tratamento atual, se houve (ou não) uma pessoa amiga que o incentivou a buscar tratamento atual, se o entrevistado frequenta algum grupo de mútua ajuda, quanto tempo durou o seu maior período de abstinência, se houve uma pessoa e/ou situações ou fatos que o entrevistado considerou importante para mantê-lo abstinente durante esse período.
Do total, vinte e três relacionaram um único motivo principal para procurar o tratamento. Dentre os motivos citados, destacou-se o medo: quatro respostas relacionadas ao medo de enlouquecer, quatro indivíduos referiram medo de perder a família (ou companheira), três responderam que procuraram tratamento por medo de morrer (devido a saúde debilitada).
Entre outros motivos referidos temos: dificuldade de arranjar trabalho (um participante), quatro respostas estavam relacionadas a perdas (materiais e emocionais), quatro indivíduos relataram procurar tratamento por não aguentarem mais a vida de drogas e quererem mudar de vida, dois referiram que desejavam recuperar a autoestima e se valorizarem, um participante referiu que sua filha recém-nascida era o grande motivo (pois essa necessitaria de um pai presente e responsável).
Os outros onze respondedores relacionaram dois motivos principais. Novamente, dentre os motivos referidos destacou-se o medo: quatro respostas envolvendo o medo de morrer, quatro relacionadas ao medo de perder a família e três relativas ao medo de enlouquecer. Quatro participantes referiram querer mudar de vida, como motivo da busca de tratamento. Houve ainda sete outras respostas motivadoras da procura por recuperação: sofrimento da mãe, vergonha do filho que chorou ao ver o usuário em estado de intoxicação (poder-se-ia supor que a fragilidade enunciada pelo filho levou o usuário a ocupar um lugar de cuidado para com o Outro, passando a se reconstituir para isso, objetivando prepara-se para cuidar do filho?), perda da companheira, desejo de recuperar a família, desejo de recuperar a autoestima, aspiração a recuperar experiências inclusivas de antes, e vontade de recuperar as perdas.
A grande maioria dos participantes da entrevista (trinta pessoas) referiu que obtiveram ajuda de uma pessoa amiga (vínculo), que os incentivaram e/ou ajudaram a buscar ajuda. Nos questionários, a esposa (ou companheira) foi a mais citada como vínculo que os auxiliaram na procura de tratamento (TABELA 5), seguido pelos filhos. Podemos perguntar se a fragilização de um integrante no núcleo familiar decorrido uso abusivo da droga pelo participante da pesquisa poderia desenvolver uma atitude altruísta deste em relação a tal membro, o que seria significativo na manutenção de uma possível abstinência?
Tabela 5 - Pessoa que o incentivou a buscar tratamento atual
Pessoa incentivadora Frequência (f)
Companheira/esposa 11 Filhos 07 Esposa e filhos 02 Mãe 03 Irmã/irmão 03 Outros 04
Não houve ninguém 04
Total 34
Fonte: dados da pesquisa.
Quanto ao tempo de duração do maior período de abstinência já experienciado pelo individuo no momento da entrevista, observou-se que esse período de tempo variava entre 15 dias a mais de 10 anos, sendo que a maior parte deles já estava abstinente há pelo menos seis meses (TABELA 6). Esse dado é relevante pois para participação no grupo focal é necessário que o sujeito tenha conseguido passar pelo menos seis meses em abstinência.
Tabela 6 – Maior período de abstinência
Meses Frequência (f) ‹ 01 mês 04 1 – 5 meses 07 6 – 12 meses 08 ›12 meses 15 Total 34
Fonte: dados da pesquisa.
Ao serem questionados se havia situações ou fatos, ou especialmente alguém (vínculo) que fosse importante para que o indivíduo se mantivesse em estado de abstinência, apenas três afirmaram não haver ninguém. Para a maior parte havia sim algo ou alguém que foi capaz de mantê-los bastante decididos em evitar a recaída, pelo menos por um tempo determinado (TABELA 7), todavia, apenas oito frequentavam grupos de mútua ajuda.
Tabela 7 – Situações ou fatos, ou especialmente alguém (vínculo) importante para manutenção da abstinência
Algo (ou alguém) Frequência (f)
Pai e/ou mãe 08
Companheira(esposa) e/ou filhos 11
Outros parentes 04
Amigo 01
Deus e/ou igreja 05
Trabalho 02
Total 34
Poderemos voltar a utilizar os dados acima catalogados no subsequente corpo analítico desta pesquisa, para explicitações ou desenvolvimentos teóricos pertinentes. Seguindo com o estudo, o grupo focal nos trouxe elementos descritivos e potencialmente analíticos, capazes de nortear nossa reflexão. Por meio desta técnica, através da integração grupal, viu-se ser possível compreender como são construídas as percepções, práticas cotidianas, representações e simbologias de um determinado grupo. Produziram-se discussões grupais que permitiram compreender a forma como os indivíduos veem o mundo e suas diferentes experiências de vida. No caso do estudo em pauta, comparecem diferentes conteúdos experienciais no período de abstinência do uso de drogas.
Lembremos que o trabalho com o grupo focal nos parece impulsionar reflexões estimuladoras a partir da fala do outro que se manifesta. Há que se valorizar, contudo, a singularidade de cada sujeito do grupo, para que não ocorra certa tendência de resposta, que leva um participante a repetir o que o outro diz, sem ir mais fundo na sua própria história. O manejo de grupo, porém, ao valorar a particularidade de cada um pode minimizar este aspecto e nos trazer os pontos comuns também que são importantes nas biografizações.
Partimos da seguinte questão, que colocamos mais formalmente e muitas vezes de maneira também coloquial, sem deturpações do sentido. Vejamos a pergunta que moveu o grupo inicialmente:
“Podemos definir abstinência como o período em que o indivíduo se priva do uso da droga, e que está intimamente relacionado com a participação do sujeito na compreensão do que lhe acontece? ” Pensando na afirmativa acima, tentemos responder: - Durante a abstinência, o que manteve você longe das drogas? Aquilo que foi responsável, o ponto principal mais importante que você viveu para manter você longe das drogas?
O primeiro a mobilizar-se na resposta à pergunta foi Bartolomeu, que nos trouxe a centralidade da questão do trabalho, na ruptura inicial com o uso abusivo e continuado de drogas. Isso nos leva a supor ser o fato de “estar trabalhando”, um sintoma de inclusão social.
Também, no que a fala de Bartolomeu nos coloca, pareceu-nos que no período de abstenção posterior, nomeado de manutenção (RIGOTTO, GOMES; 2002), o trabalho, aos seus olhos, justificava seu distanciamento e não utilização da substância psicoativa.