A configuração de Lisboa enquanto metrópole formalizou‐se a partir dos anos 60, vertebrada pelas infraestruturas de mobilidade que contribuíram para uma ocupação distendida no território, alargando os seus limites físicos e estimulando um crescimento periférico, concentrado em áreas industriais e residenciais, ligadas aos eixos ferroviários já existentes desde o século XIX e aos novos eixos rodoviários, em construção. A sua consolidação como metrópole prolongou‐se até à década de 80, em que a região de Lisboa registou um acréscimo populacional de 64,7%, embora com diferenças acentuadas entre a margem norte (163,8%) e sul do Tejo (100,6%) (PEREIRA, [et al.], 2008). Até meados dos anos 70, o percurso de Portugal foi marcado profundamente pelo regime político do Estado Novo (entre 1933 e 1974) e por duas guerras – a II Guerra Mundial entre 1939 e 1945, na qual assumiu uma posição neutra, e a Guerra Colonial de 1961 a 1974 – que levaram a um conjunto de grandes alterações a nível económico e social, sustentando o processo de rápido crescimento demográfico que veio caracterizar a configuração metropolitana atual.
O ritmo de mudança de Portugal acelerou a partir da década de 60, com um grande impulso do sector secundário, dando origem a um enquadramento económico bastante favorável, com inéditas elevadas taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Este período é conhecido pelos anos de ouro ou década dourada da economia Portuguesa (ROLLO, 2002) que se estendeu até 1973, o ano de viragem política e de início de um novo ciclo político, económico e social. Em termos económicos, as suas características dominantes estão associadas ao crescimento do PIB, à abertura ao mercado exterior e à ausência de grandes desequilíbrios macroeconómicos (LOPES, 1996). Apesar da sua posição neutral na II Guerra Mundial, Portugal teve um papel ativo no abastecimento de bens para as partes envolvidas, que impulsionou a exportação e gerou um movimento de capitais, (re)investidos no sector secundário. A indústria foi, então, assumindo uma importância crescente, impulsionando profundas alterações na estrutura de composição do emprego, em especial a partir da década de 60, que motivaram os fortes movimentos demográficos que se refletiram nos restantes aspectos da sociedade e desenharam o início de uma mudança gradual do funcionamento do país, associada à melhoria das condições de vida da população. Embora se verificasse um grande crescimento do sector industrial, o clima de instabilidade social contribuiu para que Portugal sofresse um conjunto de movimentos migratórios de grande expressão durante o período entre os anos 50 e 70. Por um lado, a emigração em massa centrava‐se na Europa, um destino cuja proximidade permitia um maior contacto e visitas mais frequentes, assim como o envio regular de remessas monetárias, investimento na construção e aquisição de terrenos, que representavam um importante contributo para a economia do país (BARRETO, 1996). Por outro lado, verificou‐se a diminuição da população rural e agrícola, motivada por um forte êxodo do interior para o litoral do país, com o
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Como complemento a este capítulo, sugere‐se a leitura cruzada dos quadros síntese da Cronologia Interpretativa, em Volume II.
128 | FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa destino preferencial das áreas metropolitanas, o esvaziamento das aldeias e abandono das terras, acompanhada pelo retorno gradual da população das ex‐colónias Africanas, que se iria intensificar na década de 70 (SOARES, [et al.], 2003).
Assim, durante os anos 60, a Guerra colonial traduziu‐se num peso de despesas militares para a economia nacional, mas simultaneamente num crescimento apoiado no surto expansionista do sector secundário associado à indústria de guerra, assim como na transformação de matérias‐primas provenientes das colónias (CONCEIÇÃO, [et al.], 2002), contribuindo para manutenção e aumento dos postos de trabalho na região de Lisboa. No entanto, o forte impulso que se fez sentir na indústria esteve associado ao aumento da procura externa, em que a Europa do pós‐guerra passou a assumir o papel de maior relevo, em detrimento do mercado Africano (LOPES, 1996). A abertura ao mercado externo, com a adesão à EFTA136, em 1959, veio encetar uma postura de abertura (comercial e industrial) e de intensificação de laços de interdependência entre as economias da Europa ocidental, como consequência das políticas de liberalização comercial, que foram consolidadas posteriormente, com a entrada na Comunidade Económica Europeia (posteriormente designada por Comunidade Europeia e atualmente por União Europeia137). Estabeleceram‐se, então, novos laços económicos externos, apoiados tanto nas exportações como na atração de investimento estrangeiro para a indústria, motivado pela melhoria das infraestruturas, equipamentos produtivos e pelos baixos salários praticados – surgiram variados complexos industriais ligados à metalomecânica, montagem de veículos, máquinas eléctricas e electrónicas, química, energia e agroalimentar. Apesar desta abertura ao exterior, o governo Português manteve a sua postura protecionista em relação a alguns sectores de empresas e de matérias‐primas, sem a redução por parte das autoridades das modalidades tradicionais do intervencionismo sobre variados aspectos da vida económica (LOPES, 1996).
Este foi, então, um período de grandes transformações políticas, económicas e sociais fortemente marcadas pela presença das duas guerras. A postura económica e protecionista do Estado foi‐se gradualmente alargando e a adesão à EFTA marcou o momento de viragem e de abertura ao mercado exterior, que veio alterar o funcionamento da economia nacional e integrar novas dinâmicas, que ganharam maior peso a partir da integração Europeia, em 1986. A par do crescimento industrial, o sector dos serviços conquistou gradualmente um papel de relevo na sociedade e na economia, por se constituir como o principal empregador e por aglutinar as atividades emergentes
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Portugal foi um dos membros fundadores da EFTA (European Free Trade Association), que estabelecia a criação do Mercado Comum Europeu, em conjunto com Grã‐Bretanha, Áustria, Suécia, Noruega e Dinamarca, seguidos pela Finlândia e Islândia.
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As Comunidades Europeias designavam inicialmente a Comunidade Económica Europeia (CEE), a Comunidade Europeia
da Energia Atómica (Euratom), ambas instituídas em 1958, e a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), instituída
em 1952. A União Europeia foi instituída pelo Tratado de Maastricht em 1993 e assentava em três pilares: a dimensão comunitária (CEE/CE, CECA, Euratom), a política externa e de segurança comum e a cooperação no domínio da justiça e dos assuntos internos. A Comunidade Económica Europeia foi rebatizada de Comunidade Europeia e abrangia certos domínios políticos da União Europeia como a cidadania da União, as políticas comunitárias e a União Económica e Monetária (UEM). Em 2009, o Tratado de Lisboa suprimiu a estrutura de três pilares e a Comunidade Europeia foi absorvida pela União
Europeia. In Conselho da União Europeia, disponível em http://www.consilium.europa.eu/contacts /faq?lang=pt&faqid=79264, consultado a 01.11.2013.
FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa | 129 do turismo, que adquiriram uma posição de peso, associada ao incipiente aparecimento da classe média, com aspirações culturais e exigências de consumo.