Partindo da ideia de processo, enquanto sobreposição de tempos e espaços, conduzido por diversos atores e sem um resultado final programado à partida, pretende‐se identificar e caracterizar as
lógicas que conduziram as ações que construíram o produto final – os filamentos metropolitanos no
território metropolitano de Lisboa.
A identificação destas ações territoriais consiste num exercício de abstração do procedimento que lhes deu origem e das relações que estabelecem entre si e com o conjunto, ao longo do tempo. A sua leitura foca a localização, a relação que estabelecem com a envolvente, a sua escala e abrangência. Apesar de se constituir como um processo fragmentário, composto por elementos heterogéneos, que estabelecem um conjunto de relações de naturezas distintas, origina um sistema espacial de grande complexidade. A sua constituição e transformação apresentam‐se de forma sequencial, com um ciclo de períodos de investimento económico e consequente espacialidade, composto por áreas urbanizadas dinâmicas, parte de um território metropolitano mais abrangente.
A leitura das transformações espaciais relacionadas com a ocupação das atividades económicas, que ocuparam a periferia de Lisboa, durante os últimos cinquenta anos, permite a leitura de cinco tipologias de ações territoriais, correspondentes a processos de produção espacial, que deram origem a configurações distintas: ação de ancoragem, ação de aderência, ação de preenchimento,
ação de remoção e ação de nova ancoragem.
1.2.1.Ancoragem
A ação de ancoragem63 apresenta‐se como a primeira ação no sentido da fixação das atividades económicas no território metropolitano, dilatando os limites da cidade e lançando uma âncora industrial, que se enquadra no período até aos anos 70, constituindo‐se como o ponto de partida para o crescimento sinérgico das atividades económicas nos períodos seguintes.
O conceito de ancoragem pode ser encontrado no mundo náutico, em que consiste no ato ou efeito de lançar âncora por parte dos navios, com o objectivo de se fundearem e assim se fixarem na proximidade da costa, procurando a localização óptima em relação às condicionantes da envolvente. Transportando esta ideia para a realidade urbana, a ação de ancoragem está ligada à fixação dos motores de desenvolvimento económico e urbano no território, procurando as melhores condições para o seu assentamento, de forma a permitir um crescimento posterior. Neste caso, o lançamento das âncoras sobre o território relaciona‐se com a constituição de um conjunto de complexos industriais, que funcionaram como elementos que induziram os primeiros nós para a formação da
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Ancoragem, do latim ancoraticu‐, é a ação de ancorar, fundear e imobilizar o navio, lançando a âncora. Pode ser entendido como a forma de deixar ou ficar ligado de forma muito fixa e permanente ou de estabelecer ou ter como base ou suporte. In ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA, P. 35.
62 | FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa rede de atividades económicas, encetando um novo entendimento do território metropolitano enquanto entidade coerente e com uma escala mais alargada de relações urbanas.
Estes complexos, associados principalmente às indústrias de base, químicas, metalo‐mecânicas e siderurgia, funcionam como um conjunto de peças difusoras do crescimento urbano, dando origem a uma ação de transformação periférica, através da atração de outras indústrias, introdução e melhorias infraestruturais (criação de redes eléctricas, hidráulicas e de mobilidade) e da urbanização dos terrenos rústicos nas suas imediações, criando tecidos inicialmente de baixa densidade, e cuja densificação posterior deu origem a vários dos núcleos urbanos que formam a coroa periférica de
Lisboa.
