1. Propriétés cinétiques et thermodynamiques des CPR chimères
2.2. Les interactions aux interfaces entre les domaines de la CPR
Júlia tem uma representação cognitiva de ter tido uma boa relação com seus pais. No entanto, sempre esteve bastante colada a eles e a suas expectativas; o elo que os unia acabava por ser uma corrente que também aprisionava e dificultava que ela pudesse buscar um caminho próprio. Sente-se presa aos padrões impostos pela família.
“Aqui eu tentei desenhar uma união que eu sinto até hoje. O amor que eu senti por ele, era tipo uma corrente porque a gente era muito ligado.” (3ª Entrevista, HP).
Júlia constrói uma imagem consciente bastante idealizada dos pais, em especial do pai, considerado o detentor da vitalidade, força e sabedoria. Ao ter ficado “aprisionada”, abre mão da própria vida e sente que não viveu intensamente como eles.
“Ele apertando minha mão bem forte. Ele tinha os dedos bem grandes! Como se fosse despedida mesmo.” (Fala chorando. Chora) (3ª Entrevista, HP).
“Fizeram, aproveitaram mesmo, trabalharam muito, mas souberam aproveitar também, entendeu? Coisa que eu acho que dá um banho em mim assim, entendeu?” (4ª Entrevista).
A relação dos pais é bastante idealizada e invejada por Júlia, que se sente fracassada por não ter tido um casamento como o deles.
O estilo de apego que parece predominar em sua relação com eles é inseguro, com características de ambivalência no vínculo: valorização do outro e desvalorização de si mesma; acentuada dependência emocional e necessidade de satisfazer o outro. Nessa relação não há espaço para a vivência da ambivalência emocional, e a forte idealização é uma defesa para evitar entrar em contato com sentimentos de raiva e abandono. Júlia não pode entrar em contato com a raiva provocada por sentir-se presa a essa relação, privada de trilhar um caminho próprio.
Levantamos a hipótese de que, na infância, Júlia também tivesse um estilo de apego inseguro com os pais, à medida que essa fase de sua vida é marcada pela idealização e dificuldade de entrar em contato com sentimentos hostis. A criança que se sente segura na relação com suas figuras de apego pode manifestar sentimentos de raiva nessa relação sem temer ser abandonada. Por outro lado, a criança que teme o abandono
pode defender-se desse sentimento e idealizar os pais. Poder viver o ódio na relação e ter a experiência de que a figura de apego sobrevive permitem que a criança perceba que seu ódio não é tão assustador e suas consequências não são devastadoras e mortais. Além disso, permite que a criança se aproprie dela mesma e construa uma identidade própria, diferenciada das figuras de apego.
“Olha, eu sempre me lembro, eu sempre fui uma criança feliz. (...) Sempre risonha, sempre brincando, sempre, ããã... Sabe? Sempre relevando as coisas, né?” (1ª Entrevista, RO).
Júlia parece presa ao desejo de ser amada pelos pais, em especial pelo pai. Na medida em que não pôde entrar em contato com sentimentos de raiva e abandono e diferenciar-se de seus pais, manteve uma relação de dependência emocional em relação a eles e distanciou-se de si mesma e de sua identidade, construindo um falso self. Sempre procurou corresponder às expectativas dos pais, às custas de sua própria individualidade e identidade.
“Talvez por isso com o meu pai e com a minha mãe eu tenha sabido lidar porque foi uma coisa assim sempre em conjunto. Assim, mesmo quando ela ficou doente ou quando ela não estava doente ããã... Meu pai, a companhia. Quer dizer, sabe quando você nunca deixa nada para trás? Tudo você tenta completar e satisfazer, entendeu?” (2ª Entrevista).
Temia perdê-los e não poder sobreviver a sua ausência, tendo em vista a dependência emocional em relação a eles. Há um grande temor da perda do afeto dos pais, pois não estava segura de que era amada pelo que, de fato, era.
“Eu tinha receio de perder meus pais. E aí o Roberto (ex-marido), ele sempre falou: „Nossa, Júlia, eu fico muito preocupado porque vocês são muito apegados. No dia que você perder sua mãe e seu pai eu fico muito preocupado com você, como você vai reagir e tal. Eu acho que seria legal você ir trabalhando essa idéia na sua cabeça.‟ Nossa! Era cada briga, assim, terrível quando ele falava isso.” (2ª Entrevista).
