GATEKEEPER OR ALLY?
4.3 IS THE JSC PROCESS TRANSPARENT?
4.3.2 How transparent is the appointment system in Zambia?
Qualquer tipo de interacção verbal decorre num determinado contexto, onde participam indivíduos, com papéis sociais e discursivos específicos, havendo entre elas certo tipo de relação de interdependência. Segundo Kerbrat-Orecchioni (1992), numa determinada troca, a relação de lugares estabelecida entre os interactantes reflecte-se, simultaneamente, ao nível de factores internos (manifestações linguísticas) e de factores externos (contextuais). Deste modo, esta autora (1992) qualifica como desiguais determinados tipos de interacções, como por exemplo, trocas entre adulto e criança ou entre professor e aluno. Esta desigualdade dos participantes depende de factores como o sexo, o estatuto (atribuído ou adquirido), o papel interaccional, ou ainda qualidades mais pessoais como o controlo da língua e o talento oratório, a competência profissional, o prestígio e o carisma. No entanto, em locais de convívio social, o estatuto dos parceiros de interacção “...ne dépend pas tant
de catégories professionnelles hiérarchisées...” (Charaudeau, 1984: 43 in Kerbrat-
Orecchioni, 1992: 72), mas de um estatuto atribuído no momento pela competência a propósito dos temas da conversação, como por exemplo, sobre determinados acontecimentos desportivos ou políticos. Ainda de acordo com estes autores, entre os diferentes dados que são susceptíveis de fundar uma relação de poder, existem os que
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retornam às propriedades intrínsecas dos interactantes (ex.: estado civil), outros são função da relação específica que se estabelece entre eles e outros, ainda, estão directamente ligados ao espaço onde decorre a interacção.
Embora o sistema de lugares esteja, em parte, dependente destes factores contextuais, como tivemos a oportunidade de observar no ponto anterior, no decorrer de uma interacção, os lugares são objecto de constantes negociações entre os interactantes. Deste modo, Kerbrat-Orecchioni (1992) afirma que o sistema dos lugares não se reduz aos dados contextuais, mas que ele também depende do que se passa ao longo de toda a interacção, o que significa que os comportamentos linguísticos podem reflectir certas relações de poder que existem a priori entre os interactantes, que as podem confirmar, contestar ou rejeitar. Assim, e de acordo com Kerbrat-Orecchioni (1992), pensamos que, independentemente do que se passa efectivamente, nem tudo se joga no discurso nem fora dele.
De seguida, passamos a definir o conceito de placemas ou taxemas. Tal como já havíamos referido, os marcadores linguísticos que manifestam, ao nível da relação vertical (ou de relação taxémica), as relações entre interlocutores, Kerbrat-Orecchioni nomeia taxemas. Os taxemas, que incluem vários factos heterogéneos, além de se poderem classificar em termos da natureza do seu significado - taxemas de posição alta e de posição baixa - podem também ser classificados em termos da natureza de significante - taxemas de natureza verbal, não-verbal e paraverbal, manifestações apelidadas numa só palavra por Bento (2000: 93) “multimodais”30. A posição é, então, determinada por diversos factos semióticos - taxemas verticais - que são, simultaneamente, “...des indicateurs de places (...) et des
donneurs de places...” (Kerbrat-Orecchioni, 1992: 75), atribuídos no decorrer da troca.
Kerbrat-Orecchioni afirma que grande parte dos estudos relativos à dimensão do poder se reportam a contextos institucionais “...où l’inégalité des places se trouve inscrite déjà...” (1992: 112-113). Em contexto de sala de aula, o professor é identificado por Cicurel (1992: 11), como aquele que ocupa uma posição alta “...car c’est lui qui possède le savoir à
transmettre et il en dispose à son gré” e os alunos uma posição baixa “...car ils sont des
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As manifestações multimodais que serviram de base aos contributos fornecidos aos professores na 2ª entrevista, para que eles reflectissem sobre a sua relação com os alunos, em contexto de sala de aula, decorreram das manifestações encontradas no corpus transcrito.
exécutants des actes de l’enseignant”. Deste modo, as interacções professor-alunos, atrás
definidas como assimétricas, consagram-se, por isso, a serem lugares de observação destes factos discursivos. Concordamos, então, com Bento (2000), que justifica o carácter complexo e delicado do funcionamento dos taxemas, mencionando, por exemplo, o estilo interaccional do professor que poderá mitigar ou não a expressão da relação de lugares.
