B) Les incohérences familiales
1) Introduction
rio, os meditar129, isto é, os transformar em exercícios130... E se todas as biografias do santo assinalam que escreveu um Trattato do Dispregio del
Mondo a pedido da princesa, será legitimo pensar que essa obra, tal como
o «Tratado da Humildade» e do «Amor de Deus e do próximo» que, durante algum tempo, foi tomando corpo nas cartas a Ranuccio..., foi, originaria- mente, também elaborado sob a forma epistolar.
Todos estes conselhos e orientações parecem pressupor uma presença epistolar do santo junto da princesa de Parma que vai, como já sugerimos, mais além desses dois anos que documentam as cartas que dele nos res- tam. O que parece significar que, independentemente de qualquer encon- tro ou visitas a que, alguma vez, André Avellino alude131, essa presença se traduziu em uma correspondência mais vasta. De todos os modos, esse conhecimento que o santo napolitano foi adquirindo sobre a vida espiri- tual de D. Maria - um modo de viver fortemente ascético e quase anti- cortesão, como sugerem a sua Vita e algumas cartas de André Avellino - foi-se transformando, perdoe-se-nos que o reiteremos, num sentimento de
sono ritrovalti parecchie nelle sue scriture». De alguma passagem de uma carta de Andrea Avellino à princesa sabemos que ouviu pregar o Padre Gabrielle Fiamma, Cónego Regular, e também que o terá apreciado. «E se ben non le mancano dei libri, nè le parole della viva voce dei Rev. Padre Fiamma (che veramente infiammano ogni aghiacciato, e consolano ogni afflitto cuore, che volglia consolarsi) nondimeno...» in Lettere..., ed. cit., I, 87, 193. a Maria de Portugal, Piacenza, 16.3.1572.
139 Andrea AVELLINO, Letrere.... II, 105, 111. a Ranuccio Farnese, Nápoles, 15.9.1592:
«E poi mi disse, clie di sua mano trascriveva delle mie lettere quei punti, che più l'eccitavano, e le meditava nel suo Oratorio...«. Conf. ainda, Lettere..., I. 67, 162, a Giulia Sanseverino, Piacenza, 27.8.1571: «lmperoche stando in camera, ha più tempo di consolarsi colle sante medicazioni, et orationi, sicome fà la Serenissima Principessa di Parma; quale gran parle del giorno consuma in meditare, orare, con spesso confessarsi, e communicarsi...».
130 Andrea AVELLINO, Lettere..., II. 105, 111, a Ranuccio Farnese, Nápoles,
15.9.1592; «E con questi essercitii cercava d'estirpare dal suo purissimo cuore le natu- rali passioni, e imperfettioni, quali nascono con noi...».
131 Andrea AVELLINO, Lettere,.., II, 107, 113, a Ranuccio Farnese, Nápoles,
30.10.1589, em que recorda que a princesa conversava com «done poverelle, e basse, purchè [...] spirituali», «il che io hò visto in Piacenza». Não há alusões qualquer «encon- tro» em Parma, mas SALAZAR Y CASTRO, Indice de las Glorias de la Casa Far-
nese..., ed. cil. 664 diz que André Avelino foi chamado por Maria de Portugal a Parma,
o que confirma F. ANDREU, Dizionario Biografico degli Italiani..., III, ed, cit., 69-72. mas, infelizmente, nenhum dos amores data essas viagens.
A correspondência de Santo André Avelino com Maria de Portugal
admiração e num proclamado reconhecimento da sua santidade. Talvez, por isso, valha a pena, tentando completar alusões que já ficaram feitas, ana- lisar um pouco mais os testemunhos e outras manifestações em que o tea- tino alicerça esse reconhecimento.
