Notations du Chapitre 1
2. Inflammation d’un explosif condensé
2.2 Interaction du laser sur l’échantillon
Numa passagem do final da Teodiceia, Leibniz explica o contingente pelo facto de que, se tentasse fazer a sua análise como nas verdades necessárias, ela seria interminável, nunca chegando a verdades cujo contrário implicasse contradição.163 São conhecidas as comparações da diferença entre verdades necessárias e contingentes com a dos números racionais em relação aos surdos164, ou entre uma equação exata e os limites de uma aproximação, que procuram mostrar não apenas o facto de serem análises só resolúveis ao infinito, mas também e talvez sobretudo, de serem inacessíveis aos espíritos criados. Duchesneau, seguindo a análise de Adams, refere que mesmo Deus não poderia terminar tal análise.165 Nesse caso, poder-se-ia pensar numa diferença lógica de raiz, mas a formulação é equívoca visto uma análise infinita não poder ter, obviamente, termo. Deus não precisa fazer qualquer análise porque conhece, de um só golpe, a série total das coisas.166 Assim, parece que, mais do que uma diferença lógica, se coloca uma questão epistemológica que consiste em ser mais difícil, para os homens, ser profeta do que ser geómetra.167 Isso coloca o contingente dependente da escolha divina e das limitações do nosso conhecimento (que Deus, por sinal, não tem). Mas não podendo Deus ser em nada contingente, pode-se perguntar como poderia a sua escolha e a sua criação serem outras (ou seja, como pode a sua escolha ser contingente), especialmente porque a escolha do universo é só uma, estando nele tudo ligado como num oceano, inextricavelmente indissociável.168 Na própria polémica, aliás referindo-se à Teodiceia, afirma: “Não há senão um só
161 Leibniz, op. cit., § 383, pp. 327-328, G, VI, 342. AP. Ver também Leibniz, op. cit., Tomo I, Nouveaux essais..., L. IV, Ch. IX, § 1, p. 397, G, V, 414.
162 Leibniz, op. cit., Tomo II, Essais de Théodicée, 2ª parte, § 184, p. 212, G, VI, 226-7. AP. 163 Leibniz, op. cit., Remarques..., § 14, p. 396, G, VI, 414. AP.
164 Leibniz, Specimen inventorum de admirandis naturae Generalis arcanis, G, VII, 309. AP. Ainda mais claro em G. W. Leibniz, ed. Louis Couturat, Opuscules et fragments inédits, Paris Presses Universitaires de France, 1903; Hildesheim, Georg Olms Verlagsbuchhandlung, 1966, pp. 17-18. AP.
165 François Duchesneau, op. cit., p. 133.
166 Leibniz, Praecognita ad Encyclopaediam sive Scientiam universalem, G, VII, 44. AP. 167
Leibniz, intr. e notas Paul Janet, Oeuvres Philosophiques, Paris, Félix Alcan, 1900, Tomo I, Correspondance de
Leibiz et d’Arnauld, Carta a Arnauld de 14/7/1686, p.538, G, II, 53. AP.
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decreto no universo inteiro pelo qual foi resolvido de admitir a possibilidade à existência.”169 Pondo de lado a questão de se para Deus seriam verdades necessárias, já que parece contraditório não só com a sua natureza, mas também com a sua essência, não escolher o melhor, o que é um facto é que as razões aduzidas para a postulação do contingente não são de estrita ordem lógica. Uma poder-se-á dizer que é ontológica e a outra é gnosiológica.
É possível que seja esta fraca sustentação da contingência, dependente das nossas limitações cognitivas e de uma escolha que parece decorrer da essência divina, que tenha feito Leibniz persistir, embora, como se verá, sob forma algo crítica, na tese cartesiana da criação contínua.170 A tese é afirmada e reafirmada contra Clarke para se contrapor à relação pensada por Newton entre Deus e as coisas criadas (quer por se relacionar de menos, uma mera presença, quer por se envolver de mais, através dos “arranjos” concretos da sua máquina) e para conceber de outra forma a dependência da criatura em relação ao criador.171 Porém, tendo em conta que tudo é decidido por Deus num só decreto, o da criação, e que cada substância se autodetermina, a partir daí, como uma séria causal infinita, em que as disposições anteriores causam os estados posteriores, para que serve, na “economia” explicativa do sistema leibniziano, a criação contínua?
