3. Résultats/Publications
3.2. Immune impairments of the multiple myeloma bone-marrow mesenchymal stromal cells
O episódio de que Libão Druso é protagonista inicia-se com a indicação temporal de que ele se situa no mesmo plano cronológico da narrativa da história de Germânico, no livro II: sub idem tempus20. A preposição sub regendo acusativo denota a ideia de tempo, “suggérant en plus l’entrée dans le repère chronologique”21. O interlúdio na história de Germânico acarreta também uma mudança espacial, pois a acção decorre em Roma, onde o narrador apresenta novas personagens. A principal é o arguido do processo em causa, Marco Escribónio Libão Druso. É relevante analisar o modo como é apresentado o seu nome, partindo da origem familiar: e familia Scriboniorum Libo
17 B. Walker, The Annals of Tacitus, 87–137, dá conta, numa perspectiva literária, mas também histórica, dos diversos casos de maiestas nos Annales.
18 No seu estudo, B. Walker, The Annals of Tacitus, 263–269, lista 95 só no principado de Tibério. 19 No principado de Cláudio não houve julgamentos de maiestas.
20 O capítulo 27 do livro II surge com um novo assunto: a acusação, julgamento e morte de Libão Druso, um importante processo de maiestas a que o narrador dá grande atenção por ser um caso singular, mas que terá continuação ao longo dos tempos — a história de Germânico, assim interrompida, será retomada em 2.41.2, já no início do ano 17: Sub idem tempus e familia Scriboniorum Libo Drusus defertur moliri
res nouas (2.27.1).
Drusus. O genitivo de definição em vez do adjectivo apositivo é bastante frequente na
prosa de Tácito, característica que a aproxima da poesia22. Com esta construção, o narrador insere Libão Druso numa grande família de personalidades ilustres e é apresentado como se a família fosse um epíteto. Da apresentação da personagem pela família (expresso como complemento circunstancial de origem), antes mesmo do seu nome (em nominativo), resulta a sugestão da profundidade histórica da personagem, ou seja, o narrador confere à personagem um passado que não é necessariamente desenvolvido no texto, mas aflorado.
A frase com que se apresenta Libão é também a que o coloca vítima de uma denúncia anónima: defertur moliri res nouas. A voz passiva (de defero23) transmite precisamente uma acção na qual Libão é paciente de uma acusação sem agente activo. Tratando-se aparentemente de uma acusação sem rosto, a revelação do delator, mais à frente, cresce em importância, pois o caso que agora se inicia parece desencadeado por forças ocultas.
No fim desta introdução genérica, o narrador assume a primeira pessoa do singular, que é a expressão da autoridade, ao mesmo tempo que sublinha a importância deste caso: eius negotii initium, ordinem, finem curatius disseram, quia tum primum
reperta sunt quae per tot annos rem publicam exedere (2.27.1). A referência a um caso
primordial serve de pretexto para um maior desenvolvimento da sua trama, tornando-o exemplar e o modelo de outros que se seguem com tanta frequência que rem publicam
exedere. O negotium que se discute é, aparentemente, a delação de maiestas, que tinha
já surgido em 1.72.2–74.5, “but we here first find persons entrapped by intimate friends, who keep up private communications with Caesar”, como diz Furneaux, 317.
Depois da introdução, narra-se o episódio propriamente dito: Firmius Catus
senator, ex intima Libonis amicitia, iuuenem inprouidum et facilem inanibus ad Chaldaeorum promissa, magorum sacra, somniorum etiam interpretes impulit, dum proauum Pompeium, amitam Scriboniam, quae quondam Augusti coniunx fuerat, consobrinos Caesares, plenam imaginibus domum ostentat, hortaturque ad luxum et aes alienum, socius libidinum et necessitatum, quo pluribus indiciis inligaret (2.27.2). O
narrador não põe em causa a culpa de Libão Druso, mas acaba por atenuá-la, expondo
22 Miller, 23, Furneaux, 50; valor: A. Ernout e F. Thomas, Syntaxe Latine, 42–43.
23 O verbo no presente histórico transporta o leitor para o momento da acção e aproxima-o dela: C. Touratier, Syntaxe latine, 96-99. Furneaux, 55 e 316, e Goodyear (2), 265, referem que verbos com sentido de ‘acusar’ construídos com infinitivo (construção pessoal) são particularmente comuns nos
claramente os motivos que contribuíram para a criação de condições propícias que leva Libão a julgamento. Não se fala de modo claro em golpe de estado24 (moliri res nouas), mas apenas no desvio comportamental — e vangloriação pelos antepassados, possível pela linhagem ilustre.