Passemos, então, a apresentar de seguida uma síntese da variedade de manifestações de poder nas interacções verbais, tendo por base a classificação proposta por Kerbrat- Orecchioni (1992: 75-101; 1996: 46-48), através de uma abordagem taxémica, considerando, para tal, taxemas verbais, não-verbais e paraverbais.
Em relação aos taxemas não-verbais, apresentamos o seguinte inventário:
- A aparência física dos participantes pode desempenhar um papel que não se deve negligenciar na relação de domínio ou autoridade. Por exemplo, a estatura ou o vestuário dos indivíduos podem ser reveladores de taxemas de posição alta como é o caso da bata do médico, a toga do juiz ou a farda do polícia que marcam uma desigualdade interaccional.
- Os dados proxémicos, que são referidos directamente pela problemática dos lugares, remetem-nos para as noções de posição de domínio e de posição de dominado, que não são mais do que “...métaphores d’origine proxémique...” (Kerbrat-Orecchioni, 1992: 76). A organização do espaço comunicacional (ex.: natureza e disposição das cadeiras) tem incidências na relação hierárquica entre os interactantes. Os tronos, estrados ou tribunas constituem, também, marcadores proxémicos de interacções assimétricas, podendo favorecer uma posição alta.
- As posturas e os gestos, alguns dos quais com um valor taxémico relativamente claro. Uma riqueza gestual pode ser uma manifestação de uma atitude assimétrica. Por exemplo, a orientação do corpo ou das suas partes em relação a outro, que permitem movimentos como baixar a cabeça, curvar-se ou ajoelhar-se podem corresponder a uma reacção aos acontecimentos e ao ambiente circundante, ou então, em certos casos, podem indicar submissão em relação a quem detém uma posição alta.
- Os olhares, que em situação de interacção verbal constituem um importante apoio não- verbal à mensagem transmitida. O olhar desempenha, também, um papel essencial na diferenciação dos estatutos dominante-dominado, sendo que “...le fait de porter des
regards prolongés est jugé plus dominant que des regards rares ou furtifs” (Cosnier in
Cabin, 1998: 148). É a assimetria da utilização dos olhares, da frequência e duração, que é significativa. Assim, numa relação de domínio, um olhar fixo pode significar uma tentativa de intimidação em relação ao(s) parceiro(s) de interacção. Corraze (1980), apoiado em trabalhos de Exline et al. (1971), afirma que os sujeitos dominantes olham para o seu parceiro enquanto falam, fazendo-o com menor frequência enquanto ouvem e que, por sua vez, os sujeitos dominados olham-nos, sobretudo, quando os estão a ouvir.
Por sua vez, os principais taxemas paraverbais são os seguintes:
- Intensidade vocal, pois em muitas situações (em especial no caso de conversação com múltiplos parceiros), o que consegue impor a sua palavra e, consequentemente, impor-se na interacção, é o que fala mais alto. Por sua vez, em certos casos, o recurso à intensidade vocal pode ser indício de que de facto não dispõe a priori de autoridade e ao recorrer a esta estratégia estará a manifestar o desejo de a conseguir ou de a impor.
- Débito, que quando produzido de forma rápida conota facilidade, o que pode assegurar uma superioridade interaccional, e que torna mais difícil a recuperação pelo seu parceiro de diálogo. Mas por outro lado, de acordo com Garcia “le débit ralenti suppose un locuteur
sûr de soi, qui joue sur les émotions de son auditoire, (…) ; il confère une impression de maîtrise et assure une image forte auprès des autres membres du groupe” (1982: 110
citada em Kerbrat-Orecchioni: 1992: 81). Contudo, um débito lento poderá também significar hesitação.
Dada a complexidade do funcionamento deste tipo de taxemas, Kerbrat-Orecchioni (1992) salienta o valor ambivalente de alguns dados paraverbais, uma vez que o seu valor taxémico está directamente dependente da sua realização específica em discurso e do contexto onde foram produzidos, o que exige uma articulação entre os dados internos e externos à interacção.
Os principais taxemas verbais classificam-se em quatro tipos: os que se localizam ao nível da forma da interacção; os que se localizam ao nível da estruturação da interacção, os que se localizam ao nível do conteúdo da interacção; e as formas de tratamento como marcas de relação vertical.
