1. Etat de l’art
1.2 Effet Crabtree
1.2.5 Identification des paramètres caractéristiques du shift oxydo- oxydo-fermentaire
O pensamento de Sartre (1994 [1965]) foi influenciado pelos trabalhos de Husserl e Heidegger. Sartre busca esclarecer a estrutura da consciência reafirmando os postulados de Husserl diferenciando dois níveis distintos e complementares da consciência: a consciência irrefletida e a consciência refletida. Ele faz a ressalva essencial de que “o tipo de existência da consciência é o de ser consciência de si” (p. 48), ou seja, a reflexividade é a característica essencial da consciência. Sua diferenciação se dá em função do sujeito que a exerce por meio de um Eu, uma estrutura de ação que se reconhece por meio da consciência de um dado objeto, permite que este Eu, então, experiencie um estado de consciência no qual o fenômeno ocorre em um novo nível: o Eu sente uma experiência de consciência.
O cerne da consciência é que ela é um processo pessoal intersubjetivo exercido para um sujeito. “Não há sequer uma das minhas consciências que eu não apreenda como provida de um Eu” (Sartre, 1996). A anunciação de um Eu é necessária no trabalho de Sartre por precisar um momento e uma disposição para agir específicos, a partir dos quais o processo de consciência ocorre. O Eu, aqui, é precisamente um momento de um sujeito que se reconhece no mundo. A própria afirmação “Eu ajo (verbo)...” já é uma dimensão reflexiva do processo e permite um afastamento reflexivo necessário para contextualizar esse Eu e observar como ele lida com a sua experiência no momento em que se enuncia.
O ato transcendental ocorre quando a consciência toma o Eu num estado específico de vivência e abre espaço para a percepção de como essa vivência é sentida e qual é a participação do Eu na vivência que está em curso. Essa vivência transcendente só é possível quando a redução fenomenológica é aplicada ao próprio Eu numa dada vivência. Nunca é demais esclarecer que essa vivência do Eu é contextualizada na própria experiência de um dado objeto para esse Eu – não se trata aqui de uma generalização de uma estrutura única que concentra todos os aspectos intencionais do ser. A possibilidade de coerência desses diversos Eus reside na possibilidade de reflexão sobre a maneira predominante de organização diante dos fatos do mundo. Por isso Sartre afirma: “O Ego aparece à reflexão como um objeto transcendente que realiza a síntese permanente do psiquismo” (1994 [1965], p. 65]). Como processo, o ser, ou melhor o ser aí – dasein – está sempre aberto à possibilidade de rever como o Eu se reconhece a partir dos objetos que toma como foco da consciência.
Sartre (1994 [1965]) afirma que a consciência é anterior à representação de um Eu no desenvolvimento do ser humano. Ainda que uma criança não consiga afirmar que é ela quem manipula um brinquedo, a consciência da manipulação do brinquedo ocorre indiferente à
existência de um Eu na criança. Num segundo momento do desenvolvimento é que a criança sente a satisfação com o brincar e este estado é um novo objeto para a consciência. Por meio da consciência dos diferentes estados que podem ser experimentados é que o ser humano poderá afirmar um Eu para cada momento em que sente esses estados. Temos aí um desenvolvimento da consciência como processo reflexivo onde a possibilidade de enunciação de um Eu surge como uma possibilidade de viabilizar um processo de coerência das diversas experiências às quais a consciência se intenciona. O próprio Eu ou, melhor, os Eus são também tomados como objetos para a consciência. Para Sartre: “Todos os resultados da fenomenologia ameaçam entrar em ruína se o Eu não é, do mesmo modo que o mundo, um existente relativo, quer dizer, um objeto para a consciência” (1994 [1965], p. 49).
Quando afirmamos a existência de um Eu diante do mundo, tendemos a realizar o movimento inverso do desenvolvimento da consciência defendido por Sartre. Afirmamos que primeiro somos, que depois sentimos os estados e que por fim tomamos consciência de algo. Se afirmarmos a consciência como um subproduto do Eu, o solipsismo surge como a armadilha para a compreensão da consciência, pois ela não se limita às aspirações de uma estrutura de Eu idealizada (Sartre, 1994 [1965]). De acordo com Sartre o movimento é inverso: sentimos, experimentamos e então anunciamos o Eu que sente e age, ou seja, a reflexão que permite anunciar um Eu emerge da nossa experiência.
A consciência é um processo intencional de apreensão do mundo. A redução fenomenológica viabiliza esse processo na medida em que desmistifica o Eu como uma entidade absoluta da existência. O reconhecimento do Eu ao longo do tempo no processo de consciência viabiliza uma ampla compreensão do mundo afastando-se dos preconceitos, atitude necessária ao surgimento de novos Eus. Sartre apresenta essa dimensão transcendental da consciência na seguinte ilustração: “O meu Eu, com efeito, não é mais certo para a consciência que o Eu dos outros seres humanos. Ele é apenas mais íntimo” (1994 [1965], p. 82).
No processo de consciência em que o ser humano experimenta o mundo, a assunção de que ele já sabe quem é e o que pode fazer inviabiliza o reconhecimento de que o processo de tomada de consciência antecede a anunciação de si. Na verdade, assumir de maneira rígida uma maneira de ser no mundo é identificada como um empobrecimento da existência, pois inviabiliza o reconhecimento das possibilidades humanas a serem escolhidas ao longo do tempo de uma vida.
