O dia acaba, a programação em Itapuã continua. O palco montado em 2011 traz apresentações do Terno de Reis, “arrastões” de poucos grupos pelo bairro, como o Korin Nagô, no sábado.
[...] no calendário ela (festa de Itapuã) ia da quarta-feira na madrugada até a segunda feira da semana que vem. E essas reformas que foram acontecendo em Salvador, dos bairros, como Rio Vermelho, Bonfim, passou a ter apenas um dia e nós estamos brigando pra resgatar a idéia de Itapuã ter exatamente um calendário que vá das duas horas da manhã de quarta feira com a saída do bando anunciador até a segunda feira com o presente de Gildete e o encerramento das atividades da lavagem de Itapuã.[...] (Bujão).
A festividade se completa com a segunda-feira gorda, na qual há uma confraternização regada a uma das especialidades do bairro, a peixada nativa e a moqueca de
Folha. Logo em seguida, próximo ao fim da tarde do mesmo dia, é entregue o presente de Iemanjá, tradição de mais de 20 anos, que já foi aqui discutida.
A lavagem de Itapuã é portanto a ser um dos principais espaços de afirmação identitária devido ao seu poder de mobilização.
E é importante porque ela agrega, as pessoas se mobilizam, as pessoas esperam. [...] é a manifestação que mais agrega, nós tivemos em 2011 a feliz percepção de que as reuniões, foram umas 5 ou 6, ela teve uma participação média de 80 pessoas, representando grupos e manifestações, isso significa um poder de mobilização. Então, a festa de Itapuã é seu grande referencial cultural para o bairro. (Bujão).
Para Biriba, é um momento de autoafirmação, pois é onde os grupos da comunidade comparecem para fazer uma homenagem ao bairro e mostrar os trabalhos que são desenvolvidos. Para Eurico, o pertencimento vem daí, da gente se sentir... E o que é de pertencimento a gente sente, a gente não explica, a gente não tem uma explicação para isso porque é paixão.
Para Cuca, a lavagem tem elevado a autoestima da comunidade ligada às tradições, que percebeu que pode lutar para que suas manifestações culturais continuem a existir, sendo, portanto, uma forma de manter viva a cultura ancestral e movimentar o lugar na atualidade.
Eu acho que a contribuição da lavagem está sendo na verdade o resgate de várias manifestações que aconteciam e que não acontecem mais e coisas assim que estão sendo bacanas que estão chegando, como manifestação que estão começando agora, mas que está sendo muito legal. Então eu acho que a lavagem seria o momento de encontro dessas pessoas e das manifestações. (Cuca).
Celso e Rose acham que a lavagem ainda precisa sensibilizar muita gente do bairro, sendo apenas um pontapé inicial, pois a questão não gira mais em torno de um nascimento na terra, mas de uma identificação com o lugar das pessoas que fincaram suas residências, devendo estas entenderem a sua forma de vida, aprenderem a interagir, para que a comunidade local também possa compreender e interagir com as práticas culturais que passaram a habitar o bairro. Para Seu Menezes, a festa é o aniversário de uma tradição, é momento de alegria e deveria divulgar a cultura do povoado, contando através de grupos simbólicos a história do lugar. Para Sidney, é muito mais importante pelo que representa hoje do ponto de vista formativo e educativo do que para o que um dia representou do ponto de vista do sagrado.
É uma coisa que está dentro da essência, não é uma alegria vã e a gente percebe que todo o povo pode fazer parte disso. [...] isso tudo é fruto da preservação da identidade, isso tudo é força dessa preservação. E a festa de Itapuã ela contribui muito mais pra formação do ser humano do que para a formação religiosa. (Sidney).
Dessa maneira, a contribuição da festa de Itapuã tem relação com a formação do ser humano, na qual se baseia no sentir, no observar, no viver, no conviver das pessoas e destas com o lugar, no simbolizar o cotidiano e a cultura local.
A questão da permanência da lavagem foi bastante trazida nas falas dos moradores, que percebem o descaso e desinteresse das próprias pessoas em levar à frente e do Estado em criar projetos que forneçam apoio para tais manifestações. Dessa maneira, em muitos lugares as festas populares já não existem mais. Por isso que a população precisa continuar buscando objetivos comuns, pensando em táticas e meios de resistir ao movimento homogeinezador, seja no bairro de Itapuã ou em qualquer outro lugar para não deixar que as culturas populares fiquem no passado, mas para que elas possam estar vivas no presente, se atualizando e preparando o nosso povo para o futuro.
Eu tenho fé, sou muito positiva. [...] Eu acho assim, Itapuã chegou no limite que não dá mais, chegou no fundo do poço, agora a mola propulsora está lá pra jogar para cima. E a gente mudar. Você é bem mais nova do que eu e já está assim totalmente envolvida e assim virão outros, assim como os que eram mais velhos do que eu se foram, eu fiquei e sei como foi que aconteceu isso, eu fiquei, você vai ficar e outros também. [...] Mas a gente ainda tem que mexer ainda muito aqui dentro (bate no peito, no coração) pra conseguir pegar, tirar das pessoas essa sensibilidade, porque muita coisa aqui dentro vai rolar assim com amor mesmo. É o amor pelo bairro, o cuidado, é por ai que vem. Não é por uma intervenção da prefeitura. Vem daqui (bate novamente no peito), vem com uma aproximação nossa de você querer chegar numa pracinha e que você não consegue mais. Já chegou pra mim, já chegou pra você, já chegou para muitos, mas ainda falta muita gente se conscientizar disso. Mas é parar pra sentar e ver de que forma a gente pode fazer isso. De que forma a gente vai poder modificar? De que forma a gente vai poder transformar essa realidade? Ainda precisa mexer muito no coração das pessoas para tirar a poeira, tirar o carvão, para poder acender a chama de muitos que ainda estão adormecidos. (Rose).
Rose em sua fala demonstra perceber as mudanças de muitas pessoas, como ela, como eu, que sentiram a necessidade e perceberam a importância de agir. Ou seja, é criando vínculos com o lugar, convivendo, conhecendo, que a identidade, o sentimento de pertencer a um local é desenvolvido.
Figura 28 – Desfile do Korin Nagô no Sábado
Fonte: A autora (pesquisa de campo, 2011)
Figura 29 – Imagem de Iemanjá no dia do presente da segunda-feira gorda.
Figura 30 – Comunidade assistindo à entrega do presente na segunda-feira gorda.
Fonte: A autora (pesquisa de campo, 2011)
4.6 APRENDIZADOS, CONTRIBUIÇÕES E MUDANÇAS DOS ATORES SOCIAIS NA