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Comparaison expériences–simulations

Partindo da ideia de processo, enquanto sobreposição de tempos e espaços, conduzido por diversos  atores  e  sem  um  resultado  final  programado  à  partida,  pretende‐se  identificar  e  caracterizar  as 

lógicas que conduziram as ações que construíram o produto final – os filamentos metropolitanos no 

território metropolitano de Lisboa.  

A  identificação  destas  ações  territoriais  consiste  num  exercício  de  abstração  do  procedimento  que  lhes deu origem e das relações que estabelecem entre si e com o conjunto, ao longo do tempo. A sua  leitura foca a localização, a relação que estabelecem com a envolvente, a sua escala e abrangência.   Apesar  de  se  constituir  como  um  processo  fragmentário,  composto  por  elementos  heterogéneos,  que  estabelecem  um  conjunto  de  relações  de  naturezas  distintas,  origina  um  sistema  espacial  de  grande complexidade. A sua constituição e transformação apresentam‐se de forma sequencial, com  um ciclo de períodos de investimento económico e consequente espacialidade, composto por áreas  urbanizadas dinâmicas, parte de um território metropolitano mais abrangente.  

A leitura das transformações espaciais relacionadas com a ocupação das atividades económicas, que  ocuparam  a  periferia  de  Lisboa,  durante  os  últimos  cinquenta  anos,  permite  a  leitura  de  cinco  tipologias  de  ações  territoriais,  correspondentes  a  processos  de  produção  espacial,  que  deram  origem  a  configurações  distintas:  ação  de  ancoragem,  ação  de  aderência,  ação  de  preenchimento, 

ação de remoção e ação de nova ancoragem. 

 

1.2.1.Ancoragem 

A  ação  de  ancoragem63  apresenta‐se  como  a  primeira  ação  no  sentido  da  fixação  das  atividades  económicas  no  território  metropolitano,  dilatando  os  limites  da  cidade  e  lançando  uma  âncora  industrial,  que  se  enquadra  no  período  até  aos  anos  70,  constituindo‐se  como  o  ponto  de  partida  para o crescimento sinérgico das atividades económicas nos períodos seguintes. 

O conceito de ancoragem pode ser encontrado no mundo náutico, em que consiste no ato ou efeito  de  lançar  âncora  por  parte  dos  navios,  com  o  objectivo  de  se  fundearem  e  assim  se  fixarem  na  proximidade da costa, procurando a localização óptima em relação às condicionantes da envolvente.  Transportando  esta  ideia  para  a  realidade  urbana,  a  ação  de  ancoragem  está  ligada  à  fixação  dos  motores de desenvolvimento económico e urbano no território, procurando as melhores condições  para o seu assentamento, de forma a permitir um crescimento posterior. Neste caso, o lançamento  das  âncoras  sobre  o  território  relaciona‐se  com  a  constituição  de  um  conjunto  de  complexos  industriais,  que  funcionaram  como  elementos  que  induziram  os  primeiros  nós  para  a  formação  da 

      

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  Ancoragem,  do  latim  ancoraticu‐,  é  a  ação  de  ancorar,  fundear  e  imobilizar  o  navio,  lançando  a  âncora.  Pode  ser  entendido como a forma de deixar ou ficar ligado de forma muito fixa e permanente ou de estabelecer ou ter como base ou  suporte. In ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA, P. 35. 

62 |  FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  rede  de  atividades  económicas,  encetando  um  novo  entendimento  do  território  metropolitano  enquanto entidade coerente e com uma escala mais alargada de relações urbanas. 

Estes  complexos,  associados  principalmente  às  indústrias  de  base,  químicas,  metalo‐mecânicas  e  siderurgia, funcionam como um conjunto de peças difusoras do crescimento urbano, dando origem a  uma  ação  de  transformação  periférica,  através  da  atração  de  outras  indústrias,  introdução  e  melhorias infraestruturais (criação de redes eléctricas, hidráulicas e de mobilidade) e da urbanização  dos  terrenos  rústicos  nas  suas  imediações,  criando  tecidos  inicialmente  de  baixa  densidade,  e  cuja  densificação  posterior  deu  origem  a  vários  dos  núcleos  urbanos  que  formam  a  coroa  periférica  de 

Lisboa.  

