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KEY DATA 2.4. Income statement

Dans le document Areva half-year report june 30, 2006 (Page 53-57)

First half 2005 as reported

KEY DATA 2.4. Income statement

A lavagem, portanto, é um espaço educativo, que consegue agregar famílias inteiras, perpassa a relação dos grupos e entidades de educação não formal, engloba os aprendizados da educação informal, que acontecem na rua e outros espaços, promovendo mudanças internas e pessoais, que são levadas por toda a vida.

Nesse sentido, respondendo a um questionamento do texto, acho que me tornei a itapuanzeira descrita pela maioria dos entrevistados a partir do momento que passei a me interessar em saber mais sobre o lugar, a cultura local, a festa, como também ao conviver e participar da(s) história(s), construções e reconstruções. Não busquei esse reconhecimento, mas um entendimento a respeito de toda essa questão identitária, que com a construção da pesquisa não anulou as inúmeras identidades que me constituem, pois foram agregados valores a todas elas. Acabei me inserindo dentro da realidade do bairro que sempre morei, tendo a oportunidade de participar mais de perto de todo o contexto e consequentemente me desenvolver enquanto ser humano com as interações.

Aprendi a tocar alguns instrumentos, conheci lugares, pessoas, troquei experiências, dialoguei, discuti, ouvi, fui escutada, me inspirei em estudar conceitos teóricos para entender

o cotidiano do lugar e assim como Seu Menezes me integrei e vivenciei a vida de união, mesmo em meio a desarmonias, intrigas e falta de comunicação das pessoas. Ao mesmo tempo, refleti sobre uma série de estratégias populares de articulações e mobilizações que podem ser e são feitas em torno da festividade, percebendo que uma infinidade de pessoas, com visões diferentes se encontram no mesmo espaço e decidem conjuntamente, as artes de criar condições favoráveis para a execução dos eventos.

Eu aprendi a vida de união, de me integrar com o pessoal. Na lavagem passada eu estava ali na igreja com dois amigos e uma baiana saiu do cortejo e veio me abraçar, me abraçou e.... (pausa por sentir-se emocionado) e disse, esse senhor aqui deixou saudade na gente. E meus colegas me abusaram dizendo que só eu que recebi abraço. Isso porque eu me integrava, eu ajudava, eu fazia a apresentação delas na lavagem. (Seu Menezes).

Ela me deu visibilidade pública, não só a lavagem de Itapuã, mas também a instituição que eu milito que é o Malê Debalê. E através disso eu vi a necessidade de eu voltar a estudar. Essa foi a contribuição. (Josélio).

Para Josélio, a lavagem deu visibilidade ao trabalho que vinha desenvolvendo junto ao Malê e isso desencadeou nele a necessidade de estar mais preparado para atuar junto ao seu grupo, buscando se aprimorar na formação acadêmica, sendo que não tira o mérito de toda a formação que a vida proporciona aos indivíduos. Para outros, foi uma maneira de colocar em prática o que já traziam consigo e tentar aprimorar a maneira de lidar com o outro sem utilizar de agressividade, sendo mais paciente, tentando compreender e dialogar com a diversidade que habita a festa, como foi o caso de Celso e Rose.

Eu aprendi muito, o quanto é difícil você conviver em grupo, comecei a compreender as pessoas melhor porque eu fui obrigado a conviver com pessoas das mais variadas espécies, pessoas que são muito amigas, pessoas que são cordiais, pessoas que são muito interessantes, mas também fui obrigado a conviver com pessoas que são inescrupulosas, que são maldosas, que são falsas, mentirosas e eu fui obrigado a conviver com todo tipo de gente. (Celso).

Eu acho assim, foi um desafio, de você ultrapassar mesmo fronteiras e isso eu já trago comigo mesma, na labuta, na raça mesmo, eu tenho que conseguir, eu tenho que ir à busca, mas você não pode quebrar, tem que ser que nem coqueiro, coqueiro é assim, enverga mas não quebra. E eu trago isso comigo da lavagem, essa questão da forma como conduzir certas situações, porque assim, eu tenho um temperamento meio esquentado, tenho, admito, porque eu não sou muito de aguentar desaforo. E certas coisas a gente tem que aguentar e eu fiquei muito mais ligada ao bairro, muito mais comprometida de ver realmente que a gente está nessa e não é por acaso, a gente tem que levantar e seguir adiante mesmo com essa bandeira. (Rose).

