6.2 Mod` ele de comportement microm´ ecanique
6.2.2 Incertitudes
Artífices e negociantes, guerreiros e reis, estes são os habitantes da cidade. As divisões da cidade propostas por Sócrates podem ser resumidas em três: classe dos governantes, classe dos guerreiros, classe dos artífices e negociantes. Desde que estes últimos são a força que move a sustentação material da cidade, eles não precisarão compor classes distintas. Como diz Nicholas Pappas, “apesar de os governantes e auxiliares terem cada qual de desempenhar a sua tarefa, a larga classe que Sócrates chama ‘os governados’ soma uma multiplicidade de profissões” (PAPPAS, 1995, p. 113). Desse modo, essa terceira classe se limitaria as atividades com fins práticos enquanto aquelas outras duas se voltariam às questões políticas.
Os artífices são os sapateiros, lavradores, pedreiros, tecelões, aqueles que se ocupam do que é relativo ao corpo e também há os carpinteiros, ferreiros e tantos outros desse gênero, que se ocupam da fabricação de utensílios; ainda há os boieiros, pastores e outros guardadores de gado; e, também, mensageiros que, ao trazerem à cidade coisas que precisam e não conseguem produzir, levam seus produtos para trocar por outros bens.
Nessa relação de troca, existe a necessidade de um número suficientemente grande de lavradores e de mais artífices. Além destes, há os negociantes. Estes, juntamente com os navegadores, ocupam-se da compra e revenda de mercadorias e produtos. Entre eles estão os que vendem sua força física. Uma vez que a cidade se torne maior, deve também habitar homens e mulheres que não se ocupam do que é básico à vida. Estes são os caçadores e imitadores, “os poetas e seu cortejo de rapsodos, atores, dançarinos, empresários de teatro, os fabricantes de artigos de todo tipo e especialmente de atavios femininos” (REP, 373b). Glauco ainda inclui pedagogos, amas-de-leite, governantas, criadas de quarto, cabelereiros, cozinheiros, açougueiros e médicos. Todos esses habitantes são os governados que fazem parte de um mesmo grupo o qual movimenta a produtividade da cidade e procura satisfazer todas as necessidades dos cidadãos (370b-373d).
Na cidade de Sócrates, os guerreiros e guerreiras formam uma divisão própria na cidade. Quando o número de moradores se amplia e “o país, que até então bastava para alimentar os seus habitantes, tornar-se-á pequeno demais e insuficiente” (373d) nasce a necessidade de guerrear para tomar as terras alheias à força ou por acordos. Consequentemente, um guerreiro não é suficiente. É preciso um exército para atacar e se defender (374a). Portanto, se cada homem deve executar unicamente sua tarefa com o fim de exercê-la em perfeição, o guerreiro tem que se ocupar somente com sua arte de guerrear. O guerreiro deve se ocupar da custódia da cidade, ele é o guardião (374c). Estes se dividem entre guerreiros auxiliares do rei que se ocupam da força militar e governantes responsáveis pela criação e execução das leis. Entre esses guardiões guerreiros auxiliares dos chefes estão os homens de natureza filosófica, mas jovens ainda, numa média de vinte e quatro a trinta anos de idade (537d). Guardiões chefes são selecionados entre os guardiões auxiliares, não é por ser um guerreiro, e sim por ser um filósofo treinado.
Os guardiões chefes ou governantes são homens em idade avançada que foram guerreiros em sua juventude e, após dominarem a ciência da dialética,
tornaram-se aptos a exercer a função de chefe. Por necessidade de serem provados em todas circunstancias, os chefes precisaram primeiro ser guerreiros. Sócrates diz que aos cinquenta anos de idade, “os que tiverem saído sãos e salvos destas provas e se tiverem distinguido em tudo e de toda maneira, na conduta e nas ciências, deverão ser levados ao termo e compelidos a elevar a parte brilhante de suas almas ao ser que dispensa luz a todas as coisas” (540a). Cinquenta anos é a idade em que o homem de natureza divina desenvolve todas as suas habilidades e alcança seu estágio final, qual seja, zelar pelo bem de todos na medida em que promove a harmonia da cidade (540a-c).
Colocar todos os homens que trabalham com a manutenção física dos cidadãos em uma só classe não é algo que contraria as práticas de muitas cidades históricas, Sócrates está somente copiando o que já é uma prática comum. Porém, não está faltando na estrutura de sua cidade a presença de uma liderança específica? Aquelas classes formam uma tripartição de funções na cidade, que não contemplam um tipo de homem, a saber, o sacerdote e poeta. Como Sócrates pode desconsiderar a presença de um sacerdote em sua cidade? Essa pergunta suscita uma questão levantada pelo estruturalista George Dumézil (1969, 1973, 1974, 1988): os sacerdotes das sociedades indo-europeias fazem parte de um tipo específico de liderança, o reino divino.
Mesmo que Dumézil não faça nenhum estudo sobre a tripartição da cidade de Sócrates ou sobre os diálogos de Platão, ele aborda um ponto que facilita pensar a trama desenvolvida no diálogo A República. Dumézil mostra os modos como os mitos da antiguidade revelam uma estrutura de classes na qual a classe governante se divide em dois reinos.