No plano retórico, sobressai a manipulação de Libão levada a cabo por alguém da sua esfera íntima. Neste sentido, é importante relevar a personalidade de Libão, dito
iuuenem inprouidum et facilem inanibus. O vocábulo iuuenem tem escopo sobre inprouidum e facilem (este último particularizado por inanibus, evidenciando que ele
não estava disposto a nada de prejudicial para o Estado), donde resulta uma relação de dependência casual e natural destas qualidades (é inprouidus e facilis inanibus porque
iuuenis), mas que pode ser interpretada como um conjunto caracterizador da
personagem (é iuuenis, inprouidus e facilis inanibus). A adjectivação que é aposta a este nome, inprouidus e facilis, resulta de uma disposição gradativa das características de Libão, onde o último elemento é o mais negativo, mas, por essa posição, acaba por ser atenuado. Neste contexto, a juventude é sinónimo de falta de maturidade, inclinação para influências externas, sobretudo em oposição à experiência de Fírmio, que, senador, tem mais idade25.
O delator, agora identificado (Firmius Catus) depois da omissão do agente da passiva de defero, é amigo íntimo de Libão (ex intima Libonis amicitia), pertencente à classe senatorial (senator), o que torna a armadilha mais torpe. Além de denunciante, Fírmio Cato é instigador dos crimes do amigo: impulit, ostentat e hortatur são verbos que exprimem essa ideia, distribuída por três momentos.
O primeiro surge sob o domínio semântico de impulit, construído de modo a dar relevo ao movimento26, pois acompanham-no complementos introduzidos por ad:
Chaldaeorum promissa27, magorum sacra28, somniorum (…) interpretes29. Todos têm a
mesma estrutura (um genitivo e o acusativo regido por ad, zeugmático nas duas últimas
24 Furneaux, 316–317, põe em causa que se trate de maiestas, ao afirmar que “the whole shown to shrink into mere questions of astrology and magic”; cf. R. S. Rogers, “A Tacitean Pattern in Narrating Treason Trials”, 279, 283–285.
25 Esta concepção de juventude não é a que domina nos Annales, onde, por exemplo, Germânico é
iuuenis, mas com as boas qualidades de um general ou pai de família.
26 Já subjacente ao significado do verbo: ‘empurrar contra ou para, lançar, atirar contra, incitar, provocar, induzir a’.
27 Os Caldeus — termo que designa alguns povos da Babilónia: Tacitus, The Annals, trad. A. J. Woodman (Indianápolis: Hacket Publishing, 2004), 52, n.27 — eram os astrólogos: cf. 3.22.1, 6.20.2, 12.22.1, 12.68.3, 14.9.3, 16.14.1. Também são referidos, nos Annales, como mathematici (2.32.3) e periti
caelestium (4.58.2).
28 Especialistas em feitiços e drogas: Furneaux, 317.
estruturas). Unido assindeticamente, este tricolon forma um conjunto semântico do campo da adivinhação.
O segundo momento é introduzido pela conjunção temporal dum, pelo que a acção é cronologicamente coincidente com a do primeiro momento. No entanto, o tempo verbal é actualizado para o presente do indicativo. Agora a acção é expressa pelo verbo ostento, frequentativo de ostendo, pelo que a acção se repercute pelo tempo, indiciando a insistência de Cato em instigar o orgulho de Libão com a história da sua família. Os complementos são quatro — três em sequência temporal, do mais antigo para os mais novos, culminando numa sintetização: (1) proauum Pompeium, referindo Sexto Pompeio, pai de Pompeia, sua mãe; (2) amitam Scriboniam, a mulher de Pompeio, sobrinha da mulher de Augusto; (3) consobrinos Caesares, pois descendiam da mesma linhagem30; (4) plenam imaginibus domum, que sintetiza a importância da família Escribónia (Furneaux, 317).
