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gradualmente  adaptando  e  aproximando  de  uma  leitura  dinâmica  do  território,  que  encara  a  produção  urbana  como  um  processo  de  interação  entre  os  variados  elementos  que  compõem  a  organização final do espaço, durante um determinado período de tempo. Da tentativa de definição  da  entidade  metropolitana  que  veio  substituir  a  cidade  concentrada  e  de  limites  claros,  surgiu  a  interpretação do espaço urbano que integra a componente construída e o suporte biofísico, focando  o seu relacionamento das variadas partes que os constituem, ao longo do tempo.  

Esta  abordagem  abre,  então,  portas  para  a  leitura  das  transformações  urbanas  e  das  ações  territoriais  como  um  ciclo,  funcionando  como  um  ecossistema  urbano,  em  que  o  processo  de 

transformação territorial iniciado com a ancoragem industrial e seguido pela aderência do terciário, 

se completa, na atualidade, através de ações de preenchimento e pela remoção das atividades iniciais  e finalmente pelo início de um novo ciclo, através das novas ancoragens. 

O  crescimento  das  cidades,  o  alargamento  dos  seus  limites  e  a  impossibilidade  generalizada  de  delimitar claramente o espaço urbano e o espaço rural, associados à emergência de uma consciência  ambiental  e  ecológica  a  nível  global  e  ao  crescimento  da  necessidade  das  regiões  manterem  a  sua  especificidade  e  identidade,  deu  origem  ao  reaparecimento  do  conceito  de  paisagem  no  discurso  urbano,  que  adquiriu  maior  protagonismo  a  partir  da  viragem  do  século  (CORNER,  2006).  Neste  sentido,  a  paisagem  materializa  a  entidade  física  envolvente  dos  vários  ecossistemas  urbanos,  transcendendo  a  leitura  circunscrita  aos  elementos  naturais,  mas  como  um  elemento  com  a  capacidade de teorizar áreas, territórios, redes e infraestruturas e de organizar o campo do urbano e  do  suporte  biofísico,  como  uma  camada  determinante  para  o  planeamento  e  projeto  do  urbano  (STEENBERGEN, 2008). 

Os aspectos centrais a que esta leitura de paisagem veio dar resposta prendem‐se, então, com a) a  escala de abordagem e abrangência; b) a integração do elemento temporal, que permitiu que fosse  encarada como um processo que resulta de um conjunto de interações entre os elementos biofísicos  e  a  ação  humana,  integrando  os  espaços  abertos  naturais  ou  construídos;  e  c)  a  sua  dimensão  cultural  e  social.  Esta  visão  holística  na  abordagem  ao  espaço  urbano  e  a  identificação  da  sua  heterogeneidade  e  capacidade  de  adaptação,  estabelece  um  paralelo  com  os  organismos  vivos  (LYNCH, 1985[1981]) que teve a sua génese no auge da biologia, nos séculos XVIII e XIX, mas cujas  ideias de base surgem recorrentemente na abordagem espacial até aos dias de hoje. Os elementos‐ chave  deste  sistema  vão  buscar  ao  comportamento  dos  ecossistemas  as  noções  de  dinamismo,  adaptação e auto‐organização presentes nos sistemas complexos, cuja imprevisibilidade se aplica às  paisagens urbanizadas. Desta forma, tal como um organismo, o espaço urbano é encarado como um  sistema  aberto  de  estruturas  dinâmicas  e  como  um  palco  ativo  marcado  por  constantes  fluxos  e 

96 |  FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  transformações,  cujos  atores  realizam  ajustamentos  internos  constantes  de  forma  a  atingir  o  equilíbrio (SHANE, 2005). 

Acompanhando o despertar ambientalista e as posturas ecológicas, que assumiram o papel central  que a ação humana exerce sobre o funcionamento e ocupação da envolvente, emergiu o conceito de 

sustentabilidade  e  de  desenvolvimento  sustentável,  que  tem  vindo  a  sofrer  uma  mutação  e 

generalização  desde  o  final  dos  anos  80.  Da  associação  à  causa  ambiental  e  à  conservação  dos  recursos  naturais,  o  conceito  ganhou  uma  maior  abrangência,  que  engloba  uma  perspectiva  económica, social e ambiental. A sua ampla difusão ficou estabelecida em 1987, com a publicação do  relatório  da  Comissão  Mundial  do  Ambiente  e  Desenvolvimento  das  Nações  Unidas,  Our  Common 