A consciência não é apenas a reflexão acerca do mundo, mas a própria maneira de sermos no mundo; contudo escolhemos a maneira como podemos viver o mundo e nos
reconhecemos por meio dessas escolhas. Sartre (1946) apresenta a liberdade como essência da existência – por liberdade deve-se entender o processo por meio do qual o ser humano precisa escolher sua maneira de estar e agir no mundo. A liberdade não é uma opção por que “não somos livres para deixar de sermos livres” (Sartre, 1946, p. 544). Na liberdade, novas possibilidades de realização do mundo surgem na medida em que o ser humano atua sobre o mundo. “A liberdade é um fundamento de todas as essências, posto que o ser humano desvela as essências intramundanas ao transcender o mundo rumo às suas possibilidades próprias” (Sartre, 1946, p. 542).
O ser humano, portanto, abre novas possibilidades de organização do mundo à medida que realiza suas próprias escolhas. São essas escolhas que o ser humano precisa reconhecer como sua responsabilidade, na medida em que as essências do mundo são reveladas, identificadas, elas são também objeto da ação humana e é por essa ação propriamente humana sobre o mundo que se é responsável.
Sartre (1946) argumenta que o exercício da liberdade só é possível como ação que visa um fim de transformação. Para agir é necessário que se reconheça uma dada maneira de estar no mundo (o Em-si, na terminologiana sartriana) como insatisfatória ou limitante diante de um projeto de realização das possibilidades pessoais de um ser humano. Por meio de uma redução fenomenológica, a pessoa cria as condições para considerar uma situação específica como desprovida de certos valores que a faziam viver essa mesma situação. Percebe essa situação como o fechamento de determinadas possibilidades de existência. A existência impõe ao ser humano essa ansiedade para a mudança e a disposição para reconhecer um estado ou uma maneira específica de viver como algo limitante – esse sentimento de não pertença que nos impulsiona para uma ação transformadora seria o Nada.
A realidade humana é livre na exata medida em que tem-de-ser seu próprio nada. Esse nada tem-de-sê-lo em múltiplas dimensões: 1) temporalizando-se, ou seja, sendo sempre à distância de si mesmo, o que significa que não pode deixar-se determinar jamais por seu passado para executar tal ou qual ato; 2) surgindo como consciência de algo e (de) si mesmo, ou seja, sendo presença a si e não apenas si, o que subentende que nada existe na consciência que não seja consciência de existir, e que, em conseqüência, nada exterior à consciência pode motivá-la e 3) sendo transcendência, ou seja não algo que primeiramente seja para colocar-se depois em relação como tal ou qual fim, mas, ao contrário, um ser que é originariamente projeto, ou seja, que define-se por seu fim. (Sartre, 1946, p. 559)
A consciência é entendida aqui como um processo reflexivo exercido deliberadamente sobre objetos escolhidos pelo sujeito. Nesse processo, o sujeito toma a si próprio como objeto de reflexão e pode, ou não, sentir-se angustiado com a maneira como tem
sido reconhecido, ou como se reconheceu em um dado momento. A consciência propicia o ato voluntário de mudança em favor de um projeto pessoal que ainda não existe quando o sujeito se projeta para o futuro. A consciência não é, de maneira alguma, uma revelação que se abate sobre um sujeito; pelo contrário, é um esforço de agir de uma maneira que ele reconhece como possível, mas que ainda não é. Eis aqui um marco fundamental do existencialismo – estando no mundo assumindo sua liberdade como um esforço ativo diante das suas próprias possibilidades, o ser humano se lança para o futuro, para o que ainda não é, mas anseia sê-lo. A escolha remete a um futuro e a uma abertura de possibilidades de existência. O limite dessa liberdade é o tempo, pois o ser humano não sabe quando seu tempo acabará. Daí que a morte não seja um limite para a liberdade, pois ela está para além da escolha possível do ser humano.
Na obra de Sartre a pré-sença e o devir humano são reinterpretados como liberdade. Uma liberdade da qual não se pode fugir e que diante da qual nos resta tornarmo-nos responsáveis pelo seu exercício. A reflexão em torno da experiência do ser aí, a consciência irrefletida e a consciência refletida, possibilitam o reconhecimento próprio da liberdade e a oportunidade para escolher o caminho da ação. O rigor de Sartre para afirmar o ser humano como exercício da liberdade responsável foi importante para fundar algumas abordagens psicológicas calcadas no existencialismo (May, 1994b[1958]; Angerami-Camon, 1998; Ellenberger, 1994 [1958]).
Sartre (1946) enfatiza a responsabilidade humana por sua existência, conferindo pouco peso para o contexto social que contextualiza a existência. Recebeu diversas críticas por essa postura, mas, apesar do seu viés, ele estabelece uma referência segura para uma reflexão radical sobre as possibilidades de escolha humana em seu processo existencial. Quando ele afirma que “Para a realidade humana ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, ou tampouco de dentro, que ela possa receber ou aceitar” (Sartre, 1946, p. 545) temos uma clara provocação para a assunção de si frente aos condicionamentos sociais, históricos e pessoais como determinantes da existência.
A teorização de Sartre é bastante rigorosa ao aproximar o conceito de dasein à liberdade existencial. Entretanto na medida em que ele busca generalizar o uso dos seus conceitos ele se distancia das possibilidades de reflexão sobre as experiências concretas que sustentam os avanços da fenomenologia. É na obra de Beauvoir que o método fenomenológico se vai além das generalizações sobre o ser humano, necessárias para o desenvolvimento rigoroso do método, e se fixa sobre a consciência de um ser específico: o ser mulher. Apropriando-se da fenomenologia, Beauvoir apresenta a força do método para
evidenciar o que, até então, era quase imperceptível. Intencionando o ser mulher ela apresenta os condicionantes sociais que impedem a percepção das diferenças entre os seres humanos generizados como homens ou mulheres.
3.3 Os limites para o exercício da liberdade – o existencialismo crítico de Simone de