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Instructions, partie 3 : Analyse par la méthode de l’arbre des causes

Dans le document Pour que chaque enfant compte (Page 106-110)

Genette distingue, dentro das "analepses internas homodiegéticas", duas categorias: "as analepses completivas, ou 'reenvios'" , ou seja, "os segmentos retrospectivos que vêm preencher mais tarde uma lacuna anterior da narrativa..." (Genette, s/d: 49) e as "analepses repetitivas, ou rappels" (idem, p. 53). Foi destas últimas que anteriormente se tratou e é destas que mais apropriadamente se refere o título "marcas da memória". Entretanto, também se podem incluir como recordações aqueles relatos que correspondem às finalidades atribuídas aos "reenvios" e que, de algum modo, são indicadores para compreender o enigma que preocupa Luíza: o amor que falha, ou seja, por que Diogo repudiou Luíza, embora mantendo as aparências ?

Também aqui se agrupam estes indicadores, de acordo com a sua funcionalidade:

a) os que se centram em Luíza e podem explicar o afastamento de Diogo;

b) os que correspondem a uma tentativa de Luíza, através de Pepe, para esclarecer o enigma;

c) os que relatam os factos que conduziram à separação de quartos.

Há, entretanto, uma evocação relatada quando, no capítulo III, (pp. 82-83), Luíza depois do encontro com Rui (re)inicia a escrita. E uma interpelação a Diogo sobre a sua escrita de uma autobiografia. Insere-se aqui por conter uma reflexão (opinião) de Luíza sobre o tempo, afirmando, parece que contraditoriamente, que só o presente conta pois "os bons momentos do passado dão para tristeza, são evocações melancólicas .... mas acrescentando que se o presente se revela um pouco incómodo... temos tendência para destruir o tempo, nem passado, nem futuro (...) maldita vida, mais me valera morrer...!" (p. 82). Ora esta opinião corresponde a um momento em que Luíza e Diogo vivem "a nossa [sua] passada ventura" (p. 173). Daí que esta reflexão insista no presente da personagem bem nítido na exclamação: "maldita vida, mais me valera morrer!".

São três as referências centradas em Luíza necessárias à compreensão da intriga:

- Josefina trata de tudo, no que respeita às ocupações da casa: "Josefina sempre por ali está ou anda ..." (p. 105);

Diogo dispensa a colaboração de Luíza (capítulo IV, p. 91), mas, incompreensivelmente, a sua ausência deprime-a (capítulo V, p. 105);

- quando casa com Diogo, tal como acontecera com Rui, Luíza aceita a imposição de Diogo: "casamos um com o outro, não casamos para fazer meninos, de acordo ?" (p.

102). Relacionado com este facto, está a atitude de Luíza que inicialmente toma a pílula, depois suspende-a, retomando-a quando se reencontra com Pepe (capítulo V, pp. 102- 103).

conhecer a "primeira mulher" de Diogo, como lhe contara Constança, aquando da separação de Rui. Assim é feito o relato da sua visita à loja de Lili não no momento em que ocorreu, mas quando Luíza suspeita de que Diogo a ela possa ter regressado, (capítulo VII, p. 119). Mas, quando pretende certificar-se da dúvida que a traz preocupada, pede a Pepe que a ela recorra para decorar o seu apartamento. Este episódio é relatado por duas vezes, embora com a referência "é a pergunta que lhe faço semana após semana, naquele ano..." 119 (capítulo VII, p. 130). Neste relato é apresentada a reacção violenta de Pepe, a desmascarar o que ele considera a mente tortuosa de Luíza (cf. reacção de Pepe, nas páginas iniciais 11 e 12 e p. 99, na sua autodefinição: "tortuosa clitemnestra").

Só no último capítulo, é fornecido o relato dos factos que conduziram à separação de quartos. Isso acontece em dois momentos, na lógica já referida de contar mais do que uma vez o mesmo acontecimento, de acordo com a marca (psicológica) deixada na memória da personagem-narradora. Tudo se concentra à volta da relação com Pepe, que, entretanto, foi perdendo o interesse para Luíza. O esgotamento dessa relação serve de pretexto e elo de ligação para dar a conhecer tais factos.

Assim, num dos almoços com Constança, em que nem as almôndegas agradam e o seu estado espírito é bem sintomático do cansaço e saturação120, Luíza, apenas para que as suas almas "não soçobrem na fútil angústia da solidão" (p. 161), alimenta a conversa com a declaração de que nem Pepe a divertia (p. 162). É então que Constança a desafia a pôr termo à situação vivida, enfrentando Diogo. A narração do almoço cede lugar à evocação. Luíza conta o que aquela já sabe, "ela que foi vazadouro das [suas] lágrimas, confidente dos [seus] penares...", o que aconteceu "desde aquele dia nefasto": a declaração de repúdio (pp. 162-163).

119 Na linguagem de Genette (s/d), trata-se de uma narrativa iterativa (contar uma vez o que aconteceu n vezes

(P- 116)

O encontro (final) com Pepe, já anunciado no almoço referido, vai proporcionar o segundo relato desses acontecimentos, agora, com mais pormenores (pp. 174- 179). Quando Luíza lhe propõe que a deixe à porta de casa, este reage com insultos. Esta sua atitude vai desencadear nela uma reacção de auto punição atribuindo o seu fracasso à "inépcia própria de medíocres para mais altos voos no vício ou na virtude..." (p. 172). Aí estaria a razão para esse "ideal de vida em comum para dois (...) de um momento para o outro ser ensombrado" (p. 174) e o pretexto para evocar as dores de uma gravidez ectópica, a intervenção na clínica, o regresso a casa, a separação de quartos, a recuperação e repúdio (pp. 174-179).

Mais uma vez se constata que a narração dos factos pertinentes para a autobiografia121:

- segue a lógica da importância com que "impressionaram" a personagem; - é provocada por associações ocasionais, mas marcantes;

- são repetidos ou não, de acordo com o grau de importância para a revelação / recriação da personagem;

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