Future,  mais  conhecido  por  relatório  de  Brundtland,  em  que  ficou  definido  como  desenvolvimento 

sustentável  aquele  que  garante  a  satisfação  das  necessidades  do  presente,  sem  comprometer  a  capacidade das gerações futuras satisfazerem as suas próprias necessidades, consagrando o princípio  de  solidariedade  intergeracional,  da  noção  de  recursos  limitados  e  do  respeito  pela  capacidade  de  regeneração  dos  ecossistemas  naturais112  (WCED,  1987).  Posteriormente,  a  discussão  acerca  da  sustentabilidade  integrou  as  cidades  e  o  planeamento  urbano,  a  par  com  as  questões  do  aquecimento  global  e  das  alterações  climáticas,  presentes  na  Agenda  Habitat  (UN,  1996),  onde  foram  delineadas  abordagens  e  estratégias  para  o  desenvolvimento  sustentável  em  áreas  urbanas.  Embora  transversalmente  aceite,  o  desenvolvimento  urbano  sustentável  é  um  conceito  em  constante  construção,  encarado  como  uma  visão  e  um  processo,  e  não  como  um  produto  final  (KENWORTHY,  [et  al.],  1999,  WEELER,  1998),  reflectido  na  relação  dinâmica  entre  os  sistemas  ecológicos  e  humanos,  que  redirecionou  a  abordagem  do  projeto  para  as  questões  ambientais,  coincidindo com a crescente preocupação despertada pela extensão da paisagem urbanizada, com o  consumo dos recursos naturais e a eficiência energética. 

O  reposicionamento  das  questões  ecológicas  na  abordagem  à  paisagem  urbana,  com  vista  a  um  desenvolvimento sustentável teve um importante impulso com a difusão das ideias ligadas à ecologia 

da  paisagem  (landscape  ecology),  que  ganharam  relevo,  igualmente,  a  partir  dos  anos  80. 

Caracterizada  por  uma  abordagem  espacial  mais  ampla  do  que  a  tradicionalmente  realizada  pela  ecologia,  apresenta  uma  visão  sobre  a  paisagem  que  aborda  a  sua  heterogeneidade  espacial,  debruçando‐se sobre a importância da configuração urbana para os processos ecológicos. A ecologia  da paisagem assume‐se como um campo interdisciplinar que foca a relação entre a estrutura, função  e transformação espacial ao longo do tempo, numa grande variedade de escalas (FORMAN, 1995). A  estrutura  da  paisagem  consiste,  então,  na  configuração  espacial  que  resulta  da  interação  entre  os  elementos naturais e as ações humanas, que acolhe o funcionamento dos ecossistemas, relacionado  com  o  movimento  dos  fluxos  de  água,  minerais,  espécies  e  pessoas,  caracterizada  pela  mudança        

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  O  desenvolvimento  sustentável  articula  três  aspectos:  o  económico,  onde  se  pretende  a  promoção  da  eficiência,  o  crescimento, a estabilidade e a garantia da manutenção e substituição do capital humano e financeiro; o social, de forma a  evitar  situações  de  pobreza,  fomentar  os  mecanismos  de  consulta,  aumentar  a  participação  pública  e  salvaguardar  o  património  cultural  dos  diferentes  grupos  sociais;  e  o  ambiental,  através  da  salvaguarda  da  biodiversidade,  aumento  da  capacidade  de  regeneração  dos  sistemas  ecológicos  e  físicos,  valorização  dos  recursos  naturais  e  redução  dos  impactes  ambientais resultantes da ação poluidora.  

FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  | 97  dinâmica e transformação do padrão espacial ao longo do tempo. Desta forma, a paisagem resulta  num  todo,  em  que  o  suporte  espacial  acolhe  a  interação  entre  os  elementos  e  os  processos  ecológicos, com a capacidade de se transformar e adaptar ao longo do tempo. Ao integrar o factor  humano como parte da paisagem, abrangendo a ação sobre os sistemas naturais, as regiões urbanas  e  os  usos  humanos  da  natureza  (FORMAN,  2008),  a  ecologia  da  paisagem  abre  portas  para  a  transposição dos limites da cidade, alargando‐a pelo território coerente para a leitura da produção  urbana como um processo dinâmico de interação entre os variados elementos. 