O próprio Leibniz critica a tese cartesiana através da distinção já referida entre natural e essencial. Considera que, de não se seguir necessariamente a existência agora da existência anterior, não significa que não se siga naturalmente, e que os cartesianos entendem o tempo como um conjunto de momentos descontínuos, em vez de modalidades do contínuo, ou melhor, extremidades das partes que lhe podemos assinalar.172 Nessa sequência, começa por assegurar apenas a dependência contínua, admitindo que se lhe possa chamar produção e até mesmo conservação, mas estando longe de mostrar o entusiasmo pela tese patenteado na correspondência com Clarke.173 Porém, notoriamente insatisfeito com esta admissão, para manter a sequência causal determinada de cada criatura, defende uma anterioridade de natureza, seguindo a ordem sábia de Deus, em que a essência da criatura é produzida antes dos acidentes, e a natureza antes das operações, reproduzindo Deus sempre as mesmas substâncias e almas, também sempre naquilo que nelas for perfeição e não nas suas limitações.174 Além disso, embora a criatura se não dê a si própria a existência (mas também a não possa perder naturalmente), em harmonia com o seu pensamento, teve de defender um concurso próprio da criatura em tudo o resto.175 Todas estas reticências não são notórias na polémica, porventura por se estar a defender da acusação que será tratada no ponto seguinte, à qual estava associada uma outra, a de excluir Deus do mundo, quase o acusando de deísmo176. É verdade que, no final da polémica, acaba por afirmar que, em cada substância, a partir da criação inicial, o estado
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Leibniz, op. cit.,Tomo I, Recueil..., 5º escrito, § 66, p. 783, G, VII, 407. AP.
170 O argumento original de Descartes que é, indiretamente, visado na Teodiceia (Leibniz, op. cit., Tomo II, Essais de
Théodicée, 3ª parte, § 383, p. 327, G, VI, 342), surge, e. g., Descartes, op. cit., Méditations, Med. troisième, p. 297.
171 O âmbito em que estas questões são discutidas será tratado mais tarde, Neste momento, só interessa a sua relevância para a determinação do contingente. Começa por afirmar a produção contínua, Leibniz, op. cit., Tomo I, Recueil..., 2º escrito, § 5, p. 736, G, VII, 357, AP; e, de forma vaga, a sua influência contínua, ibidem, § 8, p. 737, G. VII, 358; estranhamente e talvez contraditoriamente, faz depender o conhecimento divino das coisas da produção contínua, idem, 4º escrito, § 30, p. 754, G, VII, 375, AP; insiste que a dependência das criaturas provém da produção contínua que as mantém a existir, idem, 5º escrito, §§ 85-86, p. 787, G, VII, 410-1; e, finalmente, responde ao descanso divino alegado por Clarke (estranhamente, tendo em conta a constante intervenção divina defendida), defendendo a produção contínua, apesar de reconhecer não haver substâncias novas, ibidem, § 88, p. 788, G, VII, 411, AP.
172 Leibniz, op. cit., Tomo II, Essais de Théodicée, 3ª parte, §§ 383-384, pp. 327-328, G, VI, 342-3. 173
Leibniz, op. cit., § 385, pp. 328-329, G, VI, 343-4. AP. 174 Leibniz, op. cit., §§ 388-391, pp. 330-332, G, VI, 345-7. 175 Leibniz, op. cit., § 391, p. 332, G, VI, 347. AP.
176 Roger Ariew, op. cit., 2ª réplica, § 4, p. 6, G, VII, 355. AP. Não o faz na polémica, mas, em nota (posterior) à primeira e mais grave (porque abrangente) forma de deísmo identificada na segunda conferência de Boyle, associa a intelligentia
supramundana de Leibniz (embora sem o nomear) ao deísmo e até, implicitamente, ao materialismo: Samuel Clarke, op. cit., Introduction, p.13, nota.
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seguinte é consequência do anterior de forma perpétua.177 Mas nunca põe, na correspondência, esta tese, com tudo o que ela implica, em direto confronto com a tese cartesiana, como o faz na
Teodiceia. Apesar disso, alguma razão mais forte que as circunstâncias das controvérsias deverá ter
levado à aceitação, mesmo que limitada, por Leibniz, da tese aparentemente dispensável no seu sistema, da criação contínua. A única razão que parece fazer sentido é a de, exatamente, reforçar o caráter contingente do criado, através da dependência contínua do criador.