Invocando, diante de Ranuccio precisamente, em carta de 5.7.1589, o seu conhecimento de «i screti del suo purissimo cuore», André Avellino garante, numa passagem que já tivemos ocasião de referir, que «la Sere- nissima Signora Principessa sua Madre, [...] era molto più santa nell’inte- riore, ch non è scrítto in quello libretto della sua vita...»132. Anos mais tarde, em 30.10.1592, insiste, junto do mesmo príncipe, «che molte piú virtù, e perfettioni erano in quell'anima benedetta, che non sono scritte in quel libretto della vita, e morte sua...»133. Com efeito, a princesa, não só como um S. Luis de França - um exemplo que recorda algumas vezes a Ottavio..., a Ranuccio e a outros «grandes» —, «se ben non lasciò il suo regno col corpo, il lasciò coll'affetto», o que diz bem de quanto ela sabia de «la piciolezza, e viltà del mondo, e di lutte le cose che nel mondo sono»134, mas também de quanto «[cercava]sempre d'imitare à la Madre d'Iddio, quale se ben descendeva da stirpe regale, e sacerdotale, quanto al corpo, e era colma d'ogni virtù, e d'ogni gratia, quanto all'anima; nondi- meno vilissima tra le done si riputava»135. Não poderá, portanto, pôr-se em dúvida que a princesa foi e será exemplo, exemplaridade para que, segundo o santo teatino, a princesa Maria tinha sido eleita por Deus156, aliás, como todos os grandes senhores, e que, como decorre de tantos pro- pósitos que registou no seu «memorial de vida» e de tantos gestos e pala- vras seus que recorda Sebastião de Morais, ela terá assumido como uma sua - se não mesmo a principal - função social. Talvez ela se visse no
132
Andrea AVELLINO, Lettere..., I, 315, 474, a Ranuccio Farnese, Nápoles, 5.7.1589.
133
Andrea AVELLINO, Lettere..., 11, 107, 113, a Ranuccio Farnese, Nápoles, 30.10.1592.
134
Andrea AVELLINO, Lettere..., T, 315, 473, a Ranuccio Farnese, Nápoles, 5.7.1589.
l35
Andrea AVELLINO, Lettere..., II, 107, 113, a Ranuccio Farnese, Nápoles, 30.10.1592.
136
Andrea AVELLINO, Lettere..., I, 65. 157, a Maria de Portugal, Piacenza, 9.7.1571. Beatrice COLLINA, L'Esemplarità delle Donne Illustri fra Umanesimo e Controriforma in
Donna, Disciplina, Creanza Cristiana dal XV al XVIII Secolo. Studi e Testi a Stampa (a cura di
D. Maria de Portugal, Princesa de Parma (1565-1577) e a seu tempo
papel de «princesa cristã» dos seus dias de Contra-Reforma137... André Avellino, pelo menos, ele que nunca se cansou de proclamar a necessidade do bom exemplo por parte dos «grandes», assim a veria138...
Um exemplo em vida para os seus contemporâneos, especialmente, como verificamos, para os seus súbditos de Parma e Piacenza, quer no que toca à oração e à frequência dos sacramentos - o inquisidor de Parma, por sua vez, podia permitir-se lembrar-lhe à hora da morte que tinha feito «col'opere, e essempio suo tanto bene in questa città, la quale è tutta rifor- mata»139 - quer pela humildade que manifestava na benevolência com que «conversava», como é testemunha de vista, como já, por mais de uma vez,
137 José Manuel Marques da SILVA editou, com um rigoroso estudo introdutório (Imagens da
Princesa e da Dama na Corte de D. João III), o Libro Primero del Espejo de la Princesa Christiana de Francisco de Monzón (Porto, 1997) como dissertação de Mestrado em Cultura
Portuguesa apresentada a Faculdade de Letras da Universidade do Porto (ed. Policop., 2 vol.s).
