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An information-theoretic picture

É relevante traçar uma genealogia do pensamento de Derrida. Postula-se, então, a dimensão de que seu movimento não surge no pensamento derridiano, nem se esgotou nele. Na escritura de seu DNA, quais rastros são encontrados? Ora, por mais que se aponte o caráter inventivo da desconstrução, sua inspiração possui uma história em outros (em outros o quê?). Na elaboração de seus primeiros trabalhos, Derrida expõe sua filiação filosófica a fim de compreender o descentramento metafísico pretendido:

Se quiséssemos contudo, a título de exemplo, escolher alguns ―nomes próprios‖ e evocar os o autores dos discursos nos quais esta produção se manteve mais próxima da sua formulação mais radical, seria sem duvida necessário citar acrítica nietzschiana da metafísica, dos conceitos de ser e da verdade, substituídos pelos conceitos de jogo, de interpretação e de signo (do signo sem verdade presente); a critica freudiana da presença a si, isto é, da consciência, do sujeito, da identidade a si, da proximidade ou da propriedade a si; e, mais radicalmente, a destruição heideggeriana da metafísica, da onto-teologia, da determinação do ser como presença.81

Pode-se constituir um espólio regressando até os confins da filosofia e talvez desviando para a mística judaica. São possibilidades. Embora fique evidente a tríade que serve de fonte para Derrida, opta-se por tratar de duas referências importantes. A fim de explicar a semântica da palavra desconstrução, recorre-se às assinaturas de Heidegger e Nietzsche. As obras dos dois pensadores são referências de desconstruções no pensamento filosófico. A desconstrução é um movimento dentro da tradição filosófica, e por mais que apresente a fraqueza da metafísica, permanece sob alguma perspectiva vinculada a essa.

Tanto a crítica nietzschiana quanto a destruição heideggeriana confrontam um dogmatismo arraigado na tradição filosófica. O problema não é incorrer em alguma metafísica, mas perder de vista os problemas a que ela busca responder e aqueles que ela

81 DERRIDA, J. A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências humanas. In: DERRIDA, J.A escritura e

produz perante a existência. A decadência do pensamento se dá ao passo que se tenta controlar e perpetuar um sentido da vida ou da existência. Por isso, o niilismo segue simultaneamente como um sintoma e uma linha de fuga à metafísica. Em certo sentido, chega-se a um nada para possibilitar uma ampliação do horizonte do pensamento. Assim, as obras de Nietzsche e Heidegger travam um bom debate.

Começa-se (é preciso começar) por uma fórmula, não por metodologia; mas uma estética formulada, posto que o DNA pode ser visto enquanto uma fórmula em dobras e redes. Constatando o heideggerianismo francês, Luc Ferry e Alain Renaut elaboram uma equação interessante e pertinente ao objetivo desta sessão: Derrida = Heidegger + o estilo de Derrida82. O escopo para tal passa por uma citação (repetição à abertura do contexto) e, a partir de uma pergunta sobre a différance83, a economia das forças entre Nietzsche, Freud, caindo em Heidegger, Derrida lança a afirmação marcante:

Sim, sobretudo. Nada do que eu tento fazer teria sido possível sem a abertura

das questões heideggerianas (grifo nosso). E, antes de tudo, pois aqui nós devemos

dizer as coisas muito rapidamente, sem a atenção àquilo que Heidegger chama de diferença ôntico-ontológico tal qual ela permanece, de uma certa maneira, impensada pela filosofia.84

Entre tantos conceitos a serem esclarecidos, esse período grifado é a chave para a fórmula. A possibilidade do trabalho de Derrida reside em Heidegger? Ainda, a repetição de Heidegger produz a diferença em Derrida? Em Derrida = Heidegger + o estilo de Derrida, por um lado é preciso dar conta da igualdade, ou de maneira mais acabada da identidade; por outro, daquilo que se soma a Heidegger: que estilo é este? Trata-se de uma soma ou uma adição? Essa fórmula dá o lastro para a articulação dos traços constituintes do pensamento derridiano.

A questão inaugurada reside na tradução do termo Destruktion ou Abbau na obra de Heidegger. No início de Ser e Tempo (§6), a investigação se desenvolve na medula do sentido do ser no tempo. Trata-se da história do conceito de ser na inscrição da sua possibilidade no tempo:

Nesse caso, a presença se assume no modo de ser do questionamento e da pesquisa dos fatos historiográficos. A história fatual (Historie) ou, mais precisamente, a

82 FERRY, L; RENAUT, A. Pensamento 68: ensaio sobre o anti-humanismo contemporâneo. São Paulo: Ensaio, 1988. p. 153.

83

Trabalhar-se-á em momento oportuno esse conceito (ou quase-conceito). Trata-se de um termo cunhado por Derrida a partir de uma aglutinação das palavras diferença (différence) e diferir (différer). Por problemas de tradução, será mantido o termo original em francês. Segue-se, pois, a orientação do professor e tradutor Evandro Nascimento porque é assumida a intradutibilidade do termo para o português ou para qualquer outra língua. Cf. NASCIENTO, E. Traduzindo Derrida (uma questão de gerúndio). In: FERREIRA, Elida; OTTONI, Paulo.