Ligado copulativamente (-que) ao segundo está o terceiro momento, com o verbo hortor. Daqui, sobressaem dois núcleos: (1) ad luxum et aes alienum e socius
libidinum et necessitatum; o homeoteleuto cria uma unidade entre luxum, (aes) alienum, libidinum e necessitatum. As áreas semânticas de cada um dos núcleos são, no primeiro
caso, excessos financeiros e, no segundo, morais, sem sinais de especificação de moliri
res nouas. A partir da oração quo pluribus indiciis inligaret, concorre-se para a
constituição de um processo judicial. Não se especifica nenhum indicium concreto, mas percebe-se, com o verbo inligaret, que Libão Druso caiu numa armadilha e está agora ‘amarrado, preso’ (OLD, s.v. illigo), sem possibilidade de fuga.
A produção de provas, mesmo que fictícias, culmina em 2.28.1: Vt satis testium
et qui serui eadem noscerent repperit, aditum ad principem postulat. No entanto, não
será o próprio Fírmio Cato a apresentar a acusação, mas uma nova personagem, Flaco Vesculário: demonstrato crimine et reo per Flaccum Vescularium equitem romanum,
cui propior cum Tiberio usus erat. Fírmio não só arranjou testemunhas e escravos
(aproveitando o facto de Libão Druso ter caído na emboscada por ele preparada), como escolheu uma pessoa de confiança do imperador para lhe apresentar o caso. É significativa a construção sintáctica do sintagma per Flaccum Vescularium equitem
romanum: o agente, um ser humano, é considerado instrumento ou meio para que a
30 Além disso, o pai de Libão, Marco Druso Libão, foi adoptado por Marco Druso Claudiano, o pai de Lívia Augusta (cf. 5.1).
acção expressa pelo verbo tenha sucesso31. Reforça-se, como antes (Firmius Catus
senator, 2.27.2), a condição social de quem é responsável pela delação e percebe-se que
o narrador é um moralista que se manifesta contra a degeneração da sociedade romana32, pela tónica que imprime a estes assuntos.
Tibério é a personagem para a qual converge a atenção do narrador33, que dá conta da sua vontade e decisão, a partir de 2.28.2: Caesar indicium haud aspernatus
congressus abnuit. Tibério impõe que seja Flaco o intermediário das suas conversas
com Cato: posse enim eodem Flacco internuntio sermones commeare — a personagem Tibério prefere a proximidade de um cavaleiro à de um senador. Esta preferência merece ponderação, pois parece configurar uma tendência para confiar em pessoas de menor importância social (recorde-se que Sejano também é cavaleiro). De facto, um senado demasiado servil (aliás, esta ideia é claramente veiculada na expressão o
homines ad seruitutem paratos!, em 3.65.3) não merece confiança.
A análise do interior da personagem de Tibério é bastante evidente no passo que agora transcrevo: atque interim Libonem ornat praetura, conuictibus adhibet, non uultu
alienatus, non uerbis commotior (adeo iram condiderat) (2.28.2). Retoma-se a isotopia
da dissimulação de Tibério, que aqui surge como alguém que esconde as expressões do rosto e fala, como se nada tivesse acontecido, com alguém a quem concede uma pretura e convida para banquetes34. O substantivo praetura é, sintacticamente, o instrumento com que Libão é honrado, o que, em conjunto com esses convites para banquetes, não tem de revelar segundas intenções. No entanto, é o discurso parentético adeo iram
condiderat, isolando e resumindo a atitude hipócrita de Tibério, que denuncia a sua
maneira de ser, a sua verdadeira natureza, que com estas pistas se vai revelando. Assim acontece com o uso do verbo ornat, cujo sentido de ‘honrar (com)’35 surge por contiguidade semântica, isto é, por metonímia. Tendo em conta a imagem de um
princeps que esconde a ira até a vítima cometer o erro fatal que a conduzirá a uma
morte trágica, no contexto presente, o sentido de orno tem uma carga semântica ligada a uma condecoração de fachada que apenas serve para manter as aparências. A construção dos sintagmas descritivos da reacção do imperador (non uultu alienatus, non uerbis
commotior) é paralelisticamente perfeita: anáfora de non, que nega duas palavras
31 J. H. Allen e J. B. Greenough, New Latin Grammar (Nova Iorque: Dover Publications, 2006), 253. 32 O aposto de Flaccus Vescularius é o sintagma eques romanus, que designa a classe social ilustre, mas também a origem romana.