1.2.2. Aderência
A ação de aderência64 apresenta‐se como uma ação de reforço e extensão da presença das atividades
económicas no território metropolitano, induzido inicialmente pela ancoragem ao território realizada pelo tecido industrial. Após o processo industrialização ocorrido até aos anos 70, verificou‐se um processo de difusão da urbanização, acompanhado pela dispersão das atividades económicas, o acentuado crescimento do sector terciário levou à procura de novas localizações, sustentada pela extensão das redes infraestruturais pelo território e pela generalização do transporte rodoviário. O conceito de aderência é importado metaforicamente do campo da física mecânica, para representar a ligação estabelecida quando duas superfícies entram em contacto, em que uma funciona como elemento de atração da outra. Neste sentido, a ação de aderência corresponde à definição de uma estrutura espacial decorrente da criação de espaços coerentes em termos morfológicos e funcionais, e que apresenta como elemento atractor urbano a camada anterior definida pelo tecido industrial ancorado no território metropolitano, associado à construção da rede de mobilidade rodoviária. É uma ação gerada pela acumulação de unidades isoladas ou de núcleos, que se agrupam de forma espontânea em torno de um espaço urbanizado de génese industrial, dando origem a um processo cumulativo que resulta do crescimento sinérgico das áreas adjacentes à primeira ocupação, por justaposição, apoiado na rede de mobilidade e sustentado pela expansão da urbanização que caracterizou o período entre 1970 e 1995. Assim, a camada formada pelas atividades terciárias aderiu à estrutura anterior formada pela camada industrial e à armadura infraestrutural em construção.
A configuração urbana resultante deste tipo de crescimento consistiu numa ocupação periférica, caracterizada pela justaposição ao longo das estradas nacionais que constituem os eixos transversais de acessibilidade local, estabelecendo as ligações à rede metropolitana de alta velocidade, então em construção, indiciando a leitura topológica do território. Por outro lado, o crescimento das áreas
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Aderência, do latim tardio adhaerentia, é a união de duas superfícies, de tal modo que seja necessário um certo esforço para as separar. Pode também ser entendido como a característica daquilo que se fixa ou se agarra fortemente a alguma coisa. In idem, Ibid. P. 80.
FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa | 63 industriais existentes foi realizado através da intensificação e adição de novas unidades ligadas às atividades de transformação, armazenagem, distribuição e comércio, compondo formações urbanísticas desenvolvidas de forma fragmentária; ou impulsionados pela conectividade suportada pela recém‐formada rede de viária de alta velocidade, dando origem a novos núcleos que concentravam unidades comerciais e de armazenagem de média dimensão, associados aos nós das autoestradas e acessíveis a partir das estradas nacionais.
1.2.3. A atualidade e a simultaneidade de ações territoriais
Preenchimento A ação territorial de preenchimento65 refere‐se à ação de intensificação das formações urbanísticasexistentes e a ocupação dos seus espaços intersticiais desocupados, completando a estrutura definida até aos anos 90, através das anteriores ações de ancoragem e de aderência das atividades económicas. Após o movimento de dispersão e fragmentação urbana pelo território metropolitano, que suportou o aparecimento de formações urbanísticas decorrentes da ocupação ou parte das atividades económicas que se desenvolveram ao longo das vias secundárias, ou nucleares com epicentros nos nós da rede de alta velocidade, seguiu‐se o processo de reforço destas formações urbanísticas já definidas, através da ocupação das parcelas adjacentes ou intermédias vazias, que foram sendo gradualmente urbanizadas, e ocupadas por programas maioritariamente ligados aos sectores terciário e quaternário.
A ação de preenchimento ilustra um processo de transformação que ocorreu sobre uma estrutura já existente, tornando‐a coesa ao introduzir um material de expansão e de colmatação dos espaços vazios, regularizando o tecido. Desta forma, o resultado materializa a densificação da formação urbanística anteriormente delineada, onde as atividades existentes funcionam como atractores, gerando a especialização através da fixação de atividades semelhantes ou complementares. O
processo de preenchimento caracteriza‐se por um conjunto de operações unitárias e fraccionadas
que seguem as lógicas de ocupação já definidas, dependente da disponibilidade espacial, determinada tanto pelas condições biofísicas ou pela existência de terrenos livres, assim como, posteriormente, pela definição do uso do solo, que surgiu com a aprovação de planos diretores municipais para todos os municípios do território metropolitano de Lisboa.