Na  mesma  linha  de  ideias,  a  disciplina  de  urbanismo  da  paisagem  (landscape  urbanism)  veio  posicionar  a  concepção  de  urbanismo  como  projeto  de  paisagem,  tendo  saído  do  campo  da  arquitetura paisagista e alargando o seu foco, de forma a incluir os processos culturais e históricos  assim como naturais e ecológicos. Ao tecer uma crítica implícita à desadequação da arquitetura e do  projeto urbano, esta abordagem procura oferecer explicações coerentes, competentes e integrantes  da condição urbana contemporânea, defendendo um realinhamento disciplinar em que a paisagem  substitui  a  arquitetura  como  o  principal  meio  de  produção  de  cidade  (WALDHEIM,  2006).  Desta  forma,  constitui‐se  como  um  campo  interdisciplinar  que  trabalha  a  paisagem,  explorando  novas  formas  de  relação  entre  o  construído,  a  ecologia  e  a  infraestrutura,  apostando  numa  abordagem  multiescalar, de forma a contextualizar os tecidos urbanos na sua envolvente biofísica, assim como  para estabelecer relações entre processos ambientais e a forma urbana, ao longo do tempo.  

Esta mudança de paradigma na aproximação à paisagem urbana deslocou o foco da discussão para  questões metropolitanas, fruto da fragmentação e dispersão urbana pelo território, suportada pelas  redes infraestruturais e acompanhada pelo abandono de vastas áreas produtivas como consequência  da  desindustrialização.  Estas  transformações  colocaram  em  questão  o  espaço  construído  (cheio)  como  o  principal  elemento  da  cidade  tradicional,  relevando  o  conjunto  de  espaços  abertos  (vazio)  (SHANE, 2006) e sustentaram a leitura da paisagem urbana enquanto a composição dinâmica entre  os  dois.  Neste  contexto,  espaços  vazios  foram  adquirindo  um  papel  central  ao  serem  encarados  como  elementos  articuladores  da  metrópole  contemporânea,  com  um  intrínseco  potencial  ordenador  e  capacidade  de  criar  coesão  e  continuidade113.  Assim,  as  áreas  desocupadas  e  abandonadas, que surgiram como resultado de processos económicos e da remoção das atividades  industriais,  criadas  em  simultâneo  ao  consumo  espacial  decorrente  da  expansão  urbana  periférica  materializada  em  ações  de  preenchimento  e  de  novas  ancoragens  territoriais,  ambos  apoiados  na  redução dos custos de transporte (BERGER, 2006).  

A  integração  produtiva  e  reutilização  destes  espaços  marginais  de  desperdício,  decorrentes  do  esvaziamento  e  abandono  de  áreas  industriais  obsoletas  ou  estruturas  portuárias  e  ferroviárias  desadequadas,  do  armazenamento  em  vastas  zonas  logísticas,  de  aterros  sanitários,  corredores        

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 O sistema de espaços abertos surgiu no final do século XIX, associado à criação e desenho de um conjunto de parques  públicos urbanos, como locais que alojavam infraestruturas de armazenagem de água, contribuíam para melhorar a luz e a  circulação de ar e como espaço de lazer para os habitantes da cidade. Mais tarde, originalmente influenciado pelo Central  Park  em  Manhattan,  Rem  Koolhaas  redefiniu  o  papel  dos  espaços  vazios,  como  espaços  de  ausência,  alheios  a  todos  os  tipos de opressão e com a capacidade de resistirem à estabilidade formal. A sua estratégia do vazio marcou (e continua a  marcar) transversalmente o seu trabalho, influenciando a forma de leitura espacial da escala do edifício à cidade.  

98 |  FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  infraestruturais etc.114, coloca‐se como um desafio ecológico que integra e operacionaliza os espaços  abertos  e  abandonados,  que  por  terem  perdido  a  sua  função  são  habitualmente  ignorados  no  discurso urbano115.

A abrangência conceptual que a paisagem urbana foi adquirindo permitiu a teorização e projeto de  espaços  abertos,  áreas  urbanas,  territórios  regionais,  ecossistemas,  redes,  infraestruturas  e  vários  campos de organização, assim como contribuiu para que o significado de infraestrutura se alterasse  no  campo  do  urbanismo  contemporâneo  e  fosse  associado  à  criação  de  espaço  público,  com  uma  dimensão  ecológica,  assim  como  social  e  cultural  (MOSSOP,  2006).  Ou  seja,  da  visão  do  espaço‐

máquina  em  que  o  projeto  das  infraestruturas  focava  apenas  a  eficiência,  ignorando  as  suas 

dimensões social, ecológica e cultural, a nova postura sobre o espaço urbano veio despertar formas  de desenvolvimento de redes infraestruturais, relacionadas com sistemas ecológicos, dando relevo à  importância do suporte biofísico que as acolhe.  

