INTRODUÇÃO
A análise de enunciados permite constatar que há diferenças entre eventualidades onde ocorre o Gerúndio que não podem ser explicadas apenas em termos de, por exemplo, tempos gramaticais ou a ocorrência de adverbiais. Vejamos os seguintes exemplos.
(1) Correndo, o João dirigiu-se para casa.
(2) Fechando a porta do carro, o João dirigiu-se para casa.
Constatamos que, apesar de a oração principal ser igual em ambas as frases e do tempo gramatical da primeira eventualidade, também em ambas as frases, ser o Gerúndio Simples, a relação entre a oração gerundiva e a oração principal não é igual. Na primeira frase, há uma sobreposição total das eventualidades ou, em alternativa, o Gerúndio descreve a maneira como o predicado da oração principal se realiza. Na segunda frase, há nitidamente um caso de sequencialização de eventualidades. A diferença na interpretação deve-se, portanto, ao tipo de eventualidade presente na forma gerundiva.
Assim, considerámos necessário abordar, dentro deste trabalho, a classificação aspectual das eventualidades. De facto, a primazia dos tipos aspectuais, mesmo em questões temporais, é dada por autores como Kamp e Reyle (1993), que os consideram verdadeiros primitivos, anteriores a intervalos e a momentos de tempo. Passamos, portanto, à realização de uma breve revisão do que de mais importante foi dito a respeito da classificação aspectual das eventualidades. Optámos, na análise dos dados, pelo que de essencial foi apresentado porMoens e Steedman (1988).
Neste trabalho, aspecto é considerado como a perspectivação do modo como uma eventualidade se estrutura e desenrola no tempo (ao longo de um intervalo ou em um momento), tendo em conta se a sua duração é indeterminada ou se é dotada de fronteiras. Esta definição opõe-se a tempo, encarado como localização, como o estabelecimento de uma relação de anterioridade, simultaneidade ou posterioridade entre as eventualidades ou entre estas e marcadores temporais (adverbiais temporais, momento da enunciação).
Aspecto é, portanto, uma noção semântica, que se manifesta por meios sintácticos, morfológicos ou lexicais. Não considerámos, na realização deste trabalho, as distinções feitas por alguns autores, nomeadamente Binnick (1991), que, na tradição dos Neo-
QUESTÕES SOBRE ASPECTO
Gramáticos, distingue aspecto (informações dadas pela flexão) de aktionsart (informações dadas pelo léxico) e de aspecto aristotélico (classes aspectuais "primitivas" dos predicados), pois é muito difícil perceber qual a importância de cada factor para a determinação da classe aspectual de uma eventualidade. Por outro lado, um mesmo traço aspectual pode ser dado por vários meios. Cunha (1998) aponta, a propósito, a perspectiva frequentativa, cujo traço "tanto pode ser obtido por processos flexionais, como lexicais - neste caso concreto, pela acção do Presente do Indicativo ou do Imperfeito, por um lado, e dos adverbiais frequentativos e de determinados adverbiais de contagem cardinal, por outro" (Cunha (1998: 48)).
Segundo Dowty (1979), foi Aristóteles quem primeiro procurou fazer uma classificação aspectual de verbos. Pela primeira vez foi feita uma distinção entre aquilo que mais tarde se chamou de "accomplishments" e actividades / estados. Possivelmente Aristóteles terá feito também uma distinção entre actividades e estados.
Houve, entretanto, um grande período de, aparentemente, pouca produtividade nesta área, e só no século XX encontramos ideias novas. Ryle (1949) avançou com uma distinção entre "achievements" (termo criado pelo autor) e actividades. O referido autor notou ainda, partindo de testes com adverbiais, como attentively ou vigilantly, que os "achievements" se subdividem em predicados que incluem ou não uma espécie de processo. Os primeiros foram chamados de achievements whith a associate task e os segundos, de purely lucky achievements.
Kenny (1963) designa os "achievements" por performance verbs e aponta-lhes um comportamento peculiar, que os distingue das actividades: sendo X um "performance verb", "A is now X-ing" implica que "A has not yet X-ed.", o que pode ser ilustrado pelo seguinte exemplo. Se um homem está a construir uma casa, então é verdade que ainda não
a construiu. O autor distingue ainda os estados dos outros tipos aspectuais a partir de testes
com o Progressivo e com o Presente. Por exemplo, actividades e performances podem ocorrer no Progressivo, mas não os estados. Para além disso, as actividades e as performances têm, no Presente, um valor frequentativo ou habitual, ao contrário dos estados, que, no Presente, não apresentam esses valores.
A proposta de classificação de predicados mais marcante e com mais repercussões foi, contudo, a de Vendler, que abordamos já de seguida.