33 O foco esteve até aqui em Cato.
34 Em alternativa, pode pensar-se que o imperador pretendia conhecer bem o arguido nesta “fase de instrução”. 35 OLD, s.v. orno 6.
começadas por u- e com o mesmo número de sílabas (uul-tu, uer-bis). Estrutural e gramaticalmente falando, são dois elementos iguais e simétricos. Esta estratégia retórica cria um efeito de simultaneidade dos (não) gestos do imperador, ou seja, Tibério manteve-se impassível36.
O narrador continua a explorar a simulação de carácter da personagem, na descrição que faz do seu comportamento ao longo deste caso: cunctaque eius dicta
factaque, cum37 prohibere posset, scire malebat (2.28.2). A colocação de cuncta, dicta e facta no início da frase e por esta ordem dá-lhes especial ênfase — do geral para o
particular, o poder de Tibério poderia exercer-se sobre todas as acções de Libão, mas preferiu o conhecimento (de todas).
Tal era o comportamento de Tibério até surgir Fulcínio Trião: donec Iunius
quidam, temptatus ut infernas umbras carminibus eliceret, ad Fulcinium Trionem indicium detulit (2.28.2). Neste passo, aparecem duas novas personagens, ‘um certo
Júnio’, que se posicionará do lado dos acusadores, e Fulcínio Trião, que é logo caracterizado pela afirmação celebre inter accusatores Trionis ingenium erat
auidumque famae malae (2.28.3) — uma personagem maligna por opção, ou melhor,
por desejo (expresso pela construção com genitivo de auidum). Sendo ingenium (Trionis) o sujeito da frase, é sobre ele que se fazem as afirmações: celebre inter
accusatores e auidum famae malae, como se o ‘talento’ tivesse a capacidade psíquica de
ser ávido — transporta-se para o ‘talento’ a personalidade de Trião, numa construção marcadamente metonímica (hipálage). A personificação do abstracto corporiza o espectro textual, dando-lhe vida e vontade próprias.
Esta personagem perversa acaba por fazer precipitar a acção. A velocidade com que o faz é bem visível na organização sintáctica dos elementos frásicos curtos e com elipse do sujeito. O advérbio statim e o homeoteleuto reforçam essa velocidade nas acções: statim corripit reum, adit consules, cognitionem senatus poscit (2.28.3). A transformação de Libão Druso em acusado está feita, pois ele já é dito reus. A convocação dos senadores é imediata: et uocantur patres, addito consultandum super re
magna et atroci. A definição do caso (re) como magna e atrox recorda a sua delicadeza
36 Provavelmente à espera de apanhar Libão Druso em falso.
e importância, ao mesmo tempo que sintetiza as informações até aqui fornecidas pelo narrador38. Libão Druso, reus antes de o ser, tem o destino traçado.
Com a aproximação do julgamento, o narrador acompanha as acções de Libão em prol da sua defesa: Libo interim ueste mutata cum primoribus feminis circumire
domos, orare adfinis, uocem aduersum pericula poscere, abnuentibus cunctis, cum diuersa praetenderent, eadem formidine (2.29.1). A imagem transmitida é a de um
homem desesperado, vestido de escuro39, que tenta a salvação indo de casa em casa daqueles que lhe eram mais próximos e de pessoas ilustres. Libão tem a companhia de
primoribus feminis, o que realça o seu desespero, porque tenta auxílio40 recorrendo às
influências junto dos conhecidos. Os verbos, em infinitivo histórico41, dão vivacidade ao percurso. O uso de interim42 faz com que a acção seja a sequência paralela à contada.