l38 Apesar de já em nota (n° 53) termos remetido para algumas cartas do Padre Avellino em
que o princípio da necessidade - e, consequentemente, da obrigatoriedade - do «bom exemplo», por parte dos grandes senhores, é afirmado e exposto, valerá a pena recordar aqui algumas passagens dessa assídua correspondência com duas grandes senhoras: «Sà V. S. I. che più volte l'hò detto, che sempre prego per li gran signori, se ben non li conosco, perche dal buono essempio della loro vita nasce la gloria d'Idddio, e l’utile dell'anime, più che dalle prediche di Francischino, del Fiamma, ò del Cornelio...», in Lettere, ed. cit., I, 59, 146, a Geronima Colonna, s. d.; «Perchè fà più frutto all’anime 1'essempio della bona vita d'un gran signore, ò signora, che non fanno le pre- diche di cento famosi predicatori...», in Lettere..., 1, 23, 61, a duquesa de Nocera, Nápoles, 16.10.1567; «...Molto più vorrei che vi caminassero [pelas estradas seguras da vida espiritual] le persone Illustrissime di sangue, e specialmente quelle à quali Iddio hà datto il governo dei popoli. Imperoche à i signori, più che agli altri conviene fare veramente vita spirituale per molte ragioni...[...] Apresso i signori debbono fare vita veramente spirituale, perche son posti nel mondo per essempio de i popoli, quali essendo ignoranti, e non sapendo per scientia vera vita spirituale, cercano imitare i loro superiori...», in Lettere..., 1, 94, 207, a Crisostoma Carrafa, duquesa de Atripalda, Nápoles, 5.8.1582.
l39 Sebastião de MORAIS, Vita..., ed. cit., 14v: «et particolarmente un giorno, ch'essendo
venuto il Padre Inquisitore à visitaria, per darli animo le disse, vostra Altezza si dovria consolare, poi che con la gratia di nostro Signore hà fatto col'opere, et con 1'essempio suo tanto bene in questa Città, la qual è tutta riformata...». Conf. ainda Vila..., ed. cit., 18v.: «Onde essendo io venuto poco fa da Roma, ella con molt'allegrezza mi disse, voi sentirete gran consolatione, à vedere in questa città quanto si tratta, et come è bene introdotta 1'oratione».
A correspondência de Santo André Avelino com Maria de Portugal
assinalamos, o próprio santo em Piacenza, «e ragionava con donne pove- relle, e basse, purchè fussero state spirituale, e di buona vita...». Como já tivemos ocasião de sugerir, talvez esta alusão do santo, para além do que poderá significar do grau de humildade que a princesa procurava impor-se - ela que segundo o seu confessor «si conosceva di natura altiera, et assai inclinata alle vanità, e alla gloria...»140 - possa pôr-nos na pista de alguns encontros - reuniões, talvez fosse mais correcto... - com gente espiritual do tipo das beatas que tão comuns eram na Lisboa - e no Portugal - que deixou em 1565... «Conversare» e «ragionare», com efeito, parecem sig- mificar - e exigir - reunir... De qualquer modo, porém, se não estamos apenas diante da sua exploração retórica em registo piedoso, essas «cir- cunstâncias, que, nos seus factos, testemunhavam a sua humildade, pare- cem ter notoriamente contrastado com as práticas de relacionamento - não dizemos de convivência - que regiam a estratificação social da Piacenza desses dias... Talvez, por tudo isso, «gli huomini dell’Oratorio della Chiesa Catedrale di San Pietro di Bologna», lido que foi o «chiaro testimonio, quello che di lei a scritto il Rever. Padre della Compagnia del Giesu, theo- logo, e confessore suo», maravilhados que tão alta senhora «habbi peró con tanta riverenza frequentate le Chiese, cossi osservati li giorni festivi, con tanto fervore adoprastasi nella disciplina chistiana delle Pulle, si affe- tuosamente ricevuti, et accarezzati i poverelli, ragionato, et ascoltalo sem- pre cosi volontieri, e con tanta humiltà, e devotione delle cose di Dio...», decidiram que havia que «conservare publica memória di cosi raro essem- pio, accaduto si può dire ne gli occhi nostri...». A publicação, em 1578, desta primeira edição - uma primeira entre as várias primeiras desse ano - da Vita e Morte della Serenissima Prencipessa di Parma e Piacenza deveu-se, precisamente, a esse desejo dos devotos membros desse Orató- rio bolonhês de salvar do esquecimento «tale essempio cosi vivo, cosi fresco, e cosi notabile...»141.
