O newsgame tabloide (tabloid game) é a versão jogável de soft news (fofocas sobre políticas, esportes ou celebridades). A principal intenção é atrair o leitor/jogador, tanto para o jogo em si quanto para outras áreas do site que o está veiculando. Geralmente, são tendenciosos e é necessário conhecimento prévio do assunto para compreender a mensagem transmitida. Esse tipo de jogo requer dos criadores um processo de produção mais rápido para que o lançamento aconteça enquanto a notícia ainda é relevante, e isso pode se tornar um grande desafio de produção. Como exemplo, Bogost, Ferrari e Schweizer (2010) apontam o newsgame Hothead Zidane81 (figura 18), que foi criado por um torcedor italiano horas após a cabeçada dada pelo jogador da seleção francesa de futebol, Zinedine Zidane, na final da Copa do Mundo de 2006, o que causou sua expulsão82 da partida.
Figura 18: Newsgame Hothead Zidane.
Fonte: Captura de tela – Hothead Zidane (2016). 81 Disponível em:
<http://www.corriere.it/Primo_Piano/Sport/2006/07_Luglio/10/pop_zidane.shtml>. Acesso em: 17 jan. 2014.
82
Manchete do jornal Folha de S.Paulo: Zidane dá cabeçada em italiano e é 4° expulso em finais de Copa. Disponível em:
A mecânica do jogo é a seguinte: com apenas um clique, o jogador precisa controlar, por meio do mouse, as cabeçadas de Zidane contra vários clones de seu adversário Marco Materazzi, atacante que levou a cabeçada no jogo real. Após algumas cabeçadas, aparece o juiz com um cartão vermelho e a imagem real de Zidane uniformizado (camisa 10) e a taça do mundo. E fim de jogo. Ferrari S. (2009, s/p, tradução nossa) argumenta que o game está focado nos fatos básicos da cabeçada e do cartão vermelho, ou seja, no que foi a notícia em si, e com isso “oferece um comentário fugaz e nada sutil sobre a vergonha que Zidane deve ter sentido com suas atitudes (o editorial)”. Discordando, Bogost, Ferrari e Schweizer (2010, p. 16, tradução nossa) avaliam que o resultado “não oferece nem comentários nem entretenimento (o jogo nem mantém um placar), mas ganha o interesse do público, tendo acesso como resultado”. Após uma semana de sua criação, o portal de jogos on- line AddictingGames.com renovou o jogo com um sistema de placar e vários níveis de detecção de cabeçadas (hits), melhorando a interface gráfica e os efeitos sonoros. Eles também disponibilizaram o código- fonte para que outros designers pudessem fazer sua própria versão. Como os jogos de tabloide são muito fáceis de fazer, frequentemente são melhorados e reinterpretados por outros designers amadores de jogos (BOGOST; FERRARI; SCHWEIZER, 2010).
Já para Tobias (2014, p. 28), o newsgame ridiculariza o jogador de futebol Zidane ao satirizar a cabeçada que ele deu no adversário Materazzi, e completa afirmando que a “atitude condenável de Zinedine Zidane, aqui [no jogo], seria vista apenas como algo cômico a ser exageradamente zombado para atrair atenção”. Bogost, Ferrari e Schweizer (2010) afirmam que o jogo é fútil, com tendência ao sensacionalismo, mas é enquadrado como newsgame tabloide, e esse tipo de jogo frequentemente utiliza a controvérsia popular para transformar tráfego de internautas em impressões de anúncios, e assim aumentar a audiência.
Tobias (2014) considera também dentro desse gênero a paródia gamificada Jeu du Scooter: Aidez François Hollande à rejoindre Julie sans se faire prendre!83 sobre o escândalo do suposto caso amoroso do presidente francês, François Hollande, com a atriz Julie Gayet, que repercutiu na mídia em janeiro de 201484.
83 Tradução livre: Jogo da Lambreta: Ajude François Hollande a reencontrar Julie sem ser
pego.
84 Manchete do portal Terra: Revista anuncia romance entre François Hollande e atriz Julie
No game, o jogador deve controlar o presidente pilotando uma lambreta – seria este o meio de transporte de Hollande em suas idas secretas ao encontro da amante – ao desviar de obstáculos, que incluem, além de paparazzi, a ex-parceira Segolene Royal e a primeira-dama Valerie Trierweiler. Quanto mais longe o presidente percorrer sem ser atingido por um deles, maior sua pontuação. Mas Jeu du Scooter só chega ao fim quando o jogador não é capaz de desviar de um obstáculo, expressando a provável retórica processual do game: não é possível manter um segredo para sempre sem ser pego (TOBIAS, 2014, p. 29).
Para Bogost, Ferrari e Schweizer (2010), é irônico que um jogo, ao apresentar o erro isolado de uma celebridade possa oferecer o mais bem-sucedido exemplo de newsgame tabloide: o So you think you can drive, Mel?85, criado pelo The Game Show Network e baseado na notícia de que o ator Mel Gibson estava embriagado ao volante, em 2006, e ainda fez declarações polêmicas antissemitas86. Tobias (2014, p. 30) descreve que esse jogo “zomba de atitudes condenáveis de uma celebridade. Ainda que dirigir alcoolizado seja passível de crítica, o tabloid game faz mais uma chacota exacerbada do escândalo”.
A estrutura é a seguinte: a caricatura de Mel Gibson está na janela do carro com uma garrafa de bebida na mão, enquanto acelera – por meio de movimentos apenas para baixo ou para cima (simulando a falta de controle do veículo) – o carro na rodovia (figura 19). O jogador precisa desviar das estrelas que são arremessadas por um judeu hassídico (figura 19, à direita) que está no acostamento (perde-se 25 pontos quando a caricatura é atingida), e não atropelar o policial que aparece no meio da rodovia (caso mate cinco policiais o jogo acaba). Agarrar garrafas de uísque que aparecem na rodovia aumenta a pontuação, mas também aumenta o nível de álcool no sangue.
entre-francois-hollande-e-atriz-julie-
gayet,aea98a7cb5873410VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html>. Acesso em: 20 jan. 2014.
85 Tradução livre: “Então você acha que consegue dirigir, Mel?”. Disponível em:
<http://www.freewebarcade.com/game/mel-gibson-drunk-driving>. Acesso em: 17 abr. 2014.
86
Manchete da CNN Internacional: Gibson charged with drunken driving. Disponível em: <http://edition.cnn.com/2006/LAW/08/02/gibson.charged/index.html?iref=allsearch>. Acesso em: 17 mai. 2014.
Figura 19: Newsgame tabloide So you think you can drive, Mel?.
Fonte: Capturas de tela – So you think you can drive, Mel? (2016).
Bogost, Ferrari e Schweizer (2010) consideram a retórica desse newsgame bastante clara: o ator está com pensamentos obsessivos: beber; desprezar os judeus de Hollywood; e desviar da lei – a lei para Gibson seria apenas um obstáculo inconveniente. Para os autores, além de ajudar os jogadores a tomar decisões sobre suas próprias vidas – servindo como um recurso para chamar a atenção sobre os perigos de dirigir embriagado, esse newsgame também é um tipo de documentação atemporal de um evento que foi esquecido pela mídia e pelo público. Além disso, a falibilidade de uma celebridade serve como gancho para chamar a atenção para o fato de que ninguém está imune aos perigos de dirigir embriagado.