As motivações que estão por trás das decisões relativas à entrada das empresas estrangeiras nos mercados estrangeiros condicionam seus impactos no país receptor. As motivações podem ser classificadas em quatro grupos: resource seeking; market seeking; efficiency seeking; strategic
asset seeking (DUNNING, 1993 apud GONÇALVES, 2003). As empresas estrangeiras
caracterizadas como resource seeking estão à busca de insumos de baixo custo para produção de bens que, na maioria dos casos, serão exportados para o mercado externo. (DUNNING, 1993 apud GONÇALVES, 2003). Neste caso estas empresas estrangeiras tendem a gerar baixa pressão competitiva nas empresas domésticas que produzem produtos similares para consumo local.
As empresas estrangeiras caracterizadas como market seeking entram no mercado para vender seus bens e serviços. Como estas empresas tem o propósito de comercializar seus produtos, por meio da substituição de produtos já exportados ou por meio da comercialização de novos produtos concorrentes, geram pressão competitiva que varia dependendo do tamanho do mercado e sua taxa de crescimento. As empresas estrangeiras caracterizadas como efficient
seeking entram no mercado com a finalidade de obter vantagens locais que possibilitem a
racionalização da sua estrutura, obtendo benefícios de diversificação de riscos, escala e de escopo (DUNNING, 1993 apud GONÇALVES, 2003).
Já as empresas estrangeiras motivadas pelo strategic asset seeking adquirem ativos estratégicos com a finalidade de fortalecer a sua posição competitiva nos mercados nos quais atua. Estas empresas estrangeiras podem buscar abertura de novos mercados, redução nos seus custos de transação, sinergias ou poder de mercado e consequentemente podem, em determinados mercados, atuar com uma das outras três motivações mencionadas (GONÇALVES, 2003).
No estudo de Gonçalves (2003), dos 370 setores brasileiros analisados durante o período de 1997 – 2000, 322 setores apresentavam empresas estrangeiras com características de market
seeking e market seeking importadora. Dessa maneira, a motivação do market seeking foi
predominante nas empresas que entraram no Brasil neste período. As empresas brasileiras que atuavam em um setor caracterizado por empresas estrangeiras resource seeking eram 18% menos produtivas que as empresas brasileiras inseridas em um setor composto por empresas estrangeiras caracterizadas como market seeking. Já as empresas brasileiras atuantes em um setor caracterizado como market seeking importadoras eram 13% menos produtivas que as empresas brasileiras inseridas em um setor caracterizado market seeking. Esta constatação corroborou a hipótese de que as empresas com características de market seeking desenvolvem mais ligações com os seus fornecedores locais do que as empresas estrangeiras caracterizadas como resource seeking (GONÇALVES, 2003).
Outras motivações indicadas em estudos empíricos sobre o tema as externalidades do IED são baseadas nos conceitos de technology-exploiting e technology-sourcing. As empresas multinacionais caracterizadas como technology-exploiting costumam trazer para o mercado receptor a sua tecnologia proprietária. Consequentemente, essas empresas costumam gerar mais externalidades de produtividade do que as multinacionais que se engajam no processo de
technology-sourcing (FOSFURI; MOTTA, 1999; DRIFFIELD; LOVE, 2007).
O estudo de Driffield e Love (2007) considerou a entrada de IED de 30 países na Grã-Bretanha. As empresas locais obtiveram externalidades positivas no caso do IED com características de
technology-exploiting, e negativo no caso do IED com características de technology-sourcing.
Girma (2005) conduziu um estudo similar ao de Driffield e Love (2007) e confirmou os resultados do estudo anterior.
No caso do setor automotivo brasileiro a principal motivação do IED foi a do market seeking. Apesar de a hipótese estabelecer que empresas que adentram o mercado estrangeiro por meio da estratégia de marketing seeking tendem criar mais ligações com os fornecedores locais, esta hipótese não é corroborada no caso do setor automotivo, uma vez que que as montadoras e as sistemistas passaram a trabalhar com suas cadeias de fornecedores internacionais. A Empresa Alpha é uma das poucas empresas de capital nacional que se inseriu na cadeia de fornecimento das sistemistas. Entretanto, o IED do setor automotivo brasileiro pode ser caracterizado como
technology-exploiting e dessa maneira tende a gerar externalidades positivas nos integrantes da
sua cadeia de fornecimento.
2.2.4.10 Natureza do Regime de Comércio do País Receptor
Bhagwati (1979 apud LIPSEY, 2002) estabeleceu a seguinte hipótese: países que tem uma estratégia de substituição de importação tendem a atrair menos fluxos de IED do que países que tem uma estratégia de exportação. Este fato ocorre uma vez que o tamanho do mercado exportador é ampliado e os recursos tendem a ser utilizados de maneira mais eficiente. Dessa maneira, as externalidades de produtividade tenderiam a ser positivos nos mercados voltados para fora, e possivelmente negativos nos regimes de substituição de importação (CRESPO; FONTOURA, 2007).
Kokko, Tansini e Zejan (1996), com o propósito de testar se a natureza do regime comercial condiciona a geração das externalidades de produtividade, desenvolveram um estudo sobre a indústria de manufatura uruguaia distinguindo as empresas que se estabeleceram antes da abertura de mercado (pré-1973) daquelas que se estabeleceram após a abertura comercial (pós- 1973). Contrariando a hipótese de Bhagwati (1979 apud CRESPO; FONTOURA, 2006), as empresas que apresentaram externalidades de produtividade foram aquelas que se estabeleceram antes da abertura de mercado.
Liu et al. (2000) distinguiram entre o IED orientado para exportação e o IED orientado para o mercado interno. A conclusão é que as empresas locais se beneficiam do IED orientado para o mercado externo, uma vez que o efeito negativo da competição no mercado local é mitigado quando o IED é voltado para o mercado externo. Em contrapartida, Javorcik (2004) conduziu um estudo na Lituânia que indica que IED orientado para o mercado interno amplifica a geração de externalidade.