Applications of Kernel Methods
KERNEL METHODS IN IMAGE PROCESSING
Apesar de o enfoque do nosso trabalho se situar no estudo do contributo do drama histórico de Hollywood para o narrar dos acontecimentos históricos e ser abordado de modo aprofundado, posteriormente, decidimos, contudo, abordar a história filmada através de outro género cinematográfico, o documentário histórico, para que possamos distinguir as características distintas destes dois tipos de registo.
A palavra documentário pressupõe uma relação direta com a realidade que passa pela seleção dos vestígios do passado e, posterior, envolvimento numa narrativa, sendo os filmes concebidos “com imagens originais e narrados por uma voz omnisciente (a voz da história),” que se apoiam sobretudo “nas recordações de sobreviventes e nas análises dos expert.” (op. cit. 71)
65 À semelhança da história escrita, o documentário ignora a ficção dizendo que o passado pode ser integralmente contado num enredo com princípio, meio e fim, facto este que atrai a confiança de historiadores, jornalistas e do público para este modo de contar a história em detrimento da longa-metragem dramática. De modo análogo aos filmes de ficção, o documentário segue uma estrutura cuja narrativa aborda os acontecimentos em termos de início-conflito-resolução, no entanto, este género fílmico “nunca é um reflexo direto da realidade, mas ao trabalhar as imagens do passado ou do presente, dão forma a um discurso narrativo com um significado determinado.” Logo a “verdade” de um documentário surge como “o fruto da recriação e não de sua capacidade de refletir a realidade.”A este respeito Rosenstone esclarece:
(…) the documentary directly reflects the world, possessing what has been called an “indexical” relationship to reality – which means it shows us what once was there, in front of the camera, and in theory, what would have been there anyway were no camera present. (…) This is opposed to the dramatic film which must elaborately set up and stage that is then filmed specifically for the camera. (op. cit. 70)
O documentário partilha muitos aspetos do filme ficcional, nomeadamente o uso de imagens consideradas mais aproximações do que realidades literais, a dramatização de cenas e a criação de uma estrutura que segue as convenções do filme dramático e também a noção do que se vê na tela é uma reprodução direta do que aconteceu no passado.Este género fílmico:
(…) occasionally dramatizes scenes, and regularly structures material into the conventions of drama, with a story that begins with certain problems, questions, and/or characters at the outset, develops their complications over time, and resolves them by the end of the film. (op. cit. 77)
Deste modo, o filme documentário baseia-se na tradução de um enredo que segue a estrutura do filme dramático para além da noção da representação direta do que aconteceu no passado. Ao apresentar uma encenação da realidade, o documentário cria uma ficção em nome da verdade. Rosenstone destaca o documentário Nanook de Robert Flaherty como um exemplo extremo deste tipo de documentários, na medida em que o realizador só conseguiu obter um relato da vida dos esquimós a partir de uma recriação dos hábitos
66 que se tinham perdido (pescar com um arpão) mas também do espaço em que os esquimós viviam (igloo) para que fosse possível obter um quadro fiel da cultura esquimó. Para tal, “Flaherty had to teach his subjects how to hunt seal with harpoons, a skill they had long ago lost.” E além disso, para obter imagens dentro do abrigo, o realizador teve de construir um igloo especial “with one wall cut away, through which the camera could record their ‘traditional’ life.” Neste esforço de dar ao mundo um retrato preciso de uma cultura, Flaherty teve de encenar a realidade em nome da verdade. “The truth in this case being about how primitive peoples coped with the hardship of their lives. “ (op. cit. 71)
Há uma questão que precisa de ser clarificada quando aplicamos o termo documentário, pois este encerra em si vários tipos de formato visual que usam diversos modos de representação. Assim, na aceção de Bill Nichols, Professor na Universidade Estatal de San Francisco e pesquisador no campo dos estudos cinematográficos, o documentário pode apresentar seis tipos diferentes, nomeadamente expositivo, observacional, interativo, reflexivo, poético e performativo.
Nas explicações alvitradas para cada um dos tipos, Nichols refere que no modo expositivo, os fragmentos do mundo histórico são apresentados numa estrutura retórica e argumentativa, a perspetiva do filme é fornecida através do comentário em voz off e as imagens confirmam os argumentos narrados.
Por sua vez, o documentário observacional procura captar os acontecimentos sem interferir no processo, não utiliza legendas nem narrador para que o público se foque no que está acontecendo e não na interpretação do realizador.
No modo interativo, ao colocar o cineasta no filme, torna-o um ator social e privilegia-se o uso de entrevistas de forma a dar variedade aos temas. Enquanto o documentário de caráter reflexivo se preocupa com o processo de negociação entre cineasta e espetador, buscando as responsabilidades e consequências da produção do documentário para o cineasta, atores sociais e público. O poético utiliza o mundo histórico como matéria-prima para dar integridade formal e estética ao filme, não havendo preocupação com montagem linear, argumentação, localização no tempo e espaço ou apresentação aprofundada de atores sociais. No performativo, ao combinar o real com o imaginário, o realizador torna o documentário autobiográfico e paradoxal, visto que “os documentários recentes tentam representar uma subjetividade social que une o geral ao particular, o individual ao coletivo e o político ao social.” (Nichols 2001: 141-171)
O documentário expositivo é o tipo mais utilizado, pois possibilita a compilação de velhas filmagens de acontecimentos (que se encontram em museus, arquivos
67 fotográficos e cinematográficos) e uma narração sobreposta para explicar ao espetador o significado da imagem e apresentar o argumento mais amplo da obra. Também contém música emocionante para sublinhar e enfatizar o seu argumento. Apesar da sua aparente ligação à realidade, este género cinematográfico reproduz a história em imagens, de modo a criar uma ficção que perpetue a verdade sobre o passado, conforme defende Rosenstone na seguinte citação:
O mérito aparente do documentário é que ele parece abrir uma janela para o passado que nos permite ver as cidades, as fábricas, as paisagens, os campos de batalha e os líderes de outros tempos. Porém esta capacidade constitui seu principal perigo. Embora muitos filmes utilizem imagens de uma época, montando-as para dar uma visão real do período tratado, devemos recordar que na tela não vemos os fatos em si, nem sequer tal como foram vividos por seus protagonistas, e sim imagens selecionadas daqueles fatos, cuidadosamente montadas em sequência para elaborar um relato ou defender um ponto de vista concreto.21
Esta enunciação dos diferentes tipos de documentário facilita a perceção das diferentes formas de construção deste género fílmico, não implicando uma divisão estanque nem uma exclusão, pois podem surgir todos no mesmo filme.