4. EQUIPMENT
4.3. Hybrid multimodality systems
Entrevista feita com Jorge Portugal – Apresentador e consultor pedagógico do programa
Aprovado
Realizada em maio de 2009 Duração: 27' 03''
ESTHER VÁSQUEZ - Como surgiu a idéia do programa Aprovado?
JORGE PORTUGAL - A idéia surgiu justamente de uma co-ação que nós fizemos, eu e alguns colegas de curso pré-vestibular. Nós todos estudávamos no Colégio Central... o Portela, o Edmundo, no Anísio Teixeira, no Clériston Andrade.
Um belo dia eu disse assim: “ó gente, nós estamos aqui, temos hoje uma vida tranqüila, estamos bem colocados no mercado porque nós tivemos uma excelente escola pública, que foi o Central naquele tempo. Então eu acho que é mais do que obrigação nossa devolver um pouco essa escola pública que ela nos deu. Aquela que hoje não pode dar aos alunos o que ela nos ofereceu” e os convidei pra gente fazer um trabalho voluntário: dar aulas nos fins de semana no Central. Isso em 2000.
Bom, então todo sábado, todo domingo, a gente ia pra lá fazer uma revisão com os alunos do Central... era uma loucura, gente como-o-quê subindo... e aí um belo dia eu pensei: “Meu Deus se a gente for fazer isso como todos os colégios que começaram a pedir a gente só vai terminar em 2100, em 2050. Imagine a Bahia toda. Se fosse só Salvador já seria complicado, quanto mais a Bahia toda”. Foi então que me veio a idéia de elaborar um projeto em que a gente pegasse esse trabalho que a gente estava fazendo em um lugar determinado e levasse e pra outro que fosse de longo alcance sem precisar desprender esse corre-corre todo e era a televisão. Eu fiz o projeto, fui conversar com um amigo meu, que era Secretário da Fazenda na época, Albérico Mascarenhas. Ele ficou entusiasmado pelo projeto e ali nasceu o Faz Universitário, em 2001. O primeiro nome foi Faz Universitário. Começamos na TV Educativa e o programa visava preparar o estudante das rede publica pra fazer o vestibular. E se ele passasse a Secretaria da Fazenda tem articulação com a Secretaria de Educação dava a ele uma bolsa chamada Faz Universitário. Para que ele pudesse estudar, se manter no caso de a faculdade ser particular Pois bem, esse programa logo em três meses em 2001, começou um logo a pontiar a audiência da TVE. Mas eu tinha a convicção de que na TVE... naquela época a TVE não tinha o alcance que tem hoje, tinha um alcance limitado. Foi aí, então, que eu soube de um amigo meu que estava dirigindo a TV Bahia também outro programa para adolescentes. Começamos a conversar, eu e Rogério que era o gerente. Ele: “não rapaz, de fato há possibilidade. Rodolfo é uma pessoa aberta, você sabe disso. Vamos levar a idéia para ele”. Rogério era o gerente de programação da TV Bahia e Rodolfo Tourinho era o diretor, esse nosso amigo.
Aí fomos lá e levamos esta proposta a ele. Ele adorou a proposta, imediatamente bancou e começamos na TV Bahia que não podia mais ter o nome de Faz Universitário porque Faz Universitário era o nome de um programa do governo.
Aí eles pediram que eu bolasse outro nome e eu botei Aprovado! Então vamos fazer o Aprovado! a partir de agora. E daí então estamos aí no ar na TV Bahia
EV - O programa tem música, vídeos, entrevistas. Como surgiu esse formato?
jovens eu fiquei observando todos os programas que haviam no ar e eu digo: “meu deus não é possível, em sala de aula de cursinho, a gente contando piada, plantando bananeira tem aluno que ainda dorme quanto mais a televisão ele só vai “PAC”. Então um programa, na minha concepção, tinha que ser uma mistura de aula de cursinho, talk show e MTV. Se eu conseguir temperar os três elementos na dose certa esse programa vai ser sucesso.
Eu acho que eu consegui. Porque o programa está aí com uma audiência estrondosa. Tem a música. A música é a parte MTV, a parte que vai pontuar todo o trabalho de reflexão. O talk show, que é a entrevista que a gente faz e a aula de cursinho são as Dicas do mestre mais a orientação profissional Ralando na área e vai por aí.
EV - Como são escolhidos os temas de cada programa?
JP - São escolhidos muito em função do currículo determinado pelo vestibular. O vestibular, infelizmente, ele determina tudo aquilo que o ensino médio hoje faz. Então, baseado na incidência dos assuntos que mais tem caído no vestibular, e aí a gente chama isso de assuntos quentes do vestibular, nós vamos pautando os assuntos sobretudo aqueles que a escola, principalmente a escola publica, não dá conta.
