O gênero literário com o qual trabalhamos nesta pesquisa e para o qual propusemos experiências leitoras foi o romance. A princípio tal escolha pode parecer estranha dada a facilidade maior com que outros gêneros mais curtos e maleáveis circulam nos ambientes digitais e em rede, promovendo experiências leitoras mais rápidas, ágeis e pontuais, como se observa em relação ao conto, à crônica e à poesia. Entretanto, chegamos a essa escolha por três motivos:
a) a própria necessidade de delimitação de um gênero como uma condição da pesquisa para focalizar o letramento literário, uma vez que diferentes gêneros literários requerem diferentes habilidades leitoras;
b) a preferência de leitura dos sujeitos envolvidos nessa pesquisa, considerando suas experiências; e
c) as potencialidades que acreditamos estarem guardadas nesse gênero no que diz respeito às experiências leitoras condizentes com a cultura digital e com a prática de leitura literária intermediada por dispositivos digitais móveis.
Nesse sentido, comecemos nossa discussão por aquilo que é mais proeminente: a compreensão desse gênero. De acordo com Bakhtin (2010, p. 397), “o romance é o único gênero por se construir, e ainda inacabado. [...] A ossatura do romance enquanto gênero ainda está longe de ser consolidada, e não podemos ainda prever todas as suas possibilidades plásticas”. Esse é um gênero marcado por sua incompletude e elasticidade no sentido de que, por se aproximar da própria estrutura na qual a sociedade e o homem se organizam, permite uma miríade de possibilidades representacionais que se relacionam diretamente com sua natureza sociohistórica e culturalmente situada.
Assim sendo, “o romance está ligado aos elementos do presente inacabado que não o deixam enrijecer. O romancista gravita em torno de tudo aquilo que não está ainda acabado” (BAKHTIN, 2010, p. 417). Logo, o romance traz no seu bojo a potência de estar sempre em construção e de refletir, sem o reducionismo que o termo pode encerrar, a própria condição do homem do tempo presente que é na mesma medida atemporal e histórico. Nesse sentido, Berbigeier Feil (2010) nos afirma que:
É fato que muito ainda se tem a dizer a respeito do que é, de como se constitui, de como exerce tal força de atração sobre os leitores, como se dá a identificação com esse gênero, parece correto postular que o romance, tal qual a vida que o inspira, não encontra um horizonte finito, sobrevivendo e renovando-se com as mutações do viver do humano, que é sua gênese. O romance é um gênero em evolução, por isso, talvez ele reflita mais profundamente, mais substancialmente, mais sensivelmente e mais rapidamente a evolução da própria realidade, considerando-se a necessária ligação entre o real o ficcional que traz em suas páginas. (BERBIGEIER FEIL, 2010, p. 4)
Dessa forma, vamos percebendo que enquanto gênero literário, o romance possui uma tessitura densa, em rede, que liga, na base narrativa que possui em sua natureza, vários elementos outros como tempo, espaço, personagens, tal qual a própria ordenação da vida do homem. Esse seu caráter de micro sociedade posto na
narrativa talvez seja o elemento que o conduz a encontrar ainda a preferência de muitos leitores em suas experiências de leitura literária, inclusive dos jovens no universo do Ensino Médio. Conforme sugere Melo (2013), o romance ocupa na literatura o papel de camaleão, metamórfico. Nesse sentido:
O romance é o gênero da diversidade e da liberdade, pois não se sujeita a regras pré-estabelecidas e está aberto ao novo. É o camaleão da Literatura, pois cresce a cada nova aparência e escapa de cada um que tenta apanhá-lo através de uma teoria classificatória. Buscar, portanto, suas relações com a tradição e a vida social é, ao mesmo tempo, objetivo e desafio para quaisquer pesquisadores interessados em compreender a organicidade desse gênero. (MELO, 2013, p. 8)
Voltamos a nos aproximar daquilo que Candido (2004) traz como sendo o poder humanizador da literatura reificado no gênero romanesco. Este oferece ao leitor a possibilidade de reconhecer-se no mundo como sujeito e compreender seus movimentos. Assim, sua organicidade se assemelha àquela que define e orienta a ordenação da vida social, mas ao contrário desta, o gênero romanesco pode infringi- la, recriá-la, reordená-la e refazê-la livremente, o que, por sua vez, nos dá experiências contraditoriamente palpáveis do não vivido, ao menos no plano do tempo presente, mas antes do tempo possível, realizável na ficção. De acordo ainda com Melo (2013, p. 13), “o romance questiona quem somos ao mesmo tempo em que representa com profundidade o processo da vida humana” e nesse movimento entre vida, mundo e ficção de alguma maneira temos por meio dele “a possibilidade de repensar o que podemos e o que queremos ser, pois acima de sua liberdade estética está a atitude humanista intrínseca, que repercute na transformação da visão do leitor sobre o mundo no qual está inserido”.
Muitos estudiosos se debruçaram sobre a questão do romance na literatura, dentre os quais destacamos Lukács, autor de Teoria do romance (1962), Walter Benjamin, Theodor Adorno e Lucien Goldmann. Em todos esses autores, a questão do romance é colocada na sua relação com a sociedade moderna e se tornam discussões frutíferas justamente por essa natureza camaleônica que possui o romance e que o permite acompanhar o homem em seu tempo e lugar. Assim como na modernidade, o sujeito do romance se reveste de certa individualização distinta da coletividade das epopeias e textos épicos, da qual se sugere uma derivação do
gênero, este em sua natureza de valorização do sujeito individualizado a contempla e representa muito bem. Nesse sentido, entendemos que “o romance e a modernidade também compartilham a consciência individual, ou seja, o isolamento do ser na coletividade”, distinto, pois, dos heróis coletivos, pois contém, em maior porção, não os grandes feitos em nome de nações heroicas, mas antes “a representação dos fatos ordinários da vida diária” (MELO, 2013, p. 17). Dessa forma:
Sejam quais forem os recursos literários e extraliterários utilizados na constituição do romance, sua atualidade reside no fato de que ele consegue, por meio da transfiguração do real, expressar os conflitos do indivíduo consigo mesmo e com o mundo em que vive. Por ele, são questionados valores, identidades, visões de mundo e modos de vida, além do próprio lugar do romance na sociedade moderna. (MELO, 2013, p. 17)
Logo, vamos percebendo que a despeito de outras possibilidades, o gênero romance se aproxima muito da condição do homem na sociedade moderna, posto que atemporalmente é sempre uma representação ficcional, estetizada da vida do homem, enquanto sujeito problematizado. Nesse ponto encontramos outro traço de sua constituição que em muito o aproxima da sociedade moderna e justifica a epígrafe que utilizamos nesse capítulo: a intertextualidade. Assim, em uma tradução livre concordamos com Theodor Nelson (1993, p. 24) quando afirma que “a Literatura [da qual o romance faz parte] é um sistema de escritas interconectadas”.