CHAPITRE 6 PRESENTATION ET ANALYSE DES RESULTATS
6.1.4 Influence de la teneur en eau
A proposta geral do seminário era “contribuir para um debate amplo sobre os projetos da prefeitura na região central, envolvendo representantes do governo, universidade, empresários, movimentos sociais, entidades de classe, entidades não governamentais e moradores”. Pelo menos era isso que se podia ler, no programa distribuído logo na entrada do local. O espaço era um auditório cedido pelo Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (SEESP), que se localizava no Centro, próximo à Câmara Municipal. Os principais organizadores do evento foram os Vereadores Chico Macena e Paulo Teixeira, ambos do PT, sendo que este último tinha sido, na gestão municipal anterior, secretário da Habitação. Contudo, não só estes atores políticos ajudaram na preparação do evento. Podia-se ler, no programa e em cartazes espalhados por todo auditório, o apoio do Centro de Convivência É de Lei, do Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, da Universidade Mackenzie, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, do Instituto Polis, da Caixa Econômica Federal, do Governo Federal, entre outros. Pelo menos oficialmente, a prefeitura de São Paulo parecia não estar apoiando o evento, já que no ambiente havia uma total ausência de qualquer insígnia referente à mesma.
Como os responsáveis pela montagem do seminário possuíam uma filiação partidária antagônica à recente empossada gestão, todo evento já carregava, em si mesmo, uma certa tensão. Para participar do seminário, não era necessário pagar e nem se inscrever com antecedência. Havia na porta de entrada apenas um livro de assinaturas, no qual as pessoas se cadastravam. Parece que o seminário não tinha sido muito divulgado, a não ser entre as organizações mais influentes no Centro. Só fiquei sabendo de sua existência por ter travestis. Apenas comento que, atualmente esta região, é alvo de fortes investimentos privados e públicos, sendo que esta designação pejorativa encaixa-se muito bem aos atuais propósitos de intervenção para a mudança da composição e freqüência social na região.
56 Entre estes, podemos citar o Instituto PÓLIS, a OAF (Organização do Auxilia Fraterno), a Pastoral da Rua, o Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos e o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR).
proximidade com a OAF e com o MNCR, organizações que foram convidadas. O evento estava marcado para se alongar durante todo o dia. Haveria quatro mesas de discussão. Na parte da manhã, a primeira mesa tinha o título de “Reabilitação do Centro de São Paulo” e a segunda “Habitação”. Na parte da tarde, as mesas tinham os seguintes nomes: “Cracolândia e Inclusão Social” e “Trabalho e Desenvolvimento”.
Às nove horas da manhã, o auditório já estava lotado. Tinha gente em pé no fundo e nos corredores do auditório, que literalmente era um espaço pequeno para um evento deste porte. Havia uma platéia com cerca de apenas 80 poltronas e um palco. Neste encontrava-se uma mesa com sete cadeiras para os expositores sentarem. Antes mesmo da primeira mesa se apresentar no palanque, todo o lugar já estava repleto de pessoas. O mais interessante era observar os tipos de personagens presentes na platéia. Muitas pessoas que ali estavam, visivelmente provinham de uma origem mais simples. Mesmo não sendo a totalidade, pois o público também se constituía por jornalistas, estudantes, técnicos e ativistas, era saliente o caráter popular da platéia. Pela postura e traços, expressões e vestimentas, a distinção social colocava-se de maneira marcante. Reconheci algumas das pessoas lá presentes. Havia pessoas ligadas aos movimentos de luta por moradia, às cooperativas de catadores (com camisas do MNCR), além de encontrar Sebastião e Anderson, figuras que estavam encabeçando o recém nascido Movimento Nacional de Luta e Defesa dos Direitos da População em Situação de Rua. Trajando roupas simples, algumas até sujas, homens e mulheres, algumas com bebês de colo, crianças e pessoas com idade avançada, ressaltavam o caráter popular presente na platéia.
O cenário já estava assim, tão cedo, montado e repleto de personagens ansiosos, e não à toa. Sem sombra de dúvida, a mesa mais esperada era a primeira, justamente aquela que abriria os trabalhos. O que era de fundamental importância nesta mesa era a participação tão esperada de Andrea Matarazzo, figura pública esta que desde sua assunção de posse na Subprefeitura da Sé, não havia estabelecido diálogo com as entidades e outros atores sociais vinculados aos setores de baixa renda do Centro. Nesta mesma mesa também se sentaram outras figuras de proeminência política, como por exemplo: Raquel Rolnik, Secretária Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades da gestão do governo federal (petista), Nadia Somekh, Diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie e ex-presidente da Empresa Municipal de Urbanização (EMURB) da gestão municipal anterior (PT, 2001-2004), e Regina Meyer, professora da FAU e ex-assessora da Associação Viva o Centro. Contudo, logo no começo, quando Andrea Matarazzo subiu no
palco, iniciou-se na platéia toda uma movimentação e ficou muito claro que a personagem alvo do público era o subprefeito mesmo.
