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Chapitre VIII -: Implémentation et mise en ouevre

VIII- 5 implémentation

A tradição do ensino jesuítico, reconhecida mundialmente e, pela segunda vez, ganhando expressão em Patrocínio, mostra que poderia verdadeiramente ser considerado um prestígio obter formação no colégio, sob a administração e controle das mestras da Congregação do Sagrado Coração de Maria de Beerlar. Conferia-lhes este prestígio, a aplicação dos princípios e práticas pedagógicas desenvolvidas pelos jesuítas, apoiadas, profundamente, no Ratio Studiorum, método de ensino de comprovada eficácia, inspirado no fundador da Companhia de Jesus, Ignácio de Loyola (l491-1556). Os documentos consultados permitem, em constante cruzamento, observar o valor do método pedagógico e os mecanismos disciplinares e hierárquicos exigidos para sua eficácia.

de pé: Emydia Aguiar, Dolores Marques; sentadas: Zulmira Rezende, Irmã Ghislaine, Irmã Gilberta e Luiza

Marques Arantes.

Fonte: A LIRA da Escola, Patrocínio, p. 16, 1953.

Esse método de ensino esteve voltado para a formação da juventude no que se refere à educação religiosa, intelectual, moral e cívica. A formação de jovens baseada nos ensinamentos loyolistas tinha como fundamentos os princípios da mente sã em corpo são. Além da defesa do bem da alma, que estava em primeiro lugar, difundia-se que a educação deveria se voltar para aquelas que tivessem posses e condições sociais, sob a alegação de que, educando-se os contingentes das classes privilegiadas na sociedade, estes educariam as de menos condições e oportunidades de vida. Segundo Maia,

Não abriu Inácio as escolas por aristocrática preferência em relação às classes superiores, mas porque: não podendo fazer tudo entendia que, educando as classes altas, derramava o bem com maior eficácia e sobre o maior número, pelo influxo que, por meio delas, exercia nas classes inferiores, alcançando assim a maior glória de Deus88.

Comentando sua vivência no Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, Nilda Caetano da Silva Rocha, uma de suas ex-alunas da década de 40, disse:

O Colégio teve uma importância muito grande para a vida patrocinense. A qualidade de ensino era muito boa. Quando o meu pai foi me matricular, ele ficou impressionado com a qualidade do Colégio. Ele chegou em casa dizendo que é um verdadeiro ministério a divisão do trabalho entre as Irmãs: Irmã Superiora, Irmãs professoras, Irmã diretora do dormitório, responsável pelo refeitório. Ele ficou impressionado...89.

88 MAIA, Pedro Américo. A pedagogia da Companhia de Jesus. Boletim Bibliográfico, São Paulo, p. 17-21, 1977. p. 17.

89 ROCHA, Nilda C. da Silva. Nilda Caetano da Silva Rocha: depoimento [fev. 2003]. Entrevistadora: Hedmar de Oliveira Ferreira. Belo Horizonte-MG: 2003. 1 cassete sonoro. Entrevista concedida para Tese de Doutorado.

CAPÍTULO 4

É importante não só conhecer a história do Colégio e de sua importância como instrumento de educação, mas também percebermos como os fatores contextuais faziam parte dessa história. Portanto, ao entrevistarmos as alunas das primeiras turmas, podemos surpreender uma história pessoal se entrecruzando com a coletiva, deixando aflorar importantes questões que nos ajudam a compreender melhor a História da Educação na Zona do Alto Paranaíba em Minas Gerais e no Brasil.

Através da memória destas senhoras, podemos entrever a escola de sua infância e juventude, recuperando dados históricos do início do século passado. Acreditamos que este mergulho no passado nos dá condições de olharmos para o presente com uma nova perspectiva. Ao trabalharmos com a memória de um tempo vivido por professoras aposentadas, senhoras mães de famílias, desvelando o passado, refletimos sobre o presente pensando um outro futuro. Desta forma, nos propusemos a promover o diálogo do texto das entrevistas com o texto da História da Educação mais ampla.

É interessante ouvir estas senhoras, professoras aposentadas ou simplesmente donas de casa e mães de família. São pessoas diferentes, que viveram em épocas e cidades diversas, mas têm em comum o fato de terem sido alunas e normalistas do Colégio Normal Nossa Senhora do Patrocínio, e algumas destas moraram no internato. São mulheres cuja idade varia de 55 aos 87 anos. Colocando- nos no meio delas, somos ouvintes e interlocutores de suas narrativas. De fato elas são narradoras, pois intercambiam experiências.

Essas fontes orais foram analisadas comparativa e complementarmente às fontes escritas e iconográficas, menos com a preocupação de reconstituir “os fatos” e mais de registrar as “versões” dos envolvidos. Isso porque, como Thompson90, acreditamos que a história ganha nova dimensão quando utiliza a experiência das pessoas como matéria-prima, na medida em que, em muito maior amplitude do que as outras fontes, permite recriar a multiplicidade original dos pontos de vista sobre os mesmos fatos, acontecimentos ou pessoas. Nesse sentido, o que se busca não é apenas uma história de eventos, ou estruturas ou padrões de comportamento, mas como eles são (foram) vivenciados e como são lembrados pelas pessoas que os viveram. Os relatos orais podem, portanto, revelar outras “verdades” que existem por trás dos registros oficiais ou, quando apresentam “versões divergentes”, proporcionar, em conjunto, pistas essenciais para a interpretação.

“O que o adulto retém como saber de referência está ligado à sua experiência e à sua identidade”91, pois o sujeito constrói o seu saber ativamente ao longo do seu percurso de vida. Ao falarem de sua infância e juventude, escolaridade e prática profissional, de histórias de vida, elas vão desfiando sabedoria fazendo suas sugestões para a continuação da história. Elas retiram de sua experiência o que contam: “sua própria experiência ou a relatada pelos outros”92.