Se em um cursinho pré-vestibular não dá conta, digamos... ocorreu aquela tragédia das chuvas aqui em Salvador, o módulo do cursinho não vai trazer isso no mês seguinte por quê? Porque esse módulo já foi preparado com antecedência e roda numa gráfica mas eu posso fazer. É só entrar na televisão e dizer “olha eu vou trazer o convidado; chamar os alunos; a gente vai discutir isso”.
Então eu tenho a velocidade que o curso pré-vestibular não tem, que o colégio não tem, enfim, que a escola normal não tem. Por isso é que eu pauto os chamados assuntos quentes e aqueles interdisciplinares que eu tenho certeza que estão sendo mal abordados ou nem estão sendo abordados.
E a UFBA cobra e agora com o novo vestibular está cobrando mais ainda.
EV - Como são escolhidos os artistas? Há um incentivo aos artistas regionais?
JP - Olhe bem. Na verdade, quando você tem em um programa de educação e cultura, você tem que fazer uma participação musical ou pelo menos estimular uma participação musical que seja coerente com o conteúdo que você está fornecendo. Eu não posso levar, por exemplo, a música que está na corrente principal das FMs porque nada tem a ver com educação, muito pelo contrário são músicas que deseducam, que deseducam. Então eu não poderia levar um pagode baiano, eu não poderia levar uma música sertaneja que pouco vai dizer a isso. Eu vou levar um artista que não tenha oportunidade na mídia e que tenha um trabalho muito bom sobretudo sob o ponto de vista da mensagem da letra.
Então este é o critério.
EV - Como são escolhidos os colégios?
JP - Os colégios hoje tem fila pedindo. Antigamente, a gente fazia o convite, chamava a diretora e dizia o que era o programa, enfim... e pedia que preparasse o aluno. Hoje tem fila, sobretudo de colégio do interior. Cidades longínquas querem participar de qualquer maneira. Já houve aqui, alunos vindos de Irecê, vindos de Paratinga. Quer dizer, isso são coisa de 900 Km, 600 Km daqui de Salvador. “Não a gente quer ir sim, de qualquer maneira”. Teixeira de Freitas... meu Deus!
EV - É a produção que vai buscar?
JP - Não... aí não. Aí eu digo: olha eu não posso trazer você. Não existe essa previsão da produção. Você tem que se organizar, ver ai com o prefeito, geralmente é um prefeito que manda ou aluga um ônibus e eles vêm.
EV - Quanto custa pra produzir o aprovado? Com equipamentos, equipe, locação, estúdio, produção de conteúdo e etc.
JP - Isso eu não posso te dizer porque eu não sei. Um coisa é o custo de infra estrutura. Esse é o custo da TV Bahia, com câmeras, estrutura e tudo o mais. Outra coisa é custo de produção, de conteúdo. A nossa responsabilidade é produção de conteúdo.
EV - Quanto custa a produção de conteúdo?
JP - Eu posso dizer o seguinte: o patrocínio da Petrobrás é de 500 mil reais por ano. Se você divide por 10 meses, já que dois entra a revisão, ai você e vai ver que é que tem um custo de 50 mil líquidos que é baixíssimo. Isso não existe (dividido por semana cada um fica por menos de 12 mil ) é.... 12 mil reais.
EV - Existe retorno de imagem e de lucro com o programa?
JP - De lucro não. Não tem mesmo. Muitas vezes, eu já tive que pegar dinheiro emprestado pra poder manter. Isto me aconteceu durante um ano e meio. O patrocínio não veio atrasou e eu pra não tirar o programa do ar tive de recorrer a banco, tive que recorrer a amigos, diminuir a equipe de produção pra gente continuar fazendo o programa. Porque pra TV Bahia isto não é alguma coisa muito vexatória porque ela tem a estrutura dela. Os câmeras estão lá e vão receber por mês. Mira está lá e vai receber por mês, faça o programa ou não faça o programa . Agora eu tenho que providenciar tudo aquilo pra TV sobre o que a gente vai fazer.
EV - E tem retorno de imagem?
JP - De imagem tem. Lógico. De imagem tem desde quando o programa... ele é abraçado pela comunidade da Bahia que o vê como um conteúdo importante para a sua qualificação, formação sobre tudo para a sua juventude e isso dá um retorno de imagem muito grande.
EV - Como se dá o processo de criação dos quadros?