 

1.2.2. Aderência 

A ação de aderência64 apresenta‐se como uma ação de reforço e extensão da presença das atividades 

económicas no território metropolitano, induzido inicialmente pela ancoragem ao território realizada  pelo  tecido  industrial.  Após  o  processo  industrialização  ocorrido  até  aos  anos  70,  verificou‐se  um  processo  de  difusão  da  urbanização,  acompanhado  pela  dispersão  das  atividades  económicas,  o  acentuado  crescimento  do  sector  terciário  levou  à  procura  de  novas  localizações,  sustentada  pela  extensão das redes infraestruturais pelo território e pela generalização do transporte rodoviário.  O  conceito  de  aderência  é  importado  metaforicamente  do  campo  da  física  mecânica,  para  representar  a  ligação  estabelecida  quando  duas  superfícies  entram  em  contacto,  em  que  uma  funciona  como  elemento  de  atração  da  outra.  Neste  sentido,  a  ação  de  aderência  corresponde  à  definição  de  uma  estrutura  espacial  decorrente  da  criação  de  espaços  coerentes  em  termos  morfológicos  e  funcionais,  e  que  apresenta  como  elemento  atractor  urbano  a  camada  anterior  definida pelo tecido industrial ancorado no território metropolitano, associado à construção da rede  de mobilidade rodoviária. É uma ação gerada pela acumulação de unidades isoladas ou de núcleos,  que  se  agrupam  de  forma  espontânea  em  torno  de  um  espaço  urbanizado  de  génese  industrial,  dando origem a um processo cumulativo que resulta do crescimento sinérgico das áreas adjacentes à  primeira ocupação, por justaposição, apoiado na rede de mobilidade e sustentado pela expansão da  urbanização  que  caracterizou  o  período  entre  1970  e  1995.  Assim,  a  camada  formada  pelas  atividades  terciárias  aderiu  à  estrutura  anterior  formada  pela  camada  industrial  e  à  armadura  infraestrutural em construção. 

A  configuração  urbana  resultante  deste  tipo  de  crescimento  consistiu  numa  ocupação  periférica,  caracterizada pela justaposição ao longo das estradas nacionais que constituem os eixos transversais  de acessibilidade local, estabelecendo as ligações à rede metropolitana de alta velocidade, então em  construção,  indiciando  a  leitura  topológica  do  território.  Por  outro  lado,  o  crescimento  das  áreas        

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 Aderência, do latim tardio adhaerentia, é a união de duas superfícies, de tal modo que seja necessário um certo esforço  para as separar. Pode também ser entendido como a característica daquilo que se fixa ou se agarra fortemente a alguma  coisa. In idem, Ibid. P. 80. 

FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  | 63  industriais  existentes  foi  realizado  através  da  intensificação  e  adição  de  novas  unidades  ligadas  às  atividades  de  transformação,  armazenagem,  distribuição  e  comércio,  compondo  formações  urbanísticas  desenvolvidas  de  forma  fragmentária;  ou  impulsionados  pela  conectividade  suportada  pela  recém‐formada  rede  de  viária  de  alta  velocidade,  dando  origem  a  novos  núcleos  que  concentravam unidades comerciais e de armazenagem de média dimensão, associados aos nós das  autoestradas e acessíveis a partir das estradas nacionais.   

1.2.3. A atualidade e a simultaneidade de ações territoriais 

Preenchimento  A ação territorial de preenchimento65 refere‐se à ação de intensificação das formações urbanísticas 

existentes  e  a  ocupação  dos  seus  espaços  intersticiais  desocupados,  completando  a  estrutura  definida até aos anos 90, através das anteriores ações de ancoragem e de aderência das atividades  económicas. Após o movimento de dispersão e fragmentação urbana pelo território metropolitano,  que  suportou  o  aparecimento  de  formações  urbanísticas  decorrentes  da  ocupação  ou  parte  das  atividades  económicas  que  se  desenvolveram  ao  longo  das  vias  secundárias,  ou  nucleares  com  epicentros  nos  nós  da  rede  de  alta  velocidade,  seguiu‐se  o  processo  de  reforço  destas  formações  urbanísticas  já  definidas,  através  da  ocupação  das  parcelas  adjacentes  ou  intermédias  vazias,  que  foram  sendo  gradualmente  urbanizadas,  e  ocupadas  por  programas  maioritariamente  ligados  aos  sectores terciário e quaternário. 