Para Biriba, foi uma oportunidade de eu conhecer mais a história do meu bairro, as referencias do meu bairro, foi dentro da lavagem. E assim, a lavagem é o momento que você pode reencontrar seu amigos, relatando que por diversos motivos, muitas pessoas também migram para outros lugares, outras estão distantes da convivência diária, mas que na época da lavagem essas pessoas retornam, se fazem presente, fazem uma vista ao bairro, promovendo uma série de reencontros que são também relatados por Celso. Para Biriba, a lavagem é um espelho das coisas que têm no bairro, sendo possível estar em contato com a identidade itapuanzeira e também se atualizar com as novidades que surgiram no lugar, enfim, é na lavagem onde se percebe o reflexo do lugar e da participação da comunidade.

Eu acho que a lavagem contribuiu muito para que a gente pudesse sentir o que é o nosso bairro, sentir o que é ser itapuanzeiro e não é à toa que a gente está sempre procurando participar, não só com a capoeira, como também a gente faz outras atividades durante a lavagem, a gente sai com a galera do Chapéu de Lupa, onde a gente sai de sunga, chapéu de palha, sandália havaiana, onde a gente se sente mesmo itapuanzeiro e nisso tem até pessoas que não são de Itapuã, mas acha legal e abraça o movimento e cada ano está crescendo. (Biriba).

Rose traz ainda a questão do trabalho em equipe, quando um grupo se reúne para conseguir construir algo, em que com um pouquinho de contribuição de cada envolvido é possível chegar onde se desejava e todos aprendem uns com os outros, a ter paciência, a compreender o outro, a olhar a situação com os olhos da outra pessoa. Para ela, é muito mais que apenas aprender a história do bairro, são aprendizados que ficam para toda a vida.

É um trabalho em equipe, e todo trabalho em equipe que a gente faz a gente acaba que se molda. Cada trabalho é um trabalho, então assim, a forma de você se comportar diante das situações que aparecem, as vezes muitos difíceis, como eu estou lhe falando, não é só a questão educativa formal, mas eu falo assim a forma como você se comportar com as pessoas, pela forma de você se portar diante das situações, tudo isso você aprende. Não é só a história do bairro, a história da lavagem, disso, e daquilo outro. Isso tudo você aprende e isso depois você leva. (Rose).

A questão do cara chegar assim batendo no peito “eu quero meu dinheiro” e depois no final do processo você vê aquela pessoa que batia no peito em dizer que queria o dinheiro, a parte dele também estar lá fazendo doação, pra você ver né?! (Rose).

Um dos aprendizados de Seu Regis foi ver os filhos de Dona Nissú continuarem mantendo a tradição que a mãe iniciou. Além disso, todos os aprendizados com os momentos da festa para ele a cada ano enriqueceram mais a sua vida. E ele diz,

Às vezes a gente vai como expectador e depois a gente vai como participante também, um componente da lavagem, faz parte ali. Porque a gente acha bonito, aprende e no ano seguinte vai fazendo parte já da lavagem. (Seu Regis).

Para Eurico, o aprendizado obtido junto ao processo de reestruturação da lavagem está relacionado com a experiência de mobilização e união das pessoas, como também perpassa a questão de assumir a liderança e ter a responsabilidade de corresponder à expectativa de indivíduos diversos.

Eu pude ver que a gente pôde congregar e não é fácil congregar pessoas. Não é fácil liderar pessoas, cada cabeça é um mundo. E quando a gente consegue de uma forma manter uma união, atender a expectativa de pessoas e que vinham desacreditadas e desacreditados, poxa, isso é muito prazeroso, é recompensador. Essa é a recompensa que tem, de ver que deu tudo certo, que podemos congregar e estar com todo mundo numa só harmonia, numa só voz e isso foi muito bom. Tivemos poucos políticos, não deixamos que a política atrapalhasse a harmonia, o “meu”, o “eu”, esse pessoal que cada um vem buscar seu grupo, sua fatia e que dividem. E essa divisão nos enfraquece, o que não enfraquece é sermos uns, um corpo, uma liderança, um respeito, um amor, uma tradição na lavagem de Itapuã. É disso que nós precisamos e a gente conseguiu em 2011. E eu espero que esse corpo continue em 2012 e que venham, participem, que venham pessoas novas, que cheguem idéias novas para que essa tradição fique mais forte. (Eurico).