Comecemos, então, pelos taxemas mais evidentes, que se localizam ao nível da forma da interacção:
- Situações de contacto - Em situação de plurilinguismo, a escolha da língua, na qual um locutor não nativo vai efectuar a troca com os locutores nativos, tem implicações na relação de relatório de lugares. Assim, em situação de contacto, o locutor nativo é favorecido em relação ao locutor não nativo, que tenderá a colocar-se em posição baixa.
Em comunidades bilingues ou plurilingues, as diferentes línguas em presença geralmente não têm um estatuto de igualdade, pelo que uma delas que pode ser considerada alta (geralmente a oficial), e a(s) outra(s) pode(m) ser baixa(s), sendo que a primeira é associada a valores como o prestígio e a autoridade, enquanto que as outras falas são mais ou menos desvalorizadas ou mesmo estigmatizadas, indicando uma interacção desigual.
- Variedades da língua - No interior de uma mesma língua, também se verifica uma hierarquização de diferentes variedades como “dialectes, sociolectes ou ‘technolectes’” (Kerbrat-Orecchioni: 1992: 83). O domínio de um registo de língua, como, por exemplo, o discurso dos juristas pode ser um factor de controlo numa interacção.
- Estilo na troca - Aquele que impõe ao outro um estilo na troca (familiar, íntimo, distante, etc.), coloca-se numa posição alta.
Seguidamente apresentaremos os taxemas que se localizam ao nível da estruturação da interacção, que serão analisados sob o ponto de vista da organização das intervenções e da organização hierárquica das unidades que compõem as conversações.
- Aspectos quantitativos - Adoptar uma perspectiva interaccionista sobre as interacções é considerar que elas são co-produzidas pelos diversos parceiros da troca. É, deste modo, admitir que o receptor não é um elemento passivo, porque ele participa indirectamente e até mesmo directamente através dos reguladores produzidos na construção do discurso do emissor, pelo que “...le «tu» exerce un contrôle permanent sur la parole du «je»” (Kerbrat- Orecchioni: 1992: 83). No entanto, parece difícil negar a existência de uma assimetria flagrante entre os dois papéis de emissor e de receptor. Por conseguinte, quem fala e no momento em que fala, encontra-se em posição alta em relação a quem ouve. Por sua vez, quem fala e durante mais tempo assegura o domínio da conversação sendo um sinal de posição alta. Por exemplo, em debates políticos ou colóquios científicos mede-se o espaço discursivo, ou seja, o tempo e o volume da palavra de cada participante de modo a que a distribuição do tempo seja igualitário e, assim, não haver domínio.
- Aspectos qualitativos - Certos tipos de violação do sistema de tomada de palavra são interpretáveis em termos taxémicos, pelo que fenómenos como a interrupção ou a intrusão são entendidos como taxemas de posição alta.
Na nossa sociedade, em certas situações institucionais específicas, os participantes de posição alta têm o monopólio da abertura da conversação. Noutras situações, como em conferências ou em debates, as tomadas de palavra são atribuídas por um regulador, cuja função é distribuir a palavra e assegurar a sua gestão ocupando, assim, uma posição alta. Nos outros casos, a alternância de tomada da palavra é negociada pelos próprios parceiros da interacção.
Gardès-Madray (1984) considera as interrupções uma violação territorial, afirmando que, “intercepter le discours de l’autre (...) est un acte illocutionnaire de mise en cause des
rapports de place précédemment acceptés par les protagonistes de la communication”
(citado em Kerbrat-Orecchioni, 1992: 87). Esta autora, apoiada em vários estudos, afirma a hipótese de existência de uma correlação entre interrupção e dominância, sobretudo, quando as interrupções são acompanhadas de sobreposição, evidenciando uma posição alta ou tentativa de monopolização. Além das interrupções agressivas (ex.: mudança de tópico, tomada de palavra ou desacordo) existem, também, as cooperativas cuja função é encorajar
o locutor para que este prossiga o seu discurso (ex.: fornecer uma palavra ou expressão procurada pelo locutor) e, por isso,“...expriment non le conflit, mais la coopération...” (Kerbrat-Orecchioni, 1992: 88). Conclui-se, deste modo, que as interrupções têm um carácter multifuncional.