O crescimento acelerado e a dispersão urbana pelo território metropolitano deram origem à constituição de um conjunto de espaços urbanos diversos, entre os quais se integram as variadas áreas especializadas de concentração de atividades terciárias e quaternárias, distanciadas entre si por um conjunto de espaços desocupados. Estes foram sendo gradualmente reduzidos com o crescimento urbano, limitando o espaço para a extensão das zonas construídas, o que levou ao aparecimento de configurações urbanísticas que respondem à escassez de espaços disponíveis e à
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Preenchimento (de pre+encher), refere‐se ao ato de encher ou cobrir totalmente o espaço vazio, de o tornar cheio, repleto. In idem, Ibid P. 2938.
64 | FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa intenção de maximizar a acessibilidade a partir da estrada que comunica com a rede (parques tecnológicos, parques de negócios, parques logísticos, áreas industriais, núcleos comerciais, bolsas de empresas, etc.).
Remoção
A ação de remoção 66 consiste na ação de abandono dos complexos industriais obsoletos, que constituíram a camada formada pela ancoragem industrial que marcou o primeiro período até aos anos 70. Associado à divisão e dispersão das fases de produção industrial, estruturada por um padrão em rede mais aberto e descentralizado, este último período caracteriza‐se pela consolidação e intensificação das atividades ligadas ao sector terciário e o crescimento do sector quaternário em áreas de elevada especialização funcional, em simultâneo com o abandono (e, em alguns casos, posterior reconversão) dos vastos complexos industriais periféricos atualmente obsoletos.
A ação de remoção encerra em si mesma uma operação de afastamento, associada a uma subtração por eliminação ou por substituição, que transportada para o campo do Urbano descreve o processo de obsolescência e abandono dos complexos de indústria pesada e a sua consequente remoção por abandono, reconversão ou regeneração urbana. Por se caracterizarem por ocuparem vastas áreas, a adaptação destes espaços, envolve inúmeros atores e esforços económicos e políticos, cuja difícil articulação originou espaços abandonados em áreas estratégicas do território metropolitano. Tal como se verifica globalmente nas cidades contemporâneas, os espaços da desindustrialização consistem em áreas de transição entre uma ocupação urbana e a seguinte, apesar das diferentes velocidades verificadas para a sua transformação.
A par com a perda de importância da indústria pesada e da sua incapacidade de adaptação às novas tecnologias, o despertar para as questões ambientais e de qualidade urbana, expressa nas políticas públicas que marcaram este último período demonstra o respeito pelo suporte biofísico e ambiental, assim como a importância crescente dos sectores terciário e quaternário. A ação de remoção é, então, constituída por duas fases distintas: por um lado, o abandono e o encerramento das atividades económicas existentes, e por outro lado, a reconversão destes espaços e a sua posterior ocupação por programas distintos.
Nova ancoragem
A ação de nova ancoragem apresenta‐se sequencialmente em relação à ancoragem industrial, como uma segunda ocupação estratégica do território por parte de atividades económicas, de forma pontual, lançando novas âncoras de desenvolvimento, que se enquadram no período após 1995, intimamente ligadas à construção das infraestruturas de telecomunicação e de mobilidade. Tal como na ação de ancoragem industrial, que caracterizou o período até aos anos 70, são identificados
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Remoção, do latim remotio, significa afastamento, tratando‐se da ação de retirar de um lugar para pôr noutro ou a ação de retirar alguma coisa fazendo desaparecer, eliminar. In idem, Ibid. P. 3183.
FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa | 65 pontos estratégicos no território que funcionam como motores dinamizadores e pontos de partida para o crescimento sinérgico de outras atividades económicas, relacionadas com o sector industrial (como é exemplo a fábrica Auto‐Europa, em Palmela67), como comércio (como é exemplo o centro comercial Dolce Vita Tejo, Amadora) ou como produção de conhecimento (como é exemplo o Parque de Ciência e Tecnologia Tagus Park, em Oeiras68).