QUESTÕES SOBRE ASPECTO
2.1-VENDLEREDOWTY
Vendler, em 1967, propôs uma nova classificação para os tipos aspectuais que serviu como base de trabalho e ponto de partida para muitos outros autores, nomeadamente Leech (1971), Dowry (1979), Mourelatos (1981), Moens e Steedman (1987), Parsons (1990) e KampeReyle(1993).
Este autor foi o primeiro a separar os predicados em quatro categorias, de acordo com adverbiais temporais, tempos gramaticais e implicaturas. Essas quatro classes aspectuais são os estados {amar, recear), as actividades {correr, falar), os "accomplishments" {pintar um quadro, correr a maratona) e os "achievements"
{encontrar, morrer).
Esta separação parte de dois traços distintivos. Em primeiro lugar, há predicados que são processos que se desenrolam ao longo do tempo e que são constituídos por fases sucessivas. Estes predicados, as actividades e os "accomplishments", podem combinar-se com o Progressivo. O que os distingue é o facto de as actividades constituírem um processo homogéneo (cada parte do processo é da mesma natureza do processo tomado na sua globalidade) enquanto os "accomplishments" necessitam que o seu processo termine, ou seja, necessitam de atingir uma culminação (logo, cada parte do processo não é da mesma natureza do processo tomado na sua globalidade). Ou seja, se alguém correu durante uma hora, então é verdade que correu durante os primeiros dez minutos (actividade). Mas se alguém pintou um quadro em três dias, não é verdade que tenha pintado o quadro no primeiro dia ("accomplishment").
Por outro lado, há que considerar os predicados que não são processos que se desenrolam ao longo do tempo. Estes predicados, os estados e os "achievements", não podem ocorrer com o Progressivo e distinguem-se por se realizarem em momentos únicos de tempo ("achievements") ou por durarem um período de tempo variável (estados).
"Achievements" e "accomplishments" aproximam-se por ambos se caracterizarem pela necessidade de um ponto culminante ou final que os demarque, ao contrário dos outros tipos, que se caracterizam por uma certa indefinição. "Accomplishments" e actividades aproximam-se devido ao facto de terem um carácter processual, ao contrário dos estados e dos "achievements". Actividades e estados aproximam-se devido ao seu carácter homogéneo (cada uma das suas partes é idêntica ao seu todo), ao contrário de "accomplishments" e "achievements". Esta aproximação pode ser visualizada no quadro seguinte.
QUESTÕES SOBRE ASPECTO
Culminatividade Processualidade Homogeneidade
Estado - - +
"achievement" + - -
Actividade - + +
"accomplishment" + + -
Algumas críticas são feitas a esta proposta. Apontamos agora algumas delas.
Em primeiro lugar, é criticado o facto de esta ser uma proposta para a classificação de verbos. Como se constata facilmente, não é uma classificação para verbos, mas para verbos e seus argumentos (se não, como explicar o facto de "correr" ser uma actividade mas "correr a maratona" ser um "accomplishment"?). Aliás, este foi um ponto realçado por Dowty, partindo da distinção feita por Vendler entre actividades e "accomplishments". Segundo o autor, "first, we have seen that not just verbs but in fact whole verb phrases must be taken into account to distinguish activities from accomplishments (...) and second, the possibility of giving accomplishment "interpretations" to activity verbs in special contexts blurs the distinction even further" (Dowty (1979:62)).
Em segundo lugar, Vendler defende que só os predicados processuais é que podem ocorrer com o Progressivo. Ora, isso é refutado pelos dados, particularmente em Português. Como podemos constatar, em (3), o Progressivo ocorre com um "achievement" (cair), e em (4), com um estado (saber as respostas). Ambos os predicados são não processuais, mas nem por isso as frases são agramaticais.
(3) Ele está a cair da cadeira. (4) Ele está a saber as respostas.
Em terceiro lugar, esta proposta não capta a distinção, que é fundamental, entre estados, por um lado, e eventos, por outro. Note-se que os estados distinguem-se dos eventos, de um modo geral, não só por propriedades temporais, mas também por outras propriedades linguísticas, como a agentividade, o que faz com que, por exemplo, os estados não possam ocorrer em frases imperativas.
(5) * João, sabe Inglês! (estado)
(6) João, corre a maratona! ("accomplishment") (7) João, acerta no alvo! ("achievement")
QUESTÕES SOBRE ASPECTO
(8) João, corre! (actividade)
Dowty (1979) apresenta alguns testes para a distinção destes tipos aspectuais. Assim, só os não estativos:
1. podem ocorrer no Progressivo;
2. podem ser complementos de verbos do tipo às forçar ou persuadir, 3. podem ocorrer em frases imperativas;
4. podem ocorrer com adverbiais de tipo agentivo, como deliberadamente ou
cuidadosamente ;
5. podem ocorrer em pseuso-clivadas do tipo "o que X fez foi...";
6. têm uma interpretação frequentativa ou habitual no Presente (já apontado por Kenny).