Quanto à intrusão, esta ocorre quando um locutor toma a palavra sem estar autorizado a fazê-lo, quer porque não seleccionado para interferir, quer pelo seu estatuto de testemunha da troca. Deste modo, no primeiro caso, a intrusão é um indicador de dominância; no segundo caso a intrusão é uma manifestação de insolência.
Tal como havíamos referido anteriormente (ver ponto 1.1.1.1. no capítulo I), uma conversação não é apenas uma sucessão de intervenções de palavra, é também uma organização hierárquica de unidades, cuja interacção é a unidade de nível superior e os actos de fala a acção mínima produzida por um locutor. Segundo Kerbrat-Orecchioni (1992: 89), a forma como se constroem as conversações releva de factos com valor taxémico, uma vez que o responsável pela abertura e pelo encerramento das diferentes unidades conversacionais é o participante “…qui tient les rênes de la conversation…”, ou seja, é o que tem mais poder. Neste quadro, é frequentemente reservada aos sujeitos que ocupam na interacção uma posição dominante a abertura e o encerramento do diálogo, como é o caso da comunicação didáctica ou as consultas médicas (Lacost, 1980 in Kerbrat- Orecchioni, 1992).
De acordo com Kerbrat-Orecchioni (1992), consideramos importante salientar o facto de que em determinados tipos de interacção, a iniciativa de um locutor pode ser mal sucedida perante a inércia e má vontade do parceiro de interacção, podendo-se, neste caso, falar de ineficácia em gerir a troca comunicativa e em inversão de posições interaccionais, casos que Bouchard designa de conflitos de estruturação (1987 in Kerbrat-Orecchioni, 1992: 91). Deste modo, a iniciativa de abertura e encerramento para ter êxito deve ser relacionada com as negociações efectuadas entre os parceiros no decurso de uma interacção.
Os taxemas que se seguem localizam-se a nível do conteúdo da interacção sob o ponto de vista dos temas e subtemas; signos e opiniões e actos de fala.
- Temas e subtemas - Os diferentes temas abordados durante uma conversação são duplamente candidatos a um valor taxémico. Primeiro, porque têm uma função estruturante (ao nível da sequência) e podem ser introduzidos ou fechados por qualquer um dos participantes, reencontrando-se aqui a questão da iniciativa que, como pudemos observar, conferem ao seu responsável certa superioridade interaccional. Segundo, porque a natureza do próprio tema desempenha certo papel taxémico. Se um dos locutores evidenciar uma superioridade de conhecimentos acerca de um tema estará garantido, em princípio, o seu domínio na interacção. No entanto, Kerbrat-Orecchioni (1992) faz notar que um falante, ao introduzir um tema favorável ao ouvinte, este passa da posição baixa para a posição alta.
- Signos e opiniões - Os signos que são manipulados durante a interacção prestam-se, frequentemente, à negociação, entre os interactantes. A complexidade dos mecanismos designativos verifica-se constantemente mesmo nas conversações mais comuns, uma vez que “...parler, c'est décrire une réalité complexe et fluctuante, à l’aide d'un code lexical
flou et de notions «plastiques»” (Kerbrat-Orecchioni, 1992: 92) e, assim, falar de um genocídio ou holocausto não é exactamente o mesmo. Refira-se, ainda, que, segundo
Finkielkraut “...dicter sa loi, c'est imposer son vocabulaire, et, à l’inverse, imposer son
vocabulaire à l’opinion, c'est prendre une option sur la victoire»” (1982 in Kerbrat-
Orecchioni, 1992: 92). Neste quadro, colocar-se-á em posição alta aquele que consegue impor ao outro o seu vocabulário, a sua interpretação das palavras e os enunciados. Por último, nas negociações de opiniões, coloca-se em posição alta aquele que consegue impor a sua opinião.
- Actos de fala - Em conformidade com Kerbrat-Orecchioni (1992; 1996), o valor taxémico dos actos de fala, que constitui a categoria mais rica, mais complexa e mais importante no conjunto dos indicadores verbais da relação de lugares, pode ser relacionado com o seu funcionamento enquanto Face Threatening Acts, FTA, ou Actos Ameaçadores da Face, noção que antecipamos em relação ao ponto imediatamente a seguir. Em relação ao valor taxémico dos actos de fala e de acordo, ainda, com a mesma autora, aqueles funcionam como taxema de posição alta ou baixa.