Ives também comenta a respeito dessa responsabilidade que sente ter, mas também enfatiza a questão da ligação da sua pessoa intimamente com a lavagem, na qual desenvolveu um sentimento de pertencer muito forte em função da sua atuação com a organização e com as manifestações culturais.

[…] eu acho que a gente tem muito mais responsabilidades e compromisso com essa comunidade a partir do momento que você tem um papel preponderante nesse aspecto. Então, você vê a quantidade de queixas que eu tenho que ouvir agora porque que esse ano nós não tivemos a festa da baleia, como se a responsabilidade fosse só minha, que não deixa de ser também. Mas que isso de certa forma, não vamos dizer que eu não tenha uma parcela de culpa e orgulho de saber de como minha história de vida, essa minha visceralidade, ela está intrinsecamente ligada também a essas manifestações culturais do bairro. Que hoje eu já reflito, como é que vai dar continuidade a isso? Então, quem?... como é que se percebe? Pra não ficar uma coisa também muito em cima da personalidade. (Ives).

Bujão fala sobre as sensações que teve participando dos movimentos em função do bairro de Itapuã, incluindo-se a lavagem, os processos de organização, que por ter se desenvolvido politicamente, aprendeu a se articular, a lidar com o coletivo através das

experiências. Relata que esse acúmulo contribuiu na maneira como vem intervindo e que algumas pessoas levaram para o lado pessoal divergências do plano das ideias.

Bom, assim, teve várias sensações. [...] quando você participa do coletivo, uma parte lhe admira, uma parte sustenta politicamente suas idéias e outras partes inveja. É natural do ser humano. Porque eu na verdade acho extremamente salutar as divergências, porque eu acho que a gente tem que ter respeito. Não é discordar e desrespeitar, você pode discordar das idéias, mas você tem que respeitar as pessoas. E eu acredito que só será ou é possível respeitar se você se respeita, se você tem a compreensão de cidadania e você se respeita, porque você só pode respeitar o outro se você se respeita e é isso que nós temos que fazer mais. (Bujão).

Paulo Freire (2000) defende que a educação está imbricada com a política, sendo a prática onde acontece essa educação, que revela a sua natureza política, educando e reeducando com a convivência entre os seres humanos e destes com o meio em que vivem através de suas interpretações do mundo. Para fazê-las não é preciso ser um intelectual, mas apenas estar no mundo e com o mundo. Bujão diz que essa forma de agir, de lidar com as pessoas com falta de respeito está ligada a uma falta de politização, a uma falta de cultura política e argumenta que na verdade política é o cotidiano das relações pessoais.

Mas quem se predispôs, quem está na terra com a missão de contribuir, quem tem o compromisso com o seu habitat, com o outro, com a sociedade como um todo, vai conviver com isso sempre, porque a humanidade, e sobretudo o caminho é muito mais, sobretudo com todos os avanços tecnológicos da ciência, da cibernética, a gente continua pouco desenvolvido na condição humana e eu acho que a sociedade itapuanzeira precisa trabalhar mais essa tradição. (Bujão).

O mesmo explica que Itapuã perdeu muito a questão do que é ser uma comunidade e dá exemplo de que o lugar era uma vila de pescadores, na qual as pessoas faziam bastante o escambo, trocavam coisas, mercadorias, alimentos e essa troca só existia porque havia interação. Milton Santos traz essa questão ao dizer que “o dinheiro é uma invenção da vida de relações e aparece como decorrência de uma atividade econômica para cujo intercambio o simples escambo já não basta.” (SANTOS, 2009, p.97). Para Bujão, isso porque a população foi estimulada a não gostar de política mesmo fazendo diariamente e o grande desafio é essa educação política.