Traduzir Derrida: políticas e desconstruções. Campinas-SP: Mercado das Letras, 2006. p. 31-50.

fatualidade historiográfica (Historizität) só é possível como modo de ser da presença que questiona porque, no fundamento do seu ser, a presença se determina e constitui pela historicidade.85

A metafísica é a história do ser, ao mesmo tempo em que propicia seu esquecimento. Para tanto, é preciso retirar as camadas discursivas sobre o tema do ser. Heidegger só pode dar cabo ao seu projeto do sentido do ser desvelando esses sedimentos depositados pela tradição. Dessa forma, o filósofo da Floresta Negra fez seu trabalho arqueológico para expor o âmago de seu problema:

Caso a questão do ser deva adquirir a transparência de sua própria história, é necessário, então, que se abale a rigidez e o enrijecimento de uma tradição petrificada e se removam os entulhos acumulados. Entendemos essa tarefa como a destruição do acervo da antiga ontologia, legada pela tradição. Deve-se efetuar essa destruição seguindo-se o fio condutor da questão do ser até chegar às experiências originárias em que foram obtidas as primeiras determinações de ser que, desde então, tornaram-se decisivas.86

Para explicitar sua tarefa, Heidegger tenta definir os limites do passado de sua questão, mesmo possuindo uma faceta negativa implícita e indireta. Nesse sentido, ele lida com a questão da margem, a instância limítrofe. Em contrapartida, o filósofo alemão esteve mais preocupado com as reverberações desse passado sobre suas questões contemporâneas: ―sua crítica volta-se ao hoje e para os modos vigentes de se tratar a história da ontologia, quer esses modos tenham sido impostos pela doxografia, quer pela história da cultura ou pela história dos problemas‖87

. É bem difundido o contexto dos debates no qual Heidegger se envolveu88. Entre várias perspectivas, seria necessário atacar os fundamentos dogmatizados dos adversários.

Essa agonística frente a seus contemporâneos revela a resistência ao dogmatismo da desconstrução. A destruição aponta uma proposta para a aporia da questão do sentido do ser. Volta-se, pois, ao que se colocou na primeira seção deste capítulo – é no limite da filosofia que se abre a passagem para o não-filosófico. Por isso mesmo, é o trabalho de desvelar as camadas de sentidos:

Destruição não significa ruína, mas desmontar, demolir, e pôr-de-lado – a saber, as afirmações puramente históricas sobre a história da filosofia. Destruição significa: abrir nosso ouvido, torná-lo livre para aquilo que na tradição do ser do ente nos inspira.89

85

HEIDEGGER, M. Ser e tempo. 3. ed. Petrópolis-RJ: Vozes; Bragança Paulista- SP: Editora Universitária São Francisco, 2008. p. 58.

86 Ibidem, p. 60. 87 Ibidem, p. 61. 88

VATTIMO, G. Introdução a Heidegger. 10. ed. Lisboa: Instituto Piaget, 1996. p. 7-21.

89 HEIDEGGER, Martin. O que é isto - a filosofia? In: HEIDEGGER, Martin. Conferências e escritos

Em outro sentido, Abbau remete a reflexão heideggeriana sobre o habitar e o construir. Por isso, ―enquanto não pensarmos que todo construir é em si mesmo habitar, não poderemos nem uma só vez questionar de maneira suficiente e muito menos decidir de modo apropriado o que o construir de construções é em seu vigor de essência‖90. A desconstrução irrompe no interior do discurso solicitado. Na existência humana, as construções garantem, possibilitam a segurança do pensar. Assim, a questão do sentido do ser envolve uma localização referencial da morada.

A proposta de tradução de Derrida assume esses sentidos enunciados por Heidegger. Da destruição à desconstrução há um fio pertinente para a discussão da tarefa do tradutor, lembrando que a lição de Walter Benjamin91 torna-se relevante em meio às circunstâncias, pelo fato de que um tradutor sempre trai num certo sentido a obra que traduz. Contudo, é acometer um retardamento dos signos que possibilitam o momento da criação. Ora, um signo em línguas diversas tem um peso diferente. Por isso, Derrida mostra sua felicidade mais por haver encontrado um termo que expresse suas pretensões filosóficas, ainda, além disso, o termo será transposto para sua filosofia.

Pode-se perceber o quanto Heidegger influenciou Derrida já na proposta. Contudo, os desdobramentos são consideráveis. Enquanto o alemão trabalha no esquecimento do ser, Derrida lida com a remoção dos sedimentos, nesse tirar as camadas, achando o sem-fundo do devir-rastro. Nesse caso, o que Derrida assumiu mais propriamente em Nietzsche foi a perspectiva sobre a linguagem e a tradição filosófica como a alcachofra: tantos conceitos, sentidos, conceitos de sentido e sentido de sentidos para tapar um sem-fundo. Talvez, não uma falta, mas um excesso. Às vezes pouco explorada, a assinatura de Nietzsche em Derrida é uma força na constituição da desconstrução.