Tal como a ancoragem inicial, a ação de nova ancoragem caracteriza‐se pela fixação pontual, procurando as condições óptimas para o seu assentamento em localizações desocupadas, mas que neste período assumem um âmbito metropolitano ou nacional, determinadas pela articulação entre a rede de mobilidade, a disponibilidade e os valores fundiários para uma futura expansão e a capacidade de atração de consumidores e de investimento privado ou público, baseado em políticas urbanas e de desenvolvimento. A forte presença das autoestradas e a importância que o transporte rodoviário assumiu em termos de investimento e de políticas, justificou que as lógicas de localização e de relação espacial com o tecido urbano existente que caracterizam a nova ancoragem económica, transbordassem para a ocupação urbana de equipamentos de âmbito metropolitano69, tirando partido da conectividade associada à rede de mobilidade de alta velocidade e à sua abrangência regional.
Com este processo tornou‐se claro o âmbito abrangente da localização, escala e estandardização da linguagem arquitectónica do construído, que emerge de uma leitura do território com base nas suas redes infraestruturais, em que a mobilidade de alta velocidade assume um papel principal e introduz uma hierarquia com base no grau de conectividade de cada localização em relação à rede. Desta forma, os elementos urbanos que materializam a ação de nova ancoragem constituem uma nova camada de nós da rede de atividades económicas, consolidando a leitura do território metropolitano enquanto entidade coerente e de escala alargada. 67 Ver Volume II, Fichas de Trabalho de Campo 3C3. 68 Ver Volume II, Fichas de Trabalho de Campo 3A3. 69 São exemplos desta nova lógica de localização o Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca (Amadora‐Sintra), na Amadora, diretamente ligado ao IC19; o Hospital Garcia da Horta, em Almada, ligado à autoestrada A2; ou o Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, ligado ao IC22, a radial de Odivelas.
66 | FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa
FILAMENT Fig. 27: Sín TOS METROPOL ntese do ciclo d LITANOS. A eme das ações territo ergência de mo oriais: ancorage orfologias espec em, aderência, cializadas no te preenchimento rritório metrop o, remoção e no politano de Lisb ova ancoragem boa | 67 m.
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Os filamentos metropolitanos como processo – sumário
Neste capítulo exploraram‐se os significados do conceito de filamento metropolitano e das ações
territoriais que os originaram e transformaram ao longo do tempo. Estes conceitos estão presentes
de forma transversal ao longo do documento e guiam o desenvolvimento apresentado na Parte II, constituindo‐se, respectivamente, como o objecto de estudo e os passos que constituíram o seu processo de formação e transformação.
A abordagem aos filamentos metropolitanos partiu da sua natureza relacional, que interliga as suas diferentes dimensões e elementos constituintes, e que permite uma leitura multiescalar, através da deslocação do foco de leitura do centro para as áreas periféricas. Os filamentos metropolitanos foram, então, interpretados como parte integrante do espaço urbano, resultante de um processo de
transformação e caracterizados de forma sistematizada na sua dimensão morfológica e funcional e a
sua dimensão económica e de governança.
A dimensão morfológica incide sobre a estrutura material e o resultado formal da organização, distribuição e relação entre as diversas componentes urbanas que constituem os filamentos
metropolitanos. A característica transversal a estas formações urbanísticas consiste na sua
distribuição linear ao longo de um eixo estruturante, a diferentes escalas de leitura e em diferentes estados de formação. A dimensão funcional foca o tipo de atividades exercidas, diretamente relacionadas com atividades económicas ligadas aos sectores secundário, terciário (e quaternário), que foram assumindo diferentes importâncias e complementaridades ao longo do tempo, em relação à sua localização e em relação com os núcleos urbanos, infraestruturas e espaços abertos. A dimensão económica e de governança passa pela integração de visões e estratégias organizacionais e económicas, que moldaram as políticas e o planeamento regional ao longo do tempo, assumindo diferentes materialidades (polos de desenvolvimento, distritos industriais, meios inovadores,
tecnopolos, etc.).
