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CHAPITRE 3 MÉTHODOLOGIE

3.2 Appropriation des bases de données

3.2.2 Identification des accidents TMD dans la base globale

Após ter situado o solo teórico-metodológico que nos apoiamos para guiar e encaminhar a nossa proposta28 de pesquisa, apresentamos agora o cenário e os participantes.

Dividida em duas etapas, participaram da primeira29 vinte e sete trabalhadores de uma equipe30 de CAPS II da RAPS da cidade do Recife. Trabalhadores de todas as categorias profissionais e níveis de escolaridade estiveram no foco do nosso investimento investigativo- interventivo, participando: quatro psicólogos, três assistentes sociais, três terapeutas

28 O Projeto foi submetido ao Comitê de Ética da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e à Plataforma Brasil, tendo sido aprovado (CAAE n. 06012012.9.0000.5537).

29 A segunda etapa está indicada mais à frente no texto.

30 No período de realização da primeira etapa, a equipe era composta por trinte e cinco trabalhadores. Desses, vinte e cinco são estatutários e onze possuíam contrato de trabalho temporário. Três estavam de férias e dois de licença.

ocupacionais, quatro enfermeiros, cinco psiquiatras, um farmacêutico, três auxiliares e técnicos de enfermagem, um agente administrativo, um motorista e dois coordenadores, gerentes do CAPS.

A escolha dos participantes atendeu ao critério da disponibilidade dos trabalhadores. Isso porque, como nossa proposta estava inscrita em, além de conhecer o modo como a equipe operava na crise e nas ações do matriciamento, um convite-oferta de análise e (re) construção de sentido das práticas desenvolvidas, importava-nos que participassem apenas aqueles que se dispusessem. Movidos pelo ideário interventivo da pesquisa, porém, apesar de ter sido explicitado a toda equipe esse critério, de nosso lado, empreendemos esforços em sensibilizar os trabalhadores a participarem, especialmente durante seu curso de realização.

Os CAPS da cidade de Recife estão distribuídos em seis Distritos Sanitários e, na época de realização da primeira etapa, totalizavam dezoito unidades, sendo seis CAPS II, dois CAPS III, três CAPS i e seis CAPS AD – que funcionam como referência para uma população de um milhão e meio de habitantes. Desses dois CAPS III, um deles era um CAPS II e tinham acabado de se transformar em CAPS III. Mais três CAPS II estavam em processo de transformação para CAPS III. Neste cenário, identificamos na política local um momento de investimentos em mudanças, fértil e oportuno para a nossa proposta de pesquisa interventiva.

A escolha em realizar a pesquisa no cenário da RAPS da cidade do Recife se deu especialmente porque – tendo sido recentemente coordenadora de um CAPS dessa RAPS e, por isso, sabendo e tendo acompanhado seu investimento na direção de fortalecer a atenção à crise e as ações do apoio matricial através dos CAPS – o consideramos sintonizado com os interesses. A definição do CAPS eleito também se fez por razões que sintonizava o Serviço com nossas intenções interventivas.

Interessados em compreender a atenção à crise e as ações do matriciamento, sabendo estar em curso no momento de realização da pesquisa um processo de transformação de três CAPS II em CAPS III, consideramos que eleger um desses quatro serviços era possibilitar uma oportunidade de viabilizar, em algum nível, as intenções interventivas da pesquisa. Isto porque entendemos que, experimentando o processo de transformação de CAPS II para CAPS III, a temática da atenção à crise estaria, naquele momento, especialmente colocada como um dos focos de reflexão, questionamento e/ou investimento desses serviços.

Na esteira da reorganização do processo e da dinâmica de trabalho que esse tipo de transformação impõe aos trabalhadores desses serviços, consideramos que as ações do matriciamento também teriam de ser tocadas e discutidas. Assim sendo, supúnhamos um campo de afetação aberto nestes serviços em relação aos eixos da pesquisa e, com ele, um ponto de convergência de interesses relevante entre nós e eles. Era oportuno e estratégico que pudéssemos lançar a nossa proposta em um desses CAPS. Avaliamos que esse momento de transformação tornava-os espaços potentes aos nossos anseios de disparar deslocamentos.

Dos três CAPS que estavam vivendo esse processo de transformação, dois se revelavam como espaços potenciais de realização da pesquisa. O outro carregava aspectos que colocou em análise a nossa participação: eu havia trabalhado recentemente na condição de coordenadora e, ainda atravessada por essa experiência, não me sentia afetivamente confortável para realizar as experimentações da pesquisa no local. Nesse sentido, evitando efeitos da sobreimplicação31, avaliamos ser prudente não elegermos este serviço.