140
Sebastião de MORAIS, Vita..., ed. cit., 13v. D. Francisco Manuel de MELO,
Teodósio II, I, 2 (cit. pela tradução que Augusto Casimiro deu do Cód. 51-111-30 da B.
P. A. D. E.). Porto, s. d., 136, refere, quase por contraste com Maria, «dama virtuosa e ilustre, exemplo excelente de piedade e constância» (126), que «já então era tão conhe- cida a altivez de D. Catarina», sua irmã...
141
Sebastião de MORAIS, Vita..., ed. cit., 3v, 4r-4v. Que motivos estarão na base das, quatro edições (Roma, Bolonha, duas em Milão) da Vita... nesse ano de 1578? Seria justo sugerir uma campanha de «propaganda»? Interesses familiares ou de institutos reli-
D. Maria de Portugal, Princesa de Parma (1565-1577) e o seu tempo
Compreendemos que, assim, passasse Maria de Portugal a ser um exemplo depois da morte e, antes de mais, como assinalavam os promo- tores dessa primeira edição da sua Vita..., às «nobilissime et devotissime Madonne» da «Compagnia della Communione» da mesma catedral de S. Pedro de Bolonha... Depois, por meio destas, a todas as outras senhoras142... E, como já sabemos, é André Avelino quem fornece alguma das primeiras indicações acerca da ressonância dessa Vita da princesa e, como espera- vam esses, dos primeiros sinais da imitação do seu exemplo. Com efeito, o santo napolitano, que, apesar de achar que essa Vita ficava muito aquém da realidade pelo que à santidade da princesa se refere - e compreensi- velmente, pois Sebastião de Morais não quis escrever uma acabada bio- grafia -, guardava um exemplar «nella nostra cella per memoria di quella santa anima»143, aponta a Ranuccio, em 27.11.1592, como um estímulo mais para seguir o exemplo de sua mãe, que «tante Signore in questa Città leggendo il libretto della santa vita, e della felice morte della Serenissima Signora madre sua, s'eccitano al ben"operare, e à riputarsi vili, come faceva
pois em 19.11.1579 em uma minuta de carta escrita em nome, ao parecer, de Ottavio Farnese pelo seu secretário Giovan Battista Pico (a letra assim o indicia), conservada no A. S. P. (Carteggio Farnenano Interno, B. 75), dirigida a um «Molto magnifico Sig- nor mio Osservandissimo», afirma-se que o destinaria desejava que o duque Ottavio escrevesse «al padre Morales che consegni al P. Palmio à Roma la copia reformata della Vita, è Morte della S.ra Principessa che sia in cielo...», sugerindo mais ainda que o duque não queria intervir directamente no forçar o Padre Morais a entregar esse escrito, «perche parrebbe che ambisce troppo questa publicatione» e que, por isso, há que o conseguir por outra via. Em apêndice (II) publicamos esse texto. Ignoramos se esse P. Palmio deverá identificar-se com Benedetto Palmio (<1598) ou com Francesco Palmio (<1585), ambos jesuítas e ambos naturais de Parma, conforme se verifica em Mario SCADUTO, Catalogo dei Gesuiti d’Italia (1540-1565), Roma, 1968, 110. Curiosamente, a
tradução castelhana de Vita e Morte... que se guarda na B. P. A. D. E. (Cod. CIV/1-17) não coincide de um modo constante com a tradução de Francisco Alvarado impressa em Roma em 1580 (Herederos de António Blado). É interessante notar que a versão do ms. de Évora está datada de 15.7.1579, o que supúnhamos um equívoco por 15.7.1577. Será de manter essa suposição? Terão essas variantes algo a ver com a «reforma» apontada no documento que referimos? (Note-se que o classificador do documento datou-o, ao alto da folha, de 1575, e como tal se encontra equivocadamente classificado na respectiva caixa).