Cunha (1998) aponta um outro critério, referido anteriormente por Vlach (1981): os estados, quando comparecem com orações temporais introduzidas por quando ou outras expressões temporais pontuais, tendem a estabelecer com estas construções uma relação de inclusão, enquanto as outras classes aspectuais estabelecem uma relação de sucessão temporal.
Cunha (1998) salienta o facto de os testes não se aplicarem a todas as predicações consideradas estativas. Por esse facto, ele avança com a proposta de "estados faseáveis". Ou seja, considera haver dois tipos de estados lexicais: os faseáveis e os não faseáveis. Os primeiros são estados que podem ganhar uma estrutura eventiva e transitarem para eventos processuais (ver à frente a proposta de Moens e Steedman (1998)). Os estados não faseáveis são aqueles que não estão em condições de ganhar essa estrutura eventiva. Note- se que esta diferenciação não tem fronteiras definidas; pelo contrário, parece haver uma escala de "faseabilidade", o que faz com que predicados estativos correspondam de forma diferente aos testes anteriormente apontados. Cunha (1998) apresenta os seguintes exemplo de estados, respectivamente, não faseável e faseável.
(9) O João é português. (10) O João é generoso.
Cunha (1998) apresenta também um outro critério para a distinção dos estados. Segundo o autor, existem certas restrições quanto à combinação de certos estados com
QUESTÕES SOBRE ASPECTO
operadores aspectuais, como começar a ou acabar de. Começar a é um operador aspectual que não se combina com estados não faseáveis, logo, não convertíveis em processos (nem, eventualmente, com algumas culminações). Quanto a acabar de, não combina com qualquer tipo de estado.
Dowty (1979), quanto às actividades, apresenta também alguns testes para a distinção deste tipo em relação aos outros tipos aspectuais, contrastando estes testes para a identificação de actividades com os testes para os "accomplishments" já que, para o autor, estes dois tipos aspectuais se aproximam muito ("In fact, I have not been able to find a single activity verb which cannot have an accomplishment sense in at least some special context" (Dowty (1979:61)). Apresentamos esses testes de seguida.
1.
As actividades apenas admitem a ocorrência de adverbiais temporais durativos, como
durante X tempo ou desde X até 7; pelo contrário, esta classe aspectual não admite
adverbiais pontuais, como às X horas ou adverbiais que quantifiquem o tempo, do tipo em
X tempo,
Os "accomplishments" combinam-se preferencialmente com adverbiais de quantificação temporal, do tipo em X tempo; marginalmente podem combinar-se com adverbiais durativos.
Note-se, no entanto, que a ocorrência de uma actividade com adverbiais como às X
horas ou em X tempo não acarreta necessariamente a agramaticalidade da frase. Vejamos
os seguintes exemplos.
(11) Carla Sacramento correu às 2 horas. (12) Carla Sacramento correu em 3 minutos.
Em ambos os casos, as frases são aceitáveis. Na primeira frase, o adverbial às duas
horas marca o início da actividade. Na segunda frase, o adverbial em 3 minutos implica, de
certa forma, a ocorrência de um tipo específico de corrida, transformando, desse modo, a actividade em "accomplishment".
Quanto aos "accomplishments", a sua combinação com adverbiais durativos dá também origem a uma mudança de classe. Por exemplo, na frase seguinte, pode ser inferido que o atleta não chegou ao fim da maratona. Para além disso, se é verdade que o
QUESTÕES SOBRE ASPECTO
atleta correu a maratona durante uma hora, é verdade que ele correu a maratona durante os primeiros cinco minutos. Ou seja, o adverbial atribuiu a propriedade da homogeneidade ao predicado, transformando-o numa actividade.
(13) O atleta correu a maratona durante uma hora.
2.
As actividades podem ocorrer na construção estar X tempo a + verbo, mas não na construção levar X tempo a + verbo (a não ser que indique o período imediatamente antes de verbo);
Os "accomplishments" podem ocorrer com qualquer uma destas construções. 3.
Dão origem a determinadas implicações. 3.1
"Sendo SVuma actividade, se X SV (PPerj) durante uma hora, X SV (PPerj) durante todos os subintervalos contidos nessa hora" (Cunha (1998:10)); ou seja, se o João correu durante uma hora, então é verdade que o João correu em todos os momentos incluídos nessa hora.
"Sendo SV um "accomplishment", se X SV (PPerj) durante uma hora, então não é verdade que X SV (PPerj) em nenhum subintervalo contido nessa hora" (Cunha (1998:11)); ou seja, se o João correu os 1500 m. durante 3 minutos, então não é verdade que o João correu os 1500 m. em todos os momentos incluídos nesses 3 minutos.