O  despertar  da  consciência  ecológica  face  à  artificialização  e  mecanização  do  espaço  urbanizado,  focou  as  atenções  nas  relações  entre  a  natureza  e  o  homem  e  na  incapacidade  de  lidar  com  os  desastres  naturais  que  a  artificialização  da  cidade  apresenta.  A  simbiose  entre  as  redes  de  autoestradas,  de  telecomunicações,  de  abastecimento  de  água,  etc.  e  os  elementos  biofísicos,  permitiu a identificação dos ecossistemas urbanos e o seu desenho como a relação dinâmica e cíclica  entre o homem e a sua envolvente (VARNELIS, 2008).  

A  paisagem  adquiriu,  então,  um  papel  central  na  discussão  acerca  das  cidades  e  do  território  urbanizado,  como  processo  e  projeto,  articulando  a  intervenção  humana  (desde  os  padrões  de  divisão dos terrenos agrícolas provenientes da ocupação romana, ao desenho das cidades de hoje), a  transformação  dinâmica  e  as  diferentes  escalas  de  abordagem,  resultando  da  construção  e  transformação de diversas camadas sobrepostas ao longo do tempo (CORBOZ, 2001). Por outro lado,  a escala de projeto alargou‐se ao território e à região, quebrando os limites espaciais e conceptuais  rígidos  e  procurando  uma  interação  híbrida  entre  o  homem  e  o  natural,  incorporando  questões  ambientais, ecológicas e de sustentabilidade no desenho de conjunto e dos variados elementos que  o compõem, em articulação com a dimensão social e cultural do espaço (MEIJMANS, N. (ED.), 2010,  MOSTAFAVI,  [et  al.],  2010).  Da  perspectiva  de  projeto,  esta  abordagem  consiste  numa  construção  derivada  de  tudo  o  que  sucede  na  natureza  de  suporte  de  um  território,  que  se  encontra  em  permanente  estado  de  transformação,  ocupando‐se  dos  diferentes  objetos  e  escalas  que  a  configuram:  a  transformação  do  substrato  físico,  a  expressão  perceptível  da  configuração  (a  forma  urbana),  as  interações  dinâmicas  entre  os  seus  componentes,  a  criação  de  uma  envolvente  emocional estética e a criatividade patrimonial‐cultural (LLOP, 2009). 

      

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  Alan  Berger  debruçou‐se  sobre  esta  tipologia  de  espaços,  designando‐os  por  drosscape.  In  BERGER,  A.‐  Drosscape  ‐ 

Wasting Land in Urban America. Princeton: Princeton Architectural Press, 2006. ISBN 9781568987132. 

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 Ignasi Solà‐Morales, em 1995, designou estes espaços como Terrain Vague, descrevendo‐os como lugares obsoletos e  esvaziados de atividade, que se tornaram alheios à dinâmica urbana, convertendo‐se em áreas desabitadas, inseguras e não  produtivas.  No  entanto,  embora  alheios  ao  sistema  urbano,  encerram  em  si  um  potencial  ordenador  dos  fluxos,  das  energias  e  dos  ritmos,  estabelecidas  com  o  passar  do  tempo  e  a  perda  dos  limites  da  cidade.  In  SOLÀ‐MORALES,  I.‐ 

FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  | 99  A integração do projeto de paisagem pela produção urbana dotou‐a de uma dimensão operacional,  afastando‐se  das  concepções  contemplativas  e  conservacionistas  que  a  reduziam  aos  elementos  naturais  a  proteger.  Desta  forma,  oferece  uma  leitura  abrangente  do  espaço,  abandonando  a  dicotomia entre rural e urbanizado, e incluindo todos os elementos que interagem para a produção  do  espaço  urbanizado,  independentemente  da  sua  conotação  ou  função,  presente  ou  passada.  O 

projeto  territorial  ou  o  projeto  de  paisagem  (LLOP,  [et  al.],  2012,  VIGANÒ,  2010a,  VIGANÒ,  2010b) 

emergiram  como  resposta  à  condição  urbana  contemporânea  e  como  uma  leitura  abrangente  dos  fenómenos e vivências metropolitanas. 

Assim,  durante  último  período  em  estudo  e  com  maior  relevância  após  a  viragem  do  século,  a  integração da dimensão ecológica no discurso urbano veio permitir integrar as diversas componentes  que  contribuem  para  a  produção  metropolitana,  encarando‐a  como  um  ciclo  de  transformação  territorial ao longo do tempo e a diferentes escalas, composto pelas ações anteriores (de ancoragem  e  de  aderência)  e  pelas  ações  simultâneas  da  atualidade,  marcadas  pela  continuidade  (preenchimento) e pela ruptura (remoção e novas ancoragens).