A ação de preenchimento ilustra um processo de transformação que ocorreu sobre uma estrutura já  existente,  tornando‐a  coesa  ao  introduzir  um  material  de  expansão  e  de  colmatação  dos  espaços  vazios,  regularizando  o  tecido.  Desta  forma,  o  resultado  materializa  a  densificação  da  formação  urbanística  anteriormente  delineada,  onde  as  atividades  existentes  funcionam  como  atractores,  gerando  a  especialização  através  da  fixação  de  atividades  semelhantes  ou  complementares.  O 

processo  de  preenchimento  caracteriza‐se  por  um  conjunto  de  operações  unitárias  e  fraccionadas 

que  seguem  as  lógicas  de  ocupação  já  definidas,  dependente  da  disponibilidade  espacial,  determinada  tanto  pelas  condições  biofísicas  ou  pela  existência  de  terrenos  livres,  assim  como,  posteriormente,  pela  definição  do  uso  do  solo,  que  surgiu  com  a  aprovação  de  planos  diretores  municipais para todos os municípios do território metropolitano de Lisboa.  

O  crescimento  acelerado  e  a  dispersão  urbana  pelo  território  metropolitano  deram  origem  à  constituição  de  um  conjunto  de  espaços  urbanos  diversos,  entre  os  quais  se  integram  as  variadas  áreas  especializadas  de  concentração  de  atividades  terciárias  e  quaternárias,  distanciadas  entre  si  por  um  conjunto  de  espaços  desocupados.  Estes  foram  sendo  gradualmente  reduzidos  com  o  crescimento  urbano,  limitando  o  espaço  para  a  extensão  das  zonas  construídas,  o  que  levou  ao  aparecimento  de  configurações  urbanísticas  que  respondem  à  escassez  de  espaços  disponíveis  e  à        

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  Preenchimento  (de  pre+encher),  refere‐se  ao  ato  de  encher  ou  cobrir  totalmente  o  espaço  vazio,  de  o  tornar  cheio,  repleto. In idem, Ibid P. 2938. 

64 |  FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  intenção  de  maximizar  a  acessibilidade  a  partir  da  estrada  que  comunica  com  a  rede  (parques  tecnológicos,  parques  de  negócios,  parques  logísticos,  áreas  industriais,  núcleos  comerciais,  bolsas  de empresas, etc.). 

 

Remoção 

A  ação  de  remoção 66  consiste  na  ação  de  abandono  dos  complexos  industriais  obsoletos,  que  constituíram  a  camada  formada  pela  ancoragem  industrial  que  marcou  o  primeiro  período  até  aos  anos 70. Associado à divisão e dispersão das fases de produção industrial, estruturada por um padrão  em  rede  mais  aberto  e  descentralizado,  este  último  período  caracteriza‐se  pela  consolidação  e  intensificação  das  atividades  ligadas  ao  sector  terciário  e  o  crescimento  do  sector  quaternário  em  áreas  de  elevada  especialização  funcional,  em  simultâneo  com  o  abandono  (e,  em  alguns  casos,  posterior reconversão) dos vastos complexos industriais periféricos atualmente obsoletos. 

A ação de remoção encerra em si mesma uma operação de afastamento, associada a uma subtração  por eliminação ou por substituição, que transportada para o campo do Urbano descreve o processo  de obsolescência e abandono dos complexos de indústria pesada e a sua consequente remoção por  abandono, reconversão ou regeneração urbana. Por se caracterizarem por ocuparem vastas áreas, a  adaptação  destes  espaços,  envolve  inúmeros  atores  e  esforços  económicos  e  políticos,  cuja  difícil  articulação  originou  espaços  abandonados  em  áreas  estratégicas  do  território  metropolitano.  Tal  como  se  verifica  globalmente  nas  cidades  contemporâneas,  os  espaços  da  desindustrialização  consistem  em  áreas  de  transição  entre  uma  ocupação  urbana  e  a  seguinte,  apesar  das  diferentes  velocidades verificadas para a sua transformação. 