142 Sebastião de MORAIS, Vita..., ed. cit., 4v.
143 Andrea AVELLINO, Lettere..., II, 107, 113-114, a Ranuccio Farnese, Nápoles.
A correspondência de Santo André Avelino com Maria de Portugal
quella santa anima, quale quanto piú s'humiliò, tanto più è stata essaltata nella Celeste patria, et ancora in questo essilio, ove più d'ogni altra gran Signora della nostra età è celebrata...»144. André Avellíno referia-se, exac- tamente, a Nápoles, e sabemos, porque assim já o afirma em carta datada, dessa cidade, de 31.8.1589, que «specialmente [é celebrada] da queste Sig- nore napolitane, quali tengono il libretto della vita di sua Altezza, e spesse volte son stato dommandato della bontà di detta Signora da molte Signore, et in particolare della Signora Vice regina di Napoli. E leggendosi il libretto della vita di quella santa anima, e sentendo da me le bone qualità di quella sì rara Signora, molte Signore pensarano di mutare vita...»145. Em Nápoles, poderá, assim, ter existido, com a Vice-Rainha à frente, um (pequeno?) grupo de admiradoras de D. Maria de Portugal..., um grupo onde, como parece ser legítimo deduzir, pondera André Avellino... E à própria Vice- -Rainha, D. Maria de Zuñiga, lembrava-lhe, em 1588, juntando ao seu clás- sico exemplo de S. Luis de França o da princesa de Parma, que o mais importante não era abandonar fisicamente o mundo, mas, sim, «colla mente, e col cuore»146. Talvez seja esta moldura que, de algum modo, ajuda a compreender, que, cm Nápoles, ainda em 1612, volte a editar-se, por Laz- zaro Scorrigio, a Vita e Morte, acompanhada do Pianto della Marchesa di
Pescara sopra la Passione di Christo, dos Discorsi sopra 1'Amor di Dio dei P. M. Ávila e da Offerta di se stesso al Signore fatta da un divoto reli- gioso147. Curiosamente, discorrendo por outras cidades onde a fama da
princesa de Parma se poderá ter difundido através da edição da sua Vita.,., de um ou outro modo, verificamos que por lá também andou André Avel- lino... Em Bolonha, onde deveria cundir o seu exemplo, como desejavam
144
Andrea AVELLINO, Lettere..., II, 114, 120, a Ranuccio Farnese, Nápoles, 27.11.1592.
145
Andrea AVELLINO, Lettere..., I, 321, 479, a Ranuccio Farnese, Nápoles, 31.8.1589.
l46
Andrea AVELLINO, Lettere..., I, 277, 426, a D. Maria de Zuniga, Vice-Rai- nha de Nápoles, S. Paolo, 12.8.1588: «...chi non poteva allontanarsi (do mundo] col corpo, s'allontava colla mente, e col cuore. [...] E nel ltempo nostro habbiamo visto la Serenissima prencipessa di Parma, che tante volte il giorno si retirava à meditare, e à gustare la dolcezza del divin'amore, e conversando sempre stava sopra di se per non trascerrere in parole otiose...».