A leitura das transformações espaciais relacionadas com a ocupação por parte das atividades económicas (ligadas ao sector secundário, terciário e quaternário) que ocuparam a periferia de Lisboa permite a leitura de cinco tipologias de ações territoriais, correspondentes a processos de produção espacial que deram origem a configurações distintas. A sua constituição e transformação são apresentadas de forma sequencial, com um ciclo de períodos de investimento económico e consequente espacialidade, composto por áreas urbanizadas dinâmicas, partes constituintes do território metropolitano.
Desta forma, a abordagem proposta foca a localização, a relação que estabelecem com a envolvente, a sua escala e abrangência, permitindo a identificação da ação de ancoragem, ação de aderência, e
70 | FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa as três ações simultâneas (ação de preenchimento, ação de remoção e ação de nova ancoragem). Estas cinco ações territoriais principais caracterizaram, respectivamente, o período a) até 1974, em que conduziram a deslocação para a periferia por parte das atividades económicas ligadas ao sector secundário; b) de 1975 a 1994, com a intensificação operada pelo sector terciário apoiada nas ocupações anteriores e na construção da rede de mobilidade metropolitana; e c) de 1995 a 2011, em que o conjunto das três ações simultâneas revela a velocidade dos acontecimentos e das transformações contemporâneas, que por um lado solidificam e densificam as áreas existentes, como por outro lado abandonam as áreas obsoletas e iniciam um novo ciclo através de novas ocupações estratégicas.
FILAMENTOS METROPOLITANOS. A emergência de morfologias especializadas no território metropolitano de Lisboa | 71
2. O ESPAÇO METROPOLITANO E A SUA ESPECIALIZAÇÃO: CONCEITOS, MODELOS E PLANOS
A reflexão acerca da produção do espaço metropolitano de Lisboa parte da sistematização de diferentes posturas sobre o território, que são apresentadas com o recurso a imagens e analogias anteriormente caracterizadas e que surgem como os motores para a interpretação das transformações metropolitanas como um todo: a ancoragem (como ação inaugurais e de arranque), a aderência e o preenchimento (como ações de continuidade e de reforço) e a remoção e a novaancoragem (como ações de ruptura e início de um novo ciclo).
Do modelo mecanicista e de grande controlo sobre o ordenamento do território, que caracterizou o período da ancoragem industrial metropolitana, ficaram fortes marcas no que respeita à organização funcional das atividades, zonamento e especialização. De seguida, passou‐se para um período de produção urbana acelerada e de iniciativa individual, que deu origem à construção de um conjunto de fragmentos urbanos, unidos entre si pelas redes de infraestruturas. A ausência de um plano de conjunto eficaz e a incapacidade de controlo das forças individuais que construíram o território através de operações unitárias como resposta a necessidades imediatas, deu origem ao território metropolitano fragmentado atual, com características comuns a diversas metrópoles europeias. A análise da realidade e das dinâmicas urbanas emergentes, inseridas no contexto global, sustentou a leitura alargada do território, que abandonou a dicotomia entre o urbano e o rural e esbateu os limites rígidos da cidade, reconhecendo a entidade metropolitana emergente, que incluiu na equação urbana os espaços abertos, os espaços marginais expectantes, os espaços infraestruturais e os espaços fragmentados periféricos, a par com o tecido urbano do centro consolidado. Como resultado, o território mosaico passou a ser interpretado à luz da leitura da paisagem como resultado da interação dinâmica e complexa entre o suporte biofísico e antrópico, que sustenta a abordagem às transformações espaciais como um processo e a necessidade do projeto territorial com a capacidade de adaptação ao longo do tempo.
Ao longo deste capítulo, explora‐se a relação entre os modelos de cidade e a produção do espaço
urbano, ao longo do tempo, focando a forma como os planos urbanísticos (ou a sua ausência), os
projetos fragmentários e as operações espontâneas conduziram a o processo espacial que constitui o território metropolitano de Lisboa. Em paralelo, analisam‐se os conceitos, modelos e planos que contribuíram e orientaram a localização e ocupação dos espaços periféricos ocupados pela indústria, logística, comércio e quaternário, que constituem os filamentos metropolitanos atuais.
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