A par com a perda de importância da indústria pesada e da sua incapacidade de adaptação às novas  tecnologias, o despertar para as questões ambientais e de qualidade urbana, expressa nas políticas  públicas que marcaram este último período demonstra o respeito pelo suporte biofísico e ambiental,  assim  como  a  importância  crescente  dos  sectores  terciário  e  quaternário.  A  ação  de  remoção  é,  então,  constituída  por  duas  fases  distintas:  por  um  lado,  o  abandono  e  o  encerramento  das  atividades económicas existentes, e por outro lado, a reconversão destes espaços e a sua posterior  ocupação por programas distintos. 

 

Nova ancoragem 

A ação de nova ancoragem apresenta‐se sequencialmente em relação à ancoragem industrial, como  uma  segunda  ocupação  estratégica  do  território  por  parte  de  atividades  económicas,  de  forma  pontual,  lançando  novas  âncoras  de  desenvolvimento,  que  se  enquadram  no  período  após  1995,  intimamente ligadas à construção das infraestruturas de telecomunicação e de mobilidade. Tal como  na  ação  de  ancoragem  industrial,  que  caracterizou  o  período  até  aos  anos  70,  são  identificados        

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 Remoção, do latim remotio, significa afastamento, tratando‐se da ação de retirar de um lugar para pôr noutro ou a ação  de retirar alguma coisa fazendo desaparecer, eliminar. In idem, Ibid. P. 3183. 

FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  | 65  pontos estratégicos no território que funcionam  como motores dinamizadores  e pontos de  partida  para o crescimento sinérgico de outras atividades económicas, relacionadas com o sector industrial  (como é exemplo a fábrica Auto‐Europa, em Palmela67), como comércio (como é exemplo o centro  comercial Dolce Vita Tejo, Amadora) ou como produção de conhecimento (como é exemplo o Parque  de Ciência e Tecnologia Tagus Park, em Oeiras68).  

Tal  como  a  ancoragem  inicial,  a  ação  de  nova  ancoragem  caracteriza‐se  pela  fixação  pontual,  procurando as condições óptimas para o seu assentamento em localizações desocupadas, mas que  neste período assumem um âmbito metropolitano ou nacional, determinadas pela articulação entre  a  rede  de  mobilidade,  a  disponibilidade  e  os  valores  fundiários  para  uma  futura  expansão  e  a  capacidade de atração de consumidores e de investimento privado ou público, baseado em políticas  urbanas e de desenvolvimento. A forte presença das autoestradas e a importância que o transporte  rodoviário assumiu em termos de investimento e de políticas, justificou que as lógicas de localização  e de relação espacial com o tecido urbano existente que caracterizam a nova ancoragem económica,  transbordassem  para  a  ocupação  urbana  de  equipamentos  de  âmbito  metropolitano69,  tirando  partido  da  conectividade  associada  à  rede  de  mobilidade  de  alta  velocidade  e  à  sua  abrangência  regional.  

Com este processo tornou‐se claro o âmbito abrangente da localização, escala e estandardização da  linguagem arquitectónica do construído, que emerge de uma leitura do território com base nas suas  redes infraestruturais, em que a mobilidade de alta velocidade assume um papel principal e introduz  uma  hierarquia  com  base  no  grau  de  conectividade  de  cada  localização  em  relação  à  rede.  Desta  forma,  os  elementos  urbanos  que  materializam  a  ação  de  nova  ancoragem  constituem  uma  nova  camada de nós da rede de atividades económicas, consolidando a leitura do território metropolitano  enquanto entidade coerente e de escala alargada.         67  Ver Volume II, Fichas de Trabalho de Campo 3C3.  68  Ver Volume II, Fichas de Trabalho de Campo 3A3.  69  São exemplos desta nova lógica de localização o Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca (Amadora‐Sintra), na Amadora,  diretamente ligado ao IC19; o Hospital Garcia da Horta, em Almada, ligado à autoestrada A2; ou o Hospital Beatriz Ângelo,  em Loures, ligado ao IC22, a radial de Odivelas. 