Eu tenho a sensação muito grande que as pessoas poderiam ser diferentes, as pessoas poderiam fazer uma opção pelo bem estar, pelo respeito, pela solidariedade, mas realmente existem pessoas que são muito egoístas, nós fomos educados, a sociedade brasileira, essa sociedade ocidental ela gera nas pessoas um sentimento muito individualizado. E isso é um problema para uma comunidade. Você perde muito a relação de respeito com o outro, o carinho com o outro, da solidariedade com o outro e isso é algo que o tempo inteiro eu fico refletindo sobre isso, porque se eu tiver uma atitude egoísta eu posso até ter, às vezes você age, mas eu imediatamente revejo a minha atitude, porque o egoísmo destrói muito, ele é nocivo à vida comunitária. (Bujão).

A partir da visão de Frei Betto (2000, p.61), “uma pessoa politizada é aquela que passou da percepção da vida como mero processo biológico para a percepção da vida como processo biográfico, histórico e coletivo.” É a pessoa fazer relações entre temas, como também fazer uma leitura crítica da realidade e ser capaz de confrontá-la com conceitos teóricos, temáticas de áreas diversas e perceber que tudo está ligado de alguma forma. Para Freire (2000, p.62) é “ganhar a claridade na leitura do mundo” e ir juntando cada flash de claridade como um quebra cabeça, fazendo as ligações.

E cada um dos entrevistados relatou contribuir da sua maneira, seja participando, discutindo, se misturando, convivendo, aprendendo e inventando artes de fazer a festa acontecer. Desejaram que as pessoas se conscientizassem e se politizassem mais para buscar uma união que permita uma construção coletiva de luta por um lugar melhor para todos viverem e que só será possível com a humanização dos seres humanos a partir da convivência e participação nos movimentos culturais. Assim, as mudanças no espaço, nas comunidades e na cultura têm afetado não apenas Itapuã, mas todos os lugares.

Para Milton Santos (2009, p.161), são inúmeros os possíveis futuros. Estes dependem das possibilidades e da vontade em fazer acontecer das pessoas, a partir de uma clareza do projeto a ser feito.

A primazia do homem supõe que ele está colocado no centro das preocupações do mundo, como um dado filosófico e como inspiração para as ações. Desta forma, estarão assegurados o império da compaixão nas relações interpessoais e o estímulo à solidariedade social, a ser exercida entre indivíduos, entre o indivíduo e a sociedade e vice-versa e entre a sociedade e o Estado, reduzindo as fraturas sociais, impondo uma nova ética, e, destarte, assentando bases sólidas para uma nova sociedade, uma nova economia, um novo espaço geográfico. O ponto de partida para pensar alternativas seria, então, a prática da vida e a existência de todos. (SANTOS, 2009, p. 148).

Dessa forma, é preciso que haja o envolvimento para que a educação a partir da cultura possa contribuir com uma formação mais humana dos indivíduos. Nesse sentido, e concordando com as palavras de Eurico:

Tudo isso que eu já disse com certeza é uma mensagem e sei que vai incomodar muita gente, mas tenho certeza que o que incomoda é pra melhor, incomoda pra pensar, refletir. É preciso que todo dia que se desça com um jarro, que se quebre e se faça remodelar e se construir um jarro novo. Todo dia é preciso entregar o mutuê (cabeça) ao Olodumare (Deus criador) com todas as ações que fizemos durante o dia pedindo a ele força e sabedoria para o dia seguinte. Então precisamos em Itapuã do dia seguinte, de um dia melhor e que tenhamos um Itapuã melhor pra todos. [...] E que tenhamos um dia melhor em Itapuã, na Bahia, no Brasil, no mundo, Axé. (Eurico).

Por fim, nos tempos atuais, os inúmeros processos identitários no cotidiano de convivência comunitária dos lugares produzem uma diversidade que precisa exercitar o diálogo através do respeito às diferenças para que as reconstruções culturais possam acontecer de maneira respeitosa e mais humana, no sentido de uma educação que preza pelo desenvolvimento humano e reconhece a formação pela cultura.

O que alimentou a construção dessa pesquisa foi a possibilidade de que o futuro seja formado pelo presente, pelo cotidiano. Itapuã não pode voltar a ser o que não é mais, o passado, pois o presente se impõe e o desafio é a partir da participação, das novas e velhas artes de fazer, do diálogo em função do que é melhor para todos, olhar para o hoje, pensando numa perspectiva do futuro das pessoas.

Dans le document Areva half-year report june 30, 2006 (Page 53-57)

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