De acordo com o princípio geral do funcionamento taxémico dos actos de fala, um locutor coloca-se em posição alta em relação ao seu interlocutor quando realiza um acto potencialmente ameaçador para a face positiva ou face negativa do interlocutor. Actos directivos como ordem, pedido, proibição, sugestão ou conselho, constituem, de acordo com Kerbrat-Orecchioni (1992), uma espécie de incursão territorial e, assim, uma ameaça para a sua face negativa. Segundo a mesma autora, actos como crítica, censura, insulto, injúria, desacordo, ofensa, provocação, ou seja, todo o conjunto dos comportamentos vexatórios, são susceptíveis de ameaçar a face positiva do interlocutor.
Em consonância com o mesmo princípio, um locutor coloca-se em posição baixa sempre que se submete a um FTA ou quando aplica a si próprio um acto ameaçador para uma ou outra das suas faces. Assim, actos como a promessa, e uma vez que comprometem o locutor, ameaçam o seu próprio território, isto é, a sua face negativa. Por sua vez, actos como agradecimento, desculpa, confissão ou humilhação podem constituir ameaças para a face positiva do locutor.
A estes valores taxémicos, Bento acrescenta o humor (não considerado por Kerbrat- Orecchioni, 1992; 1996), que pode ser introduzido por um dos interactantes sobre si próprio ou sobre o seu parceiro de interacção, justificando esta opção, afirmando “...que
haverá um desvio do tópico ou uma mudança de plano relativamente ao curso que a interacção estava a tomar e nesse sentido poderá constituir uma ameaça potencial para a face positiva do interlocutor” (2000: 105). Por outro lado, as expressões de humor são
consideradas por Alves (2000), como manifestações de cortesia positiva que demonstram aprovação e estima para com o alocutário.
Mesmo após termos apresentado o funcionamento taxémico dos actos de fala proposto por Kerbrat-Orecchioni (1992), esta autora faz notar que esta tarefa nem sempre é fácil por várias razões e que passamos a enunciar:
- A existência de actos de fala indirectos, ou seja, um mesmo enunciado pode ter vários valores ilocutórios, por exemplo, pergunta que tem o valor de um pedido ou censura;
afirmação que tem valor de uma pergunta; sugestão que tem valor de ordem, confissão de ignorância (não sei); e confissão de incompreensão (não compreendi);
- A alguns actos de fala, mesmo quando são simples do ponto de vista ilocutório, serem híbridos do ponto de vista taxémico (ex.: um pedido é, simultaneamente, ameaçador para a face negativa do interlocutor e uma ameaça para a face positiva do locutor);
- A significação taxémica de um acto de fala variar em função do contexto comunicativo;
- O valor taxémico de um acto de fala variar de acordo com a sua formulação, uma vez que se pode ser suavizado através de elementos prosódicos e mimo-gestuais;
- A força taxémica de um acto de fala depender, simultaneamente, da sua formulação específica e da sua natureza intrínseca. Os actos de fala distribuem-se ao longo do que Kerbrat-Orecchioni (1992: 98) designa “échelle taxémique”, escala essa, que permite ordenar, por exemplo, ordem/censura/contestação/conselho/aprovação;
- O critério da natureza ameaçadora de tal ou tal acto de linguagem se cruzar com outros critérios, por exemplo, um acto é mais ameaçador quando inicia uma intervenção.
Kerbrat-Orecchioni deduz, em jeito de conclusão, que a observação sistemática da forma como se distribuem os actos de linguagem no desenrolar de uma interacção fornece informações preciosas sobre a relação de lugares entre os interactantes, dados esses delicados e subtis e, por isso, apenas podem ser interpretadas tendo em atenção “...qui
accomplit quel acte, à l’intention de qui, dans quel cadre institutionnel, en quels termes, et sur quel ton...” (1992: 100).
Para finalizar, apresentaremos o último tipo de taxemas, que se referem às formas de tratamento como marcas de relação vertical.
Os taxemas que se seguem dizem respeito a alguns relacionemas que, embora possam ser analisados numa relação horizontal, podem marcar também a relação vertical, como por
exemplo, as formas de tratamento. Assim, se o seu uso recíproco reflecte uma relativa igualdade de estatuto entre os participantes (ex.: tu/tu para a familiaridade e vós/vós para a