As falas iniciais dos palestrantes foram relativamente tranqüilas e tinham em comum o fato de apontarem para a necessidade de se estabelecer instâncias de diálogo entre a heterogeneidade dos grupos sociais existentes no Centro e o projeto político de “requalificação”, comandado pela nova gestão municipal. Quando o subprefeito tomou o microfone, a movimentação do público foi geral. A platéia claramente colocava-se em posição de enfrentamento para com Matarazzo e este parecia estar ficando nervoso.
“Existe a percepção de que o Centro é um lugar inseguro, e é contra esta percepção que devemos lutar”. E para tal luta se concretizar, uma série de intervenções seria levada a cabo. Em verdade o subprefeito reafirmou, de certo modo, tudo aquilo que já havia exposto três meses atrás, na entrevista da Vejinha. Contudo, durante seu discurso muitas afirmações foram mudando de tom, e abrandando, de acordo com as reações do público. Agora afirmava, também, que a diversidade social do Centro deveria ser mantida, que era necessário “cuidar das pessoas em situação de rua”, criar mais cooperativas para “estimular a reciclagem” e, que para “evitar a circulação de carroças no Centro”, era necessário uma vigorosa “política de transporte de resíduos sólidos”. Ocorreram muitas vaias, e insultos como “mentiroso” e “higienista” foram lançados da platéia em direção ao palestrante. À medida que os momentos se sucediam, a platéia gradativamente deixava de ser simplesmente um espectador para tornar-se ator envolvido no drama. A movimentação da platéia, as reações do subprefeito e suas respostas iam inflando os ânimos já acirrados. A cena ia, então, adquirindo dinâmica e potência. O teatro de luta ganhava força.
Assim, os antes espectadores, tornaram-se claramente participantes do jogo e passaram a reivindicar suas próprias posições e visões. O público ansiosamente queria ter voz, queria ter palavra e ser ouvido pelas autoridades. Devido à falação e à vaia generalizada, tornou-se impossível impedir que Matarazzo falasse. Foi aberto então o microfone para a platéia, que questionou muitas das atitudes tomadas pela nova gestão. A maneira como foi efetuada a expulsão dos meninos e meninas de rua e de “usuários de crack”, que circulavam no entorno da região da Luz, ação esta intitulada pela prefeitura como “operação limpa”, suscitou fortes críticas. Reclamou-se da diminuição radical do número de autorizações para os ambulantes venderem na rua, fato que gerou, semanas antes, manifestações de rua e até mesmo conflitos entre os camelôs organizados e a tropa de choque da polícia militar. Um integrante do Movimento de Moradia de Centro (MMC) tomou a palavra e afirmou ser um absurdo a prefeitura não ter nenhum programa de moradia popular no Centro, já que esta é a região da
cidade com o maior número de imóveis vazios. Anderson, que se apresentou como representante do Fórum da População em Situação de Rua57, afirmou que o subprefeito havia se negado a recebê-lo por três vezes consecutivas desde que assumiu o cargo. Reclamou também que o subprefeito não poderia sair “chamando na revista, morador de rua de mendigo, tem uma diferença aí!” Outro motivo de protesto foi o cercamento da Praça da República, principalmente pelo fato da prefeitura não ter explicado publicamente o motivo que a levou a esta atitude. Chegou-se a afirmar que com as grades da República a prefeitura queria era “proibir os pobres de andarem pela cidade”.
Uma pessoa com a camisa do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), ao tomar o microfone, falou que a prefeitura estava querendo “acabar com o trabalho dos catadores no centro da cidade”. Pois, mesmo querendo instalar novas cooperativas, não estava interessada em abrir diálogo com aquelas que já existiam. A prefeitura “mais atrapalha do que ajuda na catação”. Em verdade em abril do mesmo ano, um vereador do PFL havia apresentado um projeto de lei (Lei 171) que foi extremamente rejeitado pelas organizações de catadores do centro de São Paulo. Este projeto propunha, entre outras coisas, o cadastramento obrigatório de todos os catadores que utilizam carroças, a obrigatoriedade de cursos de higiene, a necessária padronização de todas as carroças no prazo máximo de um ano, sendo que estas deveriam contemplar espaço para a propaganda e publicidade. Por fim, tal padronização seria patrocinada pela iniciativa privada ou facilitada através de financiamento de crédito. As críticas a esta lei eram várias e a única pessoa que poderia vetar este projeto era o novo prefeito José Serra. O catador que protestava ao microfone contra a ação da nova prefeitura afirmava que esta, até agora, tinha se silenciado a respeito do fato. Asseverava, também, que muitos dos catadores estavam apreensivos devido ao emudecimento da prefeitura em relação ao projeto de lei, que atrapalharia em muito suas vidas. Por fim, anunciou que no dia seguinte haveria uma manifestação pública contra o dito projeto lei.