Nessa decisão, muito nos ajudou uma orientação da cartografia que nos fez atentar para a regra da prudência; regra que, “. . . permite discriminar os graus de perigo e de potência, funcionando como alerta nos momentos necessários” (Rolnik, 2007, p. 69). Ou seja, por meio da prudência se avalia o quanto se suporta, no sentido do limite da tolerância do

31 A sobreimplicação diz respeito à dificuldade, ou mesmo à impossibilidade de analisar as implicações para com as instituições (Monceau, 2013).

corpo vibrátil, que capta aspectos intransmissíveis por meio das representações (Rolnik, 2007).

Em um deles, eu tinha realizado minha pesquisa de mestrado e, mesmo com uma forte tendência inicial de voltar a ele – onde tinha tido uma experiência de boas trocas e trânsitos – avaliamos que, diante de outra proposta desenhada na pesquisa atual, pudesse ser enriquecedor partir para um novo espaço de experimentações, que potencialmente proporcionasse a abertura de outras reflexões e novas composições.

Abrindo um processo de análise de implicação que nos convoca a perspectiva da Análise Institucional e nos permita uma escrita cartográfica que nos inspire, primeiro, a uma conversa com os nossos afetos atravessados na experimentação da pesquisa e, depois, ao livre compartilhamento dessa experiência com o leitor, registramos que a decisão de abrir mão da realização da pesquisa no CAPS em que realizamos nossa pesquisa de mestrado não foi uma decisão muito simples. Apontando o horizonte de um bom espaço de receptividade e acolhimento à pesquisa, seria afetivamente confortável investir nele.

Além disso, de alguma forma, submetida aos prazos institucionais que a condição de pesquisador nos coloca, optar por aquele serviço também poderia funcionar como um atalho nos tempos das negociações que a procura por um espaço novo me imporia. Entretanto, mesmo diante de um espaço confortável e receptivo, prevaleceu a aposta no novo, o que traduzia um movimento de singularização e deslocamentos aberto em meu processo de subjetivação no curso da pesquisa.

Em busca desse novo e da diferença, direcionei-me a outro CAPS. Isso porque uma peculiaridade relevante desse Serviço é que, dos três CAPS citados, ele era o que eu, mesmo tendo sido trabalhadora da rede, até o momento não havia tido oportunidades de aproximação, desconhecendo seu modo de funcionar, assim como desconhecia a maioria de seus trabalhadores e o próprio território onde ele está inserido.

A essa altura, já estávamos em contato constante com a Coordenação de Saúde Mental do município, que, disponível, acompanhou o processo de definição da escolha do serviço em sintonia com os objetivos da pesquisa. Dela recebemos a sinalização de um CAPS como um espaço com perfil potencial de acolher a proposta da pesquisa e, com o apoio dado, ajudou a fechar o quebra-cabeça da eleição do CAPS da pesquisa.

Este CAPS é uma unidade de saúde mental do Distrito Sanitário II, que compõe, junto com outros equipamentos – CAPS AD, CAPS i, unidades do Programa de Saúde da Família, Unidades Básicas de Saúde, Núcleos de Atenção a Saúde da Família, equipes do Programa de Agentes Comunitários de Saúde, Residência Terapêutica, ambulatórios, Consultórios de Ruas, Albergue Terapêutico, Serviço de Emergência Psiquiátrica (SEP) – a RAPS da cidade do Recife (Recife, 2012).

Está situado na zona norte, no bairro Torreão, e é referência para dezoito bairros32 do referido distrito, além de atuar como referência para seis Serviços Residenciais Terapêuticos. Tinha treze anos33 de funcionamento desde sua inauguração. Caracteriza-se como CAPS II e é um dos três CAPS citados anteriormente que aguarda a transformação para CAPS III. Com esse horizonte de transformação iniciado há um ano e meio, vem funcionando em horário estendido, em finais de semanas e feriados.

Tem como público-alvo, pessoas maiores de quinze anos que estejam apresentando intenso sofrimento psíquico e que demandem acolhimento e cuidados especializados, abrangendo de cem a cento e vinte usuários por mês, distribuídos nas diversas modalidades. Segundo referencia seu Projeto (2006, p. 18), o CAPS é um serviço que se propõe “. . . a substituição progressiva do modelo asilar de atendimento ao usuário em saúde mental”, atendendo a necessidade de concretizar uma nova forma de pensar a assistência, “. . .