147
Eva-Maria Iung INGLESSIS, Il pianto della marchesa di Pescara sopra la Pas-
D. Maria de Portugal, Princesa de Parma (1565-1577) e o seu tempo
os piedosos membros do Oratório da catedral da cidade patrocinadores da edição do «libretto», passou, nos dias de visitador da Lombardia (1577- 1579), o santo napolitano com demora que permitiu verificar a sua eficá- cia como guia de almas148... Em Milão, que também quis editar, no mesmo ano, a obra de Sebastião de Morais, foi o santo prepósito da casa dos tea- tinos entre 1578-1581, isto sem falar na fama que a infeliz condessa Giu- lia Sanseverino teria ajudado a difundir, ela que alguma vez foi a inter- mediária das cartas de Maria para o santo149... Se, evidentemente, nada disto quer dizer que a ele se deva a promoção dessas edições, em qual- quer dos casos, nada custa a crer que o santo teatino, admirador da santi- dade da princesa e, consequentemente, como o declara em alguma carta que ficou referida, um propagador da sua fama sanctitatis, se tivesse empe- nhado na difusão desse «libretto» que, segundo ele mesmo declarava, embora ficasse muito aquém da verdade, era a única fonte acessível para aceder ao conhecimento da biografia dessa «santa anima»... E isto por uns anos em que Diego Pérez de Valdivia, um discípulo de Juan de Ávila e admirador dos capuchinhos, comentava a tradução castelhana da Vita (Bar- celona, Jerónimo Genovés, 1587), se procedia à edição desta última obra em italiano (Florença, 1593) e à reedição, agora em Espanha, da tradução para castelhano da obra de Sebastião de Morais (Madrid, Pedro Madrigal, 1591) cuja primeira edição parece ter saído em Roma (1580)... Por todas estas circunstâncias, podemos aceitar que não brotassem apenas da piedosa pedagogia de um director empenhado em constantemente recordar a um filho o exemplo de uma mãe, as palavras com que André Avellino exal- tava a perene fama da princesa de Parma depois da morte como algo que alcançaria o filho e herdeiro do ducado se imitava as virtudes de sua mãe: «Pensi bene Signor mio, - escrevia a Ranuccio em 30.8. 1589 - quante Prencipesse, Duchesse, e Regine sono state da molti anni in quà. Di nulla si fà mentione, e di nulla si fà stima, se non della Serenissima Signora sua Madre, qual'è celebrata per tutta la Christianità [...] Segua le vestigia della sua bona madre, che sarà con lei immortale in questa, e nell'altra vita150.
148 Gio, Batt. CASTALDO, Della Vita del Padre Don Andrea Avellino, Chierico Regolare. Breve
Relazione, ed. cit, IX, 46
149 Andrea AVELLINO, Lettere..., I, 65, 156, a Maria de Portugal, Piacenza, 9.7.1571:
«...son’otto dì, che dalla Signora contessa Giulia mia carissima figliuola, hò da Milano havuta una lettera di sua Altezza degli 26 di maggio...».
A correspondência de Santo André Avelino com Maria de Portugal
VI - Depois de tudo, o sentido da direcção espiritual de Santo André de Avellino junto de Maria de Portugal parece ser o da correspondência que mantiveram. Embora o que dela nos resta seja extremamente parcelar e o que dela podemos prudentemente avaliar através das cartas a Ranuc- cio Farnese deva ser, por muito importante que resulte para o nosso ponto de vista, lido com alguma cautela, pois se foi escrito por um santo, tam- bém o foi, muitas vezes, por um velho a quem tremia a mão ao escre- ver151 - e a distância dos anos costuma embelezar o passado -, apesar de tudo isso, tudo ponderado, parece ser possível aceitar que essa correspon- dência com os Farnese permite vislumbrar que o santo napolitano não teve que ajudar D. Maria a resolver questões de consciência - para isso tinha os seus confessores, teólogos e até inquisidores152 e até alguns «especia- lizados» em determinados assuntos ou momentos153 - nem em caminhos de alta mística. Antes de mais, durante alguns anos - de modo especial, entre 1571 e 1572 —, foi o seu papel junto da princesa de Parma, como de outras grandes damas, quase o de um confidente - que já então era con- siderado um santo - de angústias e preocupações por um marido ausente e em perigo. Procurou, então, o santo, bem de acordo com o seu estilo154,
30.8.1589. Conf. ainda Lettere.... II. 125, 135, a Ranuccio Farnese, Nápoles, 12.11.1593: «Perchè altro non cerco, se non ch'ella viva talmente, che sia celebrata nel Mondo (com'è la sua Signora