Muitas palavras foram proferidas e as críticas voltavam-se, de maneira geral, para a incompatibilidade entre o projeto de intervenção no Centro e o que se passava por lá. Havia aquela ebulição de vozes, muitas vezes simultâneas, já que enquanto um falava ao microfone outros, freqüentemente, o apoiavam em forma de afirmações em voz alta, “é, você só quer expulsar os pobres”, “quer por os pobres para fora”. Parecia haver uma inabilidade por parte
57 Como já comentado, este fórum foi justamente a instância coletiva de discussão e formação que possibilitou a organização e o lançamento do Movimento Nacional de Luta e Defesa pelos Direitos da População de Rua (MNPR). Mesmo com a construção deste movimento social, o Fórum continuou existindo por alguns meses.
do subprefeito para responder e reagir àquela avalanche de críticas. O choque proporcionado pelas reclamações deu a impressão geral de que o poder público nunca tinha ouvido tais vozes, e que havia uma grande distância entre o projeto político de transformação do Centro e a realidade que este buscava intervir. As reclamações acompanharam aquilo que Padre Júlio Lancelotti, Vigário do Povo da Rua, posteriormente em outra mesa, chamou de “descolamento do poder público”.
Provavelmente um dos momentos mais dramáticos de todo evento, em que o agonismo pareceu arrebatar todos aqueles envolvidos no jogo absorvente, foi quando, acuado e tentando responder às críticas, o subprefeito disse: “Apenas tapei buracos, reparei lâmpadas, consertei placas, restaurei calçadas e arrumei semáforos. Só fiz o que era para ser feito. Não tive nada a ver com o resto”. Neste exato instante, uma senhora grande e negra levantou-se com uma criança no colo e em alta voz, vociferou: “Não tem nenhum resto aqui, não. Se o senhor acha que nós somos resto, o senhor está muito enganado. Nós somos cidadãos e temos direito de morar e viver na cidade como todo mundo”. Neste momento, a platéia foi abaixo. Vaias e aplausos, muitas pessoas falando alto e, ao mesmo tempo, vozes de apoio à mulher e, em meio a todo alvoroço, o subprefeito tentando se desculpar pelo mal entendido.
A seqüência disso foi a finalização da fala de Matarazzo ou, mais precisamente, a incapacidade deste se pronunciar. A palavra foi passada para outros palestrantes e o restante dos comentários da mesa foi na direção de afirmar que tudo aquilo que estava se passando ali, demonstrava a extrema necessidade da criação de espaços de diálogo entre o poder público e os grupos populares do Centro. Particularmente Raquel Rolnik e Nadia Somekh, ambas ligadas ao PT, principal partido de oposição à atual prefeitura, foram duas personagens que enfatizaram reiteradamente esta questão e criticaram também a atuação da nova gestão.
Após o término da mesa, Matarazzo retirou-se acompanhado por seguranças e seguido também por várias pessoas que estavam na platéia e queriam lhe falar. O restante do seminário se deu num clima um pouco mais ameno do que o apresentado na mesa de abertura. O público foi diminuindo gradativamente, com a saída do subprefeito. Só depois do almoço é que a tensão gerada por um atrito entre o Padre Júlio Lancelotti e Floriano Pesaro, Secretário Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, foi quebrar a calma que se apossou do evento após a saída do subprefeito. O novo secretário, ao discorrer sobre a importância de não se dar esmolas para as pessoas que se encontram em situação de rua, pareceu incitar a ira do Padre Júlio. Este afirmou que “o dar é um atributo reservado ao fórum íntimo de cada pessoa, não cabendo à prefeitura decidir tal coisa”. E em tom agressivo, disse “quem dá esmola para a sociedade é o Estado, que diminui cada vez mais os recursos destinados à assistência social”.
O que se viu em seguida foi uma seqüência de ataques, que iam e voltavam. Mesmo com o auditório não estando mais tão cheio, o conflito gerou comoção da platéia, fazendo com que muitas vezes as palavras proferidas pelo Padre fossem aplaudidas.
Pode-se falar que este evento foi o primeiro encontro público da nova gestão municipal com uma ampla coletividade de personagens atuantes no Centro e ligados aos segmentos populares. Nele foi possível notar o quase total desconhecimento, ou desinteresse, por parte da nova gestão, da complexidade de boa parte das questões envolvidas e da vida social existente nesta região. O ponto crucial do evento foi a aparição da figura pública do subprefeito. Este, talvez, por ser a autoridade máxima na região, manifestada através da imprensa, foi o grande alvo da platéia. A visão desta figura pública permitiu que a responsabilidade dos anseios, das pessoas e grupos que ali se encontravam, se canalizasse totalmente em sua direção. A expressão disto foi a avalanche de críticas, reivindicações e até insultos que o público lançou para Matarazzo, tornando-o o grande antagonista daquele evento. De herói, o nosso subprefeito sorridente e vitorioso parecia agora se ter metamorfoseado em vilão. Ou pelo menos era isso que ele parecia encarnar para os praticantes dos espaços do Centro, que foram ali reivindicar suas visões e versões sobre a vida nesta região.