O método “história de vida” – ou relato de vida – tem por objetivo tirar o pesquisador de seu pedestal de dono do saber e fazê-lo ouvir o que o seu entrevistado tem a dizer sobre aquilo que acredita ser importante.

90 THOMPSON, Paul. A voz do passado: a história oral. Tradução de Lólio Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

91 NÓVOA, Antonio. Formação de professores e profissão docente. In: NÓVOA, A. (Coord.). Os professores e

sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1995. p. 25.

Na correria do dia-a-dia, se conseguirmos um tempo para reflexão e fizermos uma viagem mental, conseguiremos rapidamente lembrar nossa história de vida, com preciosos detalhes.

Como interlocutores, vamos incorporando às coisas narradas a nossa experiência, fazendo a nossa leitura dos fatos. Não é difícil retomar nossa relação com a família e com a escola – os colegas, os professores, os estudos – trazer de volta nossos sonhos e esperanças, medos e angústias, nossa experiência de trabalho. Tudo isso contribui para nossa visão de mundo, nossa concepção de educação.

Neste estudo se pode depreender a informação do conceito de gênero, entendido, conforme afirma Joan Scott93, como “elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos” e “um modo de dar significado às relações de poder”. Na apreensão do caráter social, histórico e relacional que está implícito nesse conceito, são articuladas também outras categorias, como classe e raça.

Ao trabalhar com tais categorias, salienta-se que é preciso considerar que há diferentes construções de gênero numa mesma sociedade – construções essas que se fazem de acordo com diferentes modelos, ideais, imagens que têm as diferentes classes, raças, religiões sobre a mulher e sobre o homem. Acredita-se também que é importante ter presente que há diferentes construções de gênero numa dada sociedade de contextos históricos diferentes.

Há de se lembrar, além disso, que a construção do gênero não se dá através de um processo de imposição unilateral, pela sociedade, das atitudes e valores

93 SCOTT, Joan. O Gênero como categoria de análise histórica. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 16, n. 2, p. 10-22, jul/dez. 1990. p. 11.

considerados adequados para meninas e meninos, que vão então internalizá-los. É preciso ter em mente que freqüentemente não só há expectativas divergentes (até contraditórias) para os sujeitos sociais, como também que esses são capazes de acomodações, resistências, adaptações, transformações. Daí a importância da observação de como as mulheres que passaram pelo Colégio Normal Nossa Senhora do Patrocínio vivenciaram, enquanto sujeitos concretos, as práticas educativas e sociais em que se viram envolvidas.

E mergulhando numa história instigante, vamos encontrando livros antigos, velhos manuscritos, álbuns de fotografias, cadernos de recordações e de receitas, antigos salões de reuniões familiares, uma escolinha perdida no tempo, um namorico com aluno do Colégio Dom Lustosa. E as narrativas cheias de sentido não se esgotam nos fatos contados, pois não são meramente informativas, mas capazes de suscitar espanto e reflexão.

Ao contar histórias, as alunas entrevistadas se transfiguram, voltam a um passado, revivem-no, seus olhos brilham ao descobrir que o que viveram teve importância, está sendo pesquisado e não será perdido pela História.

Envoltos nesses depoimentos, percebe-se em cada uma a sua marca pessoal. Elvira, alegre, cheia de vida, vaidosa, com os cabelos alourados encobrindo os brancos, fala com prazer de sua infância, juventude, enfim de sua vida de estudante em Patrocínio, de sua carreira profissional e política, hoje, advogada e vice-prefeita. Alina, frágil no físico, mas forte, muito elegante, com uma linguagem polida. Zulma e Leonor, de fala espevitada, com jeito de mando, mostram que sempre gostaram da Escola Normal, das atividades religiosas e mostram também, que gostaram mais de

serem diretoras do que professoras. Alda, sorridente, simpática, conta suas histórias de menina de interior e depois de mãe e esposa dedicada e se refere sempre com alegria aos tempos de Colégio.

Judite, a lutadora que chega a ser professora, ser mãe, apesar de todos os obstáculos que a vida lhe impõe, mas que ela vence com energia e vontade. Zaida, a mulher independente que rompe com os padrões da época, morando sozinha, e enfrenta as autoridades educacionais reivindicando melhorias para sua categoria, através de uma participação ativa nos movimentos sindicais das professoras aposentadas. Áurea, a sonhadora e romântica, que buscou o descanso das atividades educativas nas aulas de pintura e bordados e na leitura, aproveita o tempo livre para contatos maiores com os filhos e netos. Maria Bárbara, alegre, sorridente ao falar do cineminha namorisqueiro do Padre Caprásio, batalhadora na lida da casa, dedicada exclusivamente ao esposo, aos nove filhos e outro tanto de netos. Antonia, elegante, de porte altivo, de palavras medidas, sóbria, esposa e mãe dedicada ao lar e também às “boas” leituras. Berenice, alegre, com jeito de garota levada, nunca gostou de estudar, mas sempre participou com entusiasmo das atividades do Colégio. Edna, aluna da Escola Normal, única escola por ela freqüentada, dos oito aos dezenove anos de idade, quando saiu formada normalista; as demais entrevistadas eram senhoras comuns.

Quem viveu boa parte de sua vida em uma única escola sabe que por lá circulavam afetos, emoções, calor humano, aceitação e repulsa. Momentos que falaram de solidariedade, de apoio a iniciativas e descobertas, de desenvolvimento da auto- estima e de cumplicidade. Momentos que ficaram porque foram fascinantes ou porque

deixaram marcas tristes, impregnadas de medo, de desânimo, de perda da autoconfiança. Marcas, muitas vezes, difíceis de serem removidas.