JP - Exato. Isso vai muito da questão que aquele quadro cumpre. Muitas vezes a depender do momento da conjuntura um determinado quadro... ele é mais urgente do que os outros. Você vê que nós tínhamos os quadros fixos que é o papo, a conversa, a entrevista; o Ralando na área , tínhamos a Dica do mestre, tínhamos o Fique por dentro.
Fique por dentro era um VT de apresentação do tema que a gente fazia pra que o telespectador ficasse situado em casa e entender mais ou menos a questão. Ele já não existe porque a familiaridade vai crescendo tamanha com extrema... muitas vezes o telespectador se prepara, já lê, enfim, já toma o périplo que vai ser discutido.
importante. Inclusive muita gente chama o programa de Ralando na área, não chama de Aprovado. Você vê o quanto ele é nosso não é?
Agora os demais quadros, por exemplo a gente tinha quatro Dica do mestre diminuiu pra duas. Nesse momento ainda não foi nenhuma ao ar. Estou esperando chegar um pouco mais a hora da prova pra bombardear esse foco do vestibular porque este ano o programa deixou de ser apenas... aliás desde o terceiro ano que ele já não é mais apenas um programa de pré-vestibular eletrônico como ele nasceu, a idéia original. Ele virou uma revista de educação e cultura porque, se você se recorda eu comecei dizendo que o nosso foco é o estudante da rede pública que não podiam pagar vestibular. O número desses estudantes gira em torno de 170 mil pessoas na Bahia toda. O programa hoje tem algo em torno de 2 milhões de telespectadores. É muito mais gente do que um curso de vestibular poderia comportar. E agora passou a ser também uma revista de conhecimento. Além de ser uma revista de educação e cultura ele passa atuar mais no conhecimento de uma maneira mais ampla integrando e incorporando outras faixas de espectadores que gostariam de ter um programa assim.
EV - Essa mudança de tem relação com as mudanças ocorridas esse ano como a ausência de estudantes no estúdio? E a idéia de debate que vem sendo pontuada constantemente? JP - Aí uma coisa que a gente precisava fazer: o debate. A gente não fazia o debate. Eu tinha o entrevistado, os alunos iam perguntando e tirando dele a aula para fazer as perguntas. Não debatia temas, não havia polêmica, contraposição, reflexão, ponderação. Este ano ele é mais um programa de debate.
E sendo um programa de debates nós estamos trazendo pessoas que já tenham familiaridade maior com o tema. Por exemplo, o programa de cinema. Você viu ali, que nós tínhamos Sérgio Machado, tínhamos Messias Bandeira, nós tínhamos alguns cineastas na platéia debatendo, ator debatendo e vai por aí.
EV - O público que assiste não é o mesmo público alvo?
JP - Não.... é sim!!! O problema é que o programa ampliou o público-alvo. Ampliou pois além dos pré-vestibulandos... você veja que não teve nenhum assunto ali que não fosse ou deixasse de ser assunto de vestibular.
No momento que o vestibular muda, que vem aí o novo ENEM, você vai ter alguma coisa do currículo escolar mas você vai ter muita atualidade. Muita coisa que o aluno precisa estudar... revista, comprando a revista semanal, estando atento a alguns programas de TV e muitos não tem essa possibilidade, não têm dinheiro pra fazer isso. Comprar uma Folha de São Paulo todo dia, por exemplo. É isso que a gente está fazendo entendeu. No espírito no vestibular que vem aí e também atendendo a demanda de um um outro público pós-vestibulando que tem um programa mais aberto, mas experimentando esses conteúdos.
EV - Quanto tempo é usado pra um programa ficar pronto? A parte de gravação e edição é mais ou menos uma semana e a parte anterior à gravação?
JP - Pouco tempo. É só definir o temas, contatar pessoas e produzir os participantes... pouco tempo. Isso aqui a gente fazia em uma tarde. Por isso que a gente fazia quatro programas tão fácil... vários programas na frente. Já passo os temas todos, também já digo os artistas convidados e aí é só gravar.
EV - Qual a importância do programa como divulgador da ciência?
JP - Claro. Isso é um dos viézes bem claros que tem no programa. Popularização da ciência. É um dos pontos fortes que que tenho comigo. Por exemplo, nós vamos discutir agora epidemias que assustam o mundo. Nós estamos aí vivenciando uma pânico geral com dengue, com febre amarela, com gripe suína, gripe aviária... você veja: será que a escola que nós temos tem velocidade pra trazer isso para o aluno? Não tem. Nem a escola particular. Porque tem aquele programa a cumprir, não-sei-o-quê. Isso aí quem sabe um professor mais interessado pode colocar numa aula extra no fim de semana. Mas é um professor interessado. Não é a escola como um todo que vai dizer “olha jovem nós vamos agora parar aqui e ver este assunto que está no ar. Vamos discutir, vamos refletir sobre ele, causas isso e aquilo.”