A enumeração desses actos é feita de forma variada: ablativo absoluto (ueste
mutata), construção paralelística (circumire domos, orare adfinis) e quiástica em
relação a ela (uocem aduersum pericula poscere) e novo ablativo absoluto (abnuentibus
cunctis), resumindo os resultados da procura, que, mais minuciosa e analítica, concorre
para um desfecho sintético e sombrio: ninguém quis defender Libão Druso contra os perigos. A oração temporal-causal explica o fracasso da empresa de Libão: cum diuersa
praetenderent, eadem formidine. Todas as justificações se resumem, assim, a uma — o
medo. Recorda-se com estas palavras a principal característica da sociedade romana que os Annales descrevem: a servidão, a que todos recorrem por causa do terror instituído pelo comportamento sombrio do princeps e pela multiplicação de delatores.
É ainda de medo que se fala no parágrafo seguinte: die senatus metu et
aegritudine fessus (2.29.2). O tom de pesar sente-se na fonética: as vogais altas e
fechadas (i, u, e) têm preponderância, bem como as consoantes oclusivas — um ritmo cadenciado, triste e arrastado acompanha o corpo aterrorizado e doente (de aflição43) de Libão Druso. A sequência é interrompida com outra, de natureza disjuntiva: siue, ut
tradidere quidam44, simulato morbo. Finalmente, o réu chega à cúria, apoiado no irmão:
38 Esta estratégia cria consistência na narrativa. Note-se o uso de super (construído com ablativo) com sentido de de: Goodyear (2), 272.
39 A roupa escura era usada pelos acusados em tribunal (cf. Tacitus, The Annals, trad. A. J. Woodman, 53, n.32) e era símbolo de luto. Neste caso, as mulheres que Libão tem do seu lado são uma espécie de praeficae. 40 Furneaux, 318, entende que uoces é “an equivalent expression to ‘patronos petenti’ (...)”; cf. Goodyear (2), 273. 41 C. Touratier, Syntaxe Latine, 127: “l’infinitif de narration est l’équivalent d’un imparfait et a donc une valeur purement descriptive”; cf. idem, 153 e 347.
42 O advérbio interim surge já em 2.29.1 com o mesmo fim (v. 2.31.1 infra).
43 Como se documenta em Ernout–Meillet, s.v. aeger; cf. morbus (doença do corpo). 44 Mostra-se que o relato que o narrador apresenta é baseado noutros.
lectica delatus ad foris curiae innisusque45 fratri et manus ac supplices uoces ad Tiberium tendens immoto eius uultu excipitur. Os gestos (físicos46) são ligados por
conjunções copulativas (-que, et, ac), que representam uma sequencialidade temporal (uns a seguir aos outros), enquanto o particípio presente tendens evidencia, não só a simultaneidade de movimentos, mas também a demora com que são feitos47. O uso de diferentes conjunções copulativas tem que ver com os diversos graus de relação semântica que os sintagmas têm entre si: delatus e innisus, delatus–innisus e tendens,
manus e uoces encontram-se assim sintacticamente agrupados48, sem ambiguidade49 e
com o reforço da já referida sequencialidade temporal.
Na relação de tendens com manus e com uoces (pois aquela forma está em zeugma em relação a uoces50), o verbo adquire duplo valor retórico, um próprio (‘estender as mãos’) e outro metafórico (‘estender palavras’, equivalente a ‘dirigir a palavra’). Também com supplices se observam as expressões do sentido próprio e metafórico, pelo jogo que se faz entre o concreto e o abstracto: trata-se de uma imagem da atitude de um suplicante, que o estender das mãos cristaliza.