32 Arruda, Campina do Barreto, Campo Grande, Encruzilhada, Hipódromo, Peixinhos, Ponto de Parada, Rosarinho, Torreão, Água Fria, Alto Santa Terezinha, Bomba do Hemetério, Cajueiro, Fundão, Porto da Madeira, Beberibe, Dois Unidos e Linha do Tiro.

propiciando um espaço de tratamento humanitário democratizado, enfocando o resgate da cidadania dos portadores de distúrbios psíquicos” (Projeto Técnico, 2006, p. 18). Nesse sentido, acrescenta-se, em contraposição ao projeto manicomial de exclusão, referenciando que ele “. . . projeta ao nível da ação de saúde um „olhar e um modo de operar no qual o „paciente‟, visto como „anormal‟, deve ser reajustado, reciclado, reparado, para ser normalizado aos padrões dos comportamentos dominantes” e que sua desconstrução representa um processo que exige uma “. . . redefinição do „olhar‟ da equipe em relação ao cliente” (Projeto Técnico, 2006, p. 21).

Inscrevendo-se em uma perspectiva psicossocial, “. . . que procura cuidar do sofrimento psíquico, incentivando a autonomia dos indivíduos e a sua permanência em seu meio” (Projeto Técnico, 2006, pp.18-19), o serviço tem entre seus objetivos: “promover um ambiente de acolhimento e cuidado especializado no momento de crise; facilitar o processo de reabilitação psicossocial a partir de atividades produtivas; promover condições para reinserção social através de atividades socioterápicas; estimular a capacidade laborativas dos usuários” (Projeto Técnico, 2006, p. 19). À participação dos familiares é atribuída grande importância para o desenvolvimento do cuidado ao usuário.

Ainda inscritos naquela perspectiva, o Serviço referencia o que chama de “abordagem psicossocial” que “. . . evidencia a interdisciplinaridade do saber e uma postura dialógica de poder . . . não havendo predomínio de linhas teóricas” (Projeto Técnico, 2006, p.20). Buscando atender a essa perspectiva, se compunha por uma equipe multiprofissional de sete psicólogos, cinco psiquiatras, cinco enfermeiros, quatro terapeutas ocupacionais, três assistentes sociais, um farmacêutico, um educador físico, cinco auxiliares de farmácias e técnicos de enfermagem, quatro auxiliares administrativos, três auxiliares de serviços gerais, dois motoristas e dois vigilantes.

Possui um corpo gerencial de três coordenadores que ocupam as funções operacionais, clínica e administrativa. Desse conjunto de trabalhadores, uma parte é concursada e possui vínculos de trabalho estáveis. A outra parte, não concursada, trabalhava por formas de contrato temporárias. Os concursados e mais antigos no CAPS, compunha um núcleo que trabalha junto no Serviço há muito tempo, muitos desde sua inauguração.

Segundo nos referencia o Projeto Técnico, a equipe “. . . se organiza de forma inter e transdisciplinar, de maneira que todas as disciplinas se encontram atravessadas por uma ética comum reunida às óticas particulares orientadas em referência ao sujeito” (Projeto Técnico, 2006, p. 21) e suas demandas. Sobre essa ética comum, vale referenciar o que neste Projeto é trazido como um “objetivo maior”, um horizonte a ser buscado: “. . . o da criação de condições que viabilizem a restauração ou ampliação do poder pessoal de cada usuário, facilitando nesse processo a quebra dessas amarras que o impedem de urdir o tecido da vida” (Projeto Técnico, 2006, p. 25).

Em seu Projeto Técnico (2006), se vendo como uma equipe de tecelões, “. . . invertendo várias vezes o pente da lançadeira e destecendo o tecido, acreditando sempre que a próxima tessitura será bem melhor, neste tecer e destecer, dar nós e desatar enliços . . .” (p.5), considera-se possível “uma tessitura mais madura e cada vez mais centrada nas demandas das pessoas em intenso sofrimento psíquico” (p. 5). Reconhecendo-se num processo contínuo de aprendizado, avaliam-se, dentro do seu Projeto, “. . . a cada ano nos encaixando mutavelmente em nossos veros lugares” (p. 5).

Tendo elegido o Serviço, precisávamos tornar concreta a nossa escolha, obtendo seu aceite em participar. É o que detalhamos no próximo tópico.

2.4. A conquista do campo e o nossa trilha dentro dele: reescrevendo trajetórias de