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3. Effect of biotic and abiotic factors on inter- and intra-event variability in

3.1. Introduction

É evidente que, sendo o Brasil um país de dimensões continentais, é possível encontrar uma grande diversidade de identidades interioranas em suas diferentes regiões. Por esta razão, definimos, na delimitação do tema desta pesquisa, a identidade interiorana que seria investigada: aquela dos moradores de fazendas e pequenas cidades de algumas regiões brasileiras conhecidos como caipiras. A partir desta delimitação é que escolhemos a segunda versão de "Paraíso", de Benedito Ruy Barbosa para a análise.

Os motivos da escolha foram os seguintes: em primeiro lugar, optamos uma trama da Rede Globo devido à indiscutível liderança desta emissora tanto em audiência quanto em qualidade técnica e quantidade de produções de ficção seriada. A preferência por uma obra de Benedito Ruy Barbosa se manifestou devido à grande expressividade deste novelista no que se refere às telenovelas rurais. O objeto de nossa investigação é uma trama exibida no horário das 18h porque é aí que se enquadram a maioria das tramas rurais (com exceção daquelas que alcançaram, na década de 1990, o horário nobre, como vimos). Optamos por não escolher uma trama rural da década de 1990 porque, a nosso ver, apesar de ser o período de maior destaque do interior do Brasil nas obras de ficção televisiva, sua permanência no horário

nobre não perdurou e, portanto, seu posicionamento, de modo geral, na grade de programação da Rede Globo continua sendo o das 18h. Além disso, nosso propósito era a escolha de uma obra exibida tão recentemente quanto possível.

Já a preferência por uma telenovela que se passa na atualidade ocorreu para que se levantassem questões passíveis de discussão na contemporaneidade em que as identidades são múltiplas. “Parte-se assim do pressuposto de que a sociedade é um grande campo de batalha, e que essas lutas heterogêneas se consumam nas telas e nos textos da cultura da mídia e constituem o terreno apropriado para um estudo crítico da cultura da mídia” (KELLNER, 2001, p. 79).

A partir deste pressuposto, vale à pena ressaltar que nossa pesquisa histórica, já vista pelo leitor, a respeito da identidade e da cultura caipiras tem suas finalidades relacionadas à compreensão do desenvolvimento e das transformações desta formação identitária. Assim, nosso objetivo não é procurar, na telenovela escolhida para análise, personagens que correspondam a uma "identidade caipira tradicional" ou, em outras palavras, a uma identidade específica próxima daquela que retratamos no capítulo sobre a cultura caipira. Nossa investigação procura encontrar, sim, resquícios desta identidade, produtos de sua transformação e de seu posicionamento na atualidade pós-moderna e industrializada de um Brasil que passou de essencialmente rural a majoritariamente urbano7.

Portanto, entre as telenovelas do autor escolhido, a segunda versão de “Paraíso”, que foi ar em 2009, se mostrou a mais adequada para os objetivos da pesquisa, devido também à possibilidade de obtenção dos capítulos da trama gravados em sua totalidade, já que assistir e fazer anotações sobre todo o desenvolvimento da obra era nossa intenção desde a concepção do projeto de dissertação. Por outro lado, outras tramas do mesmo autor que tiveram maior

7 Segundo dados do IBGE, o Censo de 2010 detectou que cerca de 160 milhões de brasileiros (aproximadamente

84,2% da população) vivem no ambiente urbano, enquanto apenas 30 milhões (aproximadamente 15,8%) vivem na zona rural. Em contraste com esta realidade, em 1960, a população rural brasileira era de cerca de 39 milhões de pessoas (55%), enquanto a urbana se limitava a 32 milhões (45%).

repercussão, como “Pantanal” e “O Rei do Gado” (ambas exibidas em horário nobre), já foram objetos de outras interessantes pesquisas, que se tornaram referenciais teóricos para o desenvolvimento da nossa.

Neste sentido, cabe destacar as obras de Heloísa Buarque de Almeida (2003) e Arlindo Machado e Beatriz Becker (2008). Buscando analisar a relação entre telenovela e formação de hábitos de consumo, a primeira autora, através de uma pesquisa de recepção, confirma sua hipótese de que a própria estrutura da telenovela induz ao consumo, mesmo quando não se fala em ações de merchandising. Sua metodologia se baseou na observação da recepção da telenovela "O Rei do Gado" (Rede Globo, 1996) por habitantes da cidade de Montes Claros, no interior de Minas Gerais. Assim, ela atentou para como os telespectadores faziam comparações entre as situações vividas, por exemplo, pelo protagonista fazendeiro da trama de Benedito Ruy Barbosa e pelos fazendeiros da vida real na cidade escolhida para sua investigação. A pesquisadora não buscou, portanto, fazer uma análise da representação interiorana em "O Rei do Gado", já que seu livro, intitulado "Telenovela, consumo e gênero: muitas mais coisas" se dedicou a questões relativas ao consumo. Contudo, a nosso ver, sua pesquisa merece destaque no contexto desta dissertação por se centrar numa telenovela rural e por ter sido desenvolvida numa cidade que podemos considerar como interiorana.

Já Arlindo Machado e Beatriz Becker (2008), analisaram a linguagem apresentada em "Pantanal", exibida em 1990 pela TV Manchete, se atendo aos detalhes que fizeram desta telenovela um marco da ficção seriada brasileira. Para os autores, a obra em questão mudou os rumos de nossa teledramaturgia com seu discurso sobre ecologia e o mito do paraíso perdido, mostrando um Brasil rural que se integrou ao cotidiano das grandes cidades a partir de sua exibição. Assim, a obra "Pantanal: a reinvenção da telenovela" destaca, por exemplo, o realismo fantástico nas figuras da mulher-onça e do velho do rio, que representam uma mitologia interiorana, aparentemente não valorizada em "Paraíso", como veremos. Assim, o

livro de Machado e Becker pode ser considerado uma das poucas obras sobre a teledramaturgia rural de que temos notícia e, portanto, é uma importante referência para nossa pesquisa.

Voltando ao assunto da seleção da telenovela para nossa investigação, concluímos que, com a escolha de “Paraíso”, mantemos certo ineditismo em nosso objeto de estudos. Desta maneira, nossa temática norteadora é a identidade interiorana mostrada em “Paraíso” e suas aproximações e distanciamentos em relação à cultura Zona Sul e à cultura caipira, dentro da perspectiva identitária dos Estudos Culturais.

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