3.2
"Se SV é uma actividade, então X está a SV implica necessariamente a verdade de XSV (PPerj)" (Cunha (1998:10)); ou seja, se o João está a correr, então é verdade que o João correu.
"Se SV é um "accomplishment", então X está a SV implica que ainda não X
SV (PPerj)" (Cunha (1998:11)); ou seja, se o João está a correr os 1500 m. , então é
QUESTÕES SOBRE ASPECTO
3.3
"Se SV é uma actividade, então X parou de SV implica que X SV (PPerf) (Cunha (1998:10)).
"Se SV é um "accomplishment", então Xparou de SV não implica que X SV
(PPerf) (Cunha (1998:11)).
3.4
Se SV é uma actividade, então X quase SV (PPerf) implica que X não SV
(PPerf).
Se SVé um "accomplishment", então X quase SV (PPerf) implica que:
Xnão começou SV (PPerf) ou X esteve a SVmas não terminou SV.
3.5
"Se SV é um "accomplishment", X SV (PPerf) numa hora implica que X
estava/esteve a SV durante essa hora" (Cunha (1998:11)).
4.
Só os "accomplishments" podem ocorrer como complementos de "finish"; no entanto, Cunha (1998:50) aponta os seguintes exemplos, com actividade ("O João acabou de trabalhar às cinco da tarde") e com "achievement" ("O João acabou de morrer").
Por último, são apontados também os seguintes testes para a identificação de "achievements".
1. Ocorrem preferencialmente com adverbiais temporais pontuais do tipo às X horas, podendo ocorrer também com adverbiais de quantificação temporal {em X tempo), mas não com adverbiais temporais durativos.
2. Não podem ocorrer na construção estar X tempo a + verbo.
3. Não podem, geralmente, ocorrer como complementos de "finish" ou "stop".
4. Não costumam comparecer com adverbiais agentivos, como atentamente ou
obedientemente.
5. Dão origem à seguinte implicação: "se SV é um "achievement", então X SV
QUESTÕES SOBRE ASPECTO
Dowty (1979), partindo do facto de estes testes não serem totalmente fiáveis, procura redefinir esta classificação baseando-se numa semântica de intervalos.
Dividiu as eventualidades em que se verifica uma mudança de estado (eventos) daquelas onde isso não se verifica (estados).
Para justificar a presença, em Progressivo, de alguns estados, redefine esta classe, dividindo-a em estados cujo valor de verdade é aferido em relação a momentos de tempo (predicados como amar e todos o estados habituais) e estados cujo valor é aferido em relação a intervalos de tempo (predicados como ser um herói, deitar-se).
Dividiu, por outro lado, os eventos em três categorias. As actividades são eventos com uma mudança de estado indefinida. Os eventos onde se verifica uma mudança de estado definida podem ser divididos em mudanças de estado simples (os "achievements") e
mudanças de estado complexas (os "accomplishments"). Cada uma destas quatro
categorias (estados, actividades, mudanças de estado simples e complexas) pode ser dividida em duas subclasses de acordo com o critério da agentividade.
O autor aponta algumas evidências sintácticas para esta classificação. Assim, a distinção entre estados e eventos em geral é comprovada, em Inglês, pela ocorrência em construções do, como pseudo-clivadas (só é possível para os eventos). O teste para distinguir os eventos onde se verifica uma mudança de estado definida das actividades é uma implicação:
- se SVé uma actividade, X estava a V implica X SV (PperJ);
- se SV é um evento em que se verifica uma mudança de estado definida, X estava a F não implicaXSV(PPerf).
O teste para distinguir mudanças de estado simples das mudanças de estado complexas é o da ocorrência na construção X finished V-ing, aceitável apenas com mudanças de estado complexas.1 Finalmente, os testes para distinguir as classes agentivas das não agentivas são, nomeadamente, a ocorrência em frases imperativas e em construções do tipo persuadir Xa Vou fazer V deliberadamente.
No entanto, esta proposta, apesar de constituir um avanço, não consegue ainda fornecer uma explicação cabal para as possíveis mudanças de classe aspectual a que os
Esta construção pode ser traduzida, para o Português, por terminar de ou acabar de. Note-se, no entanto, que terminar de resulta numa construção "estranha" e com acabar de não há qualquer distinção entre as duas classes aspectuais em causa. Veja-se o exemplo o João acabou de matar o peru, com um evento classificado como uma mudança de estado simples.
QUESTÕES SOBRE ASPECTO
predicados estão sujeitos. Uma explicação com maior poder descritivo e maleabilidade é fornecida pela proposta seguinte. Sobre ela nos debruçamos de seguida.