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Chapitre VIII -: Implémentation et mise en ouevre

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Fonte: Arquivo do Colégio

Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que já se passaram. Mas pela astúcia que tem certas coisas passadas de fazer balancê, de se remexerem dos lugares.

A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos; uns com os outros acho que nem se misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo coisas de rasa importância [...] tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras de recente data.

O senhor sabe; e se sabe, me entende. Toda saudade é uma espécie de velhice105.

Ao narrar momentos de sua trajetória como aluna do Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, na década de 1930, as entrevistadas Alda Amorim, Alina Borges e Elvira Porto compõem imagens de alguns espaços escolares, decompõem tempos e descrevem relações pessoais, desenhando contornos de uma forma escolar constituída por (e constituinte de) práticas de formação docente instaladas no período. A referência à Escola Nova marca o relato, destacando a novidade dos procedimentos da escola.

As Irmãs faziam a gente se interessar pelas notícias de jornais, queriam que lesse e comentavam com a gente [...] livros também! E desses um que marcou profundamente foi Contos Pátrios. Eram contos interessantes, falando sobre a vida no Brasil, de um modo agradável... com muita poesia106.

O preparo do professor para a Escola Nova parecia indicar a necessidade de recorrer a impressos. O Colégio criava todo um ambiente favorável à leitura: hora específica para a atividade inserida no tempo escolar; indicação de impressos nos programas de disciplinas, seminários e discussão de textos; compras e solicitação para doação freqüente de livros, e as alunas eram empurradas à biblioteca.

105 ROSA, op. cit., p. 460, nota 5.

A criação dos clubes de leitura, a instituição da festa do livro nas escolas primárias, a avaliação dos livros infantis pelas diretorias de Instrução Pública foram alguns dos mecanismos utilizados por educadores “escolanovistas” para disseminar novos hábitos de leitura e controlar a produção dos livros.

Analisando as histórias narradas pelas alunas, nos seus períodos de formação e, posteriormente, em sua prática profissional, detendo no que se refere à leitura e escrita, procurou-se responder às questões: Como as relações familiares na infância contribuíram se é que contribuíram, para o estabelecimento do gosto pela leitura? As antigas professoras do Colégio conseguiram passar sua paixão pela leitura para as alunas?

Nos relatos feitos pelas alunas, foram constatados que em sua infância e adolescência o interesse e o contato com os livros e a arte de escrever muitas vezes encontrou apoio em seus ambientes familiares. Algumas entrevistadas afirmaram não gostar de ler, desde o tempo de criança e que em suas lembranças as aulas de leitura eram terríveis. Portanto, o desinteresse pela leitura e a escrita sempre esteve ligado aos momentos de indisciplina.

As entrevistadas, pelo fio da memória, refazem o percurso de suas vidas, reconstruindo-as e, junto com sua história individual, vai sendo contada também a história de sua família, de sua cidade. E para aflorar o passado, é preciso puxar o fio da memória. Todo processo de recordação é construtivo e tem uma função social na medida em que, de acordo com Bosi, ele é também constituidor de uma história coletiva, de uma sociedade e da cultura de um povo. Memória que é em si mesma

106 AMORIM, Alda. Alda Amorim: depoimento [jul. 2003]. Entrevistadora: Hedmar de Oliveira Ferreira. Patos

social, porque ela é constituída a partir dos encontros que a vida proporciona, das pessoas com quem se interage107.

Umas vão se lembrando de sua infância na fazenda, buscando lembranças da sala grande, onde a família se reunia em torno da leitura de cartas e jornais; são evocados também o escritório do pai cheio de livros, a família letrada dos tios que moravam numa outra cidade. Estes foram os momentos em que teve o primeiro contato com a leitura e escrita em suas histórias de vida.

Nas reuniões de família se fazia presente à leitura de jornais e cartas falando de uma realidade ainda não vivida, que trazia novos conhecimentos e a vontade de aprender. Para Elvira

[...] as notícias da Segunda Guerra Mundial nos faziam imaginar coisas terríveis e a noite a gente não dormia, pensando que poderia ouvir tiros. Chorávamos com medo de alguma pessoa da família ser convocada para ir lutar na Itália108.

Chartier comenta que muitas crianças aprendem em suas famílias que os escritos existem, que os adultos os utilizam e isso desenvolve a sua curiosidade pelos sinais gráficos e pelas mensagens neles contidas. Para que isto aconteça é preciso que os adultos mostrem que estão lendo e escrevendo. Assim, a vida cotidiana pode proporcionar situações bastante oportunas para estimular a curiosidade109. Dessa forma, o ambiente familiar de Elvira Porto proporcionou a oportunidade de estabelecer

107 Cf. BOSI, E. Memória e sociedade: lembranças de velhos. Tradução de Maria de Lourdes Menezes. São Paulo: Queiroz, 1979. p. 39.

108 PORTO, Elvira. Elvira Porto: depoimento [set. 2002]. Entrevistadora: Hedmar de Oliveira Ferreira. Patos de Minas: 2002. 1 cassete sonoro e depoimento escrito. Entrevista concedida para Tese de Doutorado.

109 Cf. CHARTIER, Anne-Marie et al. Ler e escrever: entrando no mundo da escrita. Tradução de Carla Valduga. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. p. 56.

o contato concreto com a leitura e a escrita. Isto se evidencia também nos relatos das ex-alunas:

Na minha infância [...] todo papel escrito, os rótulos nas latas de bolachas, nos vidros de remédios ou quando alguém chegava lá em casa, na fazenda, com um jornal embrulhando as compras de produtos para uso no curral, eu procurava ler e ler alto para a minha mãe ouvir, enquanto ela mexia na cozinha ou então para o meu pai, à tardinha, assentados na porta da sala, aproveitando o resto da luz do dia110.

Outras formas de convívio com a leitura e escrita, que contribuíram para a formação de conceitos espontâneos, são lembradas por Alda e outras alunas. Faltando-lhes em casa um ambiente propício à leitura, Alda Amorim e suas irmãs Alfa, Alba, Dalva, Dalca e Dulce, todas alunas do Colégio, o descobrem entre os tios:

Quando íamos passar férias na casa dos nossos tios, lá todos falavam corretamente. As primas tinham professores em casa, uma letra bonita... À noite eles reuniam e conversavam muito bem. Às vezes eu ia preocupada para lá...mas eu tinha uma verdadeira admiração por eles, que estavam estudando no Colégio de padres – o Dom Lustosa – em Patrocínio. Eu tenho a impressão de que eu sempre gostei de ler e de escrever... deve ter sido alguma coisa que saiu dali e que fortaleceu quando nós fomos para o Colégio das Irmãs em Patrocínio – o nosso sonho dourado111.

Elvira sorri muito relembrando com admiração e saudade o escritório do pai, lugar mágico onde descobria o mundo.

110 PORTO, Elvira. Elvira Porto: depoimento [set. 2002]. Entrevistadora: Hedmar de Oliveira Ferreira. Patos de Minas: 2002. 1 cassete sonoro e depoimento escrito. Entrevista concedida para Tese de Doutorado.

111 AMORIM, Alda. Alda Amorim: depoimento [jul. 2003]. Entrevistadora: Hedmar de Oliveira Ferreira. Patos de Minas: 2003. 1 cassete sonoro. Entrevista concedida para Tese de Doutorado.