66 |  FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa 

FILAMENT Fig. 27: Sín     TOS METROPOL ntese do ciclo d LITANOS. A eme das ações territo ergência de mo oriais: ancorage orfologias espec em, aderência,  cializadas no te preenchimento rritório metrop o, remoção e no politano de Lisb ova ancoragem boa  | 67    m. 

68 |  FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa 

FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  | 69 

Os filamentos metropolitanos como processo – sumário 

Neste  capítulo  exploraram‐se  os  significados  do  conceito  de  filamento  metropolitano  e  das  ações 

territoriais que os originaram e transformaram ao longo do tempo. Estes conceitos estão presentes 

de  forma  transversal  ao  longo  do  documento  e  guiam  o  desenvolvimento  apresentado  na  Parte  II,  constituindo‐se,  respectivamente,  como  o  objecto  de  estudo  e  os  passos  que  constituíram  o  seu  processo de formação e transformação. 

 

A abordagem aos filamentos metropolitanos partiu da sua natureza relacional, que interliga as suas  diferentes dimensões e elementos constituintes, e que permite uma leitura multiescalar, através da  deslocação  do  foco  de  leitura  do  centro  para  as  áreas  periféricas.  Os  filamentos  metropolitanos  foram, então, interpretados como parte integrante do espaço urbano, resultante de um processo de 

transformação e caracterizados de forma sistematizada na sua dimensão morfológica e funcional e a 

sua dimensão económica e de governança.  

A  dimensão  morfológica  incide  sobre  a  estrutura  material  e  o  resultado  formal  da  organização,  distribuição  e  relação  entre  as  diversas  componentes  urbanas  que  constituem  os  filamentos 

metropolitanos.  A  característica  transversal  a  estas  formações  urbanísticas  consiste  na  sua 

distribuição linear ao longo de um eixo estruturante, a diferentes escalas de leitura e em diferentes  estados  de  formação.  A  dimensão  funcional  foca  o  tipo  de  atividades  exercidas,  diretamente  relacionadas  com  atividades  económicas  ligadas  aos  sectores  secundário,  terciário  (e  quaternário),  que  foram  assumindo  diferentes  importâncias  e  complementaridades  ao  longo  do  tempo,  em  relação à sua localização e em relação com os núcleos urbanos, infraestruturas e espaços abertos.   A dimensão económica e de governança passa pela integração de visões e estratégias organizacionais  e económicas, que moldaram as políticas e o planeamento regional ao longo do tempo, assumindo  diferentes  materialidades  (polos  de  desenvolvimento,  distritos  industriais,  meios  inovadores, 

tecnopolos, etc.). 

 

A  leitura  das  transformações  espaciais  relacionadas  com  a  ocupação  por  parte  das  atividades  económicas  (ligadas  ao  sector  secundário,  terciário  e  quaternário)  que  ocuparam  a  periferia  de  Lisboa  permite  a  leitura  de  cinco  tipologias  de  ações  territoriais,  correspondentes  a  processos  de  produção espacial que deram origem a configurações distintas. A sua constituição e transformação  são  apresentadas  de  forma  sequencial,  com  um  ciclo  de  períodos  de  investimento  económico  e  consequente  espacialidade,  composto  por  áreas  urbanizadas  dinâmicas,  partes  constituintes  do  território metropolitano.  

Desta forma, a abordagem proposta foca a localização, a relação que estabelecem com a envolvente,  a sua escala e abrangência, permitindo a identificação da ação de ancoragem, ação de aderência, e 

70 |  FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  as  três  ações  simultâneas  (ação  de  preenchimento,  ação  de  remoção  e  ação  de  nova  ancoragem).  Estas cinco ações territoriais principais caracterizaram, respectivamente, o período a) até 1974, em  que conduziram a deslocação para a periferia por parte das atividades económicas ligadas ao sector  secundário;  b)  de  1975  a  1994,  com  a  intensificação  operada  pelo  sector  terciário  apoiada  nas  ocupações anteriores e na construção da rede de mobilidade metropolitana; e c) de 1995 a 2011, em  que  o  conjunto  das  três  ações  simultâneas  revela  a  velocidade  dos  acontecimentos  e  das  transformações  contemporâneas,  que  por  um  lado  solidificam  e  densificam  as  áreas  existentes,  como  por  outro  lado  abandonam  as  áreas  obsoletas  e  iniciam  um  novo  ciclo  através  de  novas  ocupações estratégicas. 

FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  | 71 

2. O ESPAÇO METROPOLITANO E A SUA ESPECIALIZAÇÃO: CONCEITOS, MODELOS E PLANOS 

A  reflexão  acerca  da  produção  do  espaço  metropolitano  de  Lisboa  parte  da  sistematização  de  diferentes  posturas  sobre  o  território,  que  são  apresentadas  com  o  recurso  a  imagens  e  analogias  anteriormente  caracterizadas  e  que  surgem  como  os  motores  para  a  interpretação  das  transformações metropolitanas como um todo: a ancoragem (como ação inaugurais e de arranque),  a  aderência  e  o  preenchimento  (como  ações  de  continuidade  e  de  reforço)  e  a  remoção  e  a  nova 

ancoragem (como ações de ruptura e início de um novo ciclo).  

Do modelo mecanicista e de grande controlo sobre o ordenamento do território, que caracterizou o  período da ancoragem industrial metropolitana, ficaram fortes marcas no que respeita à organização  funcional  das  atividades,  zonamento  e  especialização.  De  seguida,  passou‐se  para  um  período  de  produção urbana acelerada e de iniciativa individual, que deu origem à construção de um conjunto  de  fragmentos  urbanos, unidos  entre  si  pelas  redes  de  infraestruturas.  A  ausência  de  um  plano  de  conjunto  eficaz  e  a  incapacidade  de  controlo  das  forças  individuais  que  construíram  o  território  através  de  operações  unitárias  como  resposta  a  necessidades  imediatas,  deu  origem  ao  território  metropolitano fragmentado atual, com características comuns a diversas metrópoles europeias.   A análise da realidade e das dinâmicas urbanas emergentes, inseridas no contexto global, sustentou  a  leitura  alargada  do  território,  que  abandonou  a  dicotomia  entre  o  urbano  e  o  rural  e  esbateu  os  limites  rígidos  da  cidade,  reconhecendo  a  entidade  metropolitana  emergente,  que  incluiu  na  equação urbana os espaços abertos, os espaços marginais expectantes, os espaços infraestruturais e  os  espaços  fragmentados  periféricos,  a  par  com  o  tecido  urbano  do  centro  consolidado.  Como  resultado, o território mosaico passou a ser interpretado à luz da leitura da paisagem como resultado  da interação dinâmica e complexa entre o suporte biofísico e antrópico, que sustenta a abordagem  às  transformações  espaciais  como  um  processo  e  a  necessidade  do  projeto  territorial  com  a  capacidade de adaptação ao longo do tempo. 

Ao  longo  deste  capítulo,  explora‐se  a  relação  entre  os  modelos  de  cidade  e  a  produção  do  espaço 

urbano,  ao  longo  do  tempo,  focando  a  forma  como  os  planos  urbanísticos  (ou  a  sua  ausência),  os 

projetos fragmentários e as operações espontâneas conduziram a o processo espacial que constitui o  território  metropolitano  de  Lisboa.  Em  paralelo,  analisam‐se  os  conceitos,  modelos  e  planos  que  contribuíram e orientaram a localização e ocupação dos espaços periféricos ocupados pela indústria,  logística, comércio e quaternário, que constituem os filamentos metropolitanos atuais.

 

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FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa  | 73 

2.1. A ancoragem industrial 

2.1.1. A máquina, a indústria e os modelos de cidade 

Com viragem do século XX, a imagem da máquina ficou associada ao momento cultural e tecnológico  que deu origem a um conjunto de produções artísticas, arquitectónicas e urbanas que demonstram  uma fé no futuro associado ao progresso, à eficiência, à tecnologia e à velocidade. A máquina serviu