Após revisar seus próprios escritos, Dumézil comenta que o ponto central predominante nas estruturas dos vários mitos é a existência de uma concepção tripartite do mundo e da sociedade, pela qual se funda a ideologia da maioria dos povos indo-europeus (DUMÉZIL, 1988, p. 12-19). Essa concepção teria se mostrado clara a partir de seus estudos sobre a mitologia na Índia e Irã, os quais fazem uma divisão de três classes (sacerdotes, guerreiros e pastores-cultivadores), e em Roma com sua antiga tríade de deuses (Júpiter, Marte, e Quirino) a qual, enfatiza Dumézil, Jupiter é Zeus, Marte é Ares e Quirino, uma das transmutações de Rômulo, é o equivalente aos heróis semideuses da Grécia (DUMÉZIL, 1974, p. 188, 219, 262). A hipótese de Dumézil (1969) é que a análise dos mitos revelam uma tríplice divisão
entre os homens.Ele argumenta que os mitos da antiguidade destacam três funções de estrutura social: a primeira função é sobre os reinado divino e terrestre; a segunda função auxilia na manutenção desses reinados; depois a terceira função tem artesãos e outros homens responsáveis pela produção. Nesse contexto, as três funções abarcam todos os habitantes da cidade: sacerdotes, líderes civis, guerreiros incluindo os cidadãos que são fazendeiros porque precisam defender fisicamente suas terras e criações, os negociantes e artesãos e, ainda, os lavradores e pastores, que são classes subalternas a dos fazendeiros e guerreiros (DUMÉZIL, 1969, p. 160).
Ao pesquisar sobre a função própria aos reis, Dumázil se fundamenta nos mitos indianos de Mitra e Veruna, comparando-os com os mitos romanos e averigua que há a presença sempre de dois reinados, um sobre as coisas na terra e outro sobre as coisas do céu. Nesses reinados, cada rei desempenha seu papel cumprindo o que lhe é devidamente determinado pela tradição. Se o rei terrestre resolver agir contra os princípios da cidade, o rei sacerdote é quem deve intervir e desse embate entre os dois deve se gerar a melhor forma de governo para os demais habitantes. O poder sacerdotal limita, assim, o poder terreno (DUMÉZIL, 1988, p. 66-88).
Essas três funções de Dumézil supõe mais do que as relações entre os papeis desempenhados pelos deuses e as divisões sociais da cidade, elas determinam uma estrutura de classe com características próprias e distintas entre si. Se há tal estrutura, essas divisões não só possuem um comportamento que lhes é inerente, como também possui uma linguagem própria que expressa àquela estrutura. Assim, cada povo pode contar histórias e estabelecer crenças que reforcem e reflitam o todo de sua estrutura de classes.
Patrícia Pires Boulhosa ressalta o ponto de que as teorias de Dumézil não têm como pressuposto os acontecimentos históricos em que aqueles mitos se desenvolveram. Ela lembra que não seria coerente partir de uma metodologia hipotético-dedutivo para analisar aspectos que possuem maior relevância a partir de seu contexto histórico. A pretensão do método comparado de Duzémil que visa encontrar estruturas comuns e ideológicas em situações geradas nas mais diversas situações é contraditória porque a tentativa de separar aspectos ideológicos de seu contexto histórico não simbolizam as experiências vividas de uma ou mais classes da cidade (BOULHOSA, 2006, p. 20).
Esta tese concorda com Boulhosa, mas não se pode deixar de reconhecer que a teoria de Dumézil, justamente por estar desvincula do aspecto histórico, pode ser utilizada para se entender as divisões da cidade de Sócrates.
Dumézil analisa mitos descontextualizados de suas origens temporais e espaciais. Mas sua análise mostra ao menos um detalhe importante para se pensar a antiguidade: há uma distinção entre dois poderes, o sacerdotal e o temporal. Não só hindus, iranianos e romanos acreditam na força dessa divisão, mas também os gregos. A separação do poder que administra a cidade e do poder que julga e orienta a administração é uma prática fundamental nas sociedades indo-europeias. A cidade torna-se e continua forte se mantém essa tradição (distinção entre função religiosa e função governamental), reflexo das práticas divinas às quais os homens devem imitar.
Seguindo Dumézil é possível perguntar: o que acontece se a separação de poderes não for obedecida? Pode-se especular que a primeira consequência é o desrespeito aos deuses e às tradições, a segunda é receber seus castigos. Nesse contexto de desrespeito aos deuses, surge Sócrates com sua cidade de um só poder.
A República de Platão também expressa uma estrutura de classes com uma linguagem própria que a reflete. Porém, a primeira divisão da cidade não obedece a distinção de poderes presentes nas tradições da mitologia indo-europeia. O que Sócrates propõe é pior do que fundir poder sacerdotal e terreno. Ele simplesmente se afasta dessas categorias e apresenta um poder que deve subjugar aqueles dois outros.
Esta pesquisa propõe que Sócrates reorienta a estrutura antiga porque, sob a aparência de combinar os dois aspectos da primeira função (rei sagrado e rei terreno), os substitui por outra coisa. Aquela primeira função abandona seu dualismo e passa a ter um só aspecto: o poder absoluto. Os guardiões são reis-filósofos, eles são reis seculares e reis filósofos ao mesmo tempo. O rei filósofo reúne em suas mãos um poder equivalente ao poder sacerdotal e terreno dos sacerdotes e reis presentes na tradição. Seu poder equivale aos reis terrenos porque governam, administram, e aos reis sacerdotes porque doutrinam os cidadãos oferecendo-lhes algo divino para ser contemplado. Nesse contexto, os governados estarão sob um poder superior aos poderes das outras cidades.