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Chapitre 5 Discussion générale

5.8 Implications cliniques et futures recherches

O nascimento e os primeiros anos da vida infanta das ex-alunas e professoras ruralistas situam-se entre os anos de 1913 a 1934. Das cinco professoras narradoras, duas vivenciaram os primeiros momentos da infância em meados dos anos 1910 ao início dos anos 1920: três delas, nascendo entre 1923 e 1924, situam seus verdes passos nos inovadores anos da década de 1920, quando a instrução pública experimentava a tão propalada Reforma Lourenço Filho, ou seja, a Reforma Educacional de 1922. Apenas uma nasceu nos efervescentes anos de 1930, momento em que o Ceará fora presenteado com a fundação de sua primeira Escola Normal Rural.

Os espaços que as receberam como cidadãs, seres historicamente situados, foram as cidades de Juazeiro do Norte, Iguatu, Limoeiro do Norte, Quixadá e Crateús, cidades essas que, à época, poderiam ser caracterizadas como de grande ou médio portes. Estas sedes municipais tinham destacada importância socioeconômica e cultural no contexto da região na qual se encontram inseridas.

Apesar de todas terem nascido na zona rural, filhas ou netas de proprietários de terras, cedo o convívio urbano passa a fazer parte de seus cotidianos infanto-juvenis. Essas meninas, que se tornariam alunas das escolas normais rurais, faziam parte de uma minoria que adentrava o espaço da sala de aula em tempos de estruturação e ampliação da instrução pública cearense.

Fazendo parte das famílias mais abastadas de suas respectivas cidades, recebiam instrução desde a mais tenra idade, conduzidas geralmente por preceptores ou professores particulares, contratados por seus familiares. As que nasceram a partir de 1923 já passaram a freqüentar os espaços institucionalizados, à época, os grupos escolares, presentes nas sedes de municípios com população mais numerosa.

A educação familiar se moldava à estrutura da sociedade patriarcal, em que o esmero e os cuidados em relação ao sexo feminino estabeleciam um espaço bem delimitado do papel que a mulher deveria exercer na sociedade. Uma formação essencialmente voltada para os atributos inerentes às meninas, futuras mães e donas de casa, não se desvincularia da formação profissional, pois ser professora significava a ampliação de um dom inerente ao espírito maternal da mulher.

Dessa forma, o currículo do curso de formação da professora ruralista apresentava esse elemento comum aos currículos das escolas normais, surgidas desde o século XIX, qual seja, a presença das disciplinas relacionais à Economia Doméstica, às Prendas do Lar ( bordado, pintura, corte-costura...), associadas a um programa de formação humanística, baseado nos valores éticos, morais e de civilidade, caracterizando o perfil desejado de instrução e educação para “moças de família”.

As “meninas-moças”, cujas história estão aqui retratadas, apresentam suas recordações com satisfação. Os momentos vividos na infância são

marcantes e, a despeito das dificuldades enfrentadas, sejam de ordem financeira e/ou emocional, suas narrativas não apresentam vestígios de sofrimento ou de qualquer tipo de revolta ou insatisfação daqueles inocentes tempos infanto- juvenis.

Asssunção Gonçalves perdeu os pais ainda criança e enfrentou sérias dificuldades, o que a faz se iniciar como professora aos 13 anos. Mesmo relatando esses momentos traumáticos enfrentados nos verdes anos de sua existência, o sorriso constante, harmonizando com o olhar vivo e expressivo, trazem a marca de uma personalidade forte e cheia de contentamento pela convicção de uma vida marcada pela dedicação à causa educativa. Sua fala é permeada da convicção de que cumpriu a importante missão de educadora. Fica nítida em seu discurso a satisfação de ter exercido o papel de mãe extremamente cuidadosa, de muitos filhos e de filhas que encaminhara ao mundo via processo de instrução e educação escolarizadas. Assunção jamais contraiu matrimônio. Fez de sua tarefa educativa um verdadeiro postulado, uma maneira de ver e viver a história de mulher sertaneja, dedicada às coisas e valores da terra, tudo isso aliado à fé religiosa, ao amor e devoção ao Pe. Cícero do Juazeiro.

Carmusina, Elvira e Lourdes tiveram que se separar de seus pais, para, em companhia de avós ou de tios, quebrarem barreiras e as adversidades impostas por um tempo que ainda iniciava o seu despertar para a necessidade de ampliar oportunidades de inserção e da inclusão escolar das mulheres, ainda percebidas como seres que careciam de instrução que atendessem aos seus atributos de mães e donas de casa.

Carmusina retrata tempos intensamente vividos ao lado da avó e dos familiares, que dispunham de uma situação financeira e política bastante destacada na região do Cariri. Freqüentou escolas de renome e se orgulha da educação refinada recebida. O olhar, os gestos, o entusiasmo presente na figura de uma senhora que já atingiu mais de noventa anos, fazem emergir a alegria da criança ainda viva em seu ser, apesar das marcas físicas decorrentes do tempo transcorrido.

Elvira, menina do sertão central, tem como principal referencial infantil a figura materna. Orgulha-se de sua criação guiada pelo olhar austero da mãe professora, satisfação de usufruir da educação daquela mulher reconhecida pela sua dedicação à educação pública de Quixadá, sendo a primeira professora diplomada pela Escola Normal de Fortaleza que aquela gleba recebera. Filha ilustre da terra de Rachel de Queiroz, pertencia à família fundadora da Cidade. Apesar do exemplo da mãe, porém, Elvira não suportara viver na cidade grande, não conseguindo concluir o seu curso normal em Fortaleza. O convívio com os irmãos, as brincadeiras infantis e o aconchego do lar, a vigilância e o controle de todos os passos na casa ou na rua, ressurgiam das lembranças, denotando o prazer de ter vivido tudo aquilo: “Nós éramos muito felizes, nasci no tempo da obediência...”.

Maria de Lourdes fala de sua infância rural. Tinha uma família numerosa. Apesar de ter sido criada por uma tia, não perdeu o contato e o convívio com os irmãos. Brincava muito com as irmãs. Daqueles tempos infantis, dá bastante ênfase ao ensino da época, considerado por ela muito bom. Da

fazenda à Vila de Tauá, onde conclui o curso primário, chega a Crateús para prosseguir os estudos, concretizar o seu objetivo de ser professora.

Herotildes, mesmo dedicando-se aos estudos, desde a mais tenra idade, assume responsabilidades de adulto. No sítio de seus pais em Quixelô, então Distrito de Iguatu, os primeiros contatos com as letras, o saber sistematizado. Aos oito anos, já auxiliava o pai analfabeto, mas rico comerciante daquela cidade próspera do centro-sul do Ceará. A infância de Herô é sinônimo de estudo e trabalho. Sua juventude foi marcada pela grandiosa tarefa de assumir os cuidadas com os irmãos mais novos, em virtude da morte prematura da mãe. Todas essas experiências são analisadas como essenciais à sua formação como pessoa, profissional e cidadã. Mulher com forte militância política e social, educadora comprometida com o futuro da juventude iguatuense.