Não é na demolição que Derrida encontra Nietzsche92, mas na diferença de forças que solicitam os discursos filosóficos. Assim, herdou o trabalho contra a dialética, a genealogia, a transvaloração de todos os valores foi o que, na vidência de Nietzsche, seria o papel dos filósofos do futuro93. No entanto, deve-se entender esse filósofo do futuro na

90

HEIDEGGER, M. Construir, habitar, pensar. In: HEIDEGGER, M. Ensaios e conferências. 5. ed. Petrópolis- RJ: Vozes; Bragança Paulista-SP: Editora Universitária São Francisco, 2008. p. 128.

91 Cf. edição americana: BENJAMIN, W. The task of the translator. In: BENJAMIN, W. Illuminations: essays and reflectios. New York-USA: Harcourt, Brace & World, 1968. p. 69-82.

92

Nesse sentido, faz-se referência ao grande estudo de Gilles Deleuze: DELEUZE, G. Nietzsche e a filosofia. Porto-PT: Rés-Editora, 2001. Esse trabalho é reverenciado por Derrida para entender as relações de força em Nietzsche, desenvolvido na différance: DERRIDA, J. A diferença. In: DERRIDA, J. Margens da filosofia. Campinas-SP: Papirus, 1991. p. 50.

93 Cf. NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das letras, 2005.

emancipação do devir. No jogo de forças, Derrida revela o movimento da diferença que desponta uma vontade de potência.

O imprevisível, absolutamente outro, aquilo que vem sem previsão ou predicados, o contingente e a transformação tomam a filosofia para solicitá-la, abalar suas estruturas. Segundo Nietzsche: ―A crença fundamental dos metafísicos é a crença na oposição de valores‖94

. Diante disso, retoma-se o movimento há pouco falado da inversão e do deslocamento. Não para salientar um niilismo passivo; o que se deve aprender na desconstrução é o dionisíaco – a liberação da força e a disseminação do sentido. Por isso, o significado de um estilo passa pelo corte que ele promove nos textos que lê.

No ensaio, O teatro da crueldade e o fechamento da representação, Derrida avalia a importância de Antonin Artaud para ressaltar o teatro que deve criação, a arte da diferença ou a festa como ato político que rompe com as representações de Deus, do Ser e da Dialética: ―não é nem livro nem obra, mas uma energia e neste sentido é a única arte da vida‖95

. Assim, o limite da representação filosófica é a vida – nada mais nietzschiano: ―O teatro da crueldade não é uma representação.

É a própria vida no que ela tem de irrepresentável. A vida é a origem não representável da representação96. A desconstrução não é niilista, passiva, ela irrompe de Dionísio. Ao contrário, O niilismo é, pois, ativo. A vida está para ser afirmada – a existência do vivente singular na multiplicidade: ―A afirmação múltipla ou pluralista, eis a essência do trágico‖97

.

É preciso reafirmar a fórmula Derrida = Heidegger + o estilo de Derrida. Não há problemática nesse encadeamento. Se Ferry e Renaut pretendiam ressaltar uma inautenticidade derridiana, este encadeamento é fabuloso. Ora, é no rastro de sua relação com o outro, Heidegger, que será possível pensar a desconstrução. Nesse sentido, as pretensões de autonomia são solicitadas na precariedade do rastro imotivado; sempre porvir, Derrida busca a diferença e o heterogêneo. Não é à toa que há uma adição, ou seja, a lógica suplementar acomete a plenitude para exceder e substituir. Ainda mais, esse + (mais) releva a diferença de força que possibilita o desmonte de onde se habita.

Derrida considera a pretensa crítica: ―O que atacam é o que chamam de um estilo, o qual pretendem reduzir, falando de mim, a uma engenhosidade ou uma fecundidade lexicais.

94

NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das letras, 2005, p. 10.

95 DERRIDA, J. O teatro da crueldade e o fechamento da representação. In: A escritura e a diferença. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2005b. p. 172.

96 Ibidem., p. 152.

[...] Apenas uma forma de escrever, em suma‖98. Por um lado, há uma infelicidade na crítica que pode ser explorada em sua negatividade. A relação entre os autores alemães e franceses pode ser instituída. Entretanto, existe um problema em reduzir a extensão de uma obra a uma analogia. Definitivamente, o raciocínio analógico é um modo de captura da diferença. Por outro lado, no desvio sempre permitido da metáfora, o estilo se torna a diferença deslocando a crítica para a reafirmação do pensamento derridiano.

No suplemento da fórmula, realmente, foi possível aos críticos produzir uma série de substituições entre filósofos franceses e alemães. Heidegger pode ser substituído por Nietzsche ou por Marx que deslocará Derrida a Foucault ou Bourdieu. Em todo caso, são rubricas que se repetem e se agenciam. Dessa forma, suas posições podem ser reformuladas. O estilo oferece a possibilidade do corte porque a escrita ou sua forma produzem remessas na finitude transpassado pelo infinito dos rastros.