Não havendo espaço para críticas, a relação com os pais é vivida como perfeita. Seus pais eram afetivos e presentes; no entanto, durante sua infância e adolescência, frequentemente se ausentavam em longas viagens, deixando os filhos sob o cuidado de empregadas. O pai era bastante controlador, rígido e ciumento e tinha dificuldade de expressar seus sentimentos e ser carinhoso com os filhos. Também era muito exigente com sua esposa e com Júlia, desvalorizando-a como mulher e como profissional, considerando-a frágil e incompetente. Após a perda da esposa, o pai expressa admiração por sua força para enfrentar a separação. Portanto, para ser admirada, Júlia sente que tem que corresponder à expectativa de seu pai de que seja forte.
“Olha, meu pai sempre foi um cara fechado Ããã... raramente ele me elogiava. Muito pelo contrário, ele sempre pegava muito no meu pé, falava que eu tinha cabeça fresca, é... Me chamou muitas vezes de irresponsável. Mas depois ele elogiava muito para minha mãe e aí minha mãe me contava que ele tinha orgulho de mim por tudo o que eu tinha passado e eu continuava ali em pé, firme, nunca desisti. Ããã... Mesmo com meus filhos, sabe? Mas isso era uma coisa, ele não aprendeu a dar carinho. (...) a única vez que meu pai realmente me abraçou muito e chorou muito foi quando a minha filha tinha sofrido um acidente, né? (...)Mas a gente tinha um amor assim incondicional porque talvez o tudo que ele brigava, e ele (Pai) falava: „Ela é igualzinha a mim. Mas que cabeça dura!‟ E a gente era muito parecido. Então assim, a gente ããã... forte, sabe esse temperamento de enfrentar as coisas.” (2ª Entrevista).
“A minha mãe não. Minha mãe era mais assim, mais doce, pequeninha. Ela já conseguia expor mais assim um pouquinho. Lógico, fazendo comida, porque italiano é assim, né?” (2ª Entrevista).
“Meus pais viajavam muito, nossa! Eles viveram a vida mesmo, trabalharam muito, viajaram muito, tudo era muito, sabe? Muito legal, sabe? Eu acho que eles, eles (Gagueja) têm muita coisa boa pra lembrar. Mas, eles viajavam pra caramba. Iam pra Itália, ficavam vinte, trinta, quarenta dias e deixavam eu e meu irmão, lógico que com as empregadas que conheciam há anos. Mas assim, a minha ex-sogra falava: „Credo! Que pai irresponsável!‟” (1ª Entrevista, RO).
Júlia está identificada com a mãe que se submete ao desejo do pai – que quer torná-la perfeita segundo suas expectativas - e vive pelos outros, mas acaba sentindo-se insuficiente.
“O coração dos dois era muito grande, mas o da minha mãe... o da minha mãe era gigantesco assim. Tanto que todo mundo quando ela faleceu, todo mundo dizia que um anjo tinha ido embora. Anjo na forma de expressão mesmo, né? Minha mãe raramente ela fazia alguma coisa por ela, né? Ela realmente era aquelas mulheres que nasceu pra viver pelos outros. E... coração gigantesco. E eu que peguei esse coração sem limites da minha mãe porque eu vejo que a gente extrapola às vezes, né?” (2ª Entrevista). “Nossa, ele (Pai) sempre foi muito preocupado com corpo. Nossa senhora! (...) Ele fez minha mãe fazer umas duzentas mil plásticas. (...) Eu jogava vôlei e depois parei e sou mais... sou meio patinho feio da família.” (2ª Entrevista).
A relação com a mãe parecia sufocar suas possibilidades de crescimento emocional, pois ela considerava Júlia uma “bebezona”, desprotegida e fracassada, em decorrência de seu casamento ter terminado. Há um lado de Júlia que não pode crescer para não perder o colo dessa mãe. Assumir o papel de mãe foi difícil para Júlia, pois temia perder o lugar de filha.
Com sua separação, sente que fracassa em ser aquilo que se espera que ela seja, ser uma continuidade da mãe. Por outro lado, perceber que não ocupa esse lugar pode abrir possibilidades para que possa ser ela mesma.
“O meu pai era muito parecido, mas a minha mãe era... era aquele colo que... Igual minha filha mesmo me disse: „Sabe por que você gostava tanto da vovó? Porque ela sempre te abraçava, em burrada, em acertos e erros‟ e eu era assim... Ela me via como... Sabe, a desprotegida que ela tinha que amparar? Que a minha vida meio que não dava muito certo e ela ficava se questionando por que. E então era assim. Eu era uma bebezona. E é muito bom, né?” (3ª Entrevista).