Acho que o programa tem que cumprir isto até por conta da própria velocidade que ele dispõe. Você veja que nós temos ao longo do ano alguma coisa em termos de 10 a 12 temas científicos EV - O que o senhor chama de ciências?
JP - Eu chamo de ciências tudo aquilo que pode ensejar a descoberta de uma nova realidade. A Sociologia, por exemplo, não descobre uma nova realidade. Ela interpreta uma nova realidade mas Física, por exemplo, descobre uma nova realidade. No momento em que ela vai lá e apresenta uma possibilidade de... sei lá... apresentar que o Condensado de Bose-Einstein está certo, ela está apresentando.
EV - O senhor acha que o programa Aprovado é um programa de educação ou de divulgação científica?
JP - Ele é um programa de educação pois pra mim dentro de educação está tudo. É assim: pra mim o universo maior é o universo da cultura. A educação está dentro do universo contido no universo da cultura. A ciência está contida também nesse universo. A cultura é um universo maior. Tudo aquilo que o homem faz além do que a natureza criou. A partir daí vem a educação, vem a ciência, vem a arte, vem as muitas formas de interpretação do mundo... de entendimento do mundo.
EV - Quais as dificuldades que o jovem tem pra entender a natureza e a sua aplicabilidade?
JP - Primeiro, saber que a ciência não é algo distante da realidade dele, do dia-a-dia dele. Se é ensinado dessa maneira,está errado. O professor tem que trazer a ciência para os olhos imediatos do aluno. Mostrar o quanto aquilo está conectado à sua vida, ao seu real. No momento em que ele entender isso ele vai amar a ciência como ele ama a namorada, como ele ama ir ao Shopping Center, como ele ama tomar um chocolate ou tomar um sorvete na Ribeira. É preciso trazer o conhecimento, seja ele científico, artístico, cultural, pra este patamar. E muitas vezes o afastamento do jovem da ciência, do conhecimento científico é porque isso não está sendo transmitido de uma forma adequada. Por exemplo existe algo mais presente na nossa vida que os fenômenos físicos? Não há. Do que a Biologia? Não há. E no entanto parece que essas realidades são realidades marcianas, realidades que estão em Marte e que nós estamos aqui em um mundo completamente diferente.
O programa, eu acho que cumpre um pouco esta tarefa. Você pegar os melhores cientistas, os melhores comunicadores também. Não basta ser apenas um cientista renomado pois se ele não
sabe dizer com clareza para que as pessoas entendam aquele conhecimento fica apenas com ele. Ele vai criar maravilhas mas jamais saberá transmitir essas maravilhas.
EV - Como são escolhidas as profissões do quadro Ralando na área?
JP -Olhe bem. Até quando o programa tinha uma certa independência... independência de mercado, vamos chamar assim, as profissões eram escolhidas de acordo com o pedido das pessoas. As pessoas pediam: “olha eu não entendo nada sobre determinada profissão, estou pensando em fazer isso”. Outra pessoas pediam “dá pra o senhor fazer no Ralando?” Aí a gente ia lá fazer. Depois a própria TV começou a vender o espaço do Ralando na área pra merchanding e as universidade de Salvador, as particulares, passaram a comprar aquele espaço. Então, hoje, é elas que indicam a profissão que interessa anunciar naquele espaço pra fazer no vestibular. Quer dizer, quem dita é o mercado. Antes não. Antes a gente fazia o Ralando na área baseado principalmente nos cursos da UFBA e da UNEB Ou algum curso novo que surgia como mecatrônica. Quando surgiu na FTC então...
Ah! Produção Cultural! Que era um curso novo, ainda novidade. A gente fez logo. Claro. Ali ainda era integrado.
EV - Qual a visão de ciência e tecnologia que o programa pretende veicular?
JP -Não é uma visão. Não pode ser uma visão particular do programa. A visão é uma visão desmistificadora, principalmente. Uma visão que vai facilitar o entendimento do estudante para que ele caminhe por aquela área do conhecimento que muitas vezes ele não tem fora de aula. Este é o principal compromisso. É o pouco que gente pode fazer com um programa de 50 minutos semanais... se liberasse o programa meia hora todo dia, seria diferente.
ANEXO G – ENTREVISTA COM RITA VIEIRA