Para a análise qualitativa dos setores que compõem a adaptação do indivíduo, foi apontado o fator que se refere ao tipo de resposta do indivíduo. Para Simon (2005, p.33) os fatores da adaptação são “como concepção genérica de fatos que interagem mediados pelo ego, influindo na adequação” da adaptação, a saber: fator interno positivo (f/i+); fator interno negativo (f/i-); fator externo positivo (f/e+) e; fator externo negativo (f/e-). A manutenção da adequação adequada ou inadequada depende da positividade ou negatividade dos fatores. A positividade é atribuída aos fatores quando eles influem para soluções adequadas no
enfrentamento das situações-problema. Por outro lado são negativos quando determinam soluções inadequadas (SIMON, 2005).
Afetivo-Relacional (A-R):
(1) – percebe que está com conflitos – (f/i+) (2) – pai adicto a jogos de azar – (f/e-)
(3) – sente que ninguém vai dar conta dele; sentindo-se sem suporte quando os pais se separaram. Momento sofrido, que perdura – (f/i-)
(4) – tia o acolhe – (f/e+)
(5) – percebe o pai como uma figura fraca e degrada – (f/i-) (6) – casou-se feliz – (f/i+)
(7) – recebe o apoio da família da esposa e os considera como pais estabelecendo uma relação de apoio – (f/e+)
(8) – sentimentos positivos em relação à compra da casa própria (f/e+) (9) – a compra da casa lhe gerou problemas financeiros – (f/i-)
(10) – atitude de harmoniosa com a esposa em relação aos estudos. Combinaram que ela se formasse primeiro, e ele iniciaria a formação logo após para os dois terem ensino superior – (f/i+)
(11) – Fabrício e a esposa desejavam ter um filho, mas sem planejar a esposa engravida. Fabrício sente medo de ser pai – (f/i-)
(12) – a esposa engravidou e ele teve problemas financeiros – (f/i-)
(16) – ele e a esposa conversaram para iniciarem uma reorganização financeira – (f/e+) (17) – tem uma boa relação com a esposa – (f/i+)
(18) – vida reclusa a esposa, filho e sogros – (f/i-)
(19) – relações de „amizade‟ voraz e controladora – (f/i-) (20) – esposa ciumenta – (f/i-)
Produtivo (Pr):
(6) – cursa ensino superior – (f/e+)
(21) – tem muitos conflitos no trabalho – (f/i-)
(22) – é um funcionário dedicado, porém voraz, competitivo e centralizador – (f/i-) (23) – as pessoas que trabalham com ele o vêem como centralizador – (f/e-) (24) – sentimento de onipotência e arrogância – (f/i-)
(26) – não reconhece as qualidades do seu chefe – (f/i-)
(27) – apresenta sentimentos persecutórios e está muito frustrado por não conseguir ser promovido de função – (f/i-)
Orgânico (Or):
(28) – tem diabetes – (f/i-)
(29) – não tem bom controle do diabetes, e atribui ao seu estado emocional afetado pelo trabalho; terceirizando a culpa – (f/i-)
(30) – sua dieta é apenas com restrição de carboidratos e de açucares – (f/e-) (31) – o uso de medicamento não é compatível ao seu tipo de diabetes – (f/e-)
(32) – não faz atividade física desde o diagnóstico por recomendação médica, Fabrício gostava muito de jogar futebol – (f/e-)
(33) – nega o diabetes – (f/i-)
(34) – não entende a variação da glicemia: não relacionando o tratamento e cuidados essenciais, ao fracasso em manter sua glicemia em níveis desejáveis – (f/i-)
(35) – gostava de manter relações sexuais com a esposa – (f/i+)
(36) – ele e a esposa não mantêm métodos contraceptivos para prevenção de gravidez – (f/i-) (37) – não ia ao médico – (f/i-)
Sócio-Cultural (S-C):
(13) – tem uma religião – (f/e+)
(14) – frequenta assiduamente a igreja, mantendo uma relação idealizada (f/i-) (15) – ministrava aulas para grupo de encontro de casais na igreja – (f/e+)
Análise Qualitativa do Setor Orgânico (Or):
Para o cumprimento de um dos objetivos deste trabalho, faz-se necessário descrever a adequação da adaptação no Setor Orgânico neste momento e após a Entrevista de Follow up.
Simon (2005, p. 25) considera o setor Orgânico como “aquele que compreende a salubridade, o estado e funcionamento da totalidade do organismo da pessoa, bem como seus sentimentos, atitudes e ações em relação ao próprio corpo, à higiene, alimentação, sono, sexo, indumentária”. Penso que neste setor Fabrício encontrava respostas pouquissímo adequadas,
já que resolvia o problema, mas não lhe trazia satisfação e gerava conflito intrapsíquico e/ou ambiental.
Fabrício havia tido o diagnóstico de Diabetes Mellitus tipo1 há seis anos, parecia resolver o problema realizando dieta, usando os medicamentos orais prescritos e não realizando atividades físicas desde o diagnóstico por recomendação médica. Porém tais soluções não lhe traziam satisfação porque seus níveis glicêmicos variavam muito; e ainda traziam-lhe conflitos internos por não entender o que acontecia em seu corpo.
Penso ser de fundamental importância discutimos o tratamento que Fabrício realizava em relação ao Diabetes Mellitus, não para confrontar outras áreas de conhecimento, mas considerando que Fabrício estava em uma Instituição que lhe oferecia todas as informações para um tratamento eficaz. E conforme a International Diabetes Federation (2010) o tipo de Diabetes Mellitus diagnosticado em Fabrício, tipo1, não existe cura, mas existe um efetivo tratamento, se for possível ter acesso apropriado à medicação, qualidade nos cuidados referentes à alimentação e acompanhamento médico regular, o paciente deve ser capaz de levar uma vida ativa e saudável, reduzindo assim, o risco de complicações.
Em relação à alimentação, os portadores de diabetes têm uma orientação referente à contagem de carboidratos. Segundo a SBD (2009) a contagem de carboidratos oferece um resultado bastante objetivo e facilita o cálculo da dose a ser administrada antecedendo cada refeição. Tal forma de tratamento requer atitude do paciente em relação ao planejamento de suas refeições, para assim haver independência de comer determinados alimentos.
Outro dado pertinente a ser colocado era em relação ao uso do hipoglicemiante oral, não indicado para o tratamento de Diabetes Mellitus tipo1. É indicado a esse paciente que logo ao ser diagnosticado que já introduza a insulinoterapia com insulina exógena, destacando que os esquemas devem ser adaptados ao paciente. Tal adaptação de tratamento depende dos tipos de insulinas exógenas, início de ação, pico de ação e tempo de ação (Posicionamento Oficial SBD nº 3, 2009).
Em relação à atividade física, Fabrício gostava muito de jogar futebol, mas no momento das entrevistas relatou que por indicação médica não realizava mais atividade física. A SBD (2009) indica a prática de exercícios físicos, porque reduzem a mortalidade por problema cardiovascular e melhora a auto-estima. Porém a prática de exercícios físicos, quando não bem programada pode levar ao risco de hipoglicemia, que pode ocorrer ao longo, imediatamente, ou horas depois do final dos exercícios. Assim para o haver controle da glicemia exige rigidez constante para posteriormente adquirir autonomia.
Mas, parece que, lidar com o diagnóstico do Diabetes Mellitus e com o tratamento era muito difícil para Fabrício, que negava a doença, afirmando ser um fardo que Jesus havia lhe dado, para posteriormente lhe dar o milagre da cura. Peres, Santos, Zanetti e Ferronato (2007) identificaram as dificuldades dos pacientes com diabetes em relação ao tratamento para o controle da doença. Foram relatados os sentimentos de rejeição e negação da condição do portador da disfunção, e também sofrimento e revolta devido às restrições impostas pela alimentação, atividade física e medicamento.
Fabrício também relatava sobre o fato de sentir-se paralisado por não conseguir entender as reações de seu corpo, atribuindo a causa aos seus problemas emocionais. Peres, Franco e Santos (2008) descreveram que após o diagnóstico havia uma série de sentimentos e reações que interferiam na adesão ao tratamento porque não existia disposição afetivo- emocional.
Sobre a resistência paralisadora Heleno (2001) descreveu em seu estudo, que esta impede o tratamento do DM e que este estado seria o resultado da ação de organizações patológicas. Estas atuam de forma que o paciente com mau controle apresenta grande resistência a mudanças e a experiências de dependência de objeto. Maia e Araújo (2004) afirmaram que pior controle glicêmico se associa positivamente com as dificuldades de lidar com a doença frente aos aspectos psicológicos.
Fabrício apresentava-se apropriadamente em relação a seu corpo: higiene pessoal e indumentária. Não havia queixas em relação ao sexo com a esposa. As situações que lhe afligiam não comprometiam seu sono e sexo.
Diante do que foi exposto é importante delinear que Fabrício acabava por comprometer sua adequação da adaptação no setor Orgânico porque não dava conta dos cuidados gerais com a saúde relacionada ao Diabetes, porque não o reconhecia, negando a disfunção.