Como resposta a estas súplicas desesperadas, Tibério assume uma atitude de indiferença, mantendo-se em silêncio e sem expressão no rosto: immoto uultu51. Insiste- -se na ideia de que o imperador continua a esconder o que sente, denunciando um aumento da tensão dramática que resultará na morte do acusado. Estuda-se uma imagem de imparcialidade e equanimidade, que o imperador mantém no início do julgamento por ele presidido: mox libellos et auctores52 recitat Caesar ita moderans53 ne lenire neue asperare crimina uideretur (2.29.2). A continuidade temporal é transmitida pelo
advérbio mox. A leitura do processo é feita de forma imparcial, como compete a um juiz que já antes se manteve impassível às súplicas por parte do réu. De facto, é assinalada a
45 O particípio innisus construído com dativo é de emprego poético, como avisa Goodyear (2), 273. 46 Este excerto exprime não só gestos, mas também a posição do corpo: innisus, tendens.
47 Concretiza-se a ideia de metu et aegritudine fessus. Com efeito, em tendens os sons ecoam-se a si mesmos (oclusiva+en-). É um modo de demonstrar a dificuldade de movimentos (repetidos porque difíceis).
48 [[delatus (...) innisusque] (...) et [manus ac (...) uoces] (...) tendens].
49 A enclítica -que e a conjunção ac reúnem, aqui e em 1.1.2, sintagmas nominais da mesma natureza sintáctica, ao passo que et congrega segmentos frásicos (da mesma natureza sintáctica).
50 Furneaux, 319; Goodyear (2), 273. 51 Cf. 2.28.2: non uultu alienatus.
52 Tacitus, The Annals, trad. A. J. Woodman, 53, n.33, clarifica que “the ‘authorities’ are those individuals who had endorsed the prosecution”.
53 A interpretação de moderans não é consensual. Por exemplo: Furneaux, 319: “‘restraining himself’, so
moderante 1.15.[1]” (cf. 2.70.4 e 6.2.6); Tacitus, The Annals, trad. A. J. Woodman, 53: “with such control”;
Tacite, Annales, i (livres i–iii), ed. e trad. P. Wuilleumier (Paris: Les Belles Lettres, 1978), 95: “ton mesuré”; Tacite, Annales, trad. P. Grimal (Paris: Gallimard, 1993), 72: “veillant bien”; Goodyear (2), 274, defende a interpretação “directing himself, following a (middle) curse” e sustenta a tese em 1.15.1, 6.2.5 e 6.10.3.
moderação da personagem (moderans). Os objectivos são também explicitados: ne
lenire neue asperare crimina uideretur, em que crimina recorda e sintetiza as
transgressões anteriormente discriminadas54.
A narração do julgamento é feita de modo bastante sintética, como se verifica pela ausência de complementos circunstanciais e de coloração figurativa, como se da acta do julgamento se tratasse. Quase sem transição, o narrador transmite a identidade dos acusadores e os problemas de serem tantos: Accesserant praeter Trionem et Catum
accusatores Fonteius Agrippa et C. Vibius, certabantque cui ius perorandi in reum daretur, donec Vibius, quia nec ipsi inter se concederent et Libo sine patrono introisset, singillatim se crimina obiecturum professus, protulit libellos uaecordes (2.30.1).
Juntam-se mais dois acusadores contra o arguido, vincando ainda mais o facto de Libão se encontrar sozinho (sine patrono; cf. 2.29.1). Não é dito nada de concreto acerca das duas novas personagens, ao contrário, por exemplo, da anterior caracterização do
ingenium de Trião (em 2.28.3). De Fonteio Agripa, sabe-se muito pouco, e pelo que é
dito somente em 2.86.1. É um dos ilustres a oferecer a filha para o lugar de vestal, mas esta é preterida em favor da filha de Comício Polião. De Gaio Víbio, ainda que aqui não se fale do seu carácter, é mais tarde afirmado que se trata de alguém com poucos escrúpulos (4.29.4), que foi procônsul da Hispânia Ulterior (4.13.2) e foi condenado pela sua uis publica (4.28.1–4.30.1).
Há, porém, um lado irónico no aumento de acusadores: são tantos que não conseguem chegar a acordo sobre qual seria o primeiro a discursar. A querela culmina na resolução introduzida pela conjunção donec, e é uma das novas personagens que vai expor o caso pormenorizadamente55 — a oração causal com conjuntivo quia nec ipsi
inter se concederent exprime uma causa irreal, por isso é de prever que os acusadores