Chapitre III. Choix de l’hydrogel
III.5. Hydrogel d’alginate
A História Oral é um misto de método, fonte e técnica, embora também seja evocada como campo científico de disputa de hegemonia acadêmica junto às agências de fomento à pesquisa historiográfica.
A história oral pode ser empregada em diversas disciplinas das ciências humanas e tem relação estreita com categorias como biografia, tradição oral, memória, linguagem falada, métodos qualitativos etc. Dependendo da orientação do trabalho, pode ser definida como método de investigação científica, como fonte de pesquisa, ou ainda como técnica de produção e tratamento de depoimentos gravados235.
Enquanto método de pesquisa a História Oral privilegia o acesso à informações diretamente das fontes testemunhais; e esse método produz fonte, que são os depoimentos, as narrativas, as quais são colhidas através da técnica de entrevista, que ficam à disposição dos estudiosos, como é o caso do banco de dados do CPDOC236 da Fundação Getúlio Vargas.
Especificamente, neste trabalho acadêmico foi usado a História Oral, enquanto abordagem, isto é, enquanto método, no processo de construção da história da UEMA, que é um campo acadêmico no qual sujeitos se embatem na disputa de espaços que lhes garantam poder. Nesse intento, objetivou-se refletir inicialmente sobre os conceitos de história, história oral, memória, fontes orais, os quais precisam ser revisitados, a fim de que o leitor possa se situar no contexto da discussão. Em seguida foi realizada a discussão sobre o uso de história oral ou de fontes orais na construção de uma história da UEMA.
235 ALBERT, Verena. Manual de História Oral. 3. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2005, p. 17. Grifo do autor. 236 Centro de Pesquisa e Documentação.
A história oral é uma “metodologia histórica que trabalha com depoimentos orais, realizando entrevistas a partir das quais o historiador constrói suas análises”237. A entrevista é a técnica de obtenção dos dados que, uma vez transcrita,
se constitui num documento. Portanto, a história oral é uma fonte construída pelo historiador, literalmente falando, mas não se pode descartar a ação do sujeito que fornece os dados; diferente da fonte documental, a qual é recebida pelo historiador. Por isso, há que se ter com relação aos depoimentos dos sujeitos os mesmos cuidados que são dispensados aos documentos, quanto à análise crítica, pois as falas dos sujeitos, muitos anos após o ocorrido, são ressignificações dos acontecimentos, a partir do tempo presente.
Foram entrevistados sujeitos que tiveram papel ativo nos tempos compreendidos desde a criação das escolas superiores238, passando pela instituição
da Federação das Escolas Superiores do Maranhão (FESM)239 e pela instituição e
consolidação da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA)240. Tais sujeitos são
profissionais egressos dos cursos oferecidos, agentes administrativos e professores ativos e inativos, inclusive aqueles que exerceram funções administrativas de diretor de curso, chefe de departamento, presidente (FESM) e reitor (UEMA). Esses sujeitos foram contatados previamente, de modo informal, para serem informados sobre o objetivo da pesquisa e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), bem como para escolherem o melhor dia e a melhor hora e o melhor local para a concessão da entrevista. E como alguns sujeitos manifestaram preocupação quanto às perguntas a serem feitas no dia da entrevista, foi solicitado que procurassem se lembrar dos acontecimentos presenciados, durante a trajetória na UEMA, que julgassem mais importantes para serem conhecidos por todos. Optou-se por um roteiro flexível, apenas com aspectos a serem narrados (ver apêndice). E as narrativas orais de cada sujeito foram cedidas pelos entrevistados para utilização como fontes primárias agora, na elaboração dessa tese, e posteriormente.
Deste modo, “o conhecimento histórico como qualquer outro se constrói com informação e conceitos, com observação e com pensamento formal, estando
237 SILVA & SILVA, 2006, op. cit. p. 186.
238 Escola de Administração – 22.12.1966, Escola de Engenharia – 08.06.1967, Faculdade de Formação de
Professores de Caxias – 23.02.1968, Escola de Agronomia – 03.11.1969.
239 1972-1981 240 1982-1994
ambas as coisas ligadas dialeticamente”, segundo Julio Aróstegui241. Isso significa
que fontes e categorias são instrumentos fundamentais no trabalho historiográfico, bem como técnicas, que permitem ao historiador desenvolver a operação historiográfica. Esses três instrumentos, entrelaçados dialeticamente, permitem a construção da narrativa histórica, considerando que o trabalho do historiador não é neutro, mas reflete seu posicionamento na sociedade, muito embora o objetivo final seja a construção de uma verdade histórica.
3.3.1 Contexto histórico da história oral e principais conceitos
A oralidade em forma de tradição oral foi muito utilizada no início da formação da História enquanto campo de conhecimento, portanto, a história oral não é algo recente, pois os antigos historiadores gregos, Heródoto e Tucídides, na confecção de seus textos, consideravam as testemunhas orais dos acontecimentos. Também o povo judeu, segundo a exegese bíblica, nunca depreciou a tradição oral enquanto fonte da revelação divina. E a Igreja Católica sempre considerou como bases da fé três fontes: o texto sagrado, a tradição oral e os ensinamentos pontifícios. Mas, depois, por muito tempo, a história foi feita a partir somente de documentos, com preferência pelos oficiais, principalmente a partir do século dezoito e dezenove, com o advento da tendência positivista nas ciências sociais e na filosofia, quando se tornou regra aceita por todos que “história se faz com documentos”.
Foi a partir da década de 1940, mais precisamente em 1948, com o advento do gravador portátil, que a História Oral foi instituída como uma abordagem da História Política, “como uma técnica de documentação histórica, quando Allan Nevins, historiador da Universidade de Colúmbia, começou a gravar as memórias de personalidades importantes da história norte-americana”242. No Brasil, após mais de
duas décadas, sob a inspiração do Programa de História Oral da Universidade de Colúmbia, houve uma replicação dessa iniciativa na década de 1970, mais precisamente a partir de 1973, quando da criação do Programa de História Oral do CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas, cujos estudos foram voltados para
241 AROSTEGUI, 2006, op. cit. p. 488.
documentação oral de lembranças da elite política243. É constatado que aqui e em
outros países a História Oral se desenvolveu muito com as ditaduras, pela inexistência ou dificuldade de acesso às fontes escritas.
Porém, na década de 1970, nos Estados Unidos, o método da História Oral, a despeito de ter surgido com interesse na História Política, ligou-se à História Social244, voltando-se para a tematização da história dos excluídos (índios, negros,
mulheres, operários)245. Nessa perspectiva, “a força da história oral, todos sabemos,
é dar voz àqueles que normalmente não a têm: os esquecidos, os excluídos ou, retomando a bela expressão de um pioneiro da história oral, Nuno Revelli, os ‘derrotados’”246, inclusive os povos ou grupos à margem da escrita, buscando
registrar suas recordações, isto é, as impressões que os fatos ou acontecimentos deixaram em suas memórias individuais e coletivas.
No Brasil, apesar da iniciativa da Fundação Getúlio Vargas, a História Oral, até o início da década de 1990247, vivia o seguinte desprestígio: “... não merecia
figurar nos currículos dos cursos universitários, não implicava nenhuma reflexão específica e nem contava nas programações de seminários e simpósios”, tendo tomado impulso só a partir da criações da Associação Brasileira de História Oral (ABHO), em 1994, e da Associação Internacional de História Oral (IOHA), em 1996, bem como da realização, no Rio de Janeiro, do X Congresso Internacional de História Oral, em 1998.
É unânime na produção historiográfica a convicção de que a História Oral se consolidou no mundo e no Brasil a partir da segunda metade da década de 1990 e atualmente vive a sua maturidade, com uma produção acadêmica vultosa, inclusive no Brasil, haja vista que, desde a Conferência Internacional do Rio de Janeiro, em 1998, até a XIV Conferência Internacional de História Oral, na Austrália, em 2006, foi destacada a participação com apresentação de trabalhos por parte dos pesquisadores brasileiros248, bem como em eventos posteriores.
243 MEIHY, José Carlos Sabe Bom. (Re)introduzindo a História Oral no Brasil. In: ________. (Re)introduzindo a
História Oral no Brasil. São Paulo: Xamã, 1996, p. 5-7.
244 SILVA; SILVA, 2006, op. cit. p. 186. 245 THOMPSON, 1992, op. cit. p. 89. 246 JOUTARD, 2000, op. cit. p. 33.
247 FERREIRA, Marieta de Morais. História oral e tempo presente. In: In: MEIHY, José Carlos Sabe Bom.
(Re)introduzindo a História Oral no Brasil. São Paulo: Xamã, 1996., p. 14.
248 FERREIRA, Marieta de Moraes. Institucionalização e expansão da história oral: dez anos de IOHA. História
Mas permanece o antigo dilema: ser um campo de conhecimento ou uma metodologia? História oral ou fontes orais? O que é mesmo a história oral? As respostas obtidas são variadas. Mas a maior parte da bibliografia consultada compreende a história oral como abordagem, como metodologia para a obtenção de fontes para a elaboração historiográfica. Assim, a história oral é uma “metodologia histórica que trabalha com depoimentos orais, realizando entrevistas a partir das quais o historiador constrói suas análises”249. Portanto, a história oral, como método-
fonte-técnica, é “um método de pesquisa (histórica, antropológica, sociológica etc.) que privilegia a realização de entrevistas com pessoas que participaram de, ou testemunharam acontecimentos, conjunturas, visões de mundo, como formas de se aproximar do objeto de estudo”250.
Ao analisar e relacionar todos os fenômenos com a vida dos sujeitos da história, na perspectiva da história local ou da microhistória, é adequado utilizar fontes orais na investigação, na confecção da história, incorporando-as “como uma fonte documental a mais”251, pois a história oral é “um conjunto orgânico e coerente
de entrevistas”252.
Como a história é criada em torno de pessoas em relações de produção da existência, com uma finalidade social, a inexistência de história suscita a necessidade de cria-la. Aí reside, em parte, o desafio da História Oral. Pois, segundo Thompson, “quando não existe história alguma disponível, ela é criada”253.
A história oral é uma história construída em torno de pessoas. Ela lança a vida para dentro da própria história e isso alarga seu campo de ação. [...] Traz a história para dentro da comunidade e extrai a história de dentro da comunidade. Ajuda os menos privilegiados, e especialmente os idosos, a conquistar dignidade e autoconfiança254.
A história oral é construída na dependência da memória e do monumento, em que memória significa monumento e monumento significa memória, ambas
249 SILVA & SILVA, 2006, op. cit. p. 186. 250 ALBERTI, 2005, op. cit. p. 18.
251 GARRIDO, Joan del Alcàzar i. Fontes orais na pesquisa histórica: uma contribuição ao debate. Revista
Brasileira de História, São Paulo, v. 13, n. 25/26, p. 33-54, set. 1992/ago. 1993, p. 33/34.
252 Ibid. p. 38.
253 THOMPSON, 2002, op. cot. p. 21. 254 Ibid. p. 44.
palavras de origem latina. Segundo o “Aurélio”255, memória significa: “ 1. Faculdade
de reter as ideias, impressões e conhecimentos adquiridos anteriormente; tem boa memória. 2. Lembrança, reminiscência, recordação: A memória daqueles dias. 4. Monumento comemorativo”256. E monumento significa: “1. Obra ou construção que
se destina a transmitir à posteridade a memória de fato ou pessoa notável. 2. Edifício majestoso; sepulcro suntuoso; mausoléu. 4. Qualquer obra notável. 5. Memória, recordação, lembrança”257. Daí esses dois termos poderem ser
sintetizados como lugares de memória, uma vez que um lugar de memória não necessariamente é um lugar espacial. Mas não se deve esquecer de que “a memória é essencialmente seletiva e, por isso mesmo, parcial e interessada”258.
Não se fala aqui de memória individual, simplesmente, mas de memória coletiva, do que é lembrado e esquecido pela sociedade. Por isso, a memória coletiva é uma conquista, um instrumento e objeto de poder das sociedades cuja memória social é predominantemente oral. De acordo com Le Goff, “a memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens”259.
Contudo, memória e história não são palavras sinônimas, pois tem significados diferentes e opostos.
A memória é a vida, sempre carregada por vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, susceptível de longas latências e de repentinas revitalizações. A história é a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais. A memória é um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história, uma representação do passado. Porque é afetiva e mágica, a memória não se acomoda a detalhes que a confortam; ela se alimenta de lembranças vagas, telescópicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, sensível a todas as transferências, cenas, censura ou projeções. A história, porque operação intelectual e laicizante, demanda análise e discurso crítico. A memória instala a lembrança no sagrado, a história a liberta, e a torna sempre prosaica. (...) A história, ao contrário, pertence a todos
255 Aurélio, popularmente, no Brasil, a partir da década de 1980, passou a ser sinônimo de dicionário, isto é, do
Dicionário da Língua Portuguesa feito Aurélio Buarque Ferreira.
256 FERREIRA, 1993, op. cit. 257 FERREIRA, 1993, op. cit. 258 GARRIDO, 1993, op. cit. p. 38. 259 LE GOFF, 2003, op. cit. p. 471.
e a ninguém, o que lhe dá uma vocação para o universal. A memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto. A história só se liga às continuidades temporais, às evoluções e às relações das coisas. A memória é um absoluto e a história só conhece o relativo. ... A memória é sempre suspeita para a história, cuja verdadeira missão é destruí-la e a repelir. A história é deslegitimação do passado vivido260.
As lembranças dos indivíduos se organizam agrupando-se em torno da pessoa e distribuindo-se em uma sociedade, portanto, como memória individual e coletiva, assim:
Por um lado, suas lembranças teriam lugar no contexto de sua personalidade ou de sua vida pessoal... Por outro lado, em certos momentos, ele seria capaz de se comportar simplesmente como membro de um grupo que contribui para evocar e manter lembranças impessoais, na medida em que estas interessam ao grupo.261.
A memória individual (pessoal) e a memória coletiva (social) se interpenetram e se apoiam, mas não se confundem. Ambas se apoiam na história vivida, pois “a lembrança é uma reconstrução do passado com a ajuda de dados tomados de empréstimo ao presente e preparados por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora já saiu bastante alterada”262.
Por isso, a reprodução, algum tempo depois de um mesmo fato, presenciado por duas pessoas, não apresenta traços idênticos.
A memória coletiva ... é o grupo visto de dentro e durante um período que não ultrapassa a duração média da vida humana, que de modo geral, lhe é bem inferior. Ela apresenta ao grupo um quadro de si mesma que certamente se desenrola no tempo, já que se trata de seu passado, mas de tal maneira que ele sempre se reconheça nessas imagens sucessivas. A memória coletiva é um painel de semelhanças, é natural que se convença de que o grupo permaneça, que tenha permanecido o mesmo... Como o grupo é sempre o mesmo, as mudanças devem ser aparentes: as mudanças, ou seja, os acontecimentos que ocorreram no grupo, se resolvem em semelhanças, pois parecem ter papel desenvolvedor sob diversos aspectos um conteúdo idêntico, os diversos traços essenciais do próprio grupo”263.
260 NORA, 1993, op. cit. p. 9.
261 HALBWACHS, Maurice. Memória coletiva e memória histórica. In. _______. A memória coletiva. São Paulo:
Centauro, 2006, p. 71.
262 Ibid. p. 91. 263 Ibid. p. 109.
Portanto, a memória, individual ou coletiva, é constituída por acontecimentos, personagens e os lugares de memória. E, no trabalho de enquadramento da memória e no trabalho da memória em si, a memória é seletiva, construída e identitária. Por isso “cada vez que uma memória está relativamente constituída, ela efetua um trabalho de manutenção, de coerência, de unidade, de continuidade, da organização”264.
Se a memória é socialmente construída, é óbvio que toda documentação também o é. Para mim não há diferença fundamental entre fonte escrita e fonte oral. A crítica da fonte, tal como todo historiador aprende a fazer, deve, a meu ver, ser aplicada a fontes de tudo quanto é tipo. Desse ponto de vista, a fonte oral é exatamente comparável à fonte escrita. Nem a fonte escrita pode ser tomada tal e qual ela se apresenta”265.
A história oral, ao privilegiar a análise dos excluídos, evidenciou o valor das “memórias subterrâneas” que se opõem à "memória oficial"266.
A memória, essa operação coletiva dos acontecimentos e das interpretações do passado que se quer salvaguardar, se integra, como vimos, em tentativas mais ou menos conscientes de definir e de reforçar sentimentos de pertencimento e fronteiras sociais entre coletividades de tamanhos diferentes: partidos, sindicatos, igrejas, aldeias, regiões, clãs, famílias, nações etc. A referência ao passado serve para manter a coesão dos grupos e das instituições que com• põem uma sociedade, para definir seu lugar respectivo, sua complementariedade, mas também as oposições irredutíveis267.
Infere-se que a história oral, enquanto passado ressignificado pela memória, tem finalidades sociais essenciais para as sociedades que ainda não construíram uma história escrita. Por isso, é imperativo respeitar três fidelidades que estão na origem da história oral: “ouvir a voz dos excluídos e dos esquecidos; trazer à luz as
264 POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, p. 200-212,
1992, p. 206.
265 Ibid., p. 207.
266 POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 3-15,
1989, p. 3
realidades "indescritíveis", quer dizer, aquelas que a escrita não consegue transmitir; testemunhar as situações de extremo abandono”268.
Como a escrita é seletiva, limita ou abrevia, por falta ou por excesso de responsabilidade, as expressões de sentimentos silenciam a comunicação de fatos ou fenômenos inconfessáveis experienciados e ressignificado pelos sujeitos ao longo de suas vidas, a oralidade faz lembrar aos borbotões o que a memória guardou ou deixou de guardar. E aí é que mora o perigo para quem trabalha com fontes orais, por exemplo: as memórias sociais muitas vezes são memórias cristalizadas, ou seja, um grupo fixa algo que entende por memória e as pessoas decoram isso, tendo ou não participado daquilo, como sendo suas próprias vivências. Também ela vai sendo enquadrada, para ficar com menos arestas, sem fricções. Assim, o tempo presente e até futuro contamina a memória do passado.
3.3.2 O uso de fontes orais na construção de uma história da UEMA
Como um exemplo típico de memória cristalizada, há uma narrativa bem sintética da trajetória da UEMA, já exposta na introdução deste trabalho, a qual tem sido repetida constantemente em discurso de aniversário da instituição ou de colação de grau, na apresentação de um Projeto Político Pedagógico de curso e no do Plano de Desenvolvimento Institucional na UEMA. E essa é a história da UEMA conhecida por parte do corpo discente, do corpo docente e do corpo técnico- administrativo; portanto, essa é a memória oficial da UEMA divulgada principalmente por dirigentes. Mas, quando da busca de fontes para a construção dessa história da UEMA, cada pessoa que se dispôs a colaborar com uma entrevista apresentava uma história única, com traços comuns e diferentes ou opostos aos demais ou ao que a maioria havia mencionado de um mesmo acontecimento, e fazia questão de destacar com bastante ênfase a sua participação nos acontecimentos considerados mais relevantes, evidenciando apenas aqueles aspectos dignos de aprovação pela comunidade universitária.
Como as fontes da história oral são pessoas, e não documentos, nesse ponto é evidenciado o paradoxo principal: as pessoas não aceitam que suas vidas sejam reduzidas a fatos à mercê da visão de outros, pois a visão do entrevistado já
está embutida em sua fala, bem como a motivação para dar a entrevista, a qual está repleta pelo interesse de recordar e contar a sua versão do fenômeno experienciado na sua subjetividade.
[...] a subjetividade existe, e constitui, além disso, uma característica indestrutível dos seres humanos. Nossa tarefa não é, pois, a de exorcizá-la, mas (sobretudo quando constitui o argumento e a própria substância de nossas fontes) a de distinguir as regras e os