalizada é bem menor quando comparado aos clássicos da literatura oitocentista ou de
períodos literários anteriores, em função da lei de direito autoral vigente no país (Lei nº 9.610/98) que determina, dentre outras restrições, o prazo de setenta anos depois da morte do autor para a liberação de sua produção em domínio público. Nesse sentido, Ninni (2013) nos alerta para o fato de que:
Estamos participando, nas últimas duas décadas, de uma modificação radical nas estruturas que, durante séculos, tiveram como atribuição manter a exclusividade sobre o acesso ao saber, ao resultado das manifestações artísticas e ao conhecimento. A emergência das novas tecnologias digitais, a convergência, o excesso de informação disponível na web, o colaborativismo em todas as suas vertentes e a implosão do circuito emissor-receptor formam o cenário em que essa mudança se opera. (NINNI, 2013, p. 44)
Esse tem sido um calo nas discussões acerca das limitações e impasses vivenciados no/pelo mercado editorial quando pensamos nas edições digitais. Temos visto muitas dificuldades e contrassensos em relação à produção editorial literária para plataformas digitais, frutos da ausência percebida, até então, de materiais construídos, forjados, a partir da eficaz apropriação da natureza da internet que Moraes (2000, p. 03) já apontava há mais de uma década, como sendo pressuposta por “um ecossistema com interseções comunicacionais que possibilitam intercâmbios entre emissores-produtores e receptores-consumidores”.
Além disso, temos vivenciado tentativas do mercado editorial que muito mais transpõem o livro impresso para o e-book do que propriamente o reconfiguram a partir das potencialidades que as plataformas digitais podem oferecer em termos de experiência e práticas de leitura eivadas pela reconfiguração da cultura digital. Muito disso se deve às tensões entre os defensores irredutíveis do livro impresso, sobretudo, no campo da produção literária, e os correspondentes visionários das plataformas digitais substitutivas, ao que Moraes nos alerta:
A polarização acima descrita embute um falso dilema. Em primeiro lugar, livro não é fetiche, seja ele de papel, de pano ou eletrônico, esteja ele em volume encadernado, em CD-ROM, disquete ou na Internet. Qualquer suporte que dissemine informações favorece, em maior ou menor grau, a socialização da cultura — e parece indubitável que a infraestrutura das redes constitui um poderoso canal de distribuição. Ela descentraliza e
barateia o processo editorial, libertando-o do atrelamento inevitável às diretrizes mercadológicas, industriais e mediáticas. As ferramentas eletrônicas contribuem igualmente para preservar a memória literária, em acervos digitais com gigantesca franquia para estocagem. Obras raras voltam a ser acessíveis. Sem contar as inovações de escrita e leitura que se descortinam nas narrativas hipertextuais. (MORAES, 2000, p. 9)
Assim, temos pela frente uma discussão política bastante longa e que já se estende há anos no sentindo de repensar a negociação dos direitos autorais, o barateamento das produções digitais, a ampla e numerosa disponibilidade, bem como de problematizar os modos de ser leitor e a produção de livros digitais que atendam a essas novas demandas, dentre outros aspectos, para garantir características como “rapidez, disponibilização ininterrupta e descentralizada, percursos criativos pelos nós da rede e acessos ilimitados a acervos online [...] principais diferenciais que reconfiguram as formas de expressão, difusão e usufruto dos materiais literários” (MORAES, 2000, p. 12).
Não temos visto, por exemplo, a popularização dos e-readers que talvez sejam um bom caminho para se discutir essas questões, embora há tempos as editoras já estejam pensando alternativas nesse sentido. Essa é, sem dúvida, uma questão de ordem editorial e mercadológica, mas que afeta diretamente a maneira como os sujeitos vêm lendo, pois como afirma Ninni (2013, p. 44) “é um mundo onde os bens simbólicos podem ser compartilhados, trocados, expostos e modificados por meio da Tecnologia” e justamente por essa natureza é necessária a construção de respostas à altura desse novo cenário.
Temos ainda como agravante, o gênero focalizado por este estudo, o romance. Este, por sua vez, talvez não seja pela sua própria natureza e extensão, o gênero mais adaptado às elaborações hipermidiáticas, como as experiências feitas com o gênero poesia, o que nos põe ainda mais questões sobre sua viabilidade, sobretudo, quando fazemos uso de títulos, em sua maioria, pertencentes ao chamado cânone literário – outro agravante na discussão. Enfim, questões que não se configuram diretamente como objeto de estudo dessa pesquisa, mas que precisam ser levantados, ainda que sobre a interface da problematização para percebermos também os limites da leitura de romances iminentemente da cultura impressa, agora transpostos, ainda que no formato PDF, para dispositivos móveis.
Assim, ponderando sobre esses aspectos e dificuldades, depois de um processo de pesquisa acerca das obras, autores e preferências e de momentos de discussão, argumentação por parte dos sujeitos participantes, chegamos aos seguintes títulos de interesse para leitura: Mar Morto (1936), Capitães da areia (1937) e Tenda dos milagres (1969), de Jorge Amado, O centauro no jardim (1980), de Moacyr Scliar, Ensaio sobre a cegueira (1995), de José Saramago, e Cidade de Deus (1997), de Paulo Lins.
Durante o período de execução da pesquisa, os participantes foram orientados e estimulados a utilizar nos encontros e fora deles, tecnologias digitais móveis, conectadas em rede, como dispositivos constituintes das ações de estudo, aprendizagem e práticas de leitura literária. Dessa forma, foram realizados três encontros colaborativos de pesquisa com os participantes, os quais focalizaram aspectos diretamente relacionados